terça-feira, 21 de novembro de 2017

A Bruxa da Ilha


"Vivia em Florianópolis uma mulher muito bonita. Em toda a ilha de Santa Catarina não havia mulher mais bela. Dona de poderes mágicos e cheia de orgulho, olhava-se no espelho todas as manhãs.

Aquele era um objeto muito especial, que a acompanhava desde criança; era mais que um espelho, era amigo e conselheiro. E tinha mais poder que um amigo, pois era um espelho mágico.

A bela Lucrécia perguntava ao amigo, todas as manhãs, se existia na ilha mulher mais linda do que ela. O espelho respondia que não, e ela ficava feliz. Um dia, porém, a resposta foi diferente:

'O que você ousou dizer?!', perguntou Lucrécia. Ela estava uma fera.

'A verdade', respondeu o espelho.

'Como? Há uma mulher mais bonita do que eu?"

'Infelizmente, sim', disse o espelho.

'E quem é?'

'Cláudia, filha do dono da escola da Joaquina', foi a resposta.

'O quê! Uma pirralha!'

'Ela era pirralha, hoje é uma moça, e muito bonita!', disse o espelho.

'Já chega! Quero conhecê-la', decidiu Lucrécia.

'Acho que está pegando onda na praia, não sei se vai dar para ver', explicou o espelho.

'Não quero saber. Vire-se!', ordenou Lucrécia.

'Veja! Ela está saindo do mar com a prancha...'

'Mas que sem-vergonha! Como ousa me destronar?!'

'Calma, Lucrécia, ela é uma garota; você já teve muitos anos de reinado absoluto.'

'E continuarei a ter! Como se chama mesmo essa metida?'

'Cláudia. É uma boa garota, tem quinze anos.'

Enquanto o espelho falava, Lucrécia andava em círculos pelo quarto. De repente, parou.

'Já sei! Mostre-me onde ela mora', pediu.

'O que vai fazer?', perguntou o espelho.

'Colocá-la fora de combate', disse.

'Nada de violência, dona Lucrécia', alertou o espelho, preocupado.

Ele sabia do que ela era capaz. Ultimamente estava tranquila, casada e feliz, com um marido apaixonado. O espelho até achava que o lado bruxa de Lucrécia tinha se aposentado, mas agora via que estava enganado, e se culpava por isso.

Lucrécia foi até a casa de Cláudia, estacionou o carro e ficou à espera. A garota estava almoçando. Logo depois saiu, para ir à casa de sua amiga Milu. Andava despreocupada pela calçada, quando um morcego pousou no seu pescoço. A garota sacudiu a cabeça, tentando se livrar do bicho, mas não conseguiu. Desesperada, saiu correndo; deu de encontro com uma árvore, bateu a cabeça e desmaiou. Nesse momento, Lucrécia apareceu. Levou o corpo de Cláudia para o carro, pingou umas gotas de sonífero na boca da menina e foi para o sul da ilha. Quando o asfalto terminou, pegou uma trilha de terra. Caminhou um bocado até chegar a uma cabana, no meio do mato.

'Tonho, venha me ajudar!', gritou a bruxa.

Apareceu um velho todo encarquilhado, com as mãos sujas de carvão. Quando viu a menina, deu uma risada, mostrando o único dente que tinha na boca.

'O que aconteceu, dona Lucrécia', perguntou.

'Essa garota tentou me enfrentar, Tonho, e isso eu não posso suportar. Leve-a para o meio do mato e deixa-a lá, bem longe daqui'.

Tonho era tapado, mas não era mau. Procurou um lugar abrigado para deixar a moça. Escolheu um cedro, um dos maiores da ilha, e encostou-a em seu tronco. Satisfeito com a ideia que tivera, voltou para a cabana e esqueceu o assunto: ele cumpria ordens, não as questionava.

Quando viu o velho de volta, Lucrécia deu uma gargalhada. Pegou o espelho na bolsa e perguntou: 'E agora, meu amigo, quem é a mulher mais bela da ilha?'

'Como a moça está fora do circuito, é você'. O espelho sabia que aquela mata era selvagem, e ficou preocupado.

Sentindo-se poderosa, Lucrécia voltou para casa. Estava feliz por ter afastado a concorrente e convidou o marido para comemorar - ela vivia no centro, e não conhecia o preparo físico de uma surfista.

Enquanto o casal tomava vinho, Cláudia acordava - no meio do mato e da noite. Sua primeira reação foi de susto: onde estava? o que tinha acontecido? Mas logo percebeu que não tinha tempo para buscar respostas nem se desesperar; o negócio era pôr a cabeça para pensar. Não ia sair andando no meio da mata, no escuro.

'O melhor que tenho a fazer é subir nesta árvore', disse a si mesma. 'Aqui fico protegida até o dia clarear'.

Trepou no cedro e sentou-se num galho alto. Vieram os morcegos e as corujas, e com eles os ruídos da noite, mas Cláudia ficou firme. Abraçou o cedro e disse que ia vencer aquela prova. Adormeceu no meio da madrugada e só acordou ao amanhecer. Tentava adivinhar que direção seguir, mas não tinha a menor ideia. Então, ouviu uma voz rouca: "Vá na direção norte, você está no extremo sul da ilha'.

A menina olhou para os lados. Não sabia de onde vinha aquela voz, até que percebe que era o cedro falando.

'Está vendo a palmeira aqui atrás? Pois bem, siga nessa direção', disse a árvore.

'Obrigada pela dica, cedro, e pelo abrigo durante a noite', disse Cláudia.

'O caminho é longo. Siga sempre em frente e não pare até sair da floresta'.

Cláudia seguiu o conselho. Depois de andar mais ou menos duas horas, avistou o mar. Chegando à praia, encontrou uma estradinha que contornava o morro e subiu por ela. Estava cansada, tinha sede e fome, mas não se entregou. Quando o sol estava alto, sentou-se à sombra de uma goiabeira e comeu algumas frutas. Retornou o caminho e andou muito até deparar com um ônibus. Contou ao motorista que havia sido sequestrada e disse que queria telefonar para casa.

Enquanto isso, a bruxa dormia. Certa de que a garota estava perdida, não se preocupou mais. Só no outro dia, quando pegou o espelho e fez a pergunta costumeira, tomou um susto com a resposta.

'Quer dizer que aquela safada se safou?', reagiu a bruxa, espantada

O espelho contou o que tinha acontecido.

'Já chega!', concluiu ela. Revoltada e desiludida, Lucrécia decidiu sair de Florianópolis.

'Vou procurar uma ilha mais tradicional, onde a moçada não seja tão atlética. E lá vou desenvolver meus poderes mágicos, que ficaram adormecidos nesses anos todos'.

Fonte: SALERNO, Silvana. Viagem pelo Brasil em 52 histórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 150-153.




sábado, 18 de novembro de 2017

Palestra "Nem sempre sabemos olhar" no IHGPel


O Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas promove na próxima quinta-feira, 23 de Novembro de 2017, a partir das 16 horas, em sua sede, à Praça Rio Branco n. 06 (anexo à antiga Estação Férrea de Pelotas), o evento "Nem sempre sabemos olhar: palestra sobre os simbolismos, atributos e intenções das construções pelotense dos anos oitocentos e novecentos", a cargo da antropóloga e arqueóloga Beatriz Montoito. A palestra traçará um paralelo da História desde Grécia e Roma antigas, revisitando o Renascimento, até a reprodução histórica do traçado urbano e dos elementos clássicos re-significados nas construções públicas, civis, e religiosas do Casco Antigo da arquitetura tradicional de Pelotas.

