sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Major Manoel Thomaz Moreira


Por Fernando Osório

"Digno das bençãos da Pátria, do cimo de uma veneranda velhice - no reduzido número dos veteranos do Paraguai - nesta cidade sobrevive o Maj. Manoel Thomaz Moreira a cada um desses bravos que, em 24 de maio de 1866, a Glória ceifou no campo da honra. Testemunha viva de nosso passado, desde o combate de Paissandu, foi dos que, sorrindo ao perigo, respirou na campanha dos 5 anos, a plenos haustos, a atmosfera da epopeia, que é o ambiente dos heróis. Ele soube bater-se e sofrer e no leito da dor curou as cicatrizes com que, em sangue, os brasileiros lavaram a afronta nacional. E desta distância, ainda animados pela sua memória, sentimos tumultuar os fastos maravilhosos da libertadora, porfiosa e fúlgida jornada, em que se impôs ao estrangeiro audacioso o respeito do povo soberano!

Thomaz Moreira era alferes, com Dyonisio Cerqueira e outros tantos heróis, do 4o. Batalhão de Infantaria de Linha, de bravura indicada à mocidade daqueles tempos. Nesse posto, teve a glória de tomar parte no 'gigantesco combate' da 3a. Divisão do bravo Brigadeiro Antonio de Sampaio, a célebre 'divisão encouraçada', que formava à esquerda da linha dos aliados, colocada aí, na véspera, em escalão, ponto onde foi mais áspera e sanguinolenta a peleja, no dizer dos historiadores e testemunhas da cena. 

Combateu o 4o. de Infantaria sob o comando do Ten.Cel. Pereira de Carvalho e direção imediata do intrépido Cel. Oliveira Bello, comandante da 5a. Brigada, que em sua parte oficial louva a conduta desse batalhão, como 'superior a todo o elogio'. Estendidas as forças aliadas em colunas por aquelas coxilhas a fora e nos albores da manhã de 24 de maio, notando-se o maior silêncio das linhas inimigas, o general-em-chefe brasileiro prevenira o exército para estar disposto a receber o ataque, a qualquer hora. Faxinas diversas continuavam os serviços inerentes à vida dos bivaques. E decidido, de véspera, um reconhecimento às 2 horas da tarde sobre a linha inimiga, estavam atentos todos ao sinal de pegar cavalos e que ao meio-dia, deveria partir do quartel-general. Às 11,30 ouviu-se nos ares a detonação de uma grande bomba, sinal convencionado para o ataque geral paraguaio. Não estando todo o exército aliado sobre as armas, ao toque de sentido, do quartel brasileiro, respondem, de quebrada em quebrada, os demais clarins e cornetas. E, céleres, empunham as armas as legiões, tomando posição na primeira linha da ordem de batalha a Divisão de Infantaria Sampaio. E a avalancha inimiga arrojou-se num furor inaudito e simultaneamente por todos os lados, em 4 colunas de 25 mil homens, ocultos pelos matos onde se apoiavam e protegidos pela cerração que cobria ao longe o campo de batalha, trazendo o ataque até as nossas sentinelas. 

Sobre a 3a. Divisão, três colunas (de Barrios a Dias) inopinadamente 'saídas do banhado' trouxeram rapidíssima carga de flanco. De espadas curvas, lanças sem bandeirolas, blusas de baeta vermelha, bonés cônicos de couro, feios cavalos, arreados, eram treze mil e tantos inimigos a que enfrentou e resistiu só, antes de ser socorrida, a divisão 'encouraçada' de quatro mil homens, quando muito!

Avançara Sampaio com seus batalhões em escalões de quadrado, movimento esse apoiado pelo Gal. Andréa com o 3o. de Artilharia a Pé. Áspera e sanguinolenta peleja! Superior a todo elogio, o 4o. Batalhão do Alferes Thomaz Moreira rechaçou, segundo rezam os documentos oficiais, 'por mais de uma vez as fortes colunas paraguaias que o acometeram, causando-lhes consideráveis perdas e levando-as afinal, por meio dos banhados e alto macegal, em completa desordem, até próximo às suas fortificações onde se refugiaram'. Em dado momento chegara toda a divisão a retroceder uns trinta passos, ao peso da força... Ordena Osório 'sustentar fogo' ao malogrado e bravo Sampaio. E este ferido, três vezes, mortalmente. Achando-o fora de combate, o ajudante de Osório dirige-se ao seu imediato, o valente Cel. Jacintho Machado Bittencourt, que lhe disse ter já perdido a maior parte de seus comandantes e fiscais de batalhas... Surge o general-em-chefe brasileiro, que 'a todos dava com presença e palavras, coração' e tudo transformou-se... Quando ele passava, vivavam-no, 'em voz desfalecida, soldados feridos, levantando-se a meio com a auréola da morte dourando-lhes os cabelos empastados de sangue'.

E nessa linha da 3a. Divisão chegou o general a perder o seu belo cavalo de combate, gateado malacara, comprido e fino, arreado à moda do Rio Grande. Levara, porém, consigo a vitória, acudindo com as reservas da Divisão Argollo (4 batalhões) com que se restabeleceu o combate, sacudindo os corações dos soldados com os brados de - Adiante, adiante! Viva o Brasil! E o choque das massas paraguaias desfez-se em muros de fogo e de baionetas, corpo a corpo, em ação as armas brancas... Dos nossos quadrados de infantaria nenhum logrou o inimigo romper!

Foram as brigadas de Oliveira Bello (a que pertencia o Alferes Thomaz Moreira) e de Jacintho Bittencourt as duas que mais perdas sofreram. Ferido o comandante Pereira de Carvalho do 4o. de Infantaria, logo em princípio - substitui-o o Major Fiscal Antonio José dos Passos, que, louvando o procedimento de seus oficiais e soldados, relata em sua parte oficial: 'Estendido em linha de batalha o 4o. Batalhão na frente de um banhado, o inimigo encoberto por um macegal, e resolvido o ataque a baioneta, coloquei-me à frente, atravessamos o mesmo banhado, com o mais feliz êxito nessa resolução, por termos conseguido pôr o inimigo em completa debandada... 145 mortos, feridos e extraviados teve este batalhão'.

No número desses bravos foi o Alferes Thomaz Moreira atingido gravemente por bala de metralha na axila esquerda e levemente, por balaço, na coxa. Do hospital de sangue, provisoriamente instalado no Passo da Pátria, foi o Alferes Moreira levado para Corrientes, onde o medicou o cirurgião militar Dr. Bilac, pai do insigne legionário da defesa nacional poeta Olavo Bilac. Nessa ocasião falecia, em viagem para Montevidéu, o bravo Gal. Sampaio. Apesar de galardoado com diversas condecorações, entre elas a do 'Hábito de Cristo' e a medalha indicativa dos 5 anos que serviu na Guerra do Paraguai, além das conferidas pela Argentina e pelo Uruguai, nenhuma mais bela orna o peito do então Alferes Moreira do que as cicatrizes dos seus próprios ferimentos, eloquente atestado de que, na gloriosa pugna que a alma do Brasil comemora, derramou sangue em salvação da honra nacional.

