sexta-feira, 26 de maio de 2017

Homenagem à memória de Enedino Silva


Amanhã, às 11 horas, na Praça João Gomes, a Família Silva estará homenageando a memória do ex-emancipacionista e vereador leonense Enedino Silva (1916-1983). Na ocasião, será inaugurada uma placa em sua memória. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O Pistoleiro de Serra Talhada


Primeira parte do vídeo da reportagem do Globo Repórter em 1977




Segunda parte do vídeo da reportagem do Globo Repórter em 1977

Encontrei por acaso estes dois vídeos no YouTube e fiquei muito admirado pela trama que se desenvolve na história. Posso afirmar que assisti com muito interesse a reportagem sobre Vilmar Gaia - o pistoleiro de Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Compartilho aqui aos leitores do blog pelo interesse histórico que a reportagem traz e por mostrar um sertão do país ainda marcado pelo banditismo e violência. 

Seguem abaixo dois links com mais informações:



sábado, 13 de maio de 2017

Poloneses em Pelotas



Trecho extraído de: Diário de Notícias, 25 de Julho de 1958, pág. 10

"Poloneses em Pelotas

A bela, culta e hospitaleira 'Princesa do Sul', recebeu os imigrantes poloneses embora em menor número, na mesma época que os recebeu a vizinha cidade do Rio Grande. Em 1898 encontramos, ali, perfeitamente radicadas, cêrca de 30 famílias debaixo da tutela espiritual do Revdo. Padre Jan Zblewski. Em 1924 residiam em Pelotas cêrca de 300 poloneses, segundo nos informa o ex-consul, Dr. Kazimierz Gluchowski, o que sem dúvida, constitui um grupo muito menor do que na vizinha cidade portuária. Não obstante tal fato, foi organizada, também, uma sociedade cultural, sob o nome do consagrado escritor de fama universal Henryks Sienkiewicz, que agrupou, inicialmente 14 famílias residentes na cidade. Embora o patrimônio da referida sociedade fosse na época, apenas de Cr$ 2.000,00, eram bastante ativas e originais às suas atividades, segundo veremos pelo relato pessoal feito em junho do corrente ano, pelo ex-presidente Sr. Leonardo Klemowski: 'A Sociedade Henryk Sienkiewicz', teve seu início em 1904. As poucas famílias existentes em Pelotas, compunham-se na sua maior parte de operários, tais como: tecelões, marceneiros, mecânicos, carpinteiros, etc. que prestavam os seus serviços profissionais às diversas indústrias e empresas espalhadas pela cidade.

A idéia de uma sociedade surgiu em face do natural desejo de se reunirem em grupo, afim de evocarem as suas tradições e concorrerem, dentro de suas modestas possibilidades econômicas, para auxiliarem o Governo Polônes no exílio, cuja sede, se encontra na cidade suíça denominada Rapesville. A iniciativa desta campanha fora feita pelos Srs. Antonio Wolski, Jan Dobrzynski, Piotr Olendzki, que costumavam reunir-se na casa do Sr. Teodor Brzeski. Embora em pequeno número, porém movidos por uma causa nobre ou seja pela liberdade de sua pátria, que nesta época era subjugada e tiranizada por cruéis invasores - aquêles bravos pioneiros, nunca esmoreceram ante as dificuldades ou desilusões. Organizaram festas, reuniões e bailes em casas dos amigos e parentes, cada vez em outro local. Dêste modo surgiu definitivamente a 'Sociedade Polonêsa Henrique Sienkiewicz', com estatutos e séde própria. Vivem dias de intensa atividade social e cultural, apresentando festivais, teatros, organizando recepções a visitantes ilustres como o foram Sua Excelência Reverendíssima Dom Dr. Teodor Kubina, famoso e prestigioso prelado polonês, e Dr. Tadeusz Grabowski, que fôra Ministro Plenipotenciário e Enviado Extraordinário da Polônia no Brasil.

Lamentavelmente, durante a campanha de nacionalização, sem motivo algum, passou a vegetar, até o corrente ano. Há poucos meses ressurgiu novamente, com a séde reformada, e com estatutos também modificados de acôrdo com a época e a realidade nacional. Merecem destaque especial as atividades desenvolvidas há meio século, pelos Srs. Stanislaw Szafarski, Josef Lugowski, Roman Murowaniecki, Ludwik Skrzesinski e Wladyslaw Nasilewski, Stefan Lange, bem como do nosso informante, Sr. Kleinowski.

A séde própria, sómente tornou-se realidade em 1920, graças à generosidade e cooperação de tôda a colonia radicada em Pelotas.

No pequeno cenário da etnia polonesa no sul do Rio Grande, projetam-se, ainda, o prof. SILVIN DERENGOWSKI, na qualidade de lente da cadeira de Geometria Descritiva e Desenhos da 'Escola Eliseu Maciel' e o professor CZESLAW MARJAN BIEZANKO, do qual nos ocuparemos em especial, numa reportagem separada. O prof. DERENGOWSKI, falecido em 1937, segundo informações prestadas pelo ilustre Eng. Agrônomo Biezanko: 'deixou uma gratíssima lembrança entre os seus colegas e alunos. Os seus filhos concluíram brilhantemente as escolas militares e pertencem hoje, ao patrimônio ativo do Exército Nacional."



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Juvêncio Pereira - o terror da Serra dos Tapes

Interior do município de Cerrito

Célebre, Celebérrimo, famigerado, facínora, lendário, inditoso, façanhudo, terror, celerado – eis alguns dos adjetivos que pululavam em jornais de Pelotas, Rio Grande, Jaguarão, Bagé, Porto Alegre, e até mesmo na capital do império, o Rio de Janeiro, quando na década de 1880 ia se noticiar as bandidagens de Cândido Juvêncio Pereira, ou simplesmente Juvêncio Pereira, como era mais conhecido.
                Juvêncio Pereira era procedente da freguesia do Cerrito (hoje município), que na época pertencia ao município de Canguçu. Nasceu por volta de 1851 ou 1852 e desde a mais tenra juventude já era conhecido por suas contravenções. Consta que desertou da Guarda Nacional em 1873 e se ocultou durante certo tempo no interior de Canguçu em razão disso. Todavia, voltou a morar na freguesia do Cerrito e não era pessoa muito bem vista na comunidade, pois o alcunhavam bandido de longos tempos na região. Agia no interior, praticando roubos diversos, quase sempre buscando dinheiro ou objetos de valor. Também era de uma família conhecida pela má-fama. Tinha um irmão, João Pereira, que o acompanhava nos crimes, e um primo de apelido Belo Pereira (Belarmino Pereira de Castro), igualmente biltre. Os Pereira do distrito do Cerrito encontraram confrades perfeitos para sua vida de crimes entre os Couto de Canguçu, dentre os quais se destacavam Francisco Luiz Couto, Galiano Couto, Raphael Couto, Marciano e Camillo Couto. Importante destacar que esta aliança criminosa entre as duas famílias vai ser a origem do bando liderado pelo próprio Juvêncio anos depois.


                A entrada de Juvêncio Pereira na notoriedade pública muito além do pequeno mundo da freguesia do Cerrito se deu em 08 de Junho de 1880, quando assassinou Luiz Manoel Guerreiro, de 24 anos, após ter ido a casa deste na localidade do Tatu cobrar uma suposta dívida por causa de uma carreira de cavalos perdida. A partir de então, a clandestinidade passou a ser sua marca e se tornou um típico bandoleiro – acoitado, nômade, ladrão, assassino. Aterrorizou o interior de Canguçu, Piratini e Pelotas, sendo caçado por diversas patrulhas, envolvendo-se em fugas espetaculares, tiroteios e mortes.
                No inverno de 1882, foi preso pela primeira vez pela polícia de Canguçu numa escaramuça com a polícia nas imediações da Coxilha das Três Pedras. Preso, foi julgado logo em seguida e condenado às galés perpétuas (trabalhos forçados) pelo juiz da comarca daquele município. A prisão foi uma mera trivialidade na trajetória de Juvêncio Pereira. Aproveitando-se da precariedade da cadeia, Juvêncio organizou a própria fuga e a dos demais presos na noite do dia 15 de Setembro de 1882. Todos escaparam para pavor dos moradores.
               