Para mais informações, visite a página do IHGPel no facebook:https://www.facebook.com/ihgpel/

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Mapa do Capão do Leão em 1980




Mapa do Capão do Leão, ainda na condição de quarto distrito de Pelotas, publicado no ano de 1980 nas páginas de um guia turístico da antiga e extinta ETURPEL (Empresa de Turismo de Pelotas). Há vários detalhes interessantes no mapa que reproduz a configuração urbana das vilas do Capão do Leão e Teodósio - ambas consideradas sedes do antigo quarto distrito. Dentre eles, citamos:

  • Muitas ruas ainda estão nomeadas por números, denotando o fato que receberam os nomes atuais somente após a emancipação do município em 1982.
  • O atual calçadão da Praça João Gomes era uma rua (eu me recordo desta rua até o ano de 1989) que recebia o nome de Corredor da Estação.
  • A rua Jaime Ferreira Cardoso, embora já identificado no mapa, conjuntamente é identificada ainda como Corredor da Pedreira. Bem como a rua Professor Agostinho recebe a alcunha de Corredor da Sub-prefeitura.
  • A própria Sub-prefeitura é localizada no fim da Rua Professor Agostinho, no atual recinto do CTG Tropeiros do Sul. Vale lembrar que, de acordo com nossas informações, a sub-prefeitura já havia sido transferida para a Avenida Narciso Silva em 1976. Por isso, nos faz crer que o mapa tenha sido copiado de um anterior um pouco mais antigo.
  • À direita da Rua Jaime Ferreira Cardoso, existe uma lacuna urbana que somente é interrompida por uma espécie de loteamento de duas grandes ruas paralelas, formando os quarteirões 22 e 23. Trata-se das ruas Bernardino Moreira dos Santos e Francisco Tomé Real. Interessante é que na mesma publicação cita-se a existência de uma Vila Real no Capão do Leão, tal qual conhecemos hoje e que correspondia originalmente a este primitivo loteamento.
  • Uma outra lacuna urbana surge entre a Vila Real e a zona da atual Vila Casaubon. Surge, então, o denominado "Corredor do Cemitério" que é a atual Rua Manoel Vasquez Villa e um aglomerado de quarteirões até a antiga linha férrea que descia do Cerro do Estado e fazia junção à linha férrea Rio Grande-Cacequi. 
  • A zona do Teodósio possui poucas ruas.
  • A rua Othon Ribeiro é identificada no mapa já com esta denominação, mas com a observação "Corredor divisa Teodósio/C. do Leão", indicando assim que naquela época já se colocava este logradouro como limite das duas localidades.
  • A rua Teófilo Torres ainda não se juntava à rua Idílio Vitória, assim como a Idílio Vitória não se dirigia ainda ao encontro da rua Thomaz Aquini. Na esquina com a rua João Rouget Peres, a Idílio Vitória findava.
  • Não havia a rua Joaquim Carpter e a rua Joana Conde Pucci não tinha uma das saídas, somente com a Avenida Narciso Silva.
Outras curiosidades encontradas na publicação:
  • Embora não estejam publicados mapas das zonas do Parque Fragata e Jardim América, no índice de logradouros do mesmo guia foi possível aventar que existia ruas numeradas no bairro Jardim América até o número 86, bem como o Parque Fragata (que já é citado nesta época) até o número 09. 
  • As linhas de ônibus urbanos e rurais que atendiam a região eram: a do bairro Jardim América, que partia do chamado "abrigo do centro" em Pelotas, que era atendida pela TURF (Empresa de Transportes Urbanos Rurais do Fragata); a do Capão do Leão, que partia da chamada "Primeira Galeria" (o mesmo lugar atual) e já era atendida pelas empresas Santa Silvana e Bosenbecker.; a do Arroio Moreia (passava por parte do atual território do município), que partia da esquina das ruas Lobo da Costa e Mal. Deodoro, e era atendida pela empresa Kopereck; a do Passo das Pedras, que partia no horário das 6h30min da antiga rodoviária na rua Gal. Osório e nos horários das 11h30min e 17h no ponto defronte ao Hotel Majestique, atendida pela empresa São Vendelino; a da Coxilha Florida (para quem não sabe é uma localidade no interior do município de Capão do Leão), que partia da antiga rodoviária na rua Gal. Osório, também atendida pela empresa São Vendelino. Nota: particularmente eu me recordo desta empresa São Vendelino passando pela avenida Narciso Silva até aproximadamente 1991.
  • As feiras livres na Vila do Capão do Leão deveriam acontecer às terças-feiras, a partir das 9 horas da manhã, no Corredor da Estação Férrea.


Habitações típicas do Rio Grande do Sul

Rancho de torrão em Jaguarão/RS.
Imagem extraída do link original: https://www.flickr.com/photos/bombeador/259446392

"Francisco de Paula Cidade nos informa que 'a ramada deve ter sido o recurso espontâneo, utilizado pelos que primeiro entraram no Rio Grande'. Pela escassa proteção oferecida, teria a ramada primitiva 'evoluído para o rancho de capim'.

Atualmente, preferem utilizar a ramada somente para sombra durante o verão. Rareiam as que servem de cozinha improvisada, junto aos ranchos. A ramada comum é formada por quatro estacas, sustentando uma armação ou coberta, em plano inclinado. Faz-se a cobertura, aproveitando ramos ou palmas de jerivá.

Ranchos de capim - Apesar de já escasseando, ainda se verifica este tipo de habitação. Os beirados do teto (de duas águas) de armação de taquara com trama de capim atingem o solo.

Suas denominações diferem em algumas regiões: 'bendito' na Campanha e 'xicaca' em São Gabriel.

No litoral, aparece os de feitio semelhante, porém utilizando tiririca (esteiras), abrigando pescadores de camarão. No Planalto, protege vendedores de pinhão, havendo uma adaptação com cobertura de plástico.

Ranchos de torrão - Este tipo de construção, geralmente de duas águas, encontra-se em vários pontos do Estado. Há, igualmente, os de meia-água (uma só caída de telhado), mais favorável para proteger dos ventos das planícies. Retira-se o torrão com pá, no comprimento de um palmo e meio, por um de largura e um de profundidade. As paredes são levantadas com os torrões, utilizando-se armação de troncos nos cantos ou esquinas para a porta e janela. Constrói-se o teto de madeira que repousa sobre as paredes do torrão. Faz-se a cobertura de quincha de santa-fé (Panicum riculare, Trin) ou de outros capins e, o chão, de terra batida, aproveitando a terra dos cupins (casa de térmitas).

Rancho de leivas - Denominação dada, na região sul, a ranchos feitos de leiva, construindo-se de forma idêntica aos de torrão; difere porém deste, por ser a leiva mais fina, conservando-se a cobertura de capim (Santa Vitória do Palmar).