Entre os bravos veteranos da Guerra do Paraguai que vivem (1917) nesta cidade (nota nossa: Pelotas), logramos colher os nomes destes dignos brasileiros: Maj. Manoel Marques de Souza, Ten. Luiz Esteves Pinto, Cap. Antonio dos Santos Coimbra, Maj. Thomaz Costa, Maj. Sylvino da Silva França, Maj. Antonio Maria de Souza, Maj. Luiz Ferreira França, Cap. Luiz Alipio de Oliveira, Maj. Manoel Thomaz Moreira, Cypriano Francisco de Oliveira, Seraphim Antonio Barbosa, João José de Freitas Machado, José Joaquim da Rocha, Virgilino Gonçalves Detroyat, Christino Michaela, Claudino dos Santos Victoria. "

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O contrabando no Rio Grande do Sul no século XIX - O contrabando de guerra


Fonte: FLORES, Mariana Flores da Cunha Thompson. Crimes de fronteira: a criminalidade na fronteira meridional do Brasil (1845-1889). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014, p. 147-153. (Coleção e-book ANPUH-RS)

"Uma das questões mais problemáticas da falta de pesquisas específicas sobre contrabando e a abundância de referências superficiais - como se tratasse de algo dado, de domínio público, sobre o qual se pode inferir amplamente e, por isso, dispensar pesquisas aprofundadas - está em pensar na existência de 'o contrabando' como um bloco homogêneo. Como se o contrabando realizado desde o período colonial até o final do século XIX tivesse sido uma prática imutável.

Seria inviável pensar que os diferentes contextos não exerceriam influência a fim de modificar a forma, os caminhos, os produtos e os agentes do comércio ilícito. O trabalho de Tiago Luís Gil sobre o contrabando na Província do Rio Grande do Sul no período colonial demonstra várias características que eram próprias daquele momento e que de maneira nenhuma podem ser simplesmente transpostas para servir de modelo de análise para outros contextos.

A primeira que se destaca é em relação aos produtos contrabandeados: as mulas e os couros. Esses eram os produtos que majoritariamente movimentavam as redes ilícitas de comércio, seguidos pelo gado bovino e equino, no período abordado por Gil. Avançando no século XIX, percebe-se que o que movimenta em geral as redes de contrabando são os produtos manufaturados fabricados na Europa. Essa diferença de produto demanda estratégias diferentes das anteriores, além de apontar uma alteração dos envolvidos com o contrabando. Se, no período colonial, encontravam-se no topo da cadeia de interesses, eminentemente, estancieiros engajados no comércio ilícito, no período imperial, os grandes articuladores serão comerciantes de profissão que também poderiam possuir terras e outras inserções econômicas.

Outra diferença marcante entre as duas épocas está na legislação, na medida em que as Ordenações Filipinas, vigentes no período colonial, faziam distinção entre a importação ou exportação de mercadorias permitidas que não pagaram as devidas taxas alfandegárias. A primeira era considerada o 'contrabando' propriamente dito, e a segunda era chamada de 'descaminho'. Por exemplo, a importação ou exportação de mulas no período colonial era proibida, não havendo meios, portanto, de fazê-la a não ser por contrabando. Já no período imperial, desde o Código Criminal de 1830, não há essa diferenciação, existindo apenas a categoria criminal de contrabando, que está reputado pelo artigo 177, no Título IV: 'Dos crimes contra o thesouro publico e propriedade publica', Capítulo III da seguinte forma: 'Importar ou exportar gêneros ou mercadorias prohibidas, ou não pagar os direitos dos que são permittidos, na sua importação ou exportação'.

O diferente contexto político e social do período colonial - quando se viam as fronteiras como espaços de conquista e expansão permanente e quando as questões nacionais não tinham o peso que o século XIX irá lhes atribuir - decerto incidiu na percepção que aqueles contemporâneos tinham do comércio ilícito. Nesse sentido, Tiago Gil afirma que os contrabandistas do século XVIII, embora tivessem noção da ilegalidade de seu 'ofício', dispunham de várias maneiras legais de interpretar seu negócio usufruindo de amplos meios para legitimar sua ação, havendo inclusive pareceres oficiais favoráveis à legalização do contrabando, como o caso do letrado Antero José Ferreira de Brito, que fazia uma defesa aberta a tal prática. Baseado em justificativas pautadas na legislação, advogava que o contrabando de mulas não poderia ser considerado crime a rigor.

Da mesma forma, para o contexto colonial hispano-americano no Prata, Zacarias Moutokias refere que aquele contrabando nada tinha de clandestino, mas que os comerciantes se utilizavam das contradições existentes na legislação, considerando que se tratava de um contexto legislativo em que o particular se sobrepunha ao geral, para legitimar sua prática. Consequentemente, aquilo que faziam não devia ser considerado necessariamente uma transgressão.

É possível que essa percepção menos carregada de conotação criminal esteja relacionada à afirmação que Tiago Gil refere a respeito de que os contrabandistas contavam, em boa medida, com a proteção e tolerância das autoridades, como concessões que a Coroa fazia aos bandos armados que empreendiam o contrabando em troca da guarnição de seus territórios.

De outra parte, no contexto imperial com o qual trabalhamos, embora apareçam com frequência casos em que autoridades estão envolvidas com as práticas de contrabando, de forma alguma podemos pensar nesses envolvimentos como 'políticas de Estado'. O contrabando era amplamente condenado pelo poder central, que tentava combatê-lo, embora falhasse muitas vezes nessa empreitada por serem imponderáveis as alianças que os indivíduos enviados pela burocracia de estado estabeleciam com as redes de poder locais na fronteira.

(...)

Em 1848, uma grave seca atingiu a fronteira oeste do Rio Grande do Sul e se fez sentir na baixa do leito dos rios que serviam para navegação comercial. O inspetor Estanislau José de Freitas, inspetor da Alfândega em 1848, afirmou 'que o Rio com a seca fez paralisar tanto a importação como a exportação'. Por outro lado, a autora Lília Medrano assinala que, geralmente, entre abril e novembro, o Rio Uruguai tinha seu período de cheia, o que aumentava o volume do comércio, já que a produção do Alto Uruguai vinculava-se a essa rota vinda do Rio da Prata. Além disso, quando havia enchente, cerca de 40 dias por ano, o rio possibilitava a passagem de grandes embarcações de 40 a 60 toneladas (quando o comum eram as de até 14 toneladas), incrementando sensivelmente o comércio nesse período.

