quinta-feira, 4 de julho de 2019

O Santo de Bom Jesus de Pirapora


"Um santo não canonisado. - De Itú nos escrevem em data de 8 do corrente:

<<Não sei se o facto que vou narrar-lhe já é conhecido, entretanto, em todo o caso, elle reclama energicas providencias policiaes.

<< Entre Araçariguama e o Bom Jesus de Pirapora, existe um sr. Saturnino, que ha cinco annos é reputado Santo, e a custa de sua industria, vae mansa e pacificamente, passando para a sua, o dinheiro da algibeira dos outros.

<< O sr. Saturnino tem em sua casa uma Nossa Senhora Apparecida, cuja historia, é a seguinte:

<< Fazia elle uma casa á margem do rio, e por diversas vezes via passar por sobre as madeiras do fôrro um anjo. A principio elle não acreditava que um habitante da côrte celeste lhe fizesse visitas, mas estas se reproduziram de tal sorte, que afinal convenceu-se de que não podia enganar-se tantas vezes.

<< Poucos dias depois da ultima apparição, indo elle com seu filho pescar, casualmente olhou para um ponto em que o rio despeja-se por um estreito, e vio um objecto que passava na correnteza, que nesse lugar é impetuosa. Perguntando ao filho que seria aquillo, e como este lhe respondesse que parecia um santo, o sr. Saturnino dirige-se á aquelle ponto e encontra uma imagem de Nossa Senhora! Voltando com ella, perguntou admirado ao filho: - Como eu pude ir até lá?! - Vme., respondeu o filho, caminhou pela flôr d'agua. O sr. Saturnino, nem ao menos tinha os pés molhados, e note-se, chovia nessa occasião.

<< Com este sacro achado, o nosso homem dirige-se a sua casa, quando uma sua preta céga, vem-lhe ao encontro e pergunta: O que traz meu senhor ahi? - Pois tu vês, quando és céga?! - Neste momento, respondeu-lhe: voltou-me a vista.

<< O sr. Saturnino levou a imagem para dentro, collocou-a em um altar; desde então as esmollas chovem, elle arranja, e os tolos o chamam santo.

<< Ha pouco tempo, um pobre quidum ia a Pirapora e levava 100$ rs. de esmola. Apeou-se em casa de S. Saturnino, que leva seu espirito caridoso a pontos de não cobrar a pousada, porque sabe que o passageiro ha de por força comprar alguma cousa em um armazem contiguo. Dizem que ahi elle paga-se de tudo.

<< Contando-lhe o pobre homem o motivo de sua romaria, S. Saturnino, disse-lhe que depozesse o dinheiro sobre o altar de Nossa Senhora, que o Senhor Bom Jesus, vinha todas as noites, as 7 horas tomar-lhe a benção, como poderia verificar.

<< O crente ficou. A hora marcada a cêra do altar estava acesa, esperava-se a visita, notando que os 100$ tambem estavam sobre elle. S. Saturnino teve o cuidado de fechar o crente em um quarto, recommendado-lhe que espreitasse pela fechadura quando ouvisse um pequeno rumor.

<< O nosso heróe despe-se, cinge-se com uma toalha, e com passos graves dirige-se ao altar, e toma a benção a sua mãe.

<< O pobre sugeito não queria ver o Senhor Bom Jesus sem joelhar-se, não alcançava a fechadura, e assim joelhava-se e levanta-se, até que o senhor Bom Jesus desappareceu, levando os 100$ rs. A pouca distancia da casa ha uma encrusilhada, e nesta uma Cruz, em cujos braços acha-se a historia do apparecimento da virgem.

<< A sala tambem acha-se forrada de pinturas representando milagres, além da celebre historia que em horroroso portuguez se acha escripta, e pregada á parede.

<< A pessoa que nos contou este facto e outros muitos, é fidedigna, por isso lhe communicamos, afim de que por meio de seu jornal reclame providencias a respeito."

Fonte: CORREIO PAULISTANO (SP), 15 de Agosto de 1865, pág. 02, col. 01

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Nomes Náuatles


O náuatle, asteca ou mexicano é uma língua ameríndia da região central do México, falada ainda por cerca de um milhão e meio de pessoas naquele país. Era o idioma oficial da antiga civilização asteca. Apesar de ainda sobreviver como língua viva, o náuatle e suas variações dialetais hodiernas sofreram muito influência da língua espanhola, tanto no vocabulário quanto na sintaxe. Considera-se que o náuatle falado na região do Vale do México seja o mais próximo à forma clássica do idioma do século XV.

Fonte: Names from around the world.