Rancho de leivas em Arroio Grande
Imagem extraída do link original: https://www.flickr.com/photos/pedivela/366249433

Rancho de palha - Encontrando no litoral, especialmente, nos fundos das casas, serve não só como moradia, também para guardar objetos em desuso. Os pescadores colocam, neste tipo de rancho, seus apetrechos de pesca. Muitas famílias têm ali, seu fogão para a fritura de peixes, evitando, assim, o cheiro e a fumaça no interior da casa.

Para sua construção, fazem, em primeiro lugar, armação com varas grossas: esteios, linhas, etc. Os esteios são fincados no chão. As paredes ou lados do rancho, feitos de esteiras de tiririca (Carex uruguaianensis) ou de junco, são colocadas de baixo para cima, tanto nas paredes, como na cobertura. A fim de prender as franjas de palha, coloca-se sobre elas, uma taquara nua. A amarração das esteiras é feita com arames, ou pregada.

Há outros ranchos feitos de juncos (paredes) e cobertos com espadana (tipo de palha). (Mostardas).

Rancho barreado - Usado em várias regiões do Estado. Faz-se, nas Missões, com armações de estacas fincadas no chão. Sobre a armação, tramam-se taquaras lascadas. Há quem trame, também na tela de taquara, ramos. A seguir, barreiam. Ao barro socado, juntam capim picado ou estrume de gado, para obter melhor liga. O barreado é feito, tanto pelo lado interno, como externo nas paredes. Não costumam pintar a cal, como ocorre nos estados do Nordeste. A cobertura é feita de quincha de santa-fé, capim barbacena e outros capins.

Na fronteira com o Uruguai, encontram-se ranchos mistos: barreados até certa altura e, daí para cima, de esteira de palha.

Rancho de xaxim - Verificam-se ranchos de xaxim na região serrana (São Francisco de Paula).

Casas de madeira - Tipo de casa comum no Rio Grande do Sul, é encontrada nos mais variados feitios, tanto coberta com telha de barro, de zinco, como telhas de madeira ou com cobertura de palha ou capim.

Na região do Alto Uruguai, fazem-se casas de lascas de madeira e também de costaneira. Confeccionam-se alguns telhados com tábuas na horizontal, isto é, em escamas. (Cel. Bicaco, Redentora).

Enxaimel - Não só nas zonas de colonização alemã, verifica-se o tipo enxaimel. Esta construção de armação de madeira com tijolos ou pedras, expostas para levantamento da parede, é bastante generalizada nas Missões, onde tais construções, são bem mais recentes que as de zona colonial alemã. Em Agudos, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, apenas o madeiramento aparece exposto. (Enxaimel: armação para bolo).

Casa ou rancho de pedra - Nas Missões - São Luiz Gonzaga, São Borja, São Nicolau, Santo Antônio das Missões, Itaqui, as casas de pedra são comuns. Superpõem-se as pedras, mesmo irregulares, com barro. Os telhados são de meia-água, com a frente mais alta. Este tipo de telhado se observa em quase toda a fronteira castelhana. Algumas, mais toscas, apresentam como abertura para ventilação, triângulos em altura superior a das janelas.

Nas regiões onde há pedreiras de laje, este material é bastante aproveitado na construção de casas, mas com argamassa de cal, areia e cimento.

Casa de lata - Aparecem na fronteira com o Uruguai (Quaraí, Santana) e em outros pontos como: Júlio de Castilhos, Tupanciretã. Algumas são feitas de latas de azeite abertas, aproveitando apenas as laterais, reduzidas as chapas, que se interligam por rebatimento. Em Quaraí, encontram-se as construídas por grandes chapas.

Casas da região de colonização italiana - Faziam-se as casas (mais antigas da região italiana) de pedra, atualmente, substituída pela madeira. Contam com dois andares. A parte térrea, comumente de pedra ou tijolos é denominada 'lagar'. Os lavradores, que fabricam seu próprio vinho, tem aí, sua cantina. A parte superior da casa, geralmente de madeira, não oferece muita beleza. Os telhados, de duas águas, são cobertos de folhas de zinco, telhas de barro ou tabuinha.

Os beirais dos telhados apresentam ornatos de madeira recortada (lambrequins).


Casa italiana em Farroupilha/RS
Imagem extraída do link original: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1827134 


Casa de passagem - Em algumas localidades (colônia italiana), os lavradores que moram distantes do núcleo (praça, igreja, comércio) têm sua casa de passagem, (ficam lá apenas no domingo). Pequena, oferece apenas o estritamente necessário: cozinha e uma saleta com catres para descanso.

Casa 'bolante' ou 'volante' - Tipo de casa, encontrada no litoral, que pode ser deslocada facilmente. Em São José do Norte, há 'volantas' sobre rodas. Em Santa Vitória do Palmar e Mostardas, 'volanta' com arames grossos ou correntes para ser puxada com o auxílio de rolos ou troncos.

O puxado - É de grande importância este aumento ao telhado da casa. Caída de meia-água, onde geralmente funciona a cozinha. Há puxados feitos dos mais diversos materiais e em quase todas as regiões do Estado.

A tenda - Tipo de puxado que se liga ao comércio de estrada ou rua, onde o zelador ou proprietário pernoita, contando com cozinha rudimentar.

Maloca - Nas periferias da cidade, os arranchamentos ou malocas demonstram a criatividade e o aproveitamento dos mais variados materiais. Mesmo nesse tipo de moradia, que indica a carência de bens materiais de seu morador, podem ser observadas latas com flores e folhagens penduradas pelas paredes externas, fato comum em todo o Estado.

Casa sobre estacas - Este tipo de edificação palafítica é encontrado, tanto no litoral, como em áreas ribeirinhas.

Vila (casa com nome) - Denominação de casa comum no Rio Grande do Sul. Além de fazendas, granjas e chácaras apresentarem sua denominação em placas nos portões, aparecem casas com os mais diversos nomes, especialmente na área litorânea.

Galpão - O galpão gaúcho merece um destaque especial. Podemos dizer que ele centraliza-se as atividades do homem rural. Aí, dormem os rapazes solteiros da casa e a peonada (em repartição). É o local onde se guardam os arreios, laços, marcas, enfim, todo o material campeiro. No galpão, fica o fogo de chão, fogo que não dorme. O 'pai do fogo', tronco queimado dias a fio, é substituído, quando enfraquece. Esquentam-se neste fogo chaleira ou cambona para o mate. Quando a peonada é muita, nele se faz a primeira refeição matutina (para ela). No inverno, é o local onde se 'quenta fogo'. A vida pecuarista no Rio Grande sempre girou em torno dele. A importância deste fogo de chão, foi tanta, em determinada época, que se pagava imposto de fogão, denominação dada, também, ao fogo de chão.

O tamanho do galpão é variável. A parte do fogo de chão, geralmente, tem apenas três paredes: a outra, inteiramente aberta, dá para fora. Os galpões, comumente, são feitos de madeira bruta, podendo, também, ser confeccionados de tijolos, pedra ou de barro batido. Utiliza-se, para a cobertura, quincha de capim, tabuinha, telha de barro ou tábuas (escamas). É de construção rudimentar, (esteios, linhas, tesouras são comumente de troncos rústicos). As paredes internas, quando as possuem, vão só até uma altura, não tem forro. Alguns apresentam quartos assoalhados. Tem porta interna para os dormitórios; para as outras repartições, só aberturas. As janelas comumente se abrem para fora, elevadas com estacas ou são de correr.