Da mesma forma, em 1872, o porto de Montevidéu se fechou para os navios de procedência brasileira devido a uma epidemia de febre amarela. Segundo o cônsul do Brasil em Montevidéu, tratava-se de uma medida exagerada que escondia interesses políticos, já que queria ressaltar a insalubridade do Brasil para desviar as levas de imigrantes europeus que chegavam naquele momento. De qualquer maneira, independentemente dos reais motivos, ocorreu que 'essa medida se refletiu de maneira sensível nos portos das margens dos rios Paraná e Uruguai, tendo também despertado a indignação da praça mercantil de Montevidéu.

Sem a pretensão de esgotar todas as conjunturas que puderam de alguma maneira ter influenciado na dinâmica do contrabando, apontaremos alguns eventos que claramente demonstram conexões com a alteração do comércio, lícito ou ilícito, e que evidenciam a necessidade de, sobretudo em um espaço de fronteira, localizar os contextos em que determinadas ocorrências se dão.

Nesse sentido, os contextos declarados de guerra são muito significativos, já que perpassam boa parte do século XIX. Na obra citada de Guilhermino Cesar, o autor refere claramente a existência do 'contrabando de guerra' quando a prática visava à manutenção das tropas e ao prejuízo do poder de guerra do inimigo. (...)

(...)

Das 45 evidências de passagem de contrabando entre 1845 e 1889 de que se dispõe, cinco delas ocorreram em períodos de guerras declaradas: uma em 1845, enquanto a Revolução Farroupilha ainda estava em curso, uma em 1852, quando a campanha imperial contra Rosas não havia sido concluída, e três ao longo da Guerra do Paraguai, respectivamente nos anos de 1864, 1865 e 1867. O interessante, no entanto, é que nenhuma apresenta indício de 'contrabando de guerra', ou seja, não têm conexão com a guerra que ocorre paralelamente e, da mesma forma paralela, evidenciam que se mantinham em funcionamento as redes estabelecidas de comércio lícito e ilícito que davam conta do abastecimento cotidiano das comunidades.

A apreensão de 1845 é de um contrabando de 840 reses, do qual não foi possível descobrir o responsável, e que, segundo o ofício do coletor Antonio Caetano Damázio ao Barão de Caxias, era um tipo de ocorrência frequente que necessitava de medidas enérgicas em relação aos responsáveis a fim de que servissem de exemplo para os demais e fosse possível colocar fim a tal prática. Os contrabandos apreendidos em 1852, 1864 e 1865 são de fazendas introduzidas na província; e o de 1867 corresponde a um carregamento de erva-mate que estava sendo levado para o Estado Oriental.

Inusitadamente, os únicos efeitos produzidos pelos contextos de guerra na prática cotidiana do contrabando foram encontrados no processo mencionado de 1864, embora a implicação não tenha sido na prática em si, mas no andamento do processo; e em outro processo de 1871, não contemplado nos períodos de guerras explícitas, mas inserido no contexto já referido de conflito permanente entre blancos e colorados no Estado Oriental.

Na madrugada de 27 de novembro de 1864, a grande apreensão de contrabando feita nas mercadorias dos irmãos João e José Comas deu início ao processo mais longo de contrabando de que dispomos, tendo sido julgado em última instância pelo Tribunal de Relação em 1879. No decorrer desse período, entre sentenças e apelações, o processo foi suspenso em função da invasão das tropas paraguaias em Uruguaiana em 5 de agosto de 1865. Com a tomada da cidade, todo e qualquer procedimento burocrático ficou interrompido, assim como os demais processos que também corriam naquele momento. No caso dessa apreensão de contrabando, as investigações foram comprometidas porque, segundo o ofício do escrivão Joaquim C. de Siqueira ao juiz suplente Florentino José de Abreu, não foram executadas a inquirição da testemunha Manoel Fermiano do Prado, marine da alfândega, nem as prisões de Maneco Farrapo e Florêncio. Além disso, os indiciados Modesto Oliveira e Manoel Alegre, que já se encontravam presos, foram soltos durante a invasão, bem como os demais presos.

No que se refere a 'contrabando de guerra', portanto, o único caso encontrado foi o de uma apreensão de armamentos e outros artigos de guerra, feita na casa de Joaquina Baptista, agregada de Joaquim Soares Trindade, em 1871. Pelo que se depreende das diferentes versões apresentadas, as armas haviam sido depositadas ali a pedido do Coronel Fideles, membro do partido colorado, em demonstração clara de colaboração política através da fronteira. Contudo, como o esconderijo acabou sendo descoberto pelas forças blancas, que invadiram e cercaram a casa, a movimentação chamou a atenção do coronel José Ferreira da Silva Júnior, comandante da fronteira de Quaraí e Livramento, que tomou conhecimento do contrabando e reportou ao juiz municipal João da Cunha Pereira Beltrão, para que tomasse as medidas cabíveis. Os réus acabaram absolvidos pelo mesmo juiz por falta de provas."



domingo, 17 de setembro de 2017

José Cypriano Nunes Vieira


Por Fernando Osório

"Digno é o nosso morto de transpor aquêle templo grego, levantado ao deus da Medicina, e em cujo tôpo se lia: 'Aqui só terão entrada as almas puras!' Foi assim com essas palavras que o autor dêste ensaio encerrou sincera homenagem à memória do cultor de altruísmo que foi o Dr. Nunes Vieira, em poliantéia do 'Diário Popular' salientando que êle deixara a vida em 'pedaços repartida'. São assim os homens fortes e retos; fazem rebentar soluços na angústia da tristeza e da saudade. Inspiradas as suas obras na sabedoria do Bem, era-lhe a armadura feita de bravura moral. A peregrinos dotes médicos fusionava a vastidão de sua alma, o vigor de uma clara mentalidade, de uma sensatíssima inteligência, de um ânimo honesto e generoso, capaz de lembrar o dos paladinos antigos, pela suma excelência de uma espartana têmpera de caráter...

Nasceu a 10 de janeiro de 1857 no município de Bagé. Era filho do saudoso patrício Sr. José Bonifácio Vieira. Casado em primeiras núpcias com D. Conceição Nunes Vieira e em segundas núpcias com D. Alice Alves Vieira. Formou-se pela Faculdade do Rio em 1883. Foi eleito médico da Santa Casa, logo após o falecimento do Barão de Itapitocaí, ao qual substituiu no serviço de clínica naquele estabelecimento. Como o serviço ali se tornasse cada vez maior, o Dr. Nunes chamou dois colegas, depois mais quatro e, assim, sucessivamente, até completar o número de 18 médicos, dividindo por êstes seus honorários de 400$ mensais. Mais tarde, fêz com seus colegas desistência dos honorários, prestando serviços gratuitos até hoje à Santa Casa.

Fundador da Liga da Infância contra a difteria. Foi delegado de higiene em Pelotas. Diretor da Escola de Agronomia. Fundador e primeiro presidente da Agrícola Pastorial de Pelotas, o mais antigo núcleo , no gênero, do Rio Grande do Sul. Exerceu a presidência do Asilo de S. Benedito, sendo sócio benfeitor dessa instituição de caridade. Prestou excelentes serviços à Biblioteca Pública. Membro correspondente da Sociedade Brasileira de Animais à Agricultura, em Paris.

