quinta-feira, 31 de maio de 2018

A História das Bebidas Destiladas

"As bebidas são destiladas por meio de dois processos diferentes. O primeiro se dá no alambique tradicional e mais artesanal. Chamado de pot still, esse alambique é constituído de um tacho de cobre em que se aquece a matéria-prima a ser destilada e de uma serpentina que leva o vapor até o condensador, onde volta ao estado líquido. O outro método é conhecido como continuous. Neste processo, utiliza-se outro tipo de alambique, formado por duas colunas de metal de até 25 metros de altura. O líquido frio entra na primeira coluna, passa por tubos em espiral, é aquecido por vapor e vai para a outra coluna. Ali, ele é resfriado, voltando em seguida ao estado líquido. Depois, é redestilado, num sistema contínuo e mais rápido.

(...)

Armagnac
Ao contrário do que muita gente pensa, o armagnac não é um tipo ou variedade de conhaque. Mas, apesar de não ser o mais conhecido, é o mais antigo destilado da França. Documentos do século XIV já mencionam uma eau de vie - aguardente - da região de Armagnac, que começa no sul da cidade de Bourdeaux e se espalha em direção às montanhas dos Pirineus, divisa com a Espanha. Segundo a lenda, o armagnac era a bebida favorita de D'Artagnan, o famoso mosqueteiro do romance de Alexandre Dumas inspirado no marechal Charles de Batz. Foi criada até uma confraria, a dos 'Mousquetaires', que ainda se reúne na cidade de Auch, para beber e divagar sobre o destilado.

Vários detalhes fazem a diferença entre o conhaque e o armagnac: este é produzido a partir do vinho branco feito com uvas que nascem em solo arenoso; e o conhaque, de uvas de solo calcário. O clima de Armagnac é rigoroso, muito quente; enquanto o de Charentes, terra do conhaque, na região de Cognac, é marítimo, doce e brumoso. O conhaque é feito por um processo de dupla destilação; e o armagnac, obtido de uma única destilação. Por fim, o armagnac não pode ser produzido por meio de cortes (misturas de produções de anos e lotes diferentes). Já o conhaque é feito através do blend de vários barris. Três zonas produtoras fazem parte da região de Armagnac: Haut-Armagnac, que faz um produto considerado menos nobre; Bas-Armagnac e Ténarèze, responsáveis pelos melhores produtos. O armagnac recebe as seguintes denominações, entre um e três anos de envelhecimento; V.S.O.P. (iniciais da expressão inglesa very special old pale), que significa apenas que a bebida foi envelhecida por mais de quatro anos; e hors d'âge (em português, muito velho), mais de seis anos. Além deles, existem os millesimés - ou seja, de safras excepcionais, considerados as elites dos armagnacs - , que especificam no rótulo o ano em que foram produzidos. Boas marcas de bebidas são o Leberdolive, o Francis Darroze, o Janneau e o Marquis de Montesquieu.

Arak
Existem vários destilados que levam esse nome, todos originários de países do Oriente,
como Índia e Arábia Saudita, e da Europa Oriental, caso da Grécia. São feitos a partir de álcool de grãos de cereais, tâmaras ou da seiva de coqueiros, prensados para fermentar e que são, depois, destilados. Alguns países, durante a destilação, aromatizam a bebida com anis. Na Índia fabrica-se o arak destilando-se a seiva fermentada da palmeira ou grão de arroz. No Egito, prefere-se utilizar as tâmaras. A Grécia faz o seu arak com álcool obtido de grãos. Nessa categoria de destilado, o melhor tipo, o Batávia Arak, é produzido na ilha de Java, na Indonésia, a partir da mistura de arroz fermentado e melado de cana-de-açúcar. Esta bebida, aromatizada com anis, envelhece entre sete e dez anos. Deve ser servida como aperitivo ou digestivo em pequenos cálices.

Aquavit
Vem dos países escandinavos, principalmente Dinamarca e Suécia. É destilada de cereais ou batatas, e comercializada pura ou aromatizada com ervas e especiarias. Na Suécia, onde teria surgido por volta de 1498, a bebida também é conhecida como snaps, e destilada inicialmente do vinho. Apenas no século XVIII é que se começou a utilizar batatas na produção da aquavit. Depois de descascadas, elas são fervidas no vapor, misturadas com malte de cevada e com outros grãos. Essa pasta é então fermentada e destilada, quando perde o sabor acentuado da batata. Grãos de cominho e laranjas amargas conferem aroma à bebida.

Já na Dinamarca ela é conhecida como schnapps. A destilação também é feita de grãos e batatas e o produto é, depois, aromatizado com ervas e especiarias. O país produz, desde 1846, a marca de aquavit mais famosa e exportada do mundo, a Aalborg Akvavit.

Apesar de fazer menos espirituosos que a Suécia e a Dinamarca, a Noruega é o país que tem mais rituais para a preparação da bebida. Apostando na crença de que a qualidade melhora se passar um período no mar, os noruegueses colocam o destilado em tonéis de xerez, e os mandam para uma viagem, em cargueiros, de ida e volta até a Austrália - cruzando duas vezes a linha do Equador. Os fabricantes garantem que o balanço do navio, as mudanças de temperatura no percurso e a maresia tornam o aquavit ainda melhor. Sua marca mais famosa é a Linie Aquavit.

A aquavit deve ser bebida bem gelada, em pequenos cálices previamente colocados no congelador.

Bagaceiras e aguardentes portuguesas
Praticamente todas as regiões de Portugal produzem um destilado de uvas vínicas.
Começaram sendo feitas em pequenas quintas apenas para consumo familiar, passando depois a ser produzidas nas cantinas de forma artesanal e em pequena escala. As bagaceiras são provenientes da destilação direta dos bagaços frescos da uva em grandes caldeiras. Geralmente, é tomada como digestivo. Já as aguardentes velhas provêm de vinhos previamente destilados e que envelhecem em barris de carvalho. A região dos Vinhos Verdes de Lafões e a do Ribatejo têm os melhores produtos, com aromas finos e delicados. Boas marcas são Anticua, Carvalho Ribeiro, Ferreira, Palácio da Brejoeira e Aveleda. São servidas na temperatura ambiente em pequenos cálices.