A parte do fogo é sempre de chão batido. Muitos galpões alicerçam, sobre o baldrame, madeira grossa onde pregam-se as tábuas da parede.

Telhados, aberturas e plantas - Duas águas é o telhado com duas inclinações: meia-água, apenas uma inclinação. O de quatro águas, chama-se redondo na região do litoral. Beira-chão, o telhado que encosta no chão, tipo 'bendito'.

A telha portuguesa é uma característica das antigas localidades de formação luso-brasileira. As janelas apresentam-se de várias formas, sendo as mais comuns de um tampo: as de correr, as de levantar, com as respectivas trancas.

As portas geralmente são de uma folha, encontrando-se também de duas.

As casas de tradição lusa, apresentam a característica de frente com porta e janela. A forma de construção na disposição de quadrado (pátio interno) e de ele são bastante comuns no Rio Grande do Sul. 

Dependendo das posses de seu dono e, em segundo lugar, da região onde é construída, a casa pode contar com: sala, cozinha e dormitório (vila operária). No interior do Estado, casas de fazenda dispõem-se de maior número de peças e, em algumas, acham-se alcovas interligadas com uma só saída para o corredor. As casas de estâncias têm, ao lado, seus galpões.

Tijolo adobe - Em várias localidades, tanto em construções antigas como atuais, aparece tal tipo de material. Os tijolos geralmente são do tamanho maior que os forneados e apenas secos ao sol.

Fabrica-se manualmente, com socadeira e guilhotina rudimentar. É, tanto usado na construção tipo enxaimel, como de outro tipo.
Tijolo adobe

Tijolo a campo - Feito em fornalha rudimentar no próprio campo, onde é retirado o barro. (Quaraí, Bagé, Livramento, Rosário do Sul, Viamão).

Parede socada - Em construções antigas, há o tipo de parede socada ou 'estuque' (armação de madeira onde socavam barro com pedras; depois, a armação era retirada).

Telha de tabuinha - Aproveitam a cabriúva, melhor madeira para a tabuinha, depois a grápia e a canela-guaicá. Madeira que lasca não serve. Uma cobertura, feita de cabriúva, pode durar até trinta anos. Cada tabuinha mede 0,60 cm de comprimento; sua largura é incerta. São colocadas por meio de pinos de madeira ou de pregos. Na região serrana, as tabuinhas levam dois furos, na parte superior, amarradas nas ripas com arame.

Cobertura de sacos de cimento - Usam-se vários tipos de coberturas nos arranchamentos, tanto de área urbana como rural, aproveitando materiais como: sacos plásticos (de adubo), presos com ripas, sacos de cimento pichados e presos com ripas. (Ijuí e Júlio de Castilhos).

Festa da cumeeira - Festividade popular, quando em torno da colocação da cumeeira (telhas ou material que dá o toque final no telhado). O dono da casa oferece um churrasco regado a vinho, chope, cachaça, aos que o ajudaram no trabalho da construção da casa."

Fonte: MARQUES, Lilian Argentina B. & alii. Rio Grande do Sul: Aspectos do Folclore. Porto Alegre/RS: Martins Livreiro Editor, 1998, p. 160-165.




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Mariana Eufrazia da Silveira

Intendência Municipal de Pelotas e Bibliotheca Pública Pelotense

Por Fernando Osório

"Esta senhora, que veio a ser figura principal na data da fundação, aportara ao Rio Grande do Sul, com sua família, por ocasião de virem os primeiros casais portugueses que aqui se estabeleceram no princípio do século XVIII. Juntamente vieram suas irmãs Izabel Francisca, que casou com o capitão-mór Manoel Bento da Rocha, e Joaquina Margarida, que casou com Domingos Gomes, estancieiro em Itapoã. D. Mariana matrimoniou-se com o capitão-mór Francisco Pires Cazado, de cujo enlace houve a seguinte prole: Rozalia, nascida em 1752 (família Rabello); Mauricia n. 1758 (veio a ser sogra de Antônio José de Oliveira Castro); Manoel Marcelino Pires, n. 1759 (família Pires, de Porto Alegre); Maria Eufrazia, n. 1770, casou com Alexandre Ignacio da Silveira (família Aquino); Ignacio Antonio Pires, n. 1773; Joanna, n. 1775 (sogra de Guilherme Rodrigo de Carvalho e de Francisco Gonçalves Pires). Houve outros filhos, que morreram solteiros. Foi senhora de quase toda a área que compreende esta cidade (nota nossa: Pelotas). Doou terreno suficiente para nele se construir uma grande igreja, um quartel e uma cadeia (em parte desse terreno é que se construiu a Bibliotheca Pública Pelotense e a atual Intendência Municipal)."

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Arquitetura alemã no Rio Grande do Sul


Casa alemã em Picada Café/RS
Imagem original do link:http://www.casasenxaimel.com.br/page8.aspx

"Em geral classificam-se as casas dos imigrantes como 'tipicamente alemãs'. Num primeiro relance, assim pode parecer: a estrutura em enxaimel (Fachwork), com fechamento de adobe, taipa, tijolos ou arenito; tesouras feitas segundo o modelo alemão, sem cumieira e construídas de forma a deixar um espaço sem escoras sob o telhado; geralmente construído em encostas, com um porão contido por grossas fundações de arenito aparelhado. Tudo isso confere uma fisionomia característica e inconfundível à casa do imigrante alemão.

Mas, será 'tipicamente alemã'?

A casa na Alemanha
Ao tempo da imigração, a arquitetura em enxaimel já cumprira uma evolução multissecular e apresentava muitos estilos e tradições construtivas. Nos burgos, se tornara formalmente sofisticada e tecnicamente requintada. Nas vilas rurais, ela se manteve mais simples e horizontal, com características próprias para cada região. Isso torna difícil descrever de forma sintética a casa rural na Alemanha. A grosso modo podemos dizer que todas as funções eram abrigadas sob um só telhado: moradia, estábulos, depósitos de ferramentas e utensílios, tudo disposto racionalmente em torno de um fogo central que servia, em primeira linha, para aquecer a casa no inverno. Sob um telhado muito alto e em vários andares, estavam os celeiros e depósitos de feno. Carroças e apetrechos necessários ao trabalho da terra ficavam num espaço central, contínuo ao fogo. Este tinha as funções de cozinha e calefação e, ao seu redor, se desenvolviam os principais serviços da casa. Contíguos, ficavam os quartos que, por vezes, se resumiam em minúsculos nichos fechados por uma simples cortina.