O seu desaparecimento, a 7 de setembro de 1917, acarretou as maiores demonstrações de pesar e de saudade por aquêle que exalçou e nobilitou, como poucos, a profissão, consolando corações, animando aflitos, estendendo, modesta e abnegada a mão dadivosa, rica de afeições e de consolações, a todos quantos se lhe acercavam nos transes mais dolorosos e mais tristes."

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A Bacia do Rio da Prata


Vídeo explicativo sobre a Bacia do Rio da Prata, com linguagem muito acessível e bastante clareza sobre a importância econômica desta bacia hidrográfica. Disponível no ótimo canal BláBláLogia no YouTube. Vale a pena conferir!

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

IHGPel promove palestra "A música gaúcha através dos tempos"


O IHGPel - Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas - promove em sua sede, Praça Rio Branco número 6 (anexo à antiga Estação Ferroviária de Pelotas), uma palestra com o tema "A música gaúcha através dos tempos", nesta sexta-feira, 15 de setembro, a partir das 16 horas. Os palestrantes serão o cantor nativista Fabiano Bacchieri e o professor do curso de Bacharelado em Música da UFPel Márcio de Souza. Haverá distribuição gratuita de erva-mate e água quente. O evento é alusivo às comemorações da Semana Farroupilha 2017.A entrada é franca!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A estância no Rio Grande do Sul

Fonte: MACEDO, Francisco Riopardense de. Arquitetura luso-brasileira. In: WEIMER, Günther (org.). A arquitetura no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987, p. 76-78.

"(...) Estância, era a instalação rural dedicada à pecuária onde vivia a família do grande proprietário de terra, seus escravos e alguns trabalhadores livres. A apropriação de grandes áreas, feitas pelo sistema de concessão de sesmarias aos que tivessem reunido ponderável quantidade de gado alçado, criou verdadeiros feudos que tiveram efetiva importância na conservação do território para a coroa portuguesa, o que, afinal, era o verdadeiro sentido de tais concessões.

Grande parte destas estâncias se constituíram, até a metade do século passado, pela soma de sesmarias pedidas e concedidas a vários membros de uma mesma família. Algumas delas compreendiam dois ou três municípios atuais, reunindo milhares de cabeças de gado.

Sendo, pois, muito grande a distância entre elas e poucas as cidades que pontilhavam a região o movimento de escravos e livres em cada uma deveria ser muito grande para garantir certa autonomia produtiva, um auto-abastecimento. Para tanto, cada uma possuía, no mínimo, as seguintes instalações:
- sobrado, residência da família
- capela
- atafona, engenho de farinha de mandioca
- tulha, depósito de grãos e verduras
- casa do charque
- pomar
- jardim
- depósito geral, máquinas e ferramentas
- área de serviços gerais e circulação
- senzala.

Todos estes prédios, alguns com mais importância numa do que em outra estância, foram constantes naquelas instalações rurais, pois estavam relacionados não só com o abastecimento como a elaboração de produtos que, em maior ou menor grau, viriam a se constituir em mercadorias. Um deles, era a atafona, primeira instalação industrial para o fabrico da farinha e derivados. Nela se fabricava o polvilho para roscas e para engomar golas, rendas e punhos de camisa. Com a farinha era feito o pirão para o churrasco de charque, a massa curativa para emplastro e o grude comum usado como adesivo. Outra instalação importante foi a casa de charque, necessária para prolongar a duração da carne que serviria para o consumo entre duas carneações, para o comércio próximo e para a alimentação de tropeiros nas longas viagens de transporte de gado. Uma terceira instalação, a senzala, era raramente citada nos documentos por ser de construção modesta e pouco durável, mas que em algumas estâncias tiveram posição e resistência tais que até hoje encontramos seus vestígios. As estâncias maiores dispunham, ainda, de uma capela separada dos outros blocos, consagrada formalmente pelo vigário mais próximo e cuidada pela família, que nela assistia aos ofícios e recebia os sacramentos.

Entre estes blocos e os muros que os ligavam, havia um conjunto de áreas abertas que se constituíram para finalidades diversas. São mais frequentes: o pátio de serviço, que relacionava a senzala com a atafona; o pátio íntimo, com seu pomar e o pequeno jardim, ao lado da casa e próximo à fachada. Esta disposição dos pátios sofreu pequenas variações de uma para outra estância e se compreende que assim fosse em virtude da maior ou menor importância das duas instalações básicas: a atafona e a casa do charque, as quais solicitariam circulações diferentes."

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Alberto Vieira Braga


Por M.S. Gomes de Freitas

"O ilustre pelotense nasceu a 29 de dezembro de 1866 e era filho do Dr. Francisco Vieira Braga, advogado, e de D. Cecilia Ribas Braga. Formou-se em Engenharia na Escola de Ouro Prêto, então dirigida pelo douto Gorceix, com quem contraiu estreita amizade. Após, seguiu para a Amazônia e, em Manaus, consorciou-se com distintíssima jovem, pertencente a ilustre família, e que se finou prematuramente. Depois dêsse golpe rude, dedicou tôda a sua afeição ao seu único filhinho. 

Nunca sopitou os seus entusiasmos por aquela feraz região, pelos rios copiosos que a irrigam, pelas florestas majestosas da terra de Eduardo Ribeiro, cognominado o Pensador, que o distinguiu, quando Presidente do Estado do Amazonas, com o cargo de Secretário da Agricultura e Colonização, alta prova da merecida confiança em seus talentos. Sôbre a Amazônia publicou vários artigos substanciais no Almanaque Literário e Estatístico do Sr. Alfredo Rodrigues. 

Vindo para o Sul, em procura do seio amantíssimo da família, aqui consagrou grande parte do seu tempo em estudar a vida dos cientistas eméritos, dos que têm procurado conhecer de perto as estupendas riquezas de nossa pátria. Lund, em honra do qual existe em Copenhague um magnífico museu, feito quase todo de fósseis que daqui enviara, mereceu do malogrado patrício uma pequena, porém excelente biografia, inserta no Almanaque Popular Brasileiro, organizado pelo Sr. Alberto Rodrigues, que privava intimamente com o ilustre morto. Na mesma publicação estampou mais dois artigos, nos anos de 1903 e 1904, em que rendia alevantada homenagem às personalidades de Orville Derby, Emilio Augusto Goeldi, Hermann von Ihering, Carlos Hartt, Henrique Gorceix e Luiz Cruls, apontando os seus trabalhos mais notáveis aos estudiosos. Sôbre Draenert, Hussack, Theodoro Sampaio, Florence e outros, falava continuamente, sem descanso.