Bourbon e Tennessee whiskey
Um pregador protestante foi o responsável pelo surgimento do Bourbon. Elijah Craig, ministro batista, instalou-se no Estado de Kentucky, nos Estados Unidos, em 1786, onde ergueu uma igreja e começou a plantar e destilar milho. O milho era misturado com cereais para preparar o malte e destilado em alambique de cobre. Atualmente, a bebida não pode ser fabricada com menos de 51% de grãos de milho (o restante da composição é feito com centeio e malte de cevada) e descansar por, no mínimo, dois anos em barris de carvalho branco, queimados por dentro com carvão vegetal - quando adquire cor, suavidade e buquê característicos. As principais marcas são o Jim Beam e o Wild Turkey.

Produzido de forma artesanal, desde 1866, na cidade de Lynchburg, no Estado americano do Tennessee, o Jack Daniel's difere um pouco do bourbon, e recebe o título de Tennessee Sour Mash Whiskey. As diferenças começam em sua composição, que leva 80% de milho e os 20% restantes de cevada maltada e centeio. Esse mosto é fermentado e destilado, num processo igual ao do bourbon. Em seguida, é filtrado gota a gota em colunas de carvão vegetal, e parte depois para um merecido repouso em tonéis de carvalho. O descanso vai durar entre quatro e seis anos, dependendo sempre da quantidade de calor, já que com temperaturas mais quentes ele envelhece mais rápido.

Calvados
A melhor aguardente de maçã do mundo é originária da região francesa que lhe empresta
o nome, na Normandia. O destilado teria surgido no século XVI, na península de Contentin, a oeste de Calvados. Seu sucesso fez com que, em 1946, ele recebesse uma denominação de Appellation Contrôlée, a Calvados du Pays d'Auge, sistema francês que garante que a bebida veio de determinada região e que foi produzida conforme determinadas regras. As maçãs são espremidas e depois fermentadas por pelo menos seis semanas. Em seguida, o mosto é destilado duas vezes em alambique tradicional, e vai para os barris de carvalho, onde deve repousar por no mínimo dois anos. Uma curiosidade que cerca a bebida e a região diz respeito ao seu nome. O galeão El Calvador, da armada espanhola, encalhou, em 1588, na costa normanda e, segundo a lenda, deu seu nome à região e à bebida. A mistura de café com calvados faz o maior sucesso nos cafés parisienses. O Calvados Busnel e o Boulard estão entre as melhores marcas.

Gim
O nascimento do gim, uma bebida seca e perfumada, é bastante curioso. Sua fórmula original é atribuída ao médico holandês Franciscus de La Boe, um catedrático do século XVII da Universidade de Leiden, a 39 quilômetros de Amsterdã. Ele buscava um medicamento barato para curar os colonizadores holandeses na Índia atacados pela febre amarela. A receita do professor Franciscus aliava o álcool destilado dos cereais, como malte, cevada e milho, ao zimbro, uma planta utilizada como componente medicinal muito respeitada na Europa naquela época. O gim, a exemplo da vodca, é uma bebida destilada e retificada, ou seja, destilada novamente para eliminação de impurezas. A redestilação do gim é feita na presença de bagos de zimbro e de substâncias vegetais aromáticas, como raízes de alcaçuz e cascas de limão e laranja, canela e erva-doce.

Da Holanda, o gim naturalizou-se inglês, levado para a Inglaterra por soldados do exército que retornavam de combate nos Países Baixos. Os gins produzidos anualmente na Inglaterra e nos Estados Unidos contêm um álcool altamente retificado e neutro. Já os gins holandeses apresentam sabor mais distinto, pois são fabricados segundo os antigos métodos, para preservação das características originais dos cereais, que passam duas vezes por alambique de cobre, sendo, depois, misturados ao álcool neutro.

Os holandeses tomam o gim sem qualquer mistura - puro, muito gelado, em pequenos copos, como um aperitivo ou drinque forte. Fora da Holanda a bebida quase não é tomada pura. Seus apreciadores preferem consagrá-la nos coquetéis, como o Gim Tônica e Dry Martini. Boas marcas são Gordon's, Tanqueray, Beerfater e Bombay Sapphire.

Grappa
Produzida na Itália, é um destilado de bagaços e talos de uvas brancas. A origem da
grappa - produzida hoje predominantemente nas regiões de Veneto, Friuli e Piemonte - remonta ao século XI, em Veneza, quando era uma bebida doméstica, com várias famílias produzindo seu próprio destilado. Sua elaboração começa com as uvas ainda nos cachos, quando se escolhem as mais perfumadas, que darão ao produto final um aroma genuíno e elegante. As uvas são prensadas nas adegas e fermentam por um período entre oito e quinze dias. São necessários 100 quilos de bagaço para obter de 9 a 11 litros da bebida. A destilação é feita por sistema de vapor direto, em pequenos alambiques de cobre. Em seguida, ela descansa por no mínimo três meses, durante os quais adquire maciez e equilíbrio de aromas e sabores bastante pronunciados. Na Itália é servida na temperatura ambiente, em pequenos cálices. No Brasil são encontradas belas marcas artesanais, como as das destilarias Bottega, Maschio Libarna e Ciemme Friuldoro.

Pisco
É o destilado de vinhos menos conhecido. Feito a partir de uvas moscatel, tem sua origem disputada por dois países, Chile e Peru. O mais certo é que a bebida tenha nascido em território peruano, na província de Ica, perto do porto de Pisco. Mesmo assim, é o Chile que parece se importar mais com a qualidade da bebida, tendo criado, inclusive, uma Denominação de Origem Controlada para supervisionar a produção da aguardente. Em ambos os países, as uvas são prensadas delicadamente e destiladas em alambiques do tipo pot still. O envelhecimento pode acontecer em barris e, na maioria dos casos, em recipientes de barro. Seu sabor é marcante e mais suave do que a grappa. As melhores marcas são a peruana Inca e as chilenas Control e Tres Cruces.

Poire e Kirsch
Além desses dois tipos, o primeiro feito de peras, o segundo de cerejas, existe uma grande variedade dos chamados álcoois brancos. Todos feitos de frutas, obedecem, basicamente, ao mesmo processo de destilação e são igualmente apreciados. Na fabricação procura-se obter um álcool que conserve o gosto original da fruta. Elas são colocadas para fermentar, destiladas em alambiques aquecidos com vapor e, depois, retificadas. Os melhores produtos são os da Alsácia, na França, Floresta Negra, na Alemanha, e na porção setentrional da Suíça.