A casa do imigrante
Diante disso, vemos que a casa do imigrante pouco tem de 'tipicamente alemã'. A diferença fundamental está em que a casa 'explodiu' em suas múltiplas funções. Aqui temos uma série de construções, como estábulos, chiqueiros, galinheiros, paióis, depósitos, forno, retrete, dispostos organicamente em torno de um ou dois pátios centrais. Nem a moradia fugiu à regra. Aqui, separavam-se claramente a 'casa' da 'cozinha'. Esta era um pequena construção de dois compartimentos: num se cozinhava e o outro era o comedor. A 'casa' ficava afastada alguns metros. Em planta-baixa era muito simples. Via de regra havia uma sala central com os móveis dispostos ao longo das paredes, de maneira a formar um espaço livre central. Conforme o tamanho da família, haviam dois, três ou quatro quartos. Eram construídos aos pares nas extremidades da casa. Quando haviam três quartos, um ficava ao lado da sala de estar. Muitas vezes uma escada íngreme que levava ao sótão servindo de depósito para cereais, arreios, velharias e onde podia haver um quarto para os rapazes solteiros.

As razões deste dualismo (casa - cozinha) era o perigo do fogo: se a 'cozinha' queimasse, a 'casa' ficava preservada. É interessante notar que, se na Alemanha o fogo era o elemento centralizador da construção, aqui era o motivo alegado para a separação. É bem evidente que haviam outras razões para esta separação que não podemos discutir aqui.

É interessante assinalar que, esta descrição é válida para todas as correntes imigratórias provindas da Alemanha, apesar de sua diversidade de origem (francos, alamanos, godos, visigodos, polacos, judeus) de forma que, só com algum cuidado, podemos distinguir certas nuances que diferenciam as construções dos imigrantes de diversas origens. Daí se deduz que houve efetivamente uma integração social entre os alemães no Rio Grande do Sul, muito antes da unificação da Alemanha por Bismarck. Podemos efetivamente falar de uma cultura arquitetônica teuto-brasileira. Se os imigrantes trouxeram alguns elementos como, por exemplo, a técnica construtiva e alguns esquemas de ordenação especial, estes foram profundamente revisados e aqui encontraram uma expressão nova e original."

Fonte: WEIMER, Gunther. Arquitetura alemã. In: EDEL LTDA. Sesquicentenário da Imigração Alemã/Hunderffünfzig-Jahre Deutscher Einwanderung (álbum oficial). Porto Alegre/RS: Sociedade Editora de Publicações Especializadas EDEL Ltda., 1974, p.173-174.


domingo, 12 de novembro de 2017

Maria Antonia da Cunha Mendonça


Por Fernando Osório

"Irradiando os tesouros de uma natureza moral privilegiada, os oitenta e três anos com que faleceu, a 13 de novembro de 1921, D. Maria Antonia da Cunha Mendonça fecharam para Pelotas o ciclo de amantíssima, de tradicional e querida existência. É belo viver assim! E, bela morte piedosa, dos que deixaram

'...a vida!
Pelo mundo, em pedaços repartida!'

A egrégia senhora, no adeus derradeiro da família estremecida, teve o seu féretro amado coberto de flores, orvalhadas pelas lágrimas de todo o meio social. Colhidos, especialmente, pela nova dolorosa, os pobrezinhos, a quem sempre D. Maria Antonia dedicava as abundâncias da sua ternura e a piedade excelsa da sua fé, sentiram, numa tristeza infinita, a turvação da perda formidável. E, numa onda de amor, a Ordem de Nossa Senhora do Carmo, de que era D. Maria Antonia priora jubilada, conduziu-lhe o corpo inanimado até a Igreja do S.C. de Jesus, onde, com expressiva aproximação popular, decerto tão cara à memória da extinta, teve a encomendação religiosa, seguindo, após em longo cortejo, para o regaço da saudade, branca de cinzas e de lajes... D. Maria Antonia Mendonça, tronco de respeitável família, era filha do Comendador Alexandre Vieira da Cunha e D. Maria Josepha Leopoldina da Silva e viúva do saudoso pelotense Francisco de Paula Jacintho de Mendonça."

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Maldição de Santa Isabel, Arroio Grande


Programa "Histórias Extraordinárias" exibido em 18 de março de 2009 pela RBS TV sobre a lenda da maldição da localidade e distrito de Santa Isabel, no vizinho município de Arroio Grande. Disponível no canal de Ga Tonotu Bo no YouTube.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O cavalo na Idade Média


"O cavalo é fundamentalmente consagrado à guerra, sobretudo após as invasões dos bárbaros da estepe, cujo avanço foi rápido e cobriu distâncias enormes: godos que partiram do Dnieper e chegaram à bota italiana ou ao sul da Espanha, vândalos que passaram da Silésia à Andaluzia e depois por Cartago... A cavalaria pesada foi a base das conquistas dos grandes Carolíngios, Pepino e Carlos Magno. Desde esta época usa-se o sagmarius, cavalo de carga e de tração, para as carroças, ao lado do destrier (cavalo de combate, com freio, ferradura, sela alta, estribo, testeira) para o cavaleiro com esporas, do palafrém (cavalo de passeio), da égua para as damas, do rocim (cavalo de uso comum) e do cavalo robusto para charrete e arado. Este último começa a se difundir nos séculos XII e XIII, por exemplo, nas terras pesadas onde sua velocidade de trabalho, mais que sua força, faz concorrência ao passo lento dos bois; é verdade que é preciso um 'combustível' caro para esse novo trator: a aveia.

O cavalo é muito importante para a classe cavaleiresca: os poemas épicos, os romances da corte, estendem-se longamente na biografia desses nobres corcéis, respondendo assim à expectativa dos leitores ou auditores. Todo destrier tem um nome, não somente o grande Bayard dos quatro Aymon, ou Veillantif (cavalo de Rolando), mas também Beaucent (de Guilherme da Aquitânia), Ferrant (de Girard de Roussilon), Broiefort (de Ogier, o Dinamarquês)...

Mesmo sem nome, e substituído sem remorso após sua morte em combate, o cavalo de guerra permanece o mais nobre dos animais; sua estrebaria localiza-se o mais perto possível da casa de seu senhor e ele é frequentemente melhor acomodado e melhor tratado que muitos servos. O cavalo de fazenda trabalha mais rápido e por mais tempo que o boi, mas é caro e frágil; as ossadas encontradas mostram que são utilizados até seu limite, em uma idade avançada, 13 anos, às vezes mais; sua morte não rende nada a seu proprietário a não ser o couro, em razão do tabu hipofágico."

Fonte: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru/SP: Edusc, 2006, p. 61-62.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Conselheiro Antonio Ferreira Vianna



Por Fernando Osório

"Nasceu em Pelotas a 11 de maio de 1833, no sobrado da costa do S. Gonçalo em que funciona a Escola de Agronomia e Veterinária, construído por seu pai João Antonio Ferreira Vianna. Arredado do berço natal, quando êste transferiu residência para o Rio de Janeiro, lá cultivou o privilegiado espírito e foi, sob uma estrêla feliz, levado a desempenhar saliente papel no cenário parlamentar, chamando sôbre si as vistas do país inteiro. Seu nome ficou ligado à página de ouro da História do Brasil: a abolição de 13 de maio - lei de sua inspiração, tal como foi concebida e formulada, e que teve a glória de expedir, como Ministro da Justiça do Gabinete João Alfredo. Pelo conjunto dos aspectos em que Ferreira Vianna pode ser apreciado, apresenta uma figura singular.