1. Achcauhtli - nome unissex que significa líder.

2. Ahuiliztli - nome unissex que significa alegria.

3. Amoxtli - nome unissex que significa proteção ou abrigo.

4. Atl - nome unissex que significa água.

5. Chicahua - nome unissex que significa forte.

6. Chimalli - nome masculino que significa escudo.

7. Chipahua - nome unissex que significa limpo ou claro.

8. Cipactli - nome masculino que significa crocodilo.

9. Citlali - nome unissex que significa estrela.

10. Coatl - nome masculino que significa cobra.

11. Coaxoch - nome masculino que significa flor da serpente (Opuntia ficus-indica).

12. Coyotl - nome masculino que significa coiote.

13. Cualli - nome unissex que significa bom/boa.

14. Cuauhtémoc - nome masculino que significa "águia caindo". É o nome do último imperador mexica.

15. Cuetlachtli - nome masculino que significa lobo.

16. Cuetzpalli - nome masculino que significa lagarto.

17. Cuixtli - nome masculino que significa pipa.

18. Ehecatl - nome masculino que significa serpente do vento.

19. Eleuia - nome unissex que significa desejo.

20. Etalpalli - nome unissex que significa asa.

21. Eztli - nome unissex que significa sangue.

22. Huemac - nome de um antigo rei tolteca. Significado desconhecido.

23. Huitzilihuitl - nome masculino que significa bico do beija-flor.

24. Huitzilli - nome masculino que significa beija-flor.

25. Iccauhtli - nome masculino que significa irmão mais novo, caçula.

26. Ichtaca - nome unissex que significa segredo.

27. Icnoyotl - nome unissex que significa amizade.

28. Ihuicatl - nome unissex que significa céu.

29. Ilhicamina - nome masculino que significa "ele atira flechas no céu".

30. Ilhuitl - nome unissex que significa dia.

31. Itotia - nome unissex que significa dança.

32. Itztli - nome masculino que significa faca de obsidiana.

33. Iuitl - nome unissex que significa pena (de ave).

34. Ixtli - nome unissex que significa cara, face, rosto.

35. Mahuizoh - nome unissex que significa pessoa gloriosa.

36. Manauia - nome unissex que significa defender.

37. Matalha - nome masculino que significa verde-escuro ou, genericamente, líquido.

38. Matlalihuitl - nome masculino que significa pena azul-esverdeada.

39. Mazatl - nome masculino que significa veado.

40. Mecatl - nome unissex que significa corda ou linhagem.

41. Meztli - nome unissex que significa lua.

42. Mictlantecuhtli - nome da mitologia asteca que significa "senhor de Mictlan". Trata-se de um deus do submundo.

43. Milintica - nome masculino que significa fogo ou "ele está acenando".

44. Momoztli - nome unissex que significa altar.

45. Moyolehuani - nome unissex que significa enamorado.

46. Nahuatl - nome unissex que significa quatro águas.

47. Namacuix - nome masculino que significa rei.

48. Necalli - nome masculino que significa batalha.

49. Necuametl - nome masculino que significa rei.

50. Nelli - nome unissex que significa verdade.

51. Nezahualcoyotl - nome masculino que significa "coiote em jejum". Era um nome de um antigo rei de Texcoco.

52. Nezahualpilli - nome masculino que significa "príncipe jejuando". Era um nome de um antigo rei de Texcoco.

53. Nochehuatl - nome masculino que significa consistente.

54. Nochtli - nome unissex que significa fruto da pera espinhosa.

55. Nopaltzin - nome masculino que significa cacto.

56. Ohtli - nome unissex que significa estrada.

57. Ollin - nome masculino que significa movimento.

58. Patli - nome unissex que significa remédio.

59. Quauhtli - nome masculino que significa águia.

60. Quetzalcoatl - nome derivado de um deus do céu da mitologia asteca. Significa serpente emplumada.

61. Tenoch - nome masculino que significa rocha do cacto da pera espinhosa.

62. Teoxihuitl - nome unissex que significa turquesa ou precioso, divino.

63. Tepiltzin - nome masculino que significa filho privilegiado.

64. Tezcacoatl - nome masculino que significa serpente refletora.

65. Tlacaelel - nome masculino que significa pessoa diligente.

66. Tlacelel - nome masculino que significa "o maior dos heróis".

67. Tlachinolli - nome unissex que significa fogo.