São necessários 30 quilos de cerejas para conseguir onze garrafas de kirsch. O melhor vem das planícies e dos cumes dos montes de Vosges, na Alsácia. Os primos mais próximos são os destilados de ameixas amarelas (o mirabeille) e roxas (o quetsche). Mais delicada, a framboesa (framboise) também entrou para a turma - mas passando por maceração em álcool antes da destilação, pois tem baixo teor de açúcar para sustentar a fermentação. Também originário da região da Alsácia, são precisos 30 quilos da fruta para produzir uma única garrafa.

O poire, o primo mais famoso no Brasil, foi o último a chegar. Como a produção dessa eau-de-vie exige grandes quantidades de frutas, a pêra do tipo William, de pele fina, como é de fácil cultivo, resolveu o problema. A bebida ganhou fama no país por ter sido a preferida do falecido deputado Ulysses Guimarães, que comandava a chamada 'turma do poire', durante a Nova
República. Mas, na verdade, o dr. Ulysses nunca foi chegado a essa aguardente - ele gostava mesmo era de um bom scotch 12 anos. Alguns fabricantes costumam prender garrafas nas árvores para que as peras nasçam dentro delas. Isso é mais um efeito visual. Não melhora a bebida.

Para servir essas preciosidades o ideal é gelar bem um cálice pequeno, colocar o líquido em temperatura ambiente e sorver em pequenos goles.






Rum
'Um calor no rosto, Yo, Ho, Ho! e uma garrafa de rum'. Todo filme de pirata que se preze
tem essa canção na trilha sonora. Afinal, o rum era um dos primeiros itens na lista de tesouros que os bandidos do mar procuravam conquistar. Desde que foi trazida pelos espanhóis, no século XVI, para sua colônia de São Domingos - atual República Dominicana - , no Caribe, a cana-de-açúcar é destilada, sendo o carro-chefe das bebidas da região. Destilado de canas frescas trituradas em moinhos ou com melaço - resíduo que fica depois de fervido o caldo para fazer açúcar - , o rum é transparente e cristalino ao sair do alambique. A coloração dourada obtida por alguns tipos de rum é resultado do envelhecimento em tonéis de carvalho ou, na maioria dos casos, pela adição de corantes de caramelo. Os envelhecidos, como o añejo cubano, que repousa por sete anos e tem buquê digno dos melhores conhaques, não devem ser usados em coquetéis. Os mais exigentes recusam-se a bebê-lo com gelo. Já o carta branca é o ideal para preparar drinques. Hoje, cada ilha caribenha produz seu tipo de rum: CUBA - onde em 1861 surgiu a marca mais famosa do mundo, a Bacardi, fora do país desde o início da revolução socialista - produz um rum leve e aromático; a JAMAICA faz uma bebida mais encorpada e forte, como o rum appleton; o HAITI, mais aromático; PORTO RICO, onde se faz hoje o Bacardi, produz uma bebida com pouco corpo e seca; a MARTINICA, fino e rico em aromas; BARBADOS, leve e com muito aroma; TRINIDAD, leve e sem grandes qualidades; GUIANA, não muito frutado, mas o rum com mais cor.

Steinhäger
Bebida popular da Alemanha, surgiu no século XV, na região da Westfália, na pequena aldeia de Steinhägen. Em sua produção as frutinhas da planta de zimbro são esmagadas junto com grãos de trigo. A pasta formada é fermentada e, depois, destilada em alambiques do tipo pot still. Segundo a Lei do Monopólio da Aguardente, que regula as normas do processo de fabricação do Steinhäger na Alemanha, nenhum produto químico pode ser adicionado à mistura de zimbro e trigo. Na Alemanha é tomado à temperatura ambiente, suavemente gelado, ou à temperatura de freezer, a exemplo da vodca. A melhor marca vendida no Brasil é o Schlichte.

Tequila
A bebida nacional do México tem sua origem creditada aos povos maias e astecas, que,
em rituais religiosos e festivos. brindavam com um fermentado que chamavam de pulque. Anos mais tarde, em 1519, o conquistador espanhol Hernán Cortez e sua tropa provaram essa mistura e gostaram. Logo a batizaram Tequila, nome da cidade em que estavam na ocasião e que hoje faz parte do Estado mexicano de Jalisco, principal zona de plantação do agave azul, o ingrediente básico da bebida. Com o tempo, os espanhóis passaram a destilar o fermentado. As frutas do agave azul passam por um cozimento de aproximadamente 72 horas. Em seguida, são espremidas e moídas para a extração dos açúcares. Depois de fermentado o líquido, parte-se para um dupla destilação, cada uma com duas horas de duração, em alambiques de cobre. Boas marcas são José Cuervo, Sauza, Cancún e Camino Real."

Fonte: CASTILHO, Ricardo. O mundo dos destilados. Playboy, setembro de 1996, p.131-136.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Uma História dos Doces de Pelotas


"Os Doces Tradicionais de Pelotas começaram a ser produzidos durante o ciclo do charque, devido à concentração de renda propiciada por esta atividade e ao fato de a safra ter curta duração - de novembro a abril - , possibilitando o desenvolvimento de outras atividades e o surgimento de uma cultura local.

Grande parte do charque produzido nas charqueadas era levada para o nordeste para servir de alimento aos escravos da região, e os navios que transportavam o charque retornavam com açúcar, produzido lá, o qual era usado para fazer os doces.

Em seu livro Doces de Pelotas: Tradição e História, de Mário Osório Magalhães (2001) afirma que a sociedade pelotense procurou abrandar sua imagem rústica saladeiril através da adoção de requintados costumes, constantes atividades intelectuais e imponentes construções. Neste contexto é que o doce se insere.

O fim da escravidão foi um dos fatores que contribuiu para a decadência das charqueadas em Pelotas, assim como a produção de charque em outros municípios do Rio Grande do Sul. O surgimento dos frigoríficos, que dispensavam o processo de salga da carne, selou o fim do ciclo do charque, o período de opulência da cidade.