Bacharel em Letras pelo Colégio Pedro II, em 1850; bacharel e doutor em Direito pela Faculdade de S. Paulo, em 1855; presidente do Ateneu Paulistano; promotor público na antiga Côrte; deputado geral em diversas legislaturas, desde 1862; jornalista de pulso e presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro; Ministro da Justiça e do Império; foi orador de grande merecimento e jurisconsulto notável, talvez, no seu tempo, o advogado de maior clientela, no fôro do Distrito Federal. Fornecem matéria para vários volumes os numerosos trabalhos que deixou esparsos em órgãos da imprensa e publicações avulsas - panfletos, discursos, conferências, razões jurídicas e pareceres.

Dotado de sincero espírito religioso, depois de viúvo ocupou muito tempo uma cela no Convento de S. Francisco, cujo provincial, Frei João do Amor Divino Costa, era seu particular amigo; daí saiu para o ministério da Justiça. 

'A ironia' que Renan considerava une forme de la sagesse foi a feição do espírito de Ferreira Vianna que mais geralmente impressionou os contemporâneos. Ninguém possuiu, entre nós, como êle, o segrêdo de resumir num dito a crítica de um acontecimento, pintar com uma anedota uma situação, espalhar em discursos para encanto dos ouvintes e amargura do adversário, pequenas frases com asas e ferrão de abelha. Mas o epigrama sutil de parlamentar, de Presidente da Câmara Municipal, de Ministro, de jornalista, de cristão, fundando escolas e instituições beneméritas. E amou a beleza, com sensibilidade de artista e enlêvo de poeta.

Um belo dia foi o conselheiro visitar a Casa de Correção. Entre os presos com quem conversou achava-se um rapaz ainda bem moço, de maneiras delicadas, cheio de vivacidade, porém, transido de uma tristeza que impressionava. - Então, qual é teu crime? - perguntou-lhe o conselheiro. - Senhor, eu abusei da honestidade de uma menor. - Por quanto tempo fôste condenado? - Por quatro anos de prisão; já aqui estou há dois e faltam-me ainda outros dois; se, porém, V. Exa. quiser proteger-me, obtendo o meu indulto, eu comprometo-me a casar com a ofendida. - Olha - acode-lhe o conselheiro - queres um bom conselho, conselho de amigo? Cumpre o resto da pena...

Em um banquete político oferecido ao Conselheiro Ferreira Vianna pelo Partido Conservador, quando ascendeu ao poder, foi o notável jornalista saudado por Salles Torres Homem, que exaltou os seus serviços à causa das liberdades públicas e os seus incomparáveis dotes de publicista. Era notável orador sacro. São conhecidas as suas conferências relativamente a S. Francisco de Assis, ao irmão Ignácio, à Obra da Expiação dirigida pelo Cardeal Manning, à missão do arcebispo de Damasco. 

Foi o fundador das escolas municipais de S. Sebastião e S. José, em 1870 e 1871; do Necrotério em 1871; dos hospitais de S. Sebastião e da Jurujuba; dos Asilos Condes de Mesquita e S. Bento, na Ilha do Governador, nos terrenos concedidos pelos religiosos beneditinos e herdeiros do Conde de Mesquita; da Casa de S. José, para crianças abandonadas nas ruas; do Instituto de Higiene; do Laboratório do Estado; dos três edifícios onde funcionam os desinfetórios no matadouro, nas Ruas da Relação e João Clapp; da Maternidade (que deixou em construção) na Praia da Lapa; do hospital destinado ao tratamento exclusivo das crianças (plano e projeto que foram aprovados em 1889); da Inspeção de Higiene da Infância Escolar, cujas instruções foram determinadas por decreto de 28 de março de 1889; de 15 postos médicos para pronto socorro, durante  a quadra epidêmica, à população indigente da capital do Império. Foi fundador ainda da Associação Protetora das Crianças Pobres, em 1870, que anualmente fornecia roupa aos meninos das escolas de S. José e S. Sebastião; promotor e fundador de um Albergue Noturno para dormida dos infelizes sem-teto.

Reformou, como Ministro da Justiça, os regulamentos do Corpo Militar da Polícia, garantindo aos oficiais os seus postos; a Casa de Detenção e o Asilo de Mendicidade. Iniciou a inspeção dos hospitais e casa em que são recolhidos os loucos no sentido de garantir-lhes a liberdade e bens. Elaborou os seguintes projetos: Reforma Judiciária, Lei da Repressão da Vagabundagem, Reforma da Câmara Municipal (adotada como projeto substitutivo pela oposição liberal no Senado e na Câmara dos Deputados); Reforma da Administração das Províncias; Reforma Financeira sôbre Estradas de Ferro e Telégrafos do Estado e de Iniciativa Particular. 

Defensor e protetor da liberdade individual, mandou destruir as escuras da Casa de Detenção, convocar júris extraordinários e proibir as prisões sem nota de culpa. 'Coube-lhe a grande satisfação de fazer parte do Govêrno que aboliu a escravidão no Brasil, aspiração esta muito de sua alma, e para cuja realização poderosamente valeram as suas luzes, a sua coragem em afrontar os perigos anunciados e o seu prestígio como orador parlamentar'. 

Proeminente entre os proeminentes do Partido Conservador no antigo regime, os seus discursos, escritos e os seus atos são a afirmação do seu grande espírito liberal. Pouco depois da proclamação da República, Ferreira Vianna publicou, em 'O País', do Rio, com o pseudônimo de Suetônio, uma série interessantíssima de artigos sôbre o Antigo Regime, artigos êsses que alcançaram ruidoso sucesso, não só pela análise sutil de coisas e homens dos últimos anos do Segundo Império, como pelo fino humorismo que, por vêzes, nêles se desata com adorável e maliciosa graça."


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Histórias Curiosas LX

"Florampélio Pereira teve dois filhos. O primogênito era Carpano, apelido de Otero, que se acentuava 'Ótero' para ficar parecido com 'útero', o verdadeiro alvo da homenagem do velho. O segundo foi Homero, escolhido pela semelhança com 'úmero', osso de nome 'mui lindo', que Florampélio fraturara pouco antes de nascer-lhe o menino. Com Hómero, como exigia o pai, a vigilância ortográfica do padre, por ocasião do batismo, resultou burlada pela segunda vez.

Caethano era filho de Homero, morto de 'nó nas tripas' poucos anos depois de casar. Carpano resolveu criar o menino e, como este regulava de idade com Tibúrcio, o piá, único filho do coronel, resultaram muito amigos.

Da infância de ambos, restou aquele início de tarde em que D. Tidoca, esposa de Carpano, deixou-os a sós na casa da Cidade. Preocupada com a vintena de pintos recém-descascados, expostas aos gaviões e espalhada no pátio, mandou que ficassem de olho nos bichinhos e, não querendo também vê-los mexendo na despensa onde deixara as duas barricas de gostosa goiabada feita pela manhã, assustou-os dizendo que aquilo era veneno.