A sua individualidade pôs-se em brilhante destaque na conferência que proferiu na Biblioteca Pública Pelotense, onde revelou-se possuidor de um cabedal literário tão vasto, de que ninguém o suporia capaz na sua modéstia sem par. Dessa conferência, que versou sôbre o movimento científico no Estado, recebeu êle os mais calorosos e sinceros emboras, partidos de homens competentes, patrícios e estrangeiros. 

Esquivo do ruído, vivendo arredado do grande mundo, comprazia-se em conversar os livros no remanso de seu gabinete, onde compulsava autores, coligia dados e colhia preciosos ensinamentos. Foi sócio correspondente da Sociedade de Meteorologia e Física do Globo, de Bruxelas, da Sociedade Astronômica, de Paris, e da de Geografia, do Rio de Janeiro. O seu espírito não se furtava aos encantos superiores da poesia no que ela tem de elevado e nobre. Ultimamente se embevecia na leitura dos sonetos de Francisca Julia da Silva. Faleceu, a 2 de julho de 1904."

domingo, 10 de setembro de 2017

A língua alemã falada no Rio Grande do Sul


"O Rio Grande do Sul possuía, já antes da chegada dos primeiros imigrantes alemães, uma tradição política como marca de fronteira, uma sociedade constituída, cuja célula era a estância, uma economia na base da pecuária e uma tradição linguística portuguesa.

No dia 25 de julho de 1824, no passo de São Leopoldo, desembarcaram os primeiros alemães. No momento de sua chegada a Porto Alegre, tinham sido recebidos pelo Presidente da Província e depois encaminhados ao lugar de destino que, daí em diante, seria a sua nova pátria e a pátria de seus filhos.

Entre os bens culturais, os imigrantes trouxeram consigo a sua língua, não apenas a forma culta mas, principalmente, os vários dialetos regionais.

Como, nesses 150 anos, vieram para o Rio Grande do Sul imigrantes de todas as regiões da Alemanha, mas também da Áustria, Suíça e Alsácia, estão representados no Estado praticamente todos os dialetos alemães. Contudo, os imigrantes provenientes das margens do Mosela e do Reno, isto é, do Hunsrück e do Palatinado, vieram em número maior. E seu dialeto, entre eles chamado de 'Hunsbucklisch', é o mais propagado dos dialetos alemães falados no Estado. Outros grupos importantes, com os respectivos dialetos, são os pomeranos, os vestfalianos e os imigrantes oriundos de Oldenburg, da Suábia, da Baviera e grupos de língua alemã da Rússia.

Chegados aqui, tiveram de adotar novos sistemas de trabalho e cultivo. Foram obrigados a refazer as suas experiências anteriores, o que implica numa reelaboração da cultura material. O sistema a que estavam acostumados teve de sofrer modificações: o novo meio bio-geográfico, as primeiras e, às vezes, amargas experiências, as limitações a que estavam sujeitos pelo isolamento, levaram-nos a uma nova análise das estruturas herdadas, das ideias que faziam das coisas, de seus significados e valores.

E nesta situação também se encontrava a língua alemã. De maneira nenhuma pode subtrair-se à interferência do português, pois seu léxico não dispunha de palavras para encher esta lacuna, causada pela diferença estrutural entre a antiga e a nova pátria. Eram eles obrigados a recorrer empréstimos do português, sempre que se tratava de coisas, situações, atividades, para as quais não existiam palavras em sua língua. Uma grande parte de palavras desse tipo certamente já incorporado ao léxico dos imigrantes, já nos primeiros decênios da colonização. Dizem respeito a acidentes naturais, fauna e flora, técnicas e instrumentos agrícolas, etc.

E meio século após o início da colonização, esse fato já chamou a atenção dos estudiosos, como sendo característico do linguajar do colono alemão.

Os contatos e o convívio, paulatinamente intensificados com a população luso-brasileira, fizeram com que os imigrantes e seus filhos assimilassem também usos, costumes, divertimentos e jogos, integrando-se cada vez mais no novo ambiente. O reflexo, nós o encontramos nas novas palavras incorporadas ao léxico.

Mas essa incorporação não se processou aceitando-se a forma portuguesa, pois o comportamento linguístico é condicionado pela estrutura de cada língua. E assim o imigrante alemão transferiu para o português os hábitos linguísticos da sua língua materna.

Comparando o português com o alemão, veremos que boa parte dos fatos linguísticos são semelhantes no nível fonológico. Mas o que acontece quando se trata de fonemas estranhos ao alemão? Não tendo o hábito de produzir tais sons peculiares da língua portuguesa, o colono alemão produz aquele que no sistema fonológico alemão mais se aproxima. O mesmo vale também para o nível morfológico. É impossível apresentar nestas poucas linhas um quadro completo desse processo. O resultado é que, pelo fato das palavras portuguesas serem submetidas à estrutura do alemão, elas mudaram totalmente a sua fisionomia, caracterizando a incorporação e a adaptação de palavras portuguesas o linguajar do colono de origem alemã.

Uma pequena amosta: abóbora = Bower; acolchoado = Kolschoade; afilhado = Afiljade; agência = Aschenz; aguentar = aguentieren; alazão = Lasong; bagagem = Bagasch; banhado = Banjade; bicho = Bisch; braça = Brass; cachaça = Kaschass; chegar = schegen; despachante = Despaschant; facada = Fakade; juiz = Schuihs; etc.

Um outro processo consiste na formação de palavras híbridas, outra característica do falar do colono: Backgamell (gamela); Batateschmier (batata); Farinmühl (farinha); Nussdoss (doce); Puffmilje (milho); Rollfum (fumo); Schakuhinkel (jacu); Teebumb (bomba); etc.

E, por fim, encontramos ainda a criação de palavras novas alemãs que revelam, muitas vezes, grande fantasia criadora, demonstrando não só a vitalidade da língua alemã, como também a crescente Familiaridade com o novo ambiente: Aasvogel (urubu); Blattschneider (formiga cortadeira); Erdlaus (cupim); Käsbaum (umbu); Musterreiter (caixeiro viajante); Negerohrenbaum (timbaúva); Sandfloh (bicho-de-pé); Sandhase (preá); Wasserhuhn (saracura); etc.

Os três processos aqui descritos de forma sumária demonstram a necessidade e a vontade de vencer linguisticamente o novo ambiente.

Mas o processo não está no fim. Verdade é que a língua alemã ainda é bastante falada, principalmente os seus dialetos, tendo estes conservado suas características, de forma bastante pura. Mas hoje fazem parte integrante dos dialetos as palavras portuguesas adaptadas à estrutura do alemão, fato este que, em si, representa um enriquecimento. Daí vem o caráter típico e pitoresco do linguajar do colono alemão.

Contudo desapareceu o antigo isolamento. As comunicações exercem sua influência poderosíssima no sentido de geral conhecimento da língua portuguesa. Estamos na fase do bilinguismo, em que os falantes dominam duas estruturas linguísticas, dependendo o uso de cada uma da situação momentânea e ambiental. Infelizmente, persiste ainda a conceituação depreciativa do dialeto, de forma que pessoas bilingues cultas se envergonham de falar o dialeto, verdadeira célula mater da língua.