No início do século XX, a tradição doceira de Pelotas, até então restrita aos costumes familiares da elite da cidade, passou a ser divulgada comercialmente em todo o país. No mesmo período, os imigrantes alemães, pomeranos e franceses que viviam em Pelotas passaram a cultivar frutas de clima temperado - principalmente o pêssego - na região colonial. Essas frutas eram comercializadas ao natural e na forma de doces, geleias, conservas e pastas, ampliando e diversificando as formas de produção de doces.

No artigo 'Vinhos e Doces ao som da Marselhesa: um estudo sobre os 120 anos da tradição francesa na colônia Santo Antonio de Pelotas-RS', Leandro Betemps (2001) afirma que as primeiras indústrias de compota surgiram entre os franceses e este foram um dos maiores legados desse grupo étnico para Pelotas e a região.

Muitas receitas portuguesas trazidas pelos colonizadores e pelos navios transportadores de charque ainda são utilizadas pelas doceiras pelotenses. As transformações e criações ocorridas ao longo do tempo agregaram ainda mais qualidade e valor aos nossos doces. O sal e o açúcar são elementos constitutivos do progresso socioeconômico de Pelotas e permeiam a formação da identidade histórica da cidade, que continua sendo estimulada em grande escala, a exemplo da FENADOCE - Feira Nacional do Doce -, um dos principais eventos municipais, que ocorre anualmente."

Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE PELOTAS. SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA. Pelotas: uma história cultural. Pelotas/RS: Prefeitura Municipal/Secretaria de Cultura, 2009, p. 119-121.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A origem da tradição dos doces de Pelotas


"A tradição dos doces finos origina-se entre as elites luso-brasileiras, vinculadas historicamente aos latifúndios dedicados à pecuária extensiva e à produção de carne de charque, situados na Planície Costeira do Rio Grande do Sul durante o século XIX e início do século XX. Herdeiras da culinária portuguesa foram as mulheres das famílias mais abastadas da cidade de Pelotas que reinventaram as receitas tipicamente lusitanas, num intercâmbio alimentar que enriqueceu o leque de sabores da cultura ibérica ao mesmo tempo em que se manteve fiel a seus ingredientes básicos: as gemas de ovos, o açúcar e a farinha de trigo. Assim como a doçaria portuguesa, as variações brasileiras nasceram na intimidade das cozinhas, locais próprios ao manuseio dos ingredientes necessários e para a transmissão de um saber que se ensinava de geração em geração. Avós, filhas e netas sequenciavam a linhagem de mestres e aprendizes, ainda que certo mistério ao redor das receitas preferidas pudesse se fazer presente mesmo entre as mulheres da mesma família. Isso porque as encarregadas de assegurar a gostosura das sobremesas deviam ter competências e habilidades específicas, de modo que o domínio das receitas 'pertencentes às gavetas trancadas a sete chaves das senhoras aristocráticas' deveriam ser abertas apenas esporadicamente e por mãos bem conhecidas.

Dentre as possibilidades quase inesgotáveis de combinações, recombinações e elaborações dos três ingredientes característicos da doceria portuguesa, as receitas dos camafeus, quindins, bem-casados, ninhos, pastéis de Santa Clara, amanteigados e fatias de Braga surgiram como iguarias feitas em família, na privacidade das cozinhas das casas mais ricas da cidade de Pelotas. Nesta sociedade, a doceria artesanal tornou-se importante instrumento para a socialização feminina, de modo que a então observada restrição das mulheres à esfera pública fez com que tal atividade se desenvolvesse em um contexto pessoal, sob o lacre da privacidade. A manutenção da doceria na interioridade do lar fez com que as famosas receitas fossem assunto de interesse apenas recreativo de mulheres que deveriam restringir-se aos papéis domésticos. Os doces estavam, então, associados à grandiloquência de uma sociedade que celebrava o convívio em torno da mesa e, especificamente, a uma forma de distinção que ressaltava a importância da educação doméstica feminina através da transmissão do saber fazer dos doces artesanais, através dos livros de receitas, dos ensinamentos práticos e mesmo do consumo das iguarias.

Apesar da forte ênfase na sofisticação e na opulência entre os hábitos de vida da elite pelotense, que perdurou até a metade do século XX e que ate hoje persiste no imaginario dos pelotenses a respeito da identidade local, o modo de vida das famílias ricas entrou em decadência ainda no final do século XIX. Segundo Ferreira et alli (2009), a crise econômica provocada pela queda das exportações da carne de charque trouxe consequências dramáticas para as famílias que compartilhavam de um universo sociocultural no qual as expressões de riqueza se manifestavam nos lugares públicos e eram provadas através do 'gosto'. Foi diante dessas circunstâncias que o saber-fazer dos doces artesanais - outrora símbolos de riqueza e fruição das classes mais favorecidas - aos poucos se converteu em fonte de renda para mulheres 'bem nascidas' que se viram compelidas a trabalhar para complementar o orçamento familiar. A partir das primeiras décadas do século XX, uma primeira geração de mulheres passou a se utilizar, de maneira profissional e com vistas ao provimento da economia doméstica, dos conhecimentos até então aplicados nas cozinhas dos casarões. Desse movimento decorre o início do processo de profissionalização da atividade doceira."

Fonte: CAVEDON, Neusa Rolita & FIGUEIREDO, Marina Dantas de. Os efeitos da patrimonialização sobre as formas de fazer, criar, viver, organizar e consumir o artesanato tradicional. In: XXXVI Encontro da ANPAD, Rio de Janeiro/RJ, 22 a 26 de setembro de 2012, p. 10-11.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Conde de Bobadela


"Nome por que ficou conhecido o administrador português Gomes Freire de Andrade (1685-1763), participante ativo da História do Brasil: governador do Rio de Janeiro em 1733 (com jurisdição sobre todo o Sul e Sudoeste do Brasil), mandou construir o Convento de Santa Teresa; o chafariz do Largo do Paço; os Arcos da Carioca (ainda hoje existentes); o Paço dos Governadores, além de hospitais e fortalezas; ordenou a abertura de ruas e estradas, incentivou as letras e permitiu a instalação da primeira tipografia no Rio de Janeiro (1747). Tinha quase 80 anos de idade quando morreu, desgostoso com a rendição da Colônia do Sacramento (no sul do Brasil) aos espanhóis."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

domingo, 27 de maio de 2018

Sociedade Italiana de Bagé em 1893


"Bagé. Noticias dadas pelo Quinze de Novembro de hontem:

(...)