Breve os meninos encheram-se de cuidar dos pintos. Tibúrcio teve então a ideia de amarrar um ao outro pelas pernas, com escravo dava certo, vira a gravura num livro, que tal experimentar? Arranjaram barbante, fizeram o serviço e soltaram a comprida fila pelo quintal. Não demorou muito, um gavião apareceu e ao carregar um, levou o resto de inhapa, pousando depois no alto da árvore próxima. Longe das pedradas, calmamente ficou devorando um por um dos animaizinhos, com cordão e tudo.

Desesperados e antevendo a surra, resolveram eles suicidar-se com o veneno da despensa. Horas mais tarde, a espantada Tidoca encontrou-os deitados ao lado das barricas, estufados de tanta goiabada. Caethano resumiu a ópera:

- O gavião comeu os pintos e nós nos suicidamos."

Fonte: SÁ JÚNIOR, Renato Maciel de. Anedotário da Rua da Praia 3. Porto Alegre/RS: Secretaria Municipal de Cultura; IEL, 2009, 3a. ed., p. 126-127.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Charque à moda de Canguçu


Charque à moda de Canguçu

Ingredientes

600 gramas de mandioca cozida
1 gema
100 ml de creme de leite
2 colheres (sopa) de manteiga
1 pitada de sal
1,5 kg de charque
2 folhas de louro
2 colheres (sopa) de páprica
1 cebola grande picada
1 pimentão verde
2 dentes de alho
1 colher (sopa) de coentro picado
2 colheres (sopa) de salsinha picada
100 gramas de bacon

Modo de preparar

Corte o charque em pedaços e retire o sal. Cozinhe, na pressão, por 40 minutos. Desfie. Doure o bacon picadinho em um pouco de azeite e acrescente a cebola, o alho e o pimentão. Salpique com a páprica. Refogue em fogo baixo e acrescente o charque desfiado. Tempere com 2 cubos de caldo de carne, as folhas de louro e o coentro. Prepare o purê de mandioca, acrescentando os ingredientes restantes. Leve ao fogo, por 2 minutos, misturando bem. Arrume o purê em uma travessa e distribua a carne sobre ele. Sirva com fatias de banana.

Fonte: SILVA, Édson. Das charqueadas aos fogões: culinária à base de charque. Pelotas/RS: Ed. Universitária UFPel, 2009, p. 38-39.



domingo, 29 de outubro de 2017

Canteiro Cultural do IHGCL - Colóquio de Novembro de 2017


No próximo dia 11 de Novembro, sábado, a partir das 16 horas, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão, Avenida Narciso Silva 2131, centro do município, ocorrerá o segundo colóquio do projeto "Canteiro Cultural" da instituição. Na ocasião, o evento estará sendo conduzido pelo professor Carlos Eugênio Costa da Silva que tratará sobre o tema "Ciclo Literário Leonense". A entrada é franca!



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

João Chaves Campello


Por Fernando Osório

"Pelotense de coração, esse querido e abnegado médico, liberal militante e ardoroso, nasceu a 12 de março de 1838, no município de Herval, vindo para a nossa cidade com a idade de 5 anos. Aos 24 formou-se, após brilhante curso, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Regressando a Pelotas, casou-se aqui com a Exma. Sra. D. Maria Crespo Campello. 

Em 1870 seguiu para Paris onde cursou a Escola de Medicina e frequentou diversos hospitais, especializando-se em cirurgia geral. Voltando a Pelotas, filiou-se ao Partido Liberal, conquistando a chefia do mesmo. Como médico, acompanhou o Gal. Osório, ferido, ao Rio de Janeiro.

Foi durante três quatriênios presidente da Câmara, sendo o iniciador do calçamento da cidade, em meio a grande oposição. Foi deputado provincial e, em 1878, eleito Vice-Presidente da Província, assumiu a 10 de fevereiro de 1878 a Presidência do Rio Grande do Sul. Nesse caráter, doou à Biblioteca Pública (da qual foi aclamado Sócio Benemérito) e Câmara Municipal os terrenos em que atualmente estão situadas. 

Figurou na chapa de senadores do Império e na de deputados gerais. Por muitos anos desempenhou a função de venerável da Maçonaria. Foi o 1o. presidente da 'Escola Elyseu Maciel', em Pelotas. Como presidente do 'Asilo de Órfãs' contratou para o mesmo as beneméritas Irmãs de Caridade que, ainda hoje, são as abelhas da caridade nesse estabelecimento.

Faleceu no Rio de Janeiro a 21 de abril de 1894, quando se preparava para entrar em concurso, na seção de cirurgia geral da Faculdade de Medicina. Era membro titular do Instituto Farmacêutico do Rio de Janeiro (1o. de outubro de 1861) e membro correspondente da Societé de Médecine-Pratique de Paris (20 de maio, 1870)."

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A população brasileira no século XIX


Fonte: ABREU, Marcelo de Paiva & LAGO, Luiz Aranha Correa do. A economia brasileira no Império, 1822-1889. Rio de Janeiro: Depto. de Economia/PUC-Rio, 2001, p. 2-

"Na independência, em 1822, o Brasil tinha provavelmente uma população entre 4,5 e 4,8 milhões e cerca de um terço era escrava (...). Em 1850, a população brasileira era de cerca de 7,5 milhões, com os escravos respondendo ainda por cerca de 30% do total (...). O censo de 1872 revelaria 10,1 milhões de habitantes, com a população escrava excedendo 1,5 milhão. O recenseamento de 1890 situou a população brasileira em 14,3 milhões. Três anos antes, em 1886/87, às vésperas da abolição da escravidão, ainda existiam pouco mais de 700 mil escravos.

Informações reconhecidamente deficientes, referentes a 1819, mostram o Nordeste como a região mais populosa, com cerca de 47% da população total, seguida da região cafeeira ou sudeste com cerca de 40%. O Sul teria pouco mais de 5%, o Norte talvez 4% e o Centro-Oeste 3%. Em 1872, dados censitários mostram o Nordeste com os quase mesmos 46,6%, as quatro províncias cafeeiras e a 'Corte' com 40,7%, o Sul com 7,3% e o Norte e o Centro-Oeste com respectivamente 3,3% e 2,2% da população total. Em 1890, consolidou-se a perda relativa do Nordeste para 41,9%, participação já excedida pela da região cafeeira com 42,6%. Destacou-se no período o salto da população do Sul para 10%, enquanto as participações do Norte e do Centro-Oeste se mantiveram praticamente inalteradas.

Enquanto por volta da independência o número de escravos era aproximadamente o mesmo no Nordeste e na região cafeeira, o total de escravos nesta última já era 75% mais elevado do que no Nordeste em 1872, e cerca de 133% mais elevado em 1886-87. Os dados da matrícula de escravos, 'atualizados' de forma muitas vezes precária para 1886-87, mostram ainda no Nordeste cerca de 28,4% do total, enquanto a região cafeeira somava 65,6% e o Sul 2,4%.

Em 1821, um levantamento estatístico detalhado revelou população total de 112.695 habitantes na 'Corte', ou seja, na cidade do Rio de Janeiro. Salvador possivelmente tinha cerca de 70 mil habitantes e Recife de 25 a 30 mil. De acordo com o censo de 1872 apenas três cidades tinham mais de 100 mil habitantes. o Rio continuava sendo o maior centro urbano com 275 mil habitantes. Salvador era ainda a segunda maior cidade, com 129 mil habitantes, seguida de Recife com 117 mil. A percentagem de analfabetos era de 84,3% ao Brasil como um todo. Em 1890, a cidade do Rio de Janeiro tinha 523 mil habitantes, Salvador, 174 mil, e Recife, 112 mil. São Paulo surgia como a quarta maior cidade do país com 65 mil habitantes. O índice de analfabetismo do país como um todo permanecia em torno de 85%."