Qual será a sorte da língua alemã no Rio Grande do Sul?"

Fonte: BUNSE, Heinrich. O alemão falado no Rio Grande do Sul. In: EDEL LTDA. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hundertfünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung (álbum oficial). Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas EDEL Ltda., 1974, p. 56-57.





sexta-feira, 8 de setembro de 2017

José Pinto Martins

Arroio Pelotas

Por Fernando Osório

"Foi o criador da indústria saladeiril no Rio Grande do Sul. Cabe-lhe a primazia na fundação da hoje bela e adiantada cidade de Pelotas. Em 1780 estabeleceu uma charqueada sobre a margem direita e à cerca de uma légua da foz do Rio das Pelotas; os seus negócios aumentaram de forma a exigir maior instalação e capital: constituiu por isso a firma de José Pinto Martins & Comp. 

A charqueada, promovendo já fixação de gente pelos arredores, foi também exemplo e animação para outros empreendedores, que lançaram-se à exploração da mesma indústria. Do estabelecimento de José Pinto Martins irradiou pois, sem contestação, a fundação. 

Pinto Martins obteve um fácil sorriso da sorte. 'A xarqueada, iniciativa que lhe cabe na criação dessa industria no Brasil meridional, foi uma solução econômica, consentânea com as necessidades da época. . Ele que, no Ceará, aprendera o preparo da carne do sertão, sendo um dos retirantes da calamitosa seca de 1777, a estas plagas aportara em busca de melhor fortuna. E chegou a propósito. As reses que vinham sendo abatidas para consumo próprio eram as que, até então, tinham carne e gordura utilizadas na alimentação humana; outras eram sacrificadas simplesmente para o aproveitamento único dos couros que, por possuírem valor venal, eram estaqueados nos campos, e secos ao sol, para serem exportados. Do gado tudo o mais se perdia. A procura do xarque, desde que ele se apresentasse nos mercados consumidores, tinha de ser grande, não bastando toda a produção possível naquela época para suprir às necessidades de um sempre crescente consumo, em concorrência ao bacalhau, segundo as exigências da introdução de escravos, em ondas avultadas, nas fazendas das Capitanias do norte e centro do País. Insuficiente para satisfazer a procura tornara-se a produção da carne seca do Ceará que fora até então fornecedor único. Aproveitando as circunstâncias que o rodeavam, na terra que o agasalhava, José Pinto Martins montou uma indústria que foi além das suas previsões, frutificando o seu exemplo, promovida a valorização dos gados, que passaram a ter a sua cotação definitiva'.

Até 1824 subsistia ele, ativo, pois, nesse ano ainda, foi Juiz-Provedor da Irmandade do S.S. Sacramento. Faleceu em 1826 com perto de oitenta anos. Gratidão e honra à sua memória!"

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Histórias Curiosas LVI


Fonte: NERY, Sebastião. Folclore político, 3. Rio de Janeiro: Record, 1978, p. 48-49.

"Na noite de 31 de março de 1964, quando as tropas do general Mourão Filho desciam de Juiz de Fora para o Rio, o deputado Leonel Brizola e o prefeito Sereno Chaise, de Porto Alegre, à frente da multidão, ocuparam o Palácio Piratini, sede do governo, e lá instalaram um segundo Poder para tentar resistir.

O governador Ildo Meneghetti, que dormia na residência oficial, ao fundo do Palácio, pegado de surpresa, entra no carro e sai da cidade às pressas. Exausto com as apreensões dos últimos dias, o velho governador acabou adormecendo no automóvel novamente. O motorista tocou em frente. Madrugada alta, chegam a Passo Fundo:

- Sr. Governador, chegamos.

- Chegamos onde?

- Passo Fundo.

- Por que você veio para cá?

- O senhor mandou.

- Não mandei, não.

- Mandou, sim. O senhor me disse, lá no Palácio: 'Passo Fundo!'

- Não. O que eu disse foi: 'Pé no fundo!"

sábado, 2 de setembro de 2017

Cinema Brasileiro para Educadores


Divulgando este importante projeto gratuito e de grande interesse para a comunidade de docentes do ensino básico e comunidade em geral:

Ocorre em Pelotas de 11 a 15 de setembro de 2017 o projeto Cinema Brasileiro para Educadores, que busca sensibilizar profissionais das escolas públicas da cidade para trabalhar o cinema nacional em sala de aula. O projeto é uma iniciativa da produtora Campos Neutrais, em parceria com a produtora Moviola Filmes, o Cine UFPel e o Sesc. O financiamento é do Pro-cultura Pelotas.


O evento será realizado no Cine UFPel e no Mercado Público de Pelotas. As atividades priorizam educadores, mas serão abertas à comunidade em geral. De 11 (segunda) a 14 (quinta), das 14h às 18h, ocorrem as sessões comentadas de curtas e longas brasileiros no Cine UFPel. Para os debates, serão convidados educadores, arte-educadores, entre outros profissionais que transitam nas áreas do cinema e da educação. 

Na sexta dia 15, o encerramento será no largo do Mercado Público, às 19h, onde serão exibidos curtas-metragens e um longa-metragem nacionais, para toda a comunidade. A proposta busca apresentar a pluralidade do cinema brasileiro contemporâneo aos profissionais da educação, bem como expandir as possibilidades de usos do cinema dentro e fora da escola.



PROGRAMAÇÃO

SEGUNDA - 11/09/2017 – 14h
Curta: Meu amigo Nietzsche / Fáusto da Silva, 2012.
Longa: Califórnia / Marina Person, 2015.
Debatedores: Cíntia Langie e Rafael Andreazza

TERÇA - 12/09/2017 – 14h
Curta: Maçã / Pedro Paulo de Andrade, 2011.
Longa: Glauco do Brasil /Zeca Brito, 2015.
Debatedores: Helene Sacco e Guilherme da Rosa

QUARTA - 13/09/2017 – 14h
Curta: Marcovaldo / Cíntia Langie e Rafael Andreazza, 2010.
Longa: Cronicamente inviável / Sérgio Bianchi, 2000.
Debatedores: Carla Ávila e Bárbara Cezano

QUINTA - 14/09/2017 – 14h
Curta: A Menina Betina / Tiago Ribeiro, 2017.
Longa: Tarja branca / Cacau Rodhen, 2014.
Debatedores: Lislaine Cansi e José Ricardo Kreutz

SEXTA – 15/09/2017 – 19h
LARGO DO MERCADO PÚBLICO
SESSÃO ESPECIAL DE ENCERRAMENTO

Para mais informações e inscrições, acesse a página do projeto no facebook: https://www.facebook.com/cinemaparaeducadores/ 




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A mentalidade territorial gaúcha


Fonte: VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005, p. 349-350

"Pela fatalidade da sua posição geográfica, as populações pastorais, que constituem o grupo do extremo-sul, estão expostas à eventualidade das invasões estrangeiras.