O Bando de Juvêncio
                O bando de Juvêncio era composto pelo consórcio entre os Pereira e os Couto, mas atraía para si toda sorte de delinquentes que passaram a enxergar em Juvêncio Pereira uma espécie de personagem lendário. Também faziam parte da quadrilha: João Manoel de Barros (procedente de Camaquã), Vicente José Gonçalves, Manoel de Braga (pardo quilombola), Adriano Soares de Maia (português), Florentino Marques de Bittencourt (alcunhado Florindo Casú), João Nepomuceno, João Pequeno, José Miguel, Timóteo dos Santos, Rivadavia (uruguaio procedente de Durazno), Francisco Ayres Filho, José Gonçalves (procedente do Passo das Pedras, distrito da Buena), Zeferino Ermelino Furtado, José Ventura, Emygdio Borges, Honório “Piaco” Feijó (de Arroio Grande, associado ao bando, porém aparentemente líder de uma quadrilha própria), Serafim Estrella, Petrônio Álvares, Serrão Pacheco, Testa Furada, entre vários outros ignorados. No auge de suas tropelias em Canguçu, os cronistas da época afirmam que Juvêncio chegou a arregimentar mais de 30 homens. Nos momentos em que eram quase desbaratados, o núcleo podia descer a meros três ou quatro meliantes. Também há o registro que várias mulheres acompanhavam o bando na condição de concubinas. Segundo os noticiários, muitas delas teriam sido obrigadas a se amancebar.
                Galiano Couto era o imediato de Juvêncio, uma espécie de homem de confiança do criminoso. Posteriormente, essa função será delegada a Serrão Pacheco, mas este ainda é apenas um dos quadrilheiros de Juvêncio. Ressalve-se que vários membros do bando foram mortos e presos em momentos diferentes e Juvêncio desde a fuga da prisão em 1882 manteve-se sempre a salvo.
                Durante o ano de 1883, Juvêncio Pereira e seus bandoleiros aterrorizam as freguesias do Cerrito e da Buena, e o sul de Canguçu, chegando mesmo perto do núcleo urbano, mas também fazendo incursões além do rio Piratini, aparecendo em Arroio Grande e também na área da antiga capital farroupilha. No ano seguinte, o bando intensifica suas ações e passa a ser nota frequente nos jornais da região.
                Em 04 de fevereiro de 1884, Juvêncio Pereira e Francisco Ayres Filho surpreendem, roubam e matam os mascates italianos Pedro Brancati e Antonio Sanzio nas matas da freguesia do Cerrito.  Logo em seguida, em 02 de março o bando é visto furtando gado na freguesia de Santa Isabel, Arroio Grande. Ainda no fim deste mês, veementes pedidos de socorro provêm da região do Arroio Malo, em Herval. Em suma, o nomadismo dos salteadores é muito evidente, igualmente porque patrulhas policiais das mais diferentes freguesias e cidades se põem ao encalço dos bandidos. No dia 09 de abril, violento tiroteio entre a quadrilha de Juvêncio Pereira e a força policial do subdelegado Bernardino Ferreira Porto ocorre no Passo dos Marmeleiros, Canguçu. Há muitos mortos entre os bandoleiros e se informa falsamente que Juvêncio Pereira também está entre as vítimas fatais. Apesar das baixas entre os criminosos e alguns presos, Juvêncio escapa com vida e parte da quadrilha se mantém em sua trajetória desvairada.
                Logo em seguida, em maio ocorre outro crime de grande repercussão: a morte de uma família de nove pessoas no Passo das Pedras (freguesia da Buena, hoje parte do município de Capão do Leão). Mais gente da quadrilha passa a ser presas em diferentes localidades, mas Juvêncio mantém-se escondido. Em junho, outro tiroteio com a polícia nas imediações do Cerro do Graxaim, em Canguçu. Em julho, roubo a uma casa comercial no 2º. distrito de Piratini, onde os bandidos usando máscaras espancam até a morte o dono do estabelecimento, o espanhol Pedro Miguel Leyoñoz. Novos crimes se sucedem no Cerrito e na Buena – espécie de área preferencial de Juvêncio e seus asseclas.
                Um detalhe ímpar da ação do bando é que os criminosos juram de morte cada um dos que os perseguem ou ainda pior os traem. Relatos dão conta que informantes são assassinados em suas casas na calada da noite e os bandidos fazem questão de propagar juras intimidatórias a delegados e chefes de polícia. Os dois mais odiados (e justamente aqueles que infringiam a perseguição mais intensa a quadrilha) são Bernardino Ferreira Porto, subdelegado do Cerrito, e o capitão João Manoel Barbosa, subdelegado da Buena.

A morte de Bernardino Porto e a fuga para o Oeste
                Em 25 de Outubro de 1884, no Passo do Vieira (atualmente parte do município de Morro Redondo), o subdelegado Bernardino Ferreira Porto e o soldado Raymundo Serra em expedição a cavalo em busca dos bandoleiros de Juvêncio Pereira se deparam com dois indivíduos deitados e dormindo na aba de um capão de mato e supondo que eram companheiros da mesma jornada, dirigiram-se a eles sem a menor prevenção. O desfecho do encontro é trágico: os dois homens são o próprio Juvêncio Pereira e Marciano Couto. Sobressaltado, Juvêncio puxa a pistola que trazia na cintura e fere mortalmente o subdelegado Bernardino Porto, que imediatamente cai em agonia. O soldado Serra depois do primeiro tiro, desfere outro sobre Marciano Couto que é fulminado ali mesmo. Allucinado e persuadido que havia mais gente a persegui-lo, Juvencio Pereira bateu em retirada para o mato, atirando, porém, ainda alguns tiros sobre o companheiro de sua victima que o perseguia a distancia. Vários petrechos de seu arsenal de guerra são deixados por Juvêncio, que dizem estar ferido e refugiado nas matas da região.  Alguns julgam que ele possa estar morto. Ainda não.
                A morte de Bernardino Porto causa profunda impressão em toda a região, pois o subdelegado era considerado o mais implacável perseguidor do facínora. Os jornais repercutem o acontecido, solicita-se apoio do governo da província, lamenta-se em toda a parte os malogros da polícia.
Contudo, quatro dias depois da morte de Porto, a força policial de Cerrito com apoio do subdestacamento da Buena e de guarda de Canguçu trava novo conflito com os bandoleiros. Tiroteio pesado entre os dois grupos próximo ao Passo de Maria Gomes, com muitos mortos e feridos. Morrem José Ferreira Porto (irmão de Bernardino) e o fiscal Antônio Maria do lado da polícia. Do lado dos bandidos, vários são alvejados fatalmente e João Pereira (irmão de Juvêncio) e Serafim Estrella são presos. Armamentos e munição são confiscados. Brevemente, os sucessos das autoridades de segurança induzem falsamente que a quadrilha está abatida. Juvêncio e alguns de seus seguidores conseguem escapar e fogem para o oeste.


Provavelmente para reorganizar o bando e conseguir novos recursos para recuperarem armas e munições, Juvêncio intensifica seus roubos e a violência empregada. Em novembro de 1884, consta um assalto com espancamento até a morte no Passo do Acampamento, em Piratini, na estalagem de Pedro Miguel Sobreira, onde também são roubados mais de quinhentos mil réis. Na mesma empreitada, um caixeiro do financista Pedro Espelet é roubado de todos os seus provimentos, mas tem melhor sorte e consegue evitar a morte certa se evadindo em meio a vegetação. Ataques registrados na localidade do Juncal, em Jaguarão. Em seguida, latrocínios em Pedras Altas. Sucedem-se ataques a propriedades de Israel Fagundes (três contos de réis) e Zeferino Faria (cinco contos de réis) já em Cacimbinhas (atual município de Pinheiro Machado). O ano está terminando e se tem notícia que os bandoleiros entram em confronto com outros bandidos próximo a Dom Pedrito. No dia 14 de dezembro, observa-se a quadrilha na Bolena, em Bagé. Os jornais chegam a afirmar que em janeiro de 1885, Juvêncio Pereira já rondava Uruguaiana. O bando, porém, não se demora na Campanha. O retorno será breve.

