Antônio Guimarães não esperava que tivesse de dar explicações por ter ordenado a invasão de um candomblé em sua freguesia. Mas, no dia 28 de agosto de 1829, ele precisou gastar algumas horas respondendo por escrito a uma interpelação feita sobre o incidente pelo presidente da província da Bahia, José Gordilho de Barbuda, o visconde de Camamú. Este recebera queixa de um liberto africano, Joaquim Baptista, de que uma patrulha, sob as ordens do juiz, invadira o candomblé e se apropriara de 20 mil réis, panos da Costa e um chapéu de sol. Infelizmente não conseguimos encontrar o registro da história na versão do africano.
O relato de Antônio
Guimarães informa que num local chamado Accú (decerto o atual bairro do Acupe
de Brotas) havia e 1829 um candomblé. Joaquim fazia parte dele, parte
importante, uma vez que o documento se refere ao “sítio indicado do Accú, e
morada do Suplicante”. Era certamente um morador de prestígio na comunidade do
terreiro, um liberto que talvez por ter algum acesso aos poderosos – aspecto a
ser discutido adiante – agia como protetor da mesma.
Uma referência ao
culto do “Deus Vodum” indica a origem jeje do grupo religioso. Os vodus são as
divindades dos jejes do Daomé, muito numerosos na Bahia da época. Já em 1785
encontramos notícia de uma casa jeje, também vítima de invasão policial, em
Cachoeira, no Recôncavo baiano.
A casa de 1829 não
era pequena, considerando a animação da festa, a variedade e quantidade dos
elementos e objetos rituais descritos e, sobretudo, o número de pessoas ali
encontradas. “Este festejo, havia já três dias que se fazia com estrondo”,
escreveu Guimarães. Os homens da lei depararam com um mundo de movimentos,
sons, cores e objetos de significado estranho para eles, assim descrito pelo
juiz: “Em cima de uma mesa toda preparada, um Boneco todo guarnecido de fitas,
e búzios, e uma cuia grande da Costa cheia de búzios, e algum dinheiro de cobre
misturado de esmolas, tocando tambaque e cuias guarnecidas de búzios, dançando
umas [mulheres], e outras em um quarto dormindo, ou fazendo que dormiam”. Os
policiais ocuparam o terreiro, destruíram ou apreenderam os objetos rituais,
dispersaram e prenderam frequentadores. Cerca de 36 pessoas foram presas.
Destas, onze lavadeiras foram logo liberadas para guardar as roupas de seus
fregueses ou senhores. Foram levados à casa do juiz três homens apenas e 22
mulheres que, somadas às onze lavadeiras deixadas para trás, perfazem 33
mulheres detidas. Isso pode indicar que estas eram maioria no terreiro e não
que os homens tiveram pernas mais ligeiras para fugir dos assaltantes.
Diante do juiz Antônio
Guimarães, um ritual de arrogância e poder teve lugar: “(...) e fiz tirar e
quebrar em presença de todos, o tambaque, e os mais vis instrumentos de seus
diabólicos brinquedos”. Anteriormente, por ocasião da invasão, os homens do
juiz já haviam destruído “o chamado Deus Vodum, cuias, e tudo lançando por
terra”.
O assalto ao
terreiro, a destruição dos objetos de culto, a prisão dos participantes são
atos que ressaltam a intolerância da dominação escravista. A repressão à
cultura negra, à religião em particular, foi um fato comum na vida dos escravos.
O documento é uma evidência eloquente disso. Mas no esforço de Guimarães fez
para se explicar, ele terminaria por revelar que esse método de dominação dos
escravos, que era o seu, convivia e por vezes se chocava com outros mais
refinados.
Fonte:
REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação
e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia
das Letras, 1989, pág. 35-37.