Elas têm por base geográfica um largo trecho de terra inteiramente desabrigado. Contra as incursões dos forasteiros, não há ali o menor empeço de fronteiras isoladoras. Nem grandes florestas. Nem vastos pantanais intransponíveis. Nem cadeias ingalgáveis de montanhas circundantes. Apenas uma superfície chã, livre, contínua, cortada de rios vadeáveis. Nada mais.

Penetram as hordas platinas o pampa pelas fronteiras interiores; vem do âmago dos campos para as zonas maninhas da costa. De maneira que a sociedade gaúcha é ferida em cheio na sua massa; impelida contra os litorais, é obrigada a uma luta desesperada e heroica em defesa do seu habitat.

Nessa batalha secular pela existência e pela integridade territorial, os gaúchos não agem, porém, nunca sós; encontram sempre o auxílio pronto, constante, infalível, eficaz dos poderes públicos, quer gerais, quer locais. Sem esse auxílio, teriam sido aniquilados pela anarquia platina. É o governo quem os ampara, os resguarda, os blinda, com uma armadura de baionetas, poderosa e invencível. Sobre essa muralha de ferro, quebram-se em vão os vagalhões da desordem argentina, da caudilhagem oriental, da belicosidade paraguaia - o turbilhão platino, na sua brutalidade devastadora.

É sob a pressão dessas circunstâncias excepcionais que se formam e constituem as populações do extremo-sul. Os seus clãs pastorais sentem, sob a ameaça comum, a necessidade da própria solidariedade: e unem-se. O Estado, o governo, a autoridade pública, com a sua poderosa organização marcial, surge, por sua vez, no meio deles como uma dessas necessidades iniludíveis, de cuja satisfação depende a vida ou a morte da coletividade. 

Entre a autoridade e o povo se consolida então uma união íntima e profunda, acabando uma e outro por se fundirem numa só massa organizada, viva e consciente, com o senso do perigo comum, do interesse comum, do destino comum.

Daí, na consciência dos gaúchos, ser a noção dos interesses comuns e da solidariedade social um conceito vivaz, enérgico; carregando na sua composição grande número de elementos sensoriais e efetivos. Igualmente, a noção do valor do poder público, da autoridade pública, do governo político. Este deixa de parecer um puro órgão de opressão e extorsão fiscal, para ser um órgão necessário, vital, imprescindível à integridade e à vida da coletividade. O povo o aceita, o povo o obedece, o povo o reclama; por toda a parte sente a sua ação, o seu valor, a sua previdência: vigiando, prevenindo, fortificando, resguardando, defendendo.

Esse grande fator de solidariedade política, que produz o sincretismo dos clãs pastorais dos pampas e fixa na mentalidade gaúcha a noção do valor e da utilidade do poder público, não tem influência sensível na história das populações do centro-sul."


terça-feira, 29 de agosto de 2017

A Origem das Cores Nacionais do Brasil


Fonte: LUZ, Milton. A história dos símbolos nacionais: a bandeira, o brasão, o selo, o hino. Brasília: Senado Federal, Secretaria Especial de Editoração e Publicações, 1999, 1a. ed., 2005, p. 21-25.

"O VERDE - Do Verde, como cor distintiva de um povo há referências que remontam a mais de dois mil anos. Segundo velhas crônicas, os antigos lusitanos arvoraram uma bandeira quadrada branca, servindo de campo a um dragão verde. O curioso é que esta figura mitológica, vencendo as barreiras do espaço e do tempo, iria aparecer no projeto da nossa primeira Bandeira Nacional, criada por Debret, em 1820. E mais: perduraria até os nossos dias, como emblema regimental dos nossos Dragões da Independência.

Por que o verde fora escolhido pelos lusitanos, uma aguerrida raça de pastores, simples, mas ardorosos amantes da liberdade, os mais forte dentre os mais fortes dos iberos? Seria a lembrança natural da cor dos ramos que por primeiro agitaram como insígnia? Ou dos majestosos carvalhos das encostas da Serra da Estrela, onde o legendário Viriato comandara a heróica resistência de seu povo contra as legiões romanas? O certo é que o verde, desde aqueles tempos ancestrais, lembra as lutas libertárias, as grandes conquistas e, acima de tudo, a esperança e a liberdade.

Na sua agitada guerra contra os mouros, os portugueses adotaram o verde primitivo dos lusos como suas cores nacionais, e este era o matriz da famosa 'Ala dos Namorados', a destemida vanguarda de sua Cruzada. Verde era igualmente o estandarte de Nuno Álvares, arvorado na batalha de Aljubarrota.

Verde seria, muito tempo depois e nestes sertões do Novo Mundo, o pendão do nosso bandeirante Fernão Dias Pais Leme, o Governador das Esmeraldas.

O AMARELO - Desta cor se sabe que passou a figurar, a partir de 1250, no brasão de armas de Portugal, logo depois da conquista do Algarve. Assim, em ouro (amarelo), são os castelos que representavam as fortalezas tomadas aos mouros. O amarelo recorda, ainda, as cores do Reino de Castela, ao qual, por muito tempo. Portugal pertenceu, até a sua independência. É uma esfera armilar de ouro sobre campo azul vem compor as armas do Reino do Brasil.

Em 29 de setembro de 1823, o nosso agente diplomático junto à Corte de Viena descrevera a Metternich a bandeira do novo Império do Brasil. Sobre as suas cores dissera que D. Pedro I escolhera o verde por ser esta a cor da Casa de Bragança; e amarela, 'a Casa de Lorena, de que usa a Família Imperial da Áustria'. A Casa de Bragança procedia de D. Pedro I, antes mesmo do rei, quando ainda simples mestre da Casa de Avis. Aquela Casa reinaria durante 270 anos, desde 1640 até o fim da monarquia portuguesa, em 1910.

O verde é a cor da figura principal do nosso primeiro brasão, as Armas do Estado do Brasil - inspirado na árvore que lhe deu o nome.

O AZUL E O BRANCO - A referência mais antiga sobre estas cores vem de fins do século XI, quando foram adotadas como cores do Condado Portucalense, fundado em 1097. D. Henrique de Borgonha criou, como insígnia, uma bandeira também chamada Bandeira da Fundação: uma cruz esquartelando um campo branco em partes iguais.

São estas mesmas cores que o seu filho, Afonso Henriques, levará à batalha do Ourique, arvoradas na bandeira paterna. Após as primeiras vitórias sobre os mouros, Afonso Henriques lhe modifica o desenho mas mantém as cores, o mesmo azul-e-branco que Luís de Camões defendeu como soldado e exaltou como poeta, 'braços às armas feito, mente às Musas dado'. 