O retorno de Juvêncio e o grande revés do bando
                No dia 18 de fevereiro de 1885, Juvêncio e seus bandidos atacam a casa de Domingos Antônio Barbosa, próximo ao Arroio das Pedras, na divisa entre o Cerrito e a Buena. Atravessando uma restinga de matos e se aproximando do local, a súcia tem intenção de assaltar a propriedade do sujeito que dizem ser conhecido como homem de moeda. No entanto, após terem sido avistados por uma escrava da casa, que adentra a residência em desespero e aos gritos, os bandidos encontram a residência já completamente fechada. No interior da casa, sitiados seus moradores aguardam a desistência dos criminosos. Contudo, os bandoleiros desferem uma descarga violenta de tiros na moradia, antes de se retirarem, quase vitimando uma criança recém-nascida que se encontrava ali abrigada. O ataque à casa de Domingos Antônio Barbosa causa muito espanto na região. Duas coisas passam a pesar após mais uma brutalidade de Juvêncio Pereira e seus quadrilheiros: as autoridades da região não podiam mais tolerar tantos episódios de violência; os bandidos tinham atacado uma pessoa influente da região, providências iriam ser tomadas com mais celeridade.
                Usando de intimidação e violência, as polícias de Pelotas, Canguçu, Piratini, Arroio Grande e até Jaguarão se colocam na perseguição implacável a Juvêncio Pereira e seu bando. Abusos são cometidos e a imprensa noticia o desconforto da população em vários rincões. A casa de parentes dos Couto no interior de Canguçu sofre uma abordagem violenta da polícia em busca de informações.
                No dia 15 de abril, num local próximo ao Passo do Machado, Canguçu, ocorre um novo e decisivo confronto entre o bando de Juvêncio Pereira e as forças policiais. O tenente Augusto César da Cunha e o capitão João Manoel Barbosa de Menezes no comando de uma grande linha de policiais de Canguçu, Buena e Cerrito, cerca de 50 homens ao todo, infringem perdas significativas ao bando e praticamente aniquilam sua ação na região. Após um tiroteio intenso nos campos e matas da região, em que os cavalos são instrumentos de combate valiosos, muitos bandidos são mortos e presos. Na mesma empreitada, o tenente Cunha – homem conhecido por seu caráter enérgico e obstinado – consegue numa perseguição praticamente individual capturar o “número dois” da quadrilha: o braço-direito de Juvêncio, Galiano Couto. A prisão de Galiano é um duro baque ao bando. Os Couto eram diretamente responsáveis pelo provimento de armas, munições e mantimentos aos bandoleiros, devido às suas ligações pessoais. A população da Serra dos Tapes e os jornais festejam o sucesso da autoridade pública.
                Quase que de forma concomitante, outros bandidos são presos em diversos municípios da zona sul. Ocorre uma grande devassa contra os criminosos. No Passo do Vieira, no Chasqueiro, na Serra das Asperezas, e até na Vila de Camaquã, vários delinquentes ligados à quadrilha são capturados.

O destino final de Juvêncio Pereira
                Apesar do revés sofrido no Passo do Machado, Juvêncio Pereira não foi capturado. Mas abandona a região e volta a se esconder. O resto do ano é de um silêncio enigmático sobre o seu paradeiro. Alguns consideram a possibilidade de ele estar morto, pois foi ferido na grande batalha de abril. Ledo engano. O ano de 1885 segue até o seu final sem notícias concretas sobre Juvêncio, apenas boatos. Mas o ano seguinte volta a registrar movimentos do malfeitor.
                Em 05 de janeiro de 1886, uma escolta de 15 praças do 5º. Regimento de Bagé se instala na estação ferroviária do Cerro Chato, após um pedido de socorro da direção da estrada de ferro que avisa que o bando de Juvêncio vagueia a região. É possível que Juvêncio tenha reunido novas asseclas durante o ano anterior, mas sua capacidade de ação encontra-se reduzida. Provavelmente não contava com mais de cinco pessoas. No mesmo mês, no dia 17, Juvêncio e um companheiro são vistos tomando cerveja no Hotel São Pedro na cidade de Pelotas. Avisada a polícia, não encontra nenhum rastro dos meliantes. Sucedem assaltos malogrados em algumas localidades rurais de Pelotas e Canguçu. Não há o mesmo furor de outros tempos. Durante o ano Juvêncio ainda cometerá algumas barbaridades no interior de Bagé. Todavia, caçado pela polícia e duramente fustigado.
                Em janeiro de 1887, um relatório de autoria do delegado Pedro Baptista Corrêa da Câmara de Canguçu enviado à capital da província é taxativo: Juvêncio Pereira refugiou-se em Rivera, no Uruguay. Os supostos bandoleiros de Juvêncio encontram-se dispersos, presos ou mortos. Era o fim do terror da Serra dos Tapes.

Apesar do exílio, o mito ainda persistiu
                Em março de 1888, uma quadrilha atacou e manteve em cárcere privado a família de Mathias Franck, agricultor estabelecido em Santa Isabel, Arroio Grande. O pobre lavrador é obrigado a dar a quantia de quatro contos de réis aos três bandidos. Libertada a família, um detalhe é descoberto pela polícia: quando sequestrado, Mathias Franck foi amordaçado com um lenço que tinha um bordado a retraz com o nome de Juvencio Pereira. Não era o célebre criminoso, muito menos provável que fosse ainda algum do bando. O fato é que o mito de seu nome servia para impor medo. Meliantes de outras paragens entendiam que ter seus nomes vinculados à figura de Juvêncio era sinônimo de ser respeitado e temido.

                Os anos se passaram e quem assumiu a herança maldita de Juvêncio Pereira foi Serrão Pacheco, agora agindo quase exclusivamente no interior de Canguçu. Apesar de suas bandidagens, com o início da Revolução Federalista em 1893, Pacheco não precisará se preocupar muito. É alçado pelas forças maragatas a um posto militar combatendo ao lado dos federalistas. Vários de seus bandoleiros igualmente serão transformados em honrados soldados. Fatos de um passado em que o Rio Grande do Sul vivia a ferro e fogo.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Negro Miguel e os Bandoleiros do Cerro das Almas