- É este o resultado da eleição realisada ante-hontem na Sociedade Italiana:

Presidente, Pasquale Buero.

Vice-presidente, Rocco Cirone.

Thesoureiro, Nicola Cirone.

Mordomos: Eurico Fonyat, Giuseppe Manduca, Francesco Chicchi, Francesco Crededio, Giuseppe Grecco, Vincenzo Meranzano, Antonio Botti, Michele Rosso, Luigi Mazzini, Giuseppe Felijola e Luigi Aste."

Fonte: CORREIO MERCANTIL (RS), 13 de janeiro de 1893, p.02, c.03

sábado, 26 de maio de 2018

Imigração portuguesa em Pelotas


"Importante é observação sobre a naturalidade da população estrangeira: 'Os imigrantes portugueses em Pelotas, na sua grande maioria são provenientes do distrito de Aveiro e sua presença é vislumbrada também pela cultura, onde a 'cidade dos doces' possui como característica marcante destes, à base de ovos, influência presumível da doçaria de Aveiro, com seus famosos 'ovos moles'. Tal influência estende-se pelo nome dos estabelecimentos comerciais e nomes de ruas com motivos aveirenses.

Referem-se, a título elucidativo, nomes de ruas, estabelecimentos comerciais e edifícios que na cidade de Pelotas lembram Portugal:

* Panificadora e Lancheria Aveiro
* Agência de Bicicletas Águeda
* Edifício Vila Nova de Gáia
* Edifício Mondego
* Edifício Coimbra
* Bairro com o nome de 'Recanto de Portugal' onde está localizada a sede campestre do Centro Português e onde todas as ruas possuem nomes de concelhos de Portugal.

(...)

'Muitos são os relatos de imigrantes que justificam suas preferências pelo sul do Brasil e por Pelotas, não só devido a grande concentração de aveirenses, como pelos próprios aspectos geográficos dessa cidade traduzidos sobretudo em idêntica história geológica, dominada por um sistema lagunar onde se inscrevem a 'ria de Aveiro' bem como a Lagoa dos Patos e a Lagoa Mirim'.

(...)

'Sobre a situação e traços físicos tem-se que ambas estão localizadas em áreas planas e junto à encosta de zonas mais altas... Localizam-se junto a regiões lagunares... sofrendo, também influências climáticas (clima húmido), pela proximidade da água. Ambas as comunidades estão em uma faixa litoral apresentando formações arenosas e dunas costeiras, com clima subtropical e, portanto, com uma vegetação que se assemelha.'

Do ponto de vista histórico, 'cada comunidade possui aspectos tão próprios que não são comparáveis. Aveiro é milenar e Pelotas centenária... ambas tiveram sempre ideais de liberdade e foram pioneiras no republicanismo'.

(...)

Em Pelotas as duas associações representativas da comunidade portuguesa são a 'Sociedade Portuguesa de Beneficência' e o 'Centro Português 1o. de Dezembro'.

A primeira, fundada em 28 de junho de 1858, já com 350 sócios, sendo uma associação que surgia por desligamento daquela existente em Porto Alegre, ou seja, a uma distância de 250 km de Pelotas e que consequentemente ocasionava dificuldades.

Hoje a Beneficência é uma casa de saúde que funciona como qualquer outro hospital mas sempre ligado à comunidade portuguesa de onde são escolhidos seus dirigentes e dada como preferência, pela mesma comunidade, quando da necessidade de hospitalização. 'Possui 254 sócios ativos (sócios com título e pagamentos mensais), 1708 sócios remidos (sócios com título de pagamento integral), banco de sangue e plano de Saúde Maior. Este último é oferecido e garantido pela própria Beneficência com um total de 11500 pessoas, destes são 1 por centro de portugueses natos e 60 por cento são de descendentes'.

A segunda associação, recreativa e cultural - 'Centro Português 1o. de Dezembro' - é onde se observa com mais objectividade o interesse pelo resgate e preservação das origens lusitanas.

Fundado em 26 de Janeiro de 1926 como resultado da fusão de dois grupos: o 'Congresso Português 1o. de Dezembro' e do 'Grêmio Republicano Português', ambos com ideias divergentes mas que suplantadas as divergências políticas, acabam por unir esforços e fundar o 'Centro Português 1o. de Dezembro'."

Fonte: ARROTEIA, Jorge Carvalho & FISS, Regina Lucia Reis de Sá Britto. Traços da comunidade portuguesa em Pelotas. Artigo de 2006, p. 180-181, 184.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Padre Cícero Romão Batista


"Eclesiástico e líder político brasileiro, cujo nome completo era Cícero Romão Batista (1844-1934). Nascido no Crato (CE). Ordenado sacerdote em 1870, radicou-se no pequenino arraial de Juazeiro do Norte, onde fundou uma igreja. Desde logo adquirindo fama de santo milagroso, conseguiu formar em torno da sua igreja um núcleo de população que aumentou dia a dia até se transformar em verdadeira cidade: em 1914 Juazeiro tinha já cerca de 30.000 habitantes. Político influentíssimo, depôs o governador do Ceará, elegendo-se depois vice-presidente do Estado e deputado federal. Sempre em desavença com os poderes constituídos, à frente de milhares de romeiros sustentou prolongada luta armada contra os contingentes da polícia cearense, determinando inclusive a intervenção do governo federal (o presidente da República era então o Marechal Hermes da Fonseca). Suspenso das ordens eclesiásticas, ameaçado de excomunhão, nem por isso deixou de celebrar missa na sua igreja. Em seguida foi a Roma e conseguiu uma reconciliação parcial com a Igreja. Sua vida tem sido constantemente celebrada pelos poetas sertanejos na célebre literatura de cordel do folclore nordestino."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Morte de Lobo da Costa


"Lobo da Costa

A 19 do corrente foi encontrado morto em um vallo existente nas proximidades de Santa Cruz, em Pelotas, o desventurado poeta Lobo da Costa.

A morte devia ter sido occasionada pro congellação, resultante do intenso frio que reinou na noite de 18.

O cadaver foi encontrado completamente encharcado, devido á torrencial chuva que cahio na mesma noite. 

Lobo da Costa foi um talento de inestimavel valor e ninguem melhor do que elle poderia occupar o primeiro lugar na poesia rio-grandense dos ultimos tempos, se uma infelicidade atroz não o houvesse quasi impossibilitado para os prélios da litteratura.

