domingo, 30 de abril de 2017

Ramos, o matador do Arroio São Tomé

José Ramos, vulgo Bandoleiro Ramos ou simplesmente Ramos, apareceu na Vila do Capão do Leão por volta de 1923 em razão dos acontecimentos da revolução política que assolou o estado naquele ano. Identificado com o Partido Libertador de Assis Brasil, Ramos teria sido um dedicado militante dos maragatos em terras leonenses, não necessariamente um ladrão, mas um homem violento que resolvia suas rivalidades pessoais e políticas na adaga e na bala.
                Procedente do município de Piratini era concubinado com uma mulher de nome Auta que vivia no pé do cerro e que prestava serviços em casas de família. Tinha como ofício declarado o de segeiro. Trazia uma amizade muito próxima com um sujeito de apelido Lacaio (Arcângelo Lopes Penedo), que agia como seu cúmplice direto. Ambos eram considerados pelos moradores da vila pouco dignos de confiança. Em 1926, Ramos e Lacaio foram acusados da morte de Calvino da Rocha, trabalhador da Pedreira. Entretanto, o inquérito foi prejudicado por intervenções superiores, pois Ramos seria apadrinhado de importantes figuras políticas da região.
                O fato de se envolverem em balbúrdias era algo conhecido da polícia local. Só que na noite de 06 de Agosto de 1927, aconteceu o mais sórdido dos crimes atribuído a Ramos e seu cúmplice Lacaio. Três homens, José Inácio da Silva, Laureano Garcez e Francisco Pio Regueira, que tinham como profissão compra e venda de gado vacum, desapareceram misteriosamente naquela noite do galpão que pernoitavam na chácara do senhor João Trindade.  Na mesma data, durante a tarde, os três negociantes tiveram um quiproquó com Ramos e Lacaio defronte ao armazém do senhor Moreira. O assunto da desavença seria o ex-presidente (governador) do estado, Borges de Medeiros.
                Inicialmente, o desaparecimento foi encarado pelo chefe da polícia local como uma possível fuga dos três homens em razão de um calote que teriam dado a terceiros. Contudo, os dias se sucederam sem saber-se do paradeiro dos mesmos. Entretanto, um forte temporal aconteceu entre os dias 12 e 13 de Agosto em Capão do Leão. Com o forte volume d’água ocasionado pelas chuvas, o arroio São Tomé transbordou em alguns trechos e a enxurrada transportou matéria orgânica que tende a se depositar às margens e nas partes mais rasas. O que era para ficar escondido e sepultado nas profundezas do arroio veio à tona, literalmente.
                Na manhã do dia 15 de Agosto, crianças que brincavam às margens do arroio na propriedade do senhor Cristóvão Peres retornaram para casa principal assustadas avisando os adultos que havia um homem boiando no córrego. Intrigado, o senhor Cristóvão foi verificar e constatou que um corpo estava preso aos galhos de uma árvore ribeirinha. A polícia foi acionada e a notícia se espalhou na vila. O cadáver encontrado era o de Francisco Pio Regueira e este apresentava um profundo corte no pescoço, indicando assim que foi degolado. Além disso, havia amarras em seu corpo, o que evidenciava a intenção de fazer o cadáver submergir. A ação da chuva fez com que o defunto fosse transportado a uma parte menos profunda.
                Antes mesmo que a polícia se pronunciasse sobre o fato do assassinato de Regueira, a comoção gerada pela descoberta do cadáver fez com que se organizassem patrulhas improvisadas e desautorizadas em busca dos dois outros corpos ao longo do curso d’água. Porém, não se sabia quem tinha degolado Regueira e se os outros dois homens também tinham sido assassinados ou mesmo poderiam ter sido os assassinos. A população de alguma forma interpretou que o desaparecimento dos homens e a descoberta do primeiro cadáver vinculavam-se ao mesmo evento. Talvez pela fama que acompanhava José Ramos e seu companheiro Lacaio.
                A desconfiança dos populares se mostrou correta num primeiro momento, não no sentido de atribuir a morte a um mesmo autor, mas na ideia de que os outros dois homens tiveram o mesmo fim e o mesmo “local de desova”. No dia 17 de Agosto, foi encontrado no local conhecido como Cotovelo o corpo de José Inácio da Silva parcialmente imerso no arroio. No dia seguinte, não muito distante dali foi achado o cadáver de Laureano Garcez. Ambos os corpos apresentavam características idênticas às encontradas em Regueira: degolamento e amarras com pesos.
                O caso ganhou espaço nos jornais da época e houve certa crítica à polícia pelotense pela lentidão em que procedeu a investigação sobre as mortes. Somente no dia 29 daquele mês, dois policiais foram intimar o primeiro dos suspeitos para prestar informações, o cúmplice Lacaio. No entanto, a reação do sujeito foi praticamente uma confissão de culpa. No casebre em que morava, nas proximidades da estação ferroviária de Capão do Leão, Lacaio ao avistar os dois homens da lei saiu correndo em direção aos fundos do terreno. Acabou sendo rendido e conduzido à subintendência para esclarecimentos. Lá confessou tudo o que aconteceu e incriminou o comparsa Ramos.
                Segundo Lacaio, Ramos tinha uma zanga antiga com Francisco Pio Regueira que, aliás, tinha o revelador apelido de Chico Ximango (recorde-se que José Ramos era do Partido Libertador, por isso maragato). A discussão que Ramos e Regueira tiveram na tarde do dia 06 de Agosto foi eivada de juras de vingança e morte. Ramos planejara resolver a pendenga entre os dois naquela noite, mas a princípio não queria intentar nada contra os outros dois homens. Por isso, combinara com Lacaio agir na madrugada e de surpresa. Porém, a ação de Ramos e Lacaio no galpão em que pernoitava Regueira despertou os outros dois companheiros. Houve luta corporal e os três foram mortos por Ramos e Lacaio, salientando que Regueira já se encontrava degolado quando os outros dois reagiram. Lacaio acrescentou ainda que Garcez foi morto com uma facada no bucho, mas após, já com o corpo inerte, Ramos fez questão de passar-lhe a faca no pescoço, como uma espécie de assinatura daquilo que havia cometido. Os três mortos foram amarrados em cordames com pesos distribuídos e levados à beira do arroio São Tomé, onde foram jogados em distâncias diferentes. Lacaio ainda afirmou que houve tempo para que fizessem tudo aquilo de forma muito calma, pois a região todo dormia num breu pavoroso.
                Com a confissão de Lacaio, Ramos foi imediatamente procurado pela polícia, mas a imprensa da época admitiu que a demora em resolver os assassinatos talvez tenha permitido ao bandoleiro tempo mais do que suficiente para se escafeder. O cúmplice Lacaio é que não foi tão inteligente, mesmo com a notícia da descoberta dos três corpos no arroio.
                No fim de Setembro, apareceu a notícia que José Ramos estaria escondido numa casa no Passo das Pedras. Uma patrulha local foi em seu encalço e após um violento tiroteio em que foi alvejado o soldado Amadeu Porciúncula, Ramos conseguira fugir para um local desconhecido. Assim passou durante vários meses, permanecendo incógnito das autoridades, mas segundo cronistas da época apadrinhado e ajudado por causa de seu vínculo com os assissistas.