Fonte: Diário de Notícias, 09 de julho de 1958, pág. 10
Negro Miguel foi um salteador que marcou época no Capão do Leão na década de 1950, por seus roubos e fugas espetaculares na zona rural do município, líder da trupe criminosa que ficou outrora conhecida como Os Bandoleiros do Cerro das Almas. Sua fama se tornou lendária na memória dos moradores mais antigos da região e sua saga de delinquências repercutiu na imprensa da época, chegando mesmo a estampar as páginas de importantes jornais da capital.
                Negro Miguel, cujo nome de batismo era Miguel Garcia, filho de uma lavadeira e de um trabalhador rural (que não eram casados), nasceu em 1927 na fazenda São Carlos no distrito do Pavão. Teve outros irmãos, mas aparentemente nem todos eram do mesmo pai. Na juventude, chegou a trabalhar em lavouras de arroz com um senhor chamado Donga Caldeira. Nestas empreitadas, em que se prestava serviço de uma fazenda à outra na mesma temporada, Miguel começou a praticar pequenos roubos, quase sempre para comer, furtando galinhas e gêneros alimentícios. Com o tempo, a fama de ladrãozinho se espalhou nas circunvizinhanças e muitos donos de sítios e chácaras evitavam contratar Miguel para qualquer serviço. A partir daí, Miguel passou a realizar crimes mais ousados como abigeatos e roubo a residências rurais.
                Em 1949, foi preso pela primeira vez pela polícia local e levado à Vila do Capão do Leão, onde segundo suas próprias memórias foi espancado e torturado, o que lhe arraigou um profundo ódio a qualquer policial a partir de então. Contudo, ainda esteve solto por alguns anos e se amancebou com uma moça de nome Delmira, filha de um senhor chamado José que possuía um rancho no Cerro das Almas. Deste relacionamento, provavelmente teve uma filha.
Todavia, a vida familiar não impediu que Miguel seguisse com seus crimes que, segundo relatos da época, passaram a acontecer também na Vila do Capão do Leão. Várias vezes foi apanhado, mas solto por falta de provas ou após receber um corretivo (surra). Por volta de 1954, incidiu a agir com alguns comparsas vivendo de forma nômade, onde começou a se criar o primeiro boato sobre os famigerados Bandoleiros do Cerro das Almas ou Bandoleiros do Cerro do Gerivá (alusão a um dos cerros da região em que os criminosos se abrigavam). Em 1955, foi capturado por um peão de uma estância no Passo das Pedras quando tentava roubar objetos de um galpão e entregue às autoridades. Julgado logo em seguida por uma série de crimes (alguns dos quais não havia cometido, mas curiosamente não fazia questão de negá-los), Miguel foi condenado a permanecer recluso durante quatro anos na Colônia Penal Agrícola em São Jerônimo. Porém, fugiu de lá cerca de um ano depois e seu retorno marcou a época de maior atividade de Miguel e de seu bando. Destacava-se no grupo de bandidos um cúmplice de apelido Castelhano (Mário Torres González, uruguaio), ao que parece mais esperto e engenhoso que o próprio Miguel e mais outros quatro comparsas, dentre eles Lalinho (Eulálio Celestino Nunes), Camilinho (Camilo Bento Cardoso) e Juvenal (Juvenal da Silva Pereira) e mais um jovem ruivo conhecido como Melenudo (cujo nome real não foi conhecido). Não é possível afirmar até que ponto constituíam realmente uma quadrilha organizada ou agiam em conjunto somente por ocasião. Consta nos inquéritos policiais que havia muita rivalidade entre eles e que muitas vezes boicotavam um ao outro, além de agirem por conta própria em alguns crimes. Aliás, um deles, um tal de Marques (provavelmente um comparsa da época do início do bando), teria sido morto numa contenda entre eles.
                Em 1958, a prioridade da polícia leonense era prender Miguel e seu bando custe o que custasse. A fama dos criminosos se estendeu nos dois últimos anos e aterrorizava a população. Em março, houve violento tiroteio entre os bandidos e uma patrulha policial conjunta da Brigada Militar e Polícia Civil formada por cerca de 20 homens no chamado Cerro do Lombilho, cujas furnas de pedra eram usadas como esconderijos pelos bandidos. Na ocasião, o capitão da BM Armando Brião esteve na mira fatal do revólver de Miguel Garcia, que de modo surpreendente, poupou-lhe a vida, embrenhando-se no meio da vegetação. O delegado Athos Luiz Guedes da Polícia Civil também escapou de ser morto por Melenudo, que somente não conseguira efetuar o disparo por ter escorregado numa pedra úmida.
                Logo em seguida, no fim daquele mês, dois bandoleiros (Lalinho e Camilinho) foram presos na Vila Freire (atual município de Cerrito) pelo subdelegado da localidade Pedro da Vara, após assaltarem três casas comerciais e se esconderam num depósito de trigo. Juvenal que conseguira fugir com metade do roubo, morreu tragicamente (exaustão e hipotermia) ao tentar cruzar o canal São Gonçalo a nado, no inverno daquele ano, após ser expulso a tiros por peões de uma estância em Santa Isabel, no município de Arroio Grande.
                Já o dito Castelhano foi capturado pela polícia numa tentativa malograda de roubo a uma casa na colônia Santa Áurea, no interior de Pelotas, cerca de poucos dias depois.
Em maio, Miguel cometeria seu mais bárbaro crime: o frio assassinato de Felício Rodrigues da Silva, de 62 anos, que tinha o apelido de Feliz. Nos inquéritos, Miguel declarou que sangrara Felício porque ele era pecador. A opinião de Miguel sobre o desafeto tinha motivo sustentado pelo comportamento dúbio do próprio Felício. Felício teria participado de algumas atividades criminosas do bando de Miguel, inclusive frequentado várias vezes o acampamento dos salteadores. Apesar disso, Felício tinha um rancho próprio na região e agia como homem de bem perante os vizinhos – acusação sustentada pelo próprio Miguel. Para uns, Miguel vingara-se de Felício por este ter indicado às patrulhas que estavam em seu encalço o esconderijo do bandoleiro. No entanto, em seu depoimento Miguel citou motivações particulares para matar Felício, dentre elas o fato de alegar que o infeliz chegou até a inventar que eu tinha cortado umas crianças lá para as bandas de Herval... Mas como eu cortar inocentes? Em criança e em paisano eu não atiro nem corto. A crueldade do assassinato de Felício reside no fato que o mesmo foi atado a uma corda (na outra ponta atada à égua rosilha de Miguel) e arrastado por cerca de uma hora rumo a um cerro da região, onde foi morto a facadas. Felício morreu agonizando com muita perda de sangue, enquanto Miguel ao lado do corpo assistia o suplício do infeliz, que durou cerca de vinte minutos. Depois, o cadáver foi coberto com ramagens pelo algoz.
                Miguel Garcia foi finalmente capturado na tarde do dia 07 de Julho de 1958, quando foi avistado caminhando pela Estrada do Cerro das Almas por dois homens a cavalo que imediatamente se puseram em sua perseguição. Ao fugir, Miguel tentou cruzar uma sanga, molhando sua arma e munição, tornando-o assim indefeso à investida dos dois homens, que logo foram auxiliados por outros moradores da região que o renderam completamente. Conduzido pelo capitão Armando Brião ao subdestacamento da polícia na Vila de Capão do Leão, foi interrogado e revelou o paradeiro do cadáver de Felício e o esconderijo onde guardava os frutos de seus roubos. Entre os objetos furtados, foram encontrados desde objetos de uso comum da vida campeira, como facas e apetrechos de selaria, até alguns mais sofisticados como três acordeons, um porta-joias de ouro e um gramofone. Mais tarde Miguel seria levado para Pelotas e conduzido à cadeia municipal. Quando capturado, Miguel Garcia apresentava um profundo ferimento no pescoço que fora causado por ele próprio com uma faca durante uma noite em que teve um pesadelo. A ferida era horrível e exala um mau cheiro característico pela presença de bernes de moscas.
                No início de 1959, um pouco antes de sua sentença ser pronunciada pela Justiça local, Miguel conseguiu novamente escapar da prisão. Em 01 de março daquele ano, Miguel Garcia foi morto em um tiroteio com a polícia em Tupanciretã, na região central do estado. De seu bando, o único que sobrou foi Melenudo – jamais identificado com segurança, por isso sem saber-se de seu destino posterior.

Desde então, a história de Miguel Garcia passou à categoria de lenda no local e muitas de suas façanhas (reais e fictícias) são contadas ainda hoje em dia pelos mais velhos em Capão do Leão. 

Atualização em 25 de maio de 2007: De acordo com a colaboradora Carolina Blaz, temos a seguinte contribuição: 
. A minha avó conta que um dos homens que laçou ele e entregou pra Polícia foi o Miguel pé queimado(miguel Antunes) ele viu o Miguel quando saiu do cerro pra pegar comida na venda da granja e rondou quando ele ia se atirar da taipa de um açude pra fugir deles ele (Miguel Antunes) conseguiu laçar ele e entregar só Brião.