Deixa varios livros de versos e dramas e muitas producções esparsas pelo jornalismo da provincia.

O enterro do infeliz poeta foi extraordinariamente concorrido.

A imprensa pelotense prestou ao finado as honras que lhe eram devidas."

Fonte:  A FEDERAÇÃO, 22 de Junho de 1888, p.02. c.04

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A História da primeira edição da Fenadoce em 1986


"A festa surgiu com o objetivo de divulgar os produtos na área de doces, enlatados e confeitarias da cidade tendo o propósito de estimular a comercialização destes produtos. O sonho era que a festa do doce fosse como a festa da uva, mas isso não aconteceu devido à falta de promoção publicitária.

A Fenadoce teve sua abertura no dia 14 de janeiro de 1986 ao som do Hino Nacional tocado pela Banda da Brigada e com a presença do prefeito da cidade Bernardo de Souza.

À noite o show pirotécnico que durou 20 minutos, encantou a todos que prestigiaram a festa. O sistema de som de 50 mil watts era equivalente à metade do som do Rock in Rio, prometendo incentivar a festa.

Com um lancheria montada em estilo circense numa área de 1.500 m2, haviam dentro do pavilhão cerca de 55 estandes e 20 ao ar livre. Assim começou a trajetória da Fenadoce que buscava mostrar a doçaria, indústria, comércio, artesanato e os serviços de Pelotas.

Pelotas contava com a cooperativa das doceiras que inicialmente tinham 100 doceiras associadas, mas que se reduziu à metade, pois estavam desviando a verba. Pelotas distribuía seus doces para vários estados como Santa Catarina, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba. A preferência na época eram pelos doces cristalizados.

A presidente da cooperativa, Amadelina Marini nos colocou a importância da realização desta festa, dizendo: 'Com a Fenadoce o doce de Pelotas voltará a se impor no mercado e o mais importante vai ser a imagem da festa, onde haverá uma constante procura o ano todo'.

O sucesso da Fenadoce possibilitou que a rádio Cosmos transmitisse um programa espacial sobre a 1a. Fenadoce, integrando uma série: 'Coisas da Província', apresentando um painel sobre Pelotas, suas riquezas, potencialidades e sua gente. O especial foi gerado pela rádio do Mec no Rio de Janeiro.

Dia 19 de janeiro de 1986, último dia da festa, na coluna Marina Especial, do jornal Diário Popular foi mencionada a importância da festa, já que os turistas hospedados no Hotel Manta adoraram o atendimento e prometeram voltar em outras festas.

Um dos maiores estandes que merece ser mencionado foi da Agapê, que superou as expectativas e também ofereceu degustação de alguns produtos.

O desejo era que a cidade se tornasse um seu pólo turismo, gerando dinheiro, riqueza e trabalho.

Entre os comentários da festa, o presidente do diretório municipal do PDS, Adolfo Fetter, criticou a feira dizendo que não tinha infraestrutura e que deveria ter sido realizada na Associação Rural e ainda reclamou que a cidade está mal cuidada e suja.

Carlos Alberto comentou 'Um velho sonho meu vejo em realidade. O turismo de Pelotas sendo conduzido pelos doces'.

Maria do Carmo Haertel Sobral falou sobre as confeitarias de Pelotas, recordando a Confeitaria Nogueira, Confeitaria Gaspar, Confeitaria Brasil, Confeitaria Abelha, homenageando-as por terem aberto o caminho para Pelotas se tornar a capital do doce.

A Prefeitura e a Fundapel, os setores de comércio, indústria e turismo que há muito desejavam que a cidade tivesse a sua festa ficaram realizados com a sua merecida promoção.

O prefeito Bernardo de Souza falou sobre a festa: 'Há a crença e o entusiasmo de muitos. Há também a certeza de que nada nasce perfeito, mas de que é preciso ousar e começar. A grande festa que Pelotas quis!'

A Fundapel avaliou que o sucesso da 1a. Fenadoce estava garantido, pois até o sábado mais de 60 mil pessoas já haviam visitado a festa, sendo que na sexta-feira o mau tempo havia prejudicado o movimento. Mesmo assim a Fundapel comunicou uma reunião para avaliar os possíveis erros.

A 1a. Fenadoce foi sinônimo de grande alegria e satisfação para os pelotenses, abrindo portas, dando esperanças de crescimento e desenvolvimento para o município."

Fonte: TRIARCA, Taíza Corrêa Schmidt. Fenadoce: cultivando e divulgando o patrimônio de Pelotas. Trabalho Acadêmico apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Artes, IAD/UFPel, 2008, p. 44-46.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Os primórdios da imigração europeia não-portuguesa para o Brasil (1818-1850)


"A imigração, no conceito estrito da palavra, ou seja, o ingresso de estrangeiros em 'um país para nele encontrar trabalho e com a intenção presumida de aí estabelecer-se' só começou de fato no Brasil a partir de 1808, com o Decreto de 25 de novembro, permitindo a concessão de sesmarias aos estrangeiros residentes no Brasil.

(...)

A Carta Régia de 02 de maio de 1818, autorizando o estabelecimento de algumas famílias suíças no Brasil, assinale o início da imigração planejada, escolhida e subsidiada pelo Estado. Segue-se a este documento, uma série de outros regulamentando o estabelecimento de imigrantes europeus em território brasileiro. Entre eles, o Decreto de 06 de maio de 1818 mandando comprar a fazenda do Morro Queimado, em Cantagalo, no Rio de Janeiro, para o assentamento de uma colônia de suíços. Desta colônia se originou a vila de Nova Friburgo, criada oficialmente pelo Alvará de 03 de janeiro de 1820, com o objetivo de 'povoar e fazer produzir terras despovoadas e fornecer alimentos para a cidade do Rio de Janeiro que estava crescendo e que constantemente era castigada por crises de abastecimento'.

Outro documento importante deste período é o Decreto de 16 de maio de 1818, através do qual o governo aprova a concessão de uma série de favores à famílias de imigrantes europeus que viessem se estabelecer no Brasil. Tais como: transporte gratuito, doação de lote rural, instrumentos de trabalho, sementes, ajuda em dinheiro para os primeiros anos, assistência médica, religiosa e outras vantagens.