68. Tlaloc - nome de um deus asteca da chuva. Significa "da terra".

69. Tlanextic - nome masculino que significa luz da madrugada.

70. Tlanextli - nome unissex que significa brilho, esplendor ou majestade.

71. Tlazohtlaloni - nome masculino que significa aquele que é amado.

72. Tlazopilli - nome masculino que significa nobre precioso.

73. Tlexictli - nome unissex que significa umbigo de fogo.

74. Tlilpotonqui - nome masculino que significa negro emplumado.

75. Tochtli - nome masculino que significa coelho.

76. Toltecatl - nome unissex que significa artesão ou artista.

77. Tonauac - nome masculino que significa "aquele que possui luz".

78. Tototl - nome masculino que significa pássaro.

79. Ueman - nome masculino que significa tempo venerável.

80. Uetzcayotl - nome masculino que significa "a essência da luz".

81. Xicohtencatl - nome masculino que significa abelha feroz.

82. Xihuitl - nome unissex que significa ano ou corneta.

83. Xipil - nome unissex que significa nobre do fogo.

84. Xipilli - nome masculino que significa príncipe de jóias.

85. Xiuhcoatl - nome unissex que significa serpente de fogo.

86. Xochipep - nome masculino que significa flor coletora.

87. Xochipilli - nome de um deus asteca do amor, da música e das flores. Significa "príncipe das flores".

88. Yaotl - nome unissex que significa guerra ou guerreiro.

89. Yayauhqui - nome unissex que significa "espelho negro de fumaça".

90. Yolotli - nome unissex que significa coração.

91. Yolyamanitzin - nome unissex que significa pessoa terna e atenciosa.

92. Zipactonal - nome masculino que significa luz da harmonia.

93. Zolin - nome masculino que significa codorna.

Nomes femininos

94. Centehua - apenas uma.

95. Chalchiuhticue - uma deusa asteca da água e dos rios. Significa "saia de esmeralda".

96. Chalchiuitl - esmeralda.

97. Citlalmina - meteorito, estrela cadente.

98. Coszcatl - jóia.

99. Cozamalotl - arco-íris.

100. Cuicatl - música.

101. Eloxochitl - magnólia.

102. Itzel, Ixchel - senhora do arco-íris. Deusa maia da terra, da lua e da medicina.

103. Izel - única.

104. Ixcatzin - como o algodão.

105. Malinalxochitl - flor de grama.

106. Miyaoaxochitl - flor da borla do milho.

107. Mizquixaual - face pintada.

108. Necahual - deixada para trás ou sobrevivente.

109. Nenetl - boneca.

110. Noxochicoztli - meu colar de flores.

111. Papan - bandeira.

112. Quetzalxochitl - flor preciosa ou rainha.

113. Sacnite - de origem maia. Significa flor branca.

114. Teicuih - irmã mais nova, caçula.

115. Tepin - pequenina.

116. Teyacapan - primogênita.

117. Tlaco - irmã do meio.

118. Tlacoehua - intermediária; no exato meio de algo.

119. Tlacotl - galho de vime.

120. Tlalli - terra.

121. Tlazohtzin - aquela que é amada.

122. Tonalnan - mãe da luz.

123. Xiloxoch - calhandra, ave canora.

124. Xiuhtonal - luz preciosa.

125. Xochicotzin - pequeno colar de flores.

126. Xochiquetzal - pena de flor.

127. Xochitl - flor.

128. Xochiyotl - coração de uma flor suave.

129. Xoco - irmã mais nova, caçula.

130. Yolihuani - fonte de vida.

131. Yoloxochitl - flor do coração.

132. Yoltzin - pequeno coração.

133. Zeltzin - delicada.

134. Zyanya - sempre, eternamente.




terça-feira, 2 de julho de 2019

Faleceu o ex-prefeito de Capão do Leão Cláudio Victória


Por volta das 19 horas, por meio das redes sociais, começou a circular a triste notícia do falecimento do ex-prefeito leonense, Cláudio Luís Schroder Victória. Victória foi prefeito de Capão do Leão entre os anos de 2013 e 2016, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Cláudio Victória nasceu em 14 de Julho de 1956, era casado e técnico em contabilidade. Figura ativa da política leonense, foi eleito vereador do município pela primeira vez em 1988 pelo PMDB e, após este mandato, assumiu a função de secretário municipal de Saúde na gestão do ex-prefeito Getúlio Teixeira Victória (1993-1996). Em 2000, voltaria à Câmara Municipal de Vereadores, agora pelo PDT, tendo sido presidente da casa. Nas eleições seguintes, no ano de 2004, Victória se reelegeria, sendo o vereador mais votado naquele pleito com a significativa contagem de 650 votos.