Muito obrigado!

domingo, 30 de abril de 2017

Ramos, o matador do Arroio São Tomé

José Ramos, vulgo Bandoleiro Ramos ou simplesmente Ramos, apareceu na Vila do Capão do Leão por volta de 1923 em razão dos acontecimentos da revolução política que assolou o estado naquele ano. Identificado com o Partido Libertador de Assis Brasil, Ramos teria sido um dedicado militante dos maragatos em terras leonenses, não necessariamente um ladrão, mas um homem violento que resolvia suas rivalidades pessoais e políticas na adaga e na bala.
                Procedente do município de Piratini era concubinado com uma mulher de nome Auta que vivia no pé do cerro e que prestava serviços em casas de família. Tinha como ofício declarado o de segeiro. Trazia uma amizade muito próxima com um sujeito de apelido Lacaio (Arcângelo Lopes Penedo), que agia como seu cúmplice direto. Ambos eram considerados pelos moradores da vila pouco dignos de confiança. Em 1926, Ramos e Lacaio foram acusados da morte de Calvino da Rocha, trabalhador da Pedreira. Entretanto, o inquérito foi prejudicado por intervenções superiores, pois Ramos seria apadrinhado de importantes figuras políticas da região.
                O fato de se envolverem em balbúrdias era algo conhecido da polícia local. Só que na noite de 06 de Agosto de 1927, aconteceu o mais sórdido dos crimes atribuído a Ramos e seu cúmplice Lacaio. Três homens, José Inácio da Silva, Laureano Garcez e Francisco Pio Regueira, que tinham como profissão compra e venda de gado vacum, desapareceram misteriosamente naquela noite do galpão que pernoitavam na chácara do senhor João Trindade.  Na mesma data, durante a tarde, os três negociantes tiveram um quiproquó com Ramos e Lacaio defronte ao armazém do senhor Moreira. O assunto da desavença seria o ex-presidente (governador) do estado, Borges de Medeiros.
                Inicialmente, o desaparecimento foi encarado pelo chefe da polícia local como uma possível fuga dos três homens em razão de um calote que teriam dado a terceiros. Contudo, os dias se sucederam sem saber-se do paradeiro dos mesmos. Entretanto, um forte temporal aconteceu entre os dias 12 e 13 de Agosto em Capão do Leão. Com o forte volume d’água ocasionado pelas chuvas, o arroio São Tomé transbordou em alguns trechos e a enxurrada transportou matéria orgânica que tende a se depositar às margens e nas partes mais rasas. O que era para ficar escondido e sepultado nas profundezas do arroio veio à tona, literalmente.
                Na manhã do dia 15 de Agosto, crianças que brincavam às margens do arroio na propriedade do senhor Cristóvão Peres retornaram para casa principal assustadas avisando os adultos que havia um homem boiando no córrego. Intrigado, o senhor Cristóvão foi verificar e constatou que um corpo estava preso aos galhos de uma árvore ribeirinha. A polícia foi acionada e a notícia se espalhou na vila. O cadáver encontrado era o de Francisco Pio Regueira e este apresentava um profundo corte no pescoço, indicando assim que foi degolado. Além disso, havia amarras em seu corpo, o que evidenciava a intenção de fazer o cadáver submergir. A ação da chuva fez com que o defunto fosse transportado a uma parte menos profunda.
                Antes mesmo que a polícia se pronunciasse sobre o fato do assassinato de Regueira, a comoção gerada pela descoberta do cadáver fez com que se organizassem patrulhas improvisadas e desautorizadas em busca dos dois outros corpos ao longo do curso d’água. Porém, não se sabia quem tinha degolado Regueira e se os outros dois homens também tinham sido assassinados ou mesmo poderiam ter sido os assassinos. A população de alguma forma interpretou que o desaparecimento dos homens e a descoberta do primeiro cadáver vinculavam-se ao mesmo evento. Talvez pela fama que acompanhava José Ramos e seu companheiro Lacaio.
                A desconfiança dos populares se mostrou correta num primeiro momento, não no sentido de atribuir a morte a um mesmo autor, mas na ideia de que os outros dois homens tiveram o mesmo fim e o mesmo “local de desova”. No dia 17 de Agosto, foi encontrado no local conhecido como Cotovelo o corpo de José Inácio da Silva parcialmente imerso no arroio. No dia seguinte, não muito distante dali foi achado o cadáver de Laureano Garcez. Ambos os corpos apresentavam características idênticas às encontradas em Regueira: degolamento e amarras com pesos.
                O caso ganhou espaço nos jornais da época e houve certa crítica à polícia pelotense pela lentidão em que procedeu a investigação sobre as mortes. Somente no dia 29 daquele mês, dois policiais foram intimar o primeiro dos suspeitos para prestar informações, o cúmplice Lacaio. No entanto, a reação do sujeito foi praticamente uma confissão de culpa. No casebre em que morava, nas proximidades da estação ferroviária de Capão do Leão, Lacaio ao avistar os dois homens da lei saiu correndo em direção aos fundos do terreno. Acabou sendo rendido e conduzido à subintendência para esclarecimentos. Lá confessou tudo o que aconteceu e incriminou o comparsa Ramos.
                Segundo Lacaio, Ramos tinha uma zanga antiga com Francisco Pio Regueira que, aliás, tinha o revelador apelido de Chico Ximango (recorde-se que José Ramos era do Partido Libertador, por isso maragato). A discussão que Ramos e Regueira tiveram na tarde do dia 06 de Agosto foi eivada de juras de vingança e morte. Ramos planejara resolver a pendenga entre os dois naquela noite, mas a princípio não queria intentar nada contra os outros dois homens. Por isso, combinara com Lacaio agir na madrugada e de surpresa. Porém, a ação de Ramos e Lacaio no galpão em que pernoitava Regueira despertou os outros dois companheiros. Houve luta corporal e os três foram mortos por Ramos e Lacaio, salientando que Regueira já se encontrava degolado quando os outros dois reagiram. Lacaio acrescentou ainda que Garcez foi morto com uma facada no bucho, mas após, já com o corpo inerte, Ramos fez questão de passar-lhe a faca no pescoço, como uma espécie de assinatura daquilo que havia cometido. Os três mortos foram amarrados em cordames com pesos distribuídos e levados à beira do arroio São Tomé, onde foram jogados em distâncias diferentes. Lacaio ainda afirmou que houve tempo para que fizessem tudo aquilo de forma muito calma, pois a região todo dormia num breu pavoroso.
                Com a confissão de Lacaio, Ramos foi imediatamente procurado pela polícia, mas a imprensa da época admitiu que a demora em resolver os assassinatos talvez tenha permitido ao bandoleiro tempo mais do que suficiente para se escafeder. O cúmplice Lacaio é que não foi tão inteligente, mesmo com a notícia da descoberta dos três corpos no arroio.
                No fim de Setembro, apareceu a notícia que José Ramos estaria escondido numa casa no Passo das Pedras. Uma patrulha local foi em seu encalço e após um violento tiroteio em que foi alvejado o soldado Amadeu Porciúncula, Ramos conseguira fugir para um local desconhecido. Assim passou durante vários meses, permanecendo incógnito das autoridades, mas segundo cronistas da época apadrinhado e ajudado por causa de seu vínculo com os assissistas.

                Segundo dizem, morreu muito velho na localidade do Basílio, em Herval.

Instituto Histórico e Geográfico presta homenagem a Gilmar Maciel

Divulgação.


terça-feira, 11 de abril de 2017

Histórias Curiosas LIII

Rapazinho é mandado pelo pai ao posto de gasolina da avenida central de Capão do Leão, afim de comprar cigarros. O pai ainda recomenda: traz duas carteiras de Marlboro!
O menino pega a bicicletinha e se vai a todo fôlego. Vinte minutos mais tarde, o rapazote retorna sem o vício do pai.
O pai irritado pergunta ao filho:
- Ô guri, eu não te pedia que me trouxesse cigarros? Vai me dizer que não tinha cigarros lá? Eu não te pedi que se não tivesse filtro amarelo, que me trouxesse então filtro branco?
- Ah, pai. Não tinha nenhum desses. A moça me perguntou se não tinha problema se fosse botox. Como o senhor não falou nada de cigarro botox, eu fiquei com medo de trazer e o senhor não gostar.
- Que cigarro botox, guri?! Tá louco?!
- Sim, pai. Aquele de caixinha.
Em resumo, o menino confundiu carteira de cigarro box com botox. Na dúvida e para não receber uma tremenda reprimenda, resolveu não trazer o tal vício do pai.

domingo, 2 de abril de 2017

Histórias Curiosas LII

Sujeito ladino, contumaz ladrão de gado e de propriedades rurais na região, passou a assolar vários sítios e chácaras na zona da Avenida Eliseu Maciel, no rumo de quem se dirige ao campus Capão do Leão da Universidade Federal de Pelotas. Isso aconteceu por volta da virada do milênio.