As medidas adotadas por D. João VI refletem o interesse da Coroa portuguesa em incentivar a imigração europeia para o Brasil. Através da vinda de imigrantes europeus e da criação de núcleos coloniais de pequenos proprietários, o governo pretendia ocupar, fazer produzir e valorizar terras despovoadas; instaurar uma agricultura camponesa policultura que abastecesse as cidades e os latifúndios escravistas mais próximos; além de criar uma classe social intermediária entre os latifundiários e escravos.

(...)

No período de 1822 a 1830, D. Pedro I deu prosseguimento à política de criação de núcleos coloniais praticada por seu pai, D. João VI. Pela Constituição de 1824, o imperador reservou para si a questão da colonização, interessando-se, 'pessoalmente, pelo povoamento e pela exploração de novas regiões do Brasil por brancos não-portugueses'. Foi responsável pela implantação de um projeto colonizatório destinado à ocupação e à defesa de parte do território nacional, em oposição aos interesses imediatistas dos grandes proprietários, preocupados em garantir para si os escassos recursos do Estado.

Neste período foram estabelecidas, sob a tutela do imperador, sete colônias oficiais e uma particular. Entre elas, destaca-se a colônia imperial de São Leopoldo, 'marco inicial do processo colonizatório com imigrantes não-lusos no Rio Grande do Sul'. Criada através da Decisão n. 80 de 31 de março de 1824, em terras pertencentes a Coroa, na antiga Real Feitoria do Linho Cânhamo, nas proximidades de Porto Alegre. Por iniciativa de D. Pedro I, o major José Antônio Schaeffer foi encarregado do recrutamento de imigrantes na Alemanha. E, para atraí-los mais facilmente, Schaeffer oferecia-lhes condições extremamente favoráveis: os colonos receberiam, gratuitamente, a passagem, 77 hectares de terra, sementes, animais e subsídios. A única condição imposta era a inalienabilidade das terras recebidas por um período de dez anos. O sucesso e a prosperidade da colônia garantiram a José Feliciano Fernandes Pinheiro, primeiro Presidente da Província do Rio Grande do Sul e responsável em âmbito local pela sua instalação, o título de Visconde de São Leopoldo. De 1824 a 1830, 5350 imigrantes alemães estabeleceram-se em território gaúcho.

(...)

De 1830 a 1840, o país atravessou um período de crise que culminou com a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831. O Ato Adicional de 12 de agosto de 1834 que, entre outras coisas, criou a Regência Una, constituiu uma tentativa de reformar a organização política e administrativa do Império, conferindo maior autonomia às províncias. Através dele, o governo central dividiu com as províncias 'a obra da colonização, sem, no entanto, oferecer-lhes poderes precisos. Todas as terras livres pertenciam ao Império e as províncias não tinham condições para promover a colonização: nem meios, nem experiência'.

Durante esta década, nenhuma colônia foi estabelecida no Brasil. (...)

De 1840 a 1850, 'foram organizadas vinte colônias, sendo que dessas, 33% eram imperiais e 67% particulares'. A presença de um número significativo de colônias particulares, pode ser relacionado à Lei n.514, de 28 de outubro de 1848, através da qual o Império concedia terras devolutas às províncias para a colonização (Art. 16). A falta de recursos dos governos provinciais fez com que eles se associassem à iniciativa privada, estimulando a criação e a atuação de companhias de colonização. (...)

Dois outros importantes fatores estimularam a participação da iniciativa privada na introdução de imigrantes europeus: a Lei n.581 de 04 de setembro de 1850, que extinguiu o tráfico negreiro para o Brasil e Lei n.601 de 18 de setembro do mesmo ano, conhecida como Lei de Terras, determinando que, a partir daquela data, as terras só poderiam ser adquiridas através da compra."

Fonte: IOTTI, Luiza Horn. Imigração e colonização. Artigo de 2003, p.02-06.





segunda-feira, 21 de maio de 2018

Senador Otacílio de Carvalho Camará


Por Fernando Osório

"Dotado de formosíssimo talento, êsse nobre pelotense, filho do ilustre médico Dr. Octacilio Aristides Camará e D. Israelina Carvalho Camará, muito moço, depois de ter sido aqui empregado no comércio, deixando o balcão e o escritório, fatigado mas alegre, para ir às bibliotecas estudar, seguiu para o Rio de Janeiro, lá cursando, com aprovações honrosas, obtidas pelo esfôrço próprio, várias faculdades, diplomando-se em Farmácia, Odontologia, Direito e Medicina. 

Exemplo de um 'self-made man', o seu círculo de amizades tornou-se imenso e, com os seus méritos de profissional, cresceu-lhe a popularidade, tornando-se, em Santa Cruz, o ídolo da pobreza e de tal forma venceu na carreira política que abraçara, sem protetores e sem fortuna, só, valoroso, esperançado e digno, que do Conselho Municipal foi eleito para a Câmara de Deputados, por votações afirmativas do seu prestígio e, contando 40 anos, foi escolhido Senador da República. Nesse pôsto prestou devotado concurso à bancada do Rio Grande em assuntos referentes ao nosso Estado que êle estremecia. Trajetória imponente essa do digno conterrâneo na política da Capital Federal, do partido Frontin, onde chegou a ser um dos chefes mais queridos, idolatrado pelos correligionários e acatado pelos adversários, que jamais puderam vencê-lo ou abatê-lo, pois a lídima conduta de Otacílio Camará foi uma linha reta entre dois pontos: o trabalho e a honra.

Aos 41 anos, no fastígio de sua influência e na pujança das suas fôrças intelectuais, desapareceu, em 1921, como um lutador formidável, no pôsto de honra. Foi uma alma comparada àquelas que Edmond Rostand traçou no Cirano de Bergerac, morrendo paupérrimo, opulento de alma e coração, austero no combate à mentira, às prevenções, às más idéias, límpido, levando, sem mácula, com a odisséia da sua vida, o seu penacho de convicções, tal como um modêlo de energia, de virilidade, de infinita bondade, de aprimorada cultura, de inteireza moral, de grandeza de caráter e brilho de inteligência!