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Castelo da Madorna


"Era uma vez um casal que não tinha filhos e muito os desejava ter. Foi uma grande alegria quando a mulher disse que esperava criança. O pai preparou enxoval e nasceram dois meninos bonitos e robustos que eram de encantar. Nesse mesmo dia, na estribaria, a égua teve dois poldrinhos, uma cachorra dois cachorrinhos, e brotaram dois pés de laranja no jardim. Os meninos eram gêmeos e tinham a mesma cara. Cresceram juntos e amigos inseparáveis. Cada um possuía um cavalo, um cão e uma laranjeira.

Já rapazes, pediram ao pai que lhes desse licença de correr mundo para tentar a fortuna. O velho os deixou partir e os dois moços seguiram jornada. Andaram algum tempo juntos e numa encruzilhada separaram-se. O mais velho foi parar a uma cidade onde uma serpente comia todos os dias uma moça. Naquela ocasião a própria filha do rei fôra sorteada e seguira numa carruagem até perto das grutas onde vivia a serpente. O rapaz correu até lá e encontrou a moça de chorar. Vendo o rapaz pediu-lhe que se fôsse embora para não ser devorado pela serpente.

- Nada disso, menina - respondeu o moço - vim para matar a serpente e não arredo pé antes de fazer o que desejo. Tome estas três laranjas e esprema o sumo nesta malga. Quando a serpente estiver caída para um lado e eu para o outro, dê-me de beber, e solte êste cão que deixo amarrado aqui.

A serpente apareceu e dirigiu-se ao rapaz que a enfrentou, dando-lhe com a espada; o cavalo espalhava coices. O cão gania de impaciência, querendo lutar também, mas estava amarrado. Lutaram imenso e a serpente caiu para um lado e o cavaleiro para o outro. A princesa foi para êle com a malga com o sumo das três laranjas e êle bebeu. Depois a moça libertou o cão que precipitou-se para a serpente, mordendo-a valentemente. O rapaz tornou a cavalgar sua sela e acabou de matar a serpente. Pôs a princesa na garupa e voltou à cidade, sendo recebido com festas explêndidas. Casou com a moça e viveu muito feliz.

Uma tarde estava êle na varanda do palácio quando avistou ao longe a tôrre de um castelo vervelho. - Que castelo é aquêle que se avista?

A mulher respondeu:
- É o Castelo da Madorna,
Quem vai lá, não torna!...

- Pois eu vou e voltarei! - disse o rapaz. 

No outro dia despediu-se da mulher e foi galopando para o Castelo da Madorna. Só lá chegou dias depois. Era um castelo alto e forte e parecia sem vivalma. O rapaz gritou, o cavalo relinchou, o cão ladrou e apareceu uma velha muito velhinha e trôpega, arrimada a um bordão. Mandou que entrasse, deixando o cavalo e o cão amarrados pela banda de fora.

- Não tenho com que amarrar os animais.

- Amarre-os com esses dois fios do meu cabelo - disse a velha puxando-os da cabeça. O rapaz, admirado, amarrou-os com os fios de cabelo, e entrou para o pátio onde a velha lhe serviu uma boa refeição. Depois perguntou se êle tinha força e se queria apostar uma bôlsa de ouro como seria jogado ao chão por ela. O rapaz riu muito e aceitou a aposta. Vieram-se às mãos e logo o moço conheceu que a velha era encantada, tendo mais fôrça que dez homens novos. Vendo que ia sucumbir, gritou pelo cavalo:
- Acode, meu cavalão!

- Engrossa, meu cabelão - resmungou a velha, e o fio de cabelo se tornou numa grossa corrente de ferro, subjugando o cavalo que ficou a atirar coices para todos os lados. Lá para depois, grita o rapaz, já sendo vencido:
- Acode, meu cachorrão!

- Engrossa, meu cabelão! - grunhiu a velha, e o cão ficou preso a uma corrente de ferro. O rapaz ficou vencido e a velha, carregou-o ao ombro, sacudindo-o dentro de um alçapão, roubando-lhe quanto levava.

O irmão, que estava noutro reino, teve um pressentimento e veio para o reinado onde o mais velho casara, embora sem saber do que se passara. Chegou e procurou o palácio, vendo que os soldados o cumprimentavam e os criados o foram conduzindo até a princesa, que o recebeu com abraços e beijos de alegria. O rapaz logo pensou que o tomavam pelo irmão e que estava no rumo de saber seu destino. Ceou e foi dormir com a princesa, tirando a espada e pondo-a nua entre ambos, como se fôsse por promessa. A princesa perguntou que modos eram aquêles, mas o rapaz disse ser um compromisso que tomara por três dias.

Na outra tarde, na varanda, vendo as tôrres vervelhas do castelo, perguntou o rapaz quem lá morava.
- É o Castelo da Madorna,
Quem vai lá, não torna!...
... já não to disse da outra vez?
Não foste lá? Que viste no castelo?

O moço deu uma resposta vaga e assentou seguir viagem para encontrar o irmão que lá devia estar. E foi, com sua espada, o cavalo e o cão.

A velha recebeu-o e fez o mesmo pedido. O moço desconfiou de um cabelo segurar um cavalo robusto e um grande cão. Em vez de amarrar os animais, meteu o cabelo pela coleira do cão e pela rédea do cavalo, fingindo dar nós. Ceou bem e a velha convidou-o para uma luta. Logo que o rapaz conheceu tratar-se de uma feiticeira, gritou ao cavalo:
- Acode, meu cavalão!

- Engrossa, meu cabelão! gritou a velha; mas a corrente que se formou no fio de cabelo não estava presa a parte alguma e veio ao chão. O cavalo partiu correndo e largou uma chuva de coices na velha que resistia.
- Acode, meu cachorrão!

- Engrossa, meu cabelão! - berrou a feiticeira. O cão veio aos saltos e ferrou a bruxa na garganta, e os três juntos a mataram. Quando ela deu o último suspiro, ouviu-se uma vendaval furioso, abrindo as portas e janelas do castelo, e saíram homens e mulheres sem fim, livres da prisão em que viviam. Entre êles vinha o irmão do rapaz que muito o abraçou. E o mais velho quis saber de como o outro soubera de seu paradeiro. O moço contou tudo, dizendo que a princesa o havia tomado por seu marido. Ouvindo essas palavras, o irmão puxou pela espada e atirou um golpe ao irmão, julgando-o traidor de sua honra. Mas os dois cães e os dois cavalos se puseram entre êles, separando-os. O mais moço contou como passara a noite. O outro, arrependido, pediu perdão e voltaram para a cidade onde viveram juntos, mandando buscar os velhos pais, na mais completa ventura."

Fonte: CASCUDO, Luís da Câmara. Os melhores contos populares de Portugal. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1979, p. 89-93.

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