Foi então que o sujeito resolveu roubar os fios elétricos de uma chácara à beira da avenida. O vigia da chácara ouviu o barulho à noite, foi ver o que se tratava, mas o ladrão fugiu. Na manhã do outro dia, o vigia percebeu que os fios estavam escondidos numa espécie de cova rasa a poucos metros da entrada principal da chácara. Além disso, um bonezinho vermelho demarcava o local de esconderijo do roubo. Provavelmente, a intenção do ladrão era retornar na outra noite para reaver o butim do crime.

O vigia da chácara, sabendo que nada adiantaria recolher os fios, pois o ladrão daria um jeito de causar algum outro prejuízo à propriedade, bolou uma armadilha para assustar o malandro. Como a fama do ladrãozinho já era conhecida na região, o vigia não se fez de rogado. Conversou com o vizinho da esquerda (a quem o ladrão já havia roubado umas reses), conversou com o vizinho da direita (também penalizado pelas artimanhas do criminoso), conversou com o vigia da propriedade da frente e assim foi, conversando com um e com outro. O plano era toda a vizinhança permanecer em vigília para esperar o ladrão à noite. Evidentemente, todos armados (não havia ainda sido decretada a malfadada Lei do Desarmamento).

Por volta de 0h15min, não deu outra: o ladrãozinho reapareceu no local para pegar o que havia deixado escondido. O vigia da chácara percebeu e imediatamente avisou os outros. A tocaia estava portanto armada! 

O vigia se dirigiu em meio à penumbra, entre algumas folhagens e gritou alto: "Quem está aí?" O ladrãozinho assustado não quis nem saber e disparou ao léu com um tiro que aparentemente parecia ser de um revólver 22. Erro crasso do meliante! O vigia reagiu com outro tiro e se seguiu uma saraivada de balas de todos os lados, com os vizinhos descarregando fogo em cima do infeliz com armas dos mais diferentes calibres e tipos. Parecia uma guerra na madrugada fria da Avenida Eliseu Maciel. Até a cachorrada que latia ao longe cessou diante do tiroteio. Após um quinze minutos de bala zunindo por tudo quanto era canto, não se viu mais rastro do ladrãozinho. Aliás, pelo menos em anos posteriores, o sujeito jamais foi visto novamente pela região.

O susto foi tão grande que o malandro deixou a bicicleta e uma mochila - acessórios que ele planejou usar para poder carregar o fruto do roubo, que no fim não deu certo.

terça-feira, 21 de março de 2017

Sesmaria de São Thomé

Trecho extraído de: GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, charqueadas e olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas/RS: Ed. Universitária/UFPel, 2001, p. 66-67


"A estância São Tomé limitava-se com o arroio de mesmo nome e o Pestana, Moreira ou Fragata. Começava em rasas campinas, à margem do São Gonçalo, sobre terras que iam, em constante e crescente elevação, tomando o rumo da coxilha do Santo Amor. A estância de São Tomé pertenceu, inicialmente, a Antônio dos Santos Saloyo, que a negociou com Manuel Moreira de Carvalho e sua esposa, Maria da Encarnação. Manuel e Maria venderam metade do terreno a Alexandre da Silva Baldez, e a outra parte a Francisco Araújo Rosa. No dia 20 de abril de 1799, Antônio Francisco dos Anjos comprou a parcela de Rosa.


O lugar da última venda ficou conhecido como estância do Fragata. Possuía as seguintes confrontações: pelo sul, com dona Josefa, viúva do brigadeiro Rafael Pinto Bandeira; pela frente, com Manuel Inácio Gomes [sucessor de Baldez] e, de fundos, com o canal São Gonçalo. O espaço da fazenda e charqueada do Fragata foi descrito, ainda, desta forma: situada para leste da linha - passo dos Carros e passo do Capão do Leão, compreendida pelo curso inferior do arroio Moreira e São Tomé, e margem esquerda do São Gonçalo.


Lembrando os proprietários de suas margens, o arroio levou os nomes de Moreira e Fragata, sendo, o último nome, uma referência à embarcação do charqueador Antônio Francisco dos Anjos. Em um terreno da sesmaria do Monte Bonito, o padre Felício, da estância de Santana, e seu vizinho, Antônio dos Anjos, da charqueada do Fragata, deram início à construção do que veio a ser o primeiro loteamento da cidade de Pelotas. Sobre Antônio dos Anjos, e seu amigo, o padre Felício, ainda muito vai ser contado.


A parte da estância de São Tomé, que coube a Alexandre Baldez, estava situada no interior. O resumo da sinopse de sesmaria informou o que segue:

“Campos no Rio Grande, que principiam em um cotovelo que forma o arroio São Tomé, em demanda do passo que vai para a estância do confinante Rafael Pinto Bandeira; do dito passo em linha reta, por cima de uma coxilha que vai ao passo dos Carros, no arroio Pestana [Fragata ou Moreira], onde extrema com José da Silva e a serra que tapa os referidos campos.”

Alexandre da Silva Baldez era originário da Colônia do Sacramento. Durante a ocupação espanhola, tinha se escondido por essas paragens. Quando o vice-rei Luís de 
Vasconcelos e Souza, em 1789, concedeu-lhe a posse das terras que ele ocupava, essas 
mediam duas léguas [13.200m] de comprimento e 3/4 de légua de largura."

Sesmaria de Santana


Trecho extraído de: GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, charqueadas e olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas/RS: Ed. Universitária/UFPel, 2001, p. 63-66


"Existiram três estâncias - Santana, São Tomé e Santa Bárbara - entre a fazenda, a charqueada e a olaria do Pavão e o cerne do núcleo charqueador pelotense, na sesmaria do Monte Bonito, situada entre os arroios Santa Bárbara e o Pelotas. Elas ocupavam o espaço cortado pelo arroio de São Tomé, depois chamado de Padre-doutor, e do Pestana, Moreira, ou, como posteriormente foi chamado, Fragata, até encontrar o arroio Santa Bárbara, divisa das terras da estância do Monte Bonito. Pelo menos, nessa área, funcionaram duas charqueadas, localizadas às margens do arroio Fragata. Os estabelecimentos saladeiris pertenceram a Antônio Rafael dos Anjos e a Joaquim Manuel Teixeira, ambos da Colônia do Sacramento.

O dono da fazenda de Santana foi Felix da Costa Furtado de Mendonça, alferes de ordenanças das tropas da Colônia do Sacramento. Nascido em 1735, em Saquarema, Nossa Senhora de Nazaré, no Rio de Janeiro, morreu em 1819, em Pelotas. Seus pais chamavam-se Jorge Antônio da Costa Soares e Ana Maria Furtado de Mendonça. Em 1773, na Colônia do Sacramento, casou com Ana Josefa Pereira. Esta era filha de Vicente Pereira, português de São Pedro de Alfândega da Fé, Bragança, que havia casado na cidade do Porto, enquanto aguardava a partida de um navio para a América, com sua conterrânea Madalena Martins Pinta. Ana Josefa foi a décima e última filha do casal. Entre seus irmãos, havia dois padres, Pedro Pereira Fernandes de Mesquita, vigário de Rio Grande, e Antônio Pereira de Mesquita. Ana Josefa Pereira e o alferes Felix da Costa Furtado de Mendonça tiveram três filhos homens, o doutor Hipólito José da Costa Pereira, nascido na Colônia; o padre Felício Joaquim da Costa Pereira, portenho, primeiro vigário de Pelotas, e o rio-grandino José Saturnino da Costa Pereira.