Noticiaram os jornais, em sua morte, que, a requerimento de um credor, o juiz respectivo decretara o seqüestro da biblioteca de Otacílio Camará, seu único bem, para pagamento de uma nota promissória no valor de seis contos, que emitira, vencida e não resgatada. Ensejo para a certeza plena de que houve um pelotense desventurado e ilustre que atravessou, sem se salpicar de lôdo, o tremedal da política. Preclara memória!" 

domingo, 20 de maio de 2018

Flora Mercedes Maciel Moreira


Por Maciel Moreira 

"Eu vejo-a hoje como eu a contemplava outrora, sinto-a ainda como a sentia então! Fisionomia altiva e pura, olhar leal, cabeça prateada, voz suave e modos delicados - a bondade que dela emanava tinha a aveludada maciez de um arminho. Nunca apreciei aquêles lábios no desajeitado arquear antipático de um sorriso mau: jamais percebi na sua fronte as rugas que atestam a permanência de pensamentos egoístas. Ela não pregava só com a palavra: mas muito mais com o exemplo - perdoar... perdoava sempre, recolhia-se a uma modéstia muitas vêzes exagerada para não despertar a inveja das vaidades tôlas e dos orgulhos descabidos.

A mais genial musicista e poetisa de quantas há o Brasil produzido, na frase do nosso inimitável pensador Gama Rosa: não deixou uma só música impressa, nem um só verso que lhe perpetuasse o nome. A mais ilustrada e completa dama de seu tempo, no afirmar de Afonso Celso, viveu calmamente nesta cidade, de que foi o ídolo querido. 

A sua bondade não era essa bondade gelatinosa, quase um defeito das naturezas fracas que não tendo fôrças para querer, amoldam-se a tudo: ela tinha a bondade inteligente das naturezas verdadeiramente superiores, compreendia e desculpava: via e fechava os olhos, tirando fôrças do seu coração magnífico, animado por um espírito culto, profundo e são... E, sentada na sua cadeira de balanço, naquela modestíssima cadeira que já fôra de sua mãe, e pela qual suspirava até em Paris, minha mãe prendia, admirava, encantava - tendo sempre à flor dos lábios a palavra simples que comove a criança, a ironia delicada que delicia o moço, a suave nostalgia das coisas passadas que fazem reviver os velhos.

Qualquer que fôsse a classe da pessoa que a ela se dirigia, pensava encontrar uma semelhante, uma amiga de longos anos - alguém com quem sempre estivera em franco contato. Mistério estranho; sugestão incompreensível de certas naturezas que atraem, dominam, subjugam na delicadeza privilegiada de uma página de D. João da Camara...

Há traços que debuxam perfeitamente o seu perfil moral, mas onde ela avulta é quando a dor da perda de uma filha moça, morta quase repentinamente, em vez de levá-las às exteriorizações mal compreendidas dos xales pretos e das janelas cerradas, transformou-se na dedicação maternal pelas órfãs, e ergueu a enfermaria do Asilo da Conceição. Em tôrno de seu nome ouve-se ainda hoje um eco de bênçãos: a sua imagem, mais do que nas associações, destaca-se numa infinidade de casebres; até alguém viajando pela campanha do Herval, entrando numa venda perdida na solidão, reconheceu à cabeceira de um leito o velho número da 'Opinião' que publicava o seu último retrato. 

Talvez fôra melhor não haver escrito estas linhas, se Alves Mendes exclamou: santa memória! Não te profanarei, não te macularei com as minhas expressões. Quando o mérito ressalta extra-humano à fôrça de impossível e ressalta inverossímil à fôrça de real, não há palavra tão fecunda como o silêncio. Mas, é que eu a vejo hoje como a contemplava outrora: é que eu sinto-a como a sentia então: na impressionante e harmônica beleza do medalhão de mármore que marca a sua derradeira morada. E lá ajoelhado, eu recito os versos do divino João de Deus, a uma enjeitadinha:
'És mais feliz do que eu
que tive mãe... e morreu!"

sábado, 19 de maio de 2018

Centenário de Antonia Berchon des Essarts Sampaio


Acontece nos dias 26 e 27 de maio do corrente, na Associação Rural de Pelotas, o 1o. Festival Cultural, Artístico, Esportivo e Campeiro "Antoninha Berchon" em homenagem ao  centenário de nascimento de Antonia Berchon des Essarts Carvalho - personalidade importante na história econômica e cultural dos municípios de Pelotas e Capão do Leão. A iniciativa do evento é da 26a. Região Tradicionalista do MTG. Acima, é possível conferir a programação do festival.

Para saber mais, temos duas postagens de interesse no blog:





sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sociedade de Immigração de Pelotas


"Foi installada a Sociedade de Immigração de Pelotas, ficando a directoria assim composta:

Presidente, Joaquim Teixeira da Costa Leite; vice-presidente, João Antonio Pinheiro; 1o. secretário, José Gomes Corrêa; 2o. secretário, Luiz Carlos Massot; thesoureiro, Domingos Fernandes da Rocha; commissão de estatistica, drs. Rebourgeon, Francisco Brito e Piratinino de Almeida, e 24 directores.

Por telegramma, foi communicada a installação á Sociedade Central de Immigração do Rio de Janeiro."

Fonte: A FEDERAÇÃO, 18 de fevereiro de 1885, p.01. c.03

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Que notícia doida!


"ESTADOS UNIDOS - Em Tippah County, estado do Missouri, uma professora teve esta tragica historia para contar: <<Uma triste tragedia aconteceu no educandario onde professo minhas aulas elementares alguns dias atras. Ha algum tempo as aguias tem creado muitos problemas na visinhança, carregando porcos e corderos, etc. Ninguem pensava que elas poderiam tentar attacar creanças; mas na quinta feira, hora que os miudos recreavam, os rapazitos estavam a uma certa distancia do predio do educandario, jogando bolinhas, quando o folguedo foi intterrompido por uma grande aguia que num só vôo rasante, cravou as garras no pequeno Jemmie Kenney, um catraio de oito annos, e levantou vôo com o pobre. As creanças grittaram e quando sahi do predio principal do educandario a horrenda ave estava tão alta que sommente consegui ouvir a creança aos gritos. O alarma foi dado, e devido aos gritos, a aguia foi induzida a deixar cair a sua victima. Mas, as potentes garras estavam cravadas tão profundamente nas carnes da creança e a queda foi de tal altura, que o pobre veio a falecer>>."

Fonte: THE RIO DE JANEIRO NEWS (RJ), 19 de setembro de 1878, pág. 01, col. 02
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