A popularidade alcançada pelos dois mandatos consecutivos  como vereador (2001-2004; 2005-2008) o catapultaram à vaga de vice-prefeito na chapa vencedora do PDT nas eleições de 2008, que foi encabeçada por João Serafim Quevedo. Quatro anos depois, Cláudio deveria vir novamente como vice-prefeito na chapa liderada por Vilmar Motta Schmitt. Todavia, diante da impossibilidade legal de Schmitt disputar as eleições municipais de 2012, a candidatura para prefeito do PDT acabou sendo herdada por Victória. Curiosamente, isso aconteceu em meados de agosto daquele ano, com a campanha a todo vapor. Apesar do fato, Victória venceu as eleições com uma diferença mínima de 42 votos para o segundo colocado, Mauro Nolasco do PT. Quem recorda aquela eleição, lembra que durante a apuração, ocorreu um fato muito inusitado: um pouco antes das 19 horas, quando mais de 98% das urnas já haviam sido computadas, o site do Tribunal Regional Eleitoral apontava a vitória de Mauro Nolasco com uma frente de pelo menos 120 votos. Nas redes sociais, a vitória de Nolasco já era anunciada e, recordando com muita clareza, foguetes já estavam sendo estourados na zona do Centro e do Teodósio (bairro), além de ouvirem-se gritos de comemoração de alguns simpatizantes. Pois foi que, justamente na última atualização (já os 100% apurados) logo depois, ocorreu a "virada" e Cláudio Victória era oficialmente consagrado vencedor. 

O mandato de prefeito de Victória foi sua última participação na política leonense. Nos últimos dois anos, o estado de saúde de Cláudio já estava se deteriorando. Cláudio foi secretário municipal, vereador em três mandatos, vice-prefeito e prefeito em Capão do Leão. Nenhuma outra carreira política no município teve essa história tão significativa.

Nossos sentimentos aos familiares!

Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - 1904


"O Club dos Pierrots festejará este anno o carnaval pela maneira seguinte:

Dia 13 - Ás 10 horas da noite sairá a estudantina acompanhada de Zé-Pereira, percorrendo as principaes ruas da cidade e visitando diversas casas de familia.

Dia 14 - Ás 3 horas da tarde, irá cumprimentar, em sua residencia, o respectivo presidente alferes Peixoto de Vasconcellos e a imprensa local.

Ás 5 horas, irá á residencia do nosso amigo, tenente-coronel Aurelio de Bittencourt, e, após, á Associação dos Empregados no Commercio e outras pessoas.

Dia 15 e 16 - Visitará diversas casas e nesse ultimo dia dará tambem retreta na praça Senador Florencio e fará um passeio burlesco."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 10 de Fevereiro de 1904, pág. 02, col. 05

"Jaguarão

(...)

Os clubs Jaguarense e Harmonia preparam-se com ardor para festejarem condignamente o carnava deste anno, havendo grande enthusiasmo não só das famílias como da mocidade."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 12 de Fevereiro de 1904, pág. 01, col. 02

"Á roda do dia

O CARNAVAL

Outr'ora, quando chegava por esta época, todo o mundo já andava num alvoroço nunca visto, ou ás voltas com o entrudo, que começava na bisnaga e não raro vinha a acabar no balde d'agua, ou aos empuchões com os ultimos preparativos dos cortejos triumphaes e burlescos, que eram, na verdade, o duplo regalo do publico e nos quaes os nossos maiores encontravam a satisfação do goso do bello e os meios de castigar os usos e abusos do tempo.

As escaramuças, que, aliás, vinham se fazendo desde um mez atraz, com enthusiasmo cada vez mais crescente, subiam então ao delirio, a partir da noite de sabbado e, tomando as proporções de uma batalha, recrudeciam e assim se mantinham até altas horas do ultimo dia de folia.

Nos dias consagrados aos tradicionaes folguedos presididos por Momo vivia-se, por assim dizer, por um anno inteiro, pois que nelles se realisavam as aspirações e desejos accumulados nesse periodo e por elles passavam, glorificados ou estigmatisados, os homens e factos que mais haviam dado que dizer de si no tempo ahi decorrido.

Não ha duvida que o carnaval, sob esse aspecto, tinha adquirido um certo característico moral, que resultava da alliança do util com o agradavel. Mas, como elle nada mais era do que um resto das bacchanaes e das saturnaes dos antigos, ainda que muito desfigurado, a nova face que lhe deram parece que o desnaturou, impopularisando-o de tal fórma que não lhe ficou outro caminho a não ser o de fugir dentre nós...

Os prazeres, quaisquer que sejam os seus moveis, tê-lo disto, não se lhes póde pôr limite. E, comprehende-se bem, com expõe ao publico os defeitos e fraquezas sociaes e humanas, o Deus tornou-se terrivel e temido, e o receio de virem a ser objecto dos que se rissem por ultimo, fez que os que agora seriam a custa de outros lhe fossem, pouco e pouco, voltando o rosto e [ilegível] lhe déssem as costas.