Hipólito, Felício e Saturnino estudaram em Coimbra, como o tio, por isso chamado padre-doutor Pedro Pereira de Mesquita. O mais velho, Hipólito, formou-se em Leis e Filosofia. Jornalista, iniciou e manteve a publicação do Correio Brasiliense, até a Independência do Brasil. Recebeu o título de Patrono da Imprensa Brasileira. A mando do governo português, desempenhou diversas funções. Na América do Norte, estudou as culturas do linho e do cânhamo, por parecerem adequadas à capitania de São Pedro do Rio Grande. Entre 1801 e 1803, suspeito de ser ‘pedreiro livre’, permaneceu, por ordem do Santo Ofício, nos cárceres da Inquisição, de onde conseguiu fugir.

O filho mais moço, Saturnino, estudou Matemática e, como o pai, seguiu a carreira das armas, chegando a general. Foi deputado da Capitânia às Cortes de Lisboa, no início dos anos vinte dos oitocentos; primeiro presidente da província do Mato Grosso, no período compreendido entre 1825 e 1831; senador do Império e seu ministro da guerra.  Os tios e padres Pedro Pereira e Antônio Pereira receberam terras no distrito de Serro Pelado. Pedro foi lindeiro de sua irmã Ana Josefa, na estância de Santana. O vigário de Rio Grande e seu irmão, o religioso Antônio, participaram da partilha das chamadas “sobras” de terras da sesmaria do Monte Bonito.

A sesmaria do alferes Felix da Costa Furtado de Mendonça, e de sua esposa, Ana Josefa Pereira, situava-se no interior das terras, a uma das extremidades da fazenda do Pavão. Localizava-se junto às nascentes do arroio São Tomé, sobre as divisas de Alexandre Baldez, além da serrilhada que arrematava com os morros das Almas e Santana. Em 1807, media 8.712ha. Em 10 de março de 1794, o alferes a tinha recebido de dom José de Castro, conde de Rezende, como prêmio por serviços de guerra. No Registro de Terrenos, a doação possuía 1½ léguas [9.900m] de comprimento, por uma légua [6.600m] de largura, e a descrição dos limites era a seguinte:

Campos no distrito da vila de Rio Grande, na parte setentrional do sangradouro da lagoa Mirim. Confrontam: ao norte com Alexandre da Silva Baldez e Antônio Teixeira Curisco; a oeste com Francisco da Rosa, servindo de divisa o arroio São Tomé; pelo sudoeste com o cume de uns serros que dividia dos campos do brigadeiro Pinto Bandeira, e ao les-nordeste [?] com o doutor Pedro Pereira de Mesquita.

A estância do alferes era vizinha às terras de seu cunhado, o padre-doutor Pedro Pereira Fernandes de Mesquita. O terreno do vigário de Rio Grande havia sido doado pelo mesmo conde, alguns meses mais tarde, mas, no mesmo ano de 1794. Media duas milhas de comprimento [3.219m], por uma [1.609m] de largura. A área estava assim demarcada:

Terras no distrito da Vila de Rio Grande, na parte septentrional do sangradouro da lagoa Mirim, confrontando pelo nordeste com Alexandre da Silva Baldez, pelo arroio São Tomé; a oeste- sudoeste com Felix da Costa, e pelo sul e sudoeste com o brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, servindo de divisa um arroio.

O Padre-doutor emprestou seu nome ao arroio São Tomé, que banhava as suas terras. De acordo com o levantamento realizado pelo capitão, Antônio Ferreira dos Santos, esse terreno tinha sido doado pelo governador José Marcelino, no dia 2 de abril de 1780, a José Inácio das Fontes; fora comprado pelo religioso. Em 1785, o padre-doutor possuía, na área 100 reses, seis cavalos e 50 éguas.

Sesmaria do Pavão



Trecho extraído de: GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, charqueadas e olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas/RS: Ed. Universitária/UFPel, 2001, p. 57-61

"Na estância do Pavão, uma das propriedades do brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, chegaram a funcionar uma charqueada e uma olaria. Conforme informação contida no levantamento realizado em 1785, pelo capitão Antônio Ferreira dos Anjos, a fazenda resultou num somatório de seis sesmarias contíguas, doadas em 1780, e que foram adquiridas pelo brigadeiro Rafael Pinto Bandeira. No momento da compra, a área totalizava nove léguas quadradas [39.204ha].

Em 1807, nos autos da Medição mandada executar pela viúva do brigadeiro, Josefa Eulália de Azevedo, e por seu segundo marido, desembargador Luís Correa de Bragança, a área da propriedade somou 12 léguas e 855 braças superficiais [52.272ha e 4.138m²], sem contar as áreas alagadiças da margem do São Gonçalo e São Tomé, até o sítio da Estiva.  Os limites naturais da estância de Rafael Pinto Bandeira eram o canal São Gonçalo, os dois arroios Pavão, chamados, no início de seu curso, de Contrabandista e São Tomé, ou Padre-doutor, e, pelo interior, o Capão do Boquete, nas imediações do Serro da Buena.

Dos seis campos que formaram a estância do Pavão, cinco foram concedidos pelo governador José Marcelino de Figueredo, no dia 1º de abril de 1780. O terreno restante foi doado pelo governador Sebastião da Veiga Cabral, em 28 de dezembro de 1780, a José Miranda de Oliveira. Esta sesmaria tinha uma légua em quadro [4.356ha] e estava situada entre o arroio Moreira e o Serro.

As cinco áreas concedidas em 1º de abril pertenceram aos seguintes proprietários: alferes Antônio V. Feijó, com uma légua [6.600m] de comprimento, por meia [3.300m] de largura, entre o passo das Pedras e o arroio que dividia a invernada do sargento-mor Roberto Roiz;  Francisco Antunes, com uma légua em quadro [4.356ha], entre o arroio da Estiva e o Pavão; cabo de dragões Manuel Joaquim de Barros, com uma légua [6.600m] de comprimento e meia [3.300m] de largura, situada à direita do passo do Pavão; capitão Joaquim José de Proena, com duas léguas [13.200m] de comprimento e uma [6.600m] de largura, nos fundos do serro Pelado; Leocádia Joaquina de Lima, com duas léguas [13.200m] de comprimento e meia [3.300m] de largura, entre a serra e o sangradouro da Mirim; tenente de dragões Joaquim de Souza Soares, com uma légua em quadro [4.356ha], entre as terras do major Roberto e do reverendo Pedro Pereira. 

No levantamento executado pelo capitão Antônio Ferreira dos Santos, em 1785, na estância do Pavão, Pinto Bandeira possuía os seguintes animais: 6.000 reses; 100 bois; 300 cavalos; 2.000 éguas e 90 ovelhas. No inventário de João Nunes Batista, proprietário da fazenda, charqueada e olaria do Pavão, realizado em 1823, os campos estavam povoados com 8.000 reses de criar; 600 ditas leiteiras; 92 bois mansos; 178 cavalos mansos; 32 [ilegível]; 20 potros; 407 éguas e três mulas velhas.

Alberto Coelho da Cunha, filho do charqueador Barão de Correntes, republicano, abolicionista, funcionário municipal, historiador e pelotense, conhecido pelos pseudônimos de Vítor Valpírio e Jatyr, na Revista do Partenom Literário, escreveu no jornal A Opinião Pública, de 4 de agosto de 1929:

Entregue à Dona Josefa Eulália de Azevedo e às suas duas filhas, os quinhões que lhe vieram a caber, já ficou, por essa ocasião, a grande fazenda retalhada em três. Posteriormente, vendidas, das subdivisões desses quinhões hereditários, formaram-se diversas estâncias.
Essa informação não coincide com as que constam no inventário do português João Nunes Batista, proprietário da charqueada e estância do Pavão. No documento, a área de estância era de dez léguas quadradas [43.560ha]. Foram seus herdeiros a viúva, Joaquina Maria da Silva, e seus oito filhos menores.