Nos séculos XV e XVI, as naus portuguesas ostentam, ao lado da bandeira oficial, muitas outras de caráter mais restrito: além da bandeira da Ordem de Cristo, a mais importante é a do Comércio Marítimo, que consta de um campo azul com cinco besantes de prata. Besantes são figuras heráldicas que assim se chamam por simularem as 'moedas de Bizâncio', as antigas moedas de ouro e prata. Esta bandeira - a do Comércio Marítimo, ou das Quinas - aparece em um dos primeiros mapas do Brasil, feito em 1534.

O azul entra na história de nossa heráldica por meio de brasões dos nossos capitães feudais. Assim, o blau (azul) é o esmalte das armas de Aires da Cunha, o infortunado donatário do Maranhão (cunhas azuis sobre ouro); e das de Pero de Góis, donatário da capitania de São Tomé (lises azuis sobre prata). Daí por diante, azul-e-branco serão frequentes nos nossos símbolos. Por exemplo: estarão presentes, quase sempre como cores exclusivas, nas bandeiras, insígnias, pavilhões, flâmulas, listel e escudo da Armada do Brasil - estrelas de prata sobre campo blau.

Segundo o Cerimonial da Marinha 'as estrelas usadas nas bandeiras-distintivos e nas bandeiras-insígnias são, sempre, de cinco pontas e seu número não variará com as alterações que venham a ocorrer na divisão política do território nacional."


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Tenente João Salustiano Lyra


Por Fernando Osório

"O impávido e inditoso pelotense Tenente João Salustiano Lyra...

'Tiveste, então, a teu lado, um filho desta cidade adorável, e esse foi o teu prestimoso Tenente João Lyra, ajudante da comissão, cuja memória aqui me deslumbra no reverbero da saudade...'

Proferiu estas palavras o autor do presente ensaio, a 7 de abril de 1922, saudando em nome do Povo de Pelotas ao Gen. Rondon, que respondeu, com impressionante emoção, evocando, com lágrimas nos olhos, a imagem do seu amigo João Salustiano Lyra...

Este pelotense, aos 39 anos, vítima do seu heroísmo, morreu, no dia 3 de abril de 1917, pela ciência, pela Pátria e pela Civilização, ao afrontar o sertão de Mato Grosso, como auxiliar da 'Missão Rondon', o risco das 'corredeiras' impetuosas de um rio. Cumpriu o brilhante soldado os fados de um destino misterioso e nobre! Conduzido pela mão da fatalidade...

O Brasil nele perdeu uma das figuras de esperanças mais fundadas da sua geração, pelo talento, pelo caráter, pelo patriotismo comprovado. Era um espírito privilegiado, cheio de energias, que mais e mais refulgiam, à proporção que se iam desdobrando as facetas primorosas de uma inteligência rara e de uma vontade forte e resoluta. Desde o início do seu curso superior, era João Lyra distinguido pelos mais exigentes professores da nossa Escola Militar. É conhecida a frase de Trompowski, após o seu exame de cálculo integral: 'Há mais de 10 anos, não aparece aqui estudante do seu merecimento'. Era o lisonjeiro prognóstico do provecto mestre confirmado, mais tarde, no campo do próprio magistério, onde veio o Dr. João Lyra a figurar, entre a admiração e a simpatia das novas gerações.

Ele procurou dilatar o vôo de suas aspirações indo buscar, nos mais cultos centros científicos do estrangeiro, o cabedal da técnica moderna, aplicável à arte da sua nobre profissão e aos correlatos problemas da Engenharia. Fez-se, então, especialista em assuntos de eletricidade, aplicada à vasta exploração da indústria, em suas múltiplas modalidades.

Trabalhou, ao lado do Cel. Sisson, na montagem da fábrica de pólvora de Piquete, em S. Paulo. Prestou relevantes serviços à obra dos telégrafos, em companhia de Rondon. Só essa missão bastaria para dar-lhe alto renome, tal o alcance humano da catequese da civilização baseada nos ensinamentos de José Bonifácio. Procedia, aí, João Lyra a estudos topográficos e astronômicos da maior importância, desvendando segredos das florestas virgens, assinalando a posição do regime dos rios, reunindo dados de botânica, geologia e zoologia, palmilhando ermos territórios, jamais pisados pelo homem civilizado. Tal o seu mérito profissional que, mais tarde, ao organizar-se a célebre expedição Roosevelt-Rondon, pelos sertões brasileiros, foi ele destacado para o lugar de astrônomo  - posto em que revelou a sua extraordinária competência - merecendo especiais provas de apreço pessoal e de admiração do notável estadista e explorador americano. Após memorável expedição, em que se realizaram trabalhos geográficos de suma importância, como a determinação das nascentes de um rio até então desconhecido do mundo científico, regressou João Lyra ao Rio de Janeiro, onde professava importante cadeira na Escola Militar. Então veio de novo buscá-lo o Cel. Rondon, seu íntimo amigo, para continuar a auxiliá-lo na comissão de linhas telegráficas.

Foi aí que a morte colheu o inditoso conterrâneo ao afrontar um dos maiores riscos - o das 'corredeiras' impetuosas dos nossos rios interiores - enchendo de luto o coração de Rondon, o impávido bandeirante, que lhe votava especial estima e admiração."


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Universidade italiana oferece curso on-line grátis de Arqueologia


A Sapienza Università de Roma está oferecendo gratuitamente um curso on-line na área de Arqueologia, disponível na plataforma educacional Coursera. O curso vai abordar elementos básicos de arqueologia, além de técnicas de investigação, preservação e divulgação do patrimônio histórico mundial.

O curso une a abordagem teórica da arqueologia com o uso de tecnologia da informação, como procedimentos de digitalização e cópias digitais tridimensionais.

O curso é gratuito, porém para ser aprovado é exigido um aproveitamento mínimo nos testes propostos e o certificado é adquirido mediante o pagamento de uma taxa de US$ 49 (quarenta e nove dólares).

Links:
Para acessar o curso na plataforma Coursera: https://www.coursera.org/learn/preserving-cultural-heritage#
Para conhecer o link da Sapienza Università de Roma: http://www.uniroma1.it/

Fonte da notícia: Catraca Livre


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Painéis no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter

Painel-mosaico confeccionado com insetos e aracnídeos apresentado na Exposição Brasileira-Alemã de 1882, em Porto Alegre, que representa a Fábrica de Cervejas Ritter, de Pelotas. Um detalhe curioso é que a letra "S" na palavra "BRASILEIRA" é representada com um cavalo-marinho.

Painel-mosaico confeccionado com insetos e aracnídeos oferecido à Princesa Isabel, em fevereiro de 1885, por ocasião de sua visita (juntamente com o príncipe-consorte, Conde D'Eu) a Pelotas. O painel representa o brasão de armas do Império do Brasil.

O Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter está situado à Rua Barão de Santa Tecla, 576, centro da cidade de Pelotas. A visitação é gratuita. O museu fica aberto nos dias de semana, das 9 às 16 horas.

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