                Segundo dizem, morreu muito velho na localidade do Basílio, em Herval.

Instituto Histórico e Geográfico presta homenagem a Gilmar Maciel

Divulgação.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

Histórias Curiosas LIII

Rapazinho é mandado pelo pai ao posto de gasolina da avenida central de Capão do Leão, afim de comprar cigarros. O pai ainda recomenda: traz duas carteiras de Marlboro!
O menino pega a bicicletinha e se vai a todo fôlego. Vinte minutos mais tarde, o rapazote retorna sem o vício do pai.
O pai irritado pergunta ao filho:
- Ô guri, eu não te pedia que me trouxesse cigarros? Vai me dizer que não tinha cigarros lá? Eu não te pedi que se não tivesse filtro amarelo, que me trouxesse então filtro branco?
- Ah, pai. Não tinha nenhum desses. A moça me perguntou se não tinha problema se fosse botox. Como o senhor não falou nada de cigarro botox, eu fiquei com medo de trazer e o senhor não gostar.
- Que cigarro botox, guri?! Tá louco?!
- Sim, pai. Aquele de caixinha.
Em resumo, o menino confundiu carteira de cigarro box com botox. Na dúvida e para não receber uma tremenda reprimenda, resolveu não trazer o tal vício do pai.

domingo, 2 de abril de 2017

Histórias Curiosas LII

Sujeito ladino, contumaz ladrão de gado e de propriedades rurais na região, passou a assolar vários sítios e chácaras na zona da Avenida Eliseu Maciel, no rumo de quem se dirige ao campus Capão do Leão da Universidade Federal de Pelotas. Isso aconteceu por volta da virada do milênio.

Foi então que o sujeito resolveu roubar os fios elétricos de uma chácara à beira da avenida. O vigia da chácara ouviu o barulho à noite, foi ver o que se tratava, mas o ladrão fugiu. Na manhã do outro dia, o vigia percebeu que os fios estavam escondidos numa espécie de cova rasa a poucos metros da entrada principal da chácara. Além disso, um bonezinho vermelho demarcava o local de esconderijo do roubo. Provavelmente, a intenção do ladrão era retornar na outra noite para reaver o butim do crime.

O vigia da chácara, sabendo que nada adiantaria recolher os fios, pois o ladrão daria um jeito de causar algum outro prejuízo à propriedade, bolou uma armadilha para assustar o malandro. Como a fama do ladrãozinho já era conhecida na região, o vigia não se fez de rogado. Conversou com o vizinho da esquerda (a quem o ladrão já havia roubado umas reses), conversou com o vizinho da direita (também penalizado pelas artimanhas do criminoso), conversou com o vigia da propriedade da frente e assim foi, conversando com um e com outro. O plano era toda a vizinhança permanecer em vigília para esperar o ladrão à noite. Evidentemente, todos armados (não havia ainda sido decretada a malfadada Lei do Desarmamento).

Por volta de 0h15min, não deu outra: o ladrãozinho reapareceu no local para pegar o que havia deixado escondido. O vigia da chácara percebeu e imediatamente avisou os outros. A tocaia estava portanto armada! 

O vigia se dirigiu em meio à penumbra, entre algumas folhagens e gritou alto: "Quem está aí?" O ladrãozinho assustado não quis nem saber e disparou ao léu com um tiro que aparentemente parecia ser de um revólver 22. Erro crasso do meliante! O vigia reagiu com outro tiro e se seguiu uma saraivada de balas de todos os lados, com os vizinhos descarregando fogo em cima do infeliz com armas dos mais diferentes calibres e tipos. Parecia uma guerra na madrugada fria da Avenida Eliseu Maciel. Até a cachorrada que latia ao longe cessou diante do tiroteio. Após um quinze minutos de bala zunindo por tudo quanto era canto, não se viu mais rastro do ladrãozinho. Aliás, pelo menos em anos posteriores, o sujeito jamais foi visto novamente pela região.

O susto foi tão grande que o malandro deixou a bicicleta e uma mochila - acessórios que ele planejou usar para poder carregar o fruto do roubo, que no fim não deu certo.
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