Em 1º de outubro de 1810, a viúva de Pinto Bandeira, Josefa Eulália de Azevedo, e seu segundo marido, Luís Correa de Bragança, fizeram doação a João Inácio de Azevedo, respectivamente seu irmão e cunhado, de uma área com 4443100 braças quadradas [91.780ha]. Em 15 de junho de 1825, este vendeu a Joaquim Francisco Ilha. Vinte seis anos mais tarde, quando do inventário de Joaquina Maria da Silva, a área estava reduzida a duas e meia léguas quadradas [10.890ha] de campo da estância do Pavão, incluindo alguns banhados transitáveis; um banhado ainda inacessível, que fazia parte da mesma estância, de aproximadamente meia légua quadrada [21.780ha]. Nos dois inventários, acrescentavam-se três das quatro partes da ilha denominada Pavão, junto à estância de mesmo nome, que tinha a extensão de mais ou menos meia légua [21.780ha]. Com a morte da rio-grandina Joaquina Mª da Silva, a estância foi dividida entre os oito herdeiros.

(...)

O programa de necessidade da estância do Pavão era o seguinte: uma morada de casas de vivenda e cozinha, coberta de telhas e paredes de tijolos, em que vivia o casal, em mau estado; junto a essa, uma outra casa pequena, velha, de tijolos e telhas; perto das casas, um pomar, cercado, com algum arvoredo; dois galpões cobertos de capim e dois potreiros limitados por valos, arrombados em algumas partes. No lugar chamado de Boa Vista, onde morava o co-herdeiro Francisco Gonçalves Vitorino, existiam: dois galpões cobertos de capim, uma mangueira de pedra e uma casa de paredes de pedras, e que na época do primeiro inventário estava coberta de capim, e, quando do segundo, era coberta com telhas de barro.

A charqueada e a olaria foram construídas no mesmo lugar, às margens do arroio do Pavão. Compreendiam um galpão grande coberto de capim; dois menores, também cobertos de capim; uma casa pequena, que servia de residência ao capataz; um forno e galpão de olaria, coberto de capim; uma cancha com duas mangueiras para encerrar o gado de pau-a-pique [mangueira de matança]; uma tafona [para moer sal] e duas mesas de salgar, um potreiro e uma graxeira com dois vapores.
A máquina a vapor foi inventariada no processo da viúva, realizado em 1849, o que não ocorreu no levantamento dos bens de João Nunes Batista, realizado no ano de 1823. Essa foi a grande diferença entre as instalações dos saladeiros do Colla, em 1788, e de João Nunes Batista, em relação à charqueada de Joaquina Maria da Silva.

Com base no que foi descrito nos estabelecimentos charqueadores, foi possível resumir, preliminarmente, um esboço sobre o programa de necessidades, materiais e técnicas de construção utilizados no espaço da produção do charque: a olaria fazia parte da área destinada à atividade charqueadora; os galpões abrigavam a maior parte das funções; desde o início, na charqueada do Pavão, o abate não era feito a campo aberto, mas, em local construído especialmente para esse fim, a mangueira de matança; os materiais e técnicas usadas nas primeiras construções foram a cobertura de capim e as paredes de pau-a-pique e, em menor número de vezes, a alvenaria de pedra; com o tempo, esses materiais foram sendo substituídos por elementos de barro.

Esses materiais foram sendo substituídos por elementos de barro. Telhados e paredes de alvenaria de tijolos foram empregados nas construções importantes, como a residência do charqueador; a morada do proprietário estava localizada no mesmo terreno, mas, em um outro conjunto de construções, afastada do lugar da produção da carne salgada. Esse grupo era formado por um pomar e outros prédios de apoio, como moradia, galpões, potreiros, etc. A presença da máquina de vapor foi um salto na qualificação do processo de trabalho e, conseqüentemente, do produto."



Rafael Pinto Bandeira e suas sesmarias na região


Trecho extraído de: GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, charqueadas e olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas/RS: Ed. Universitária/UFPel, 2001, p. 55-57

"Do arroio Pavão, afluente do rio Piratini, até a laguna dos Patos, existiram seis estâncias interceptadas por cinco arroios, que chegavam à margem norte do sangradouro da Mirim. Somando-se a fazenda da Feitoria, localizada às margens da laguna, entre os arroios Grande e Correntes, teríamos as sete fazendas que vieram a formar o município de Pelotas, hoje subdividido nos municípios de Capão do Leão e Morro Redondo. No quadrilátero definido pelo arroio Pavão, ou do Contrabandista, e a laguna dos Patos; o arroio Grande e o sangradouro da Mirim, ou canal da Torotama, atualmente chamado de canal São Gonçalo, funcionaram mais de 40 charqueadas. Desses estabelecimentos, aproximadamente 30 localizaram-se na Sesmaria do Monte Bonito, destinando-se exclusivamente à salga de carnes e tendo, como alternativa, a produção de elementos cerâmicos. As charqueadas restantes, distribuídas pelas outras sesmarias, dedicavam-se também à criação.

Todas essas estâncias estavam afetas ao distrito do Serro Pelado, onde o brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, como Comandante da Fronteira do Rio Grande, dava informações nos processos de concessão de terras. Rafael Pinto Bandeira foi o exemplo máximo do estancieiro-militar. Sua biografia confunde-se com a história do Rio Grande. Ele e seu bando contrabandearam gado, apropriaram-se de terras, trucidaram, aprisionaram e expulsaram nativos e castelhanos, amedrontaram seus companheiros, e, para a Coroa portuguesa, conquistaram e reconquistaram território.

O comandante da fronteira do Rio Grande fazia com que as autoridades instituídas pelo poder colonial ficassem impotentes diante dos seus atos e dependentes de suas ações. Por isso, o vice-rei, marquês de Lavradio, era favorável às arreadas que enfraqueciam os espanhóis, porque acreditava que não havia outro remédio senão permitir a Pinto Bandeira se fartar, ou seja, até que o brigadeiro se julgasse satisfeito. A maneira de agir de Pinto Bandeira deixava a diplomacia portuguesa embaraçada, como no caso da denúncia do comandante espanhol Juan Verniz, sobre o ataque que Pinto Bandeira fez à Guarda de São Martinho, onde, além de matar soldados espanhóis e fazer prisioneiros, pegou numerosa cavalhada, gado vacum e alguns índios; na estância de São Lourenço, chegou a desnudar as índias e apropriar-se de seus poucos bens.

Pinto Bandeira aproveitou-se do conhecimento que tinha para obter as melhores terras. Nos processos de concessões de sesmarias, ele próprio, como Comandante da Fronteira do Rio Grande, fornecia informações sobre a situação dos solicitantes. Na burocracia estatal, com vistas à obtenção de certidões de propriedade de terras, espalhava o medo. Para manter as aparências, conforme observou o vice-rei Luís de Vasconcelos, Pinto Bandeira, auxiliado por ‘contrabandistas da sua parcialidade’, perseguia os contrabandistas vinculados aos outros estancieiros.

O brigadeiro Rafael Pinto Bandeira nasceu em Rio Grande, em 16 de dezembro de 1740, e morreu na mesma cidade, em 9 de abril de 1795. Era filho do coronel de dragões Francisco Pinto Bandeira, nascido em Laguna, Santa Catarina, e de Clara Maria de Oliveira, da Colônia do Sacramento. Fez dois casamentos. No ano de 1773, em Rio Pardo, casou com Maria Madalena Pereira, da missão de São Lourenço, e, em 1788, em Rio Grande, contraiu segundas núpcias com Josefa Eulália de Azevedo. Com Bárbara Vitória, teve uma filha, Bibiana Maria Bandeira e, com a segunda esposa, ganhou outra filha, Rafaela Pinto Bandeira. Esta casou com o coronel baiano Vicente Ferrer da Silva Freire. De Rafaela, ganhou dois netos: Diogo da Silva Freire, assassinado juntamente com seu pai, em sua fazenda no rio dos Sinos, em 1836, e Maria Josefa da Silva Freire, casada com Israel Rodrigues da Silva, filho do comendador Boaventura Rodrigues Barcellos e de Cecília Rodrigues Barcellos. A família Rodrigues Barcellos foi a que teve maior número de charqueadas, todas localizadas na margem direita do Arroio Pelotas, na sesmaria de Monte Bonito."








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