Ao inverso das glorificações, que serão tanto mais solemnes e exemplares quanto puderem se individualisadas, a estigmatisação, os costumes e abusões nao logram seu fim, quando não fôr absolutamente impessoal, quando saia do amplo circulo da generalidade.

Momo não quiz attender a estas considerações e, devassando os lares cujas portas se lhe abriram de par em par, e onde entrara na confiança communicativa das alegrias descuidosas, sem refolhos, não vacillou em levar para o meio da rua até o infortunio que, acaso, ahi deparou e em transformal-o em motivo de irrisão publica. Constituia-se, pois, uma ameaça, um perigo que pesava sobre todas as cabeças, sem exclusão mesmo daquellas que por um poderio todo fortuito, como fortuita é a sorte humana, eram os seus favoritos momentaneos.

Os nosso predecessores, a este respeito, foram assaz egoistas, intromettendo nas expansões do carnaval as paixões de que, homens que eram, estavam cheios e não cuidavam de soffrear de qualquer modo.

Fizeram bem? Fizeram mal? Eis o que a outros cabe dizer, si virem que alguma vantagem ha nisso; quanto a nós, constatando ahi uma influencia historica, nos conformamos inteiramente com o triste destino que teve entre nós o Deus decaido e que reduziu a sua côrte, do esplendor dos outros tempos, a uma miseria franciscana.

Não é a saudade que nos faz volver os olhos para cousas que se iam do mundo, quando nós entravamos nelle; e, sim, um sentimento compassivo que os prazeres e as alegrias doudas e impensadas sempre suscitam a quem tem a fortuna de as conhecer atravez das almas alheias.

O carnaval, talvez, nos fosse muito bom, si elle podesse ter chegado até a presente, sem a pretenção educativa de que o revestiram, pondo-lhe á mão a férula do pedagogo e pedagogo que mais lembrava o rispido Amansa...

Não o tendo sido, porem, melhor fôra mesmo, para que hoje não estivesse a nos dar dôr de cabeça, que elle se houvesse chrystalisado no <<Zé-Pereira>>, feição typica e grotesca com que mal lhe é dado se nos apresentar na actualidade dos classicos dias que tão gordos já foram no passado.

Entretanto, isto não quer dizer que, aquelles que ainda rendem a Momo vassalagem, não lhe vão levar no tugurio onde vegeta os seus preitos e homenagens, ao som do zabumba ensurdecedor e infernal, e dahi até o arranquem para conduzil-o, pela calada noute, a ver a que estão reduzidos os seus dominios.

Pela nossa parte não o fariamos jámais, certos de que não ha golpe maior e mais deshumano do que accordar na alma de um desgraçado a opulencia, a grandeza, a felicidade que lhe fugiram para todo o sempre!

Mas, nem todos entenderão assim e, neste caso, o velho Deus que se avenha como puder, e não fará mais do que as não poucas victimas que foram sacrificadas em sua antiga e magestosa ara.

Amor com amor se paga...

A. Ribeiro."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 15 de Fevereiro de 1904, pág. 01, col. 05-06

"Carnaval

Continuaram hontem os festejos do carnaval.

Á tarde principiou a ser notavel a concorrencia á rua dos Andradas, augmentando consideravelmente até a noite.

Uma banda de musica da Brigada militar fez-se ouvir em varios pontos e o Club dos Pierrots com sua bem organisada estudantina tocou defronte ao Preço Fixo, Ferro Carril, etc., sendo bastante apreciado.

O jogo de bisnagas, confetti, etc. prolongou-se até as 10 1/2 e grupos á phantasia com orchestra percorriam a rua, onde até áquella loja era avultada a concorrencia.

Na melhor ordem prolongou-se até até a madrugada de hoje o baile realisado no theatro S. Pedro.

✤✤✤✤✤

Como já noticiamos, realisa-se hoje o baile á phantasia da sociedade Leopoldina.

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Tambem a Germania effectua hoje outro baile á phantasia.

✤✤✤✤✤

No S. Pedro, mais outro masqué terá logar hoje.

✤✤✤✤✤

O club Cara-Dura sairá hoje á tarde com o Zé-Pereira e carros de critica, percorrendo varias ruas da capital.

A estudantina do Club dos Pierrots tomará parte no prestito, fazendo guarda de honra.

Após a passeata, o prestito fará entrada no Theatro-Parque."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 16 de Fevereiro de 1904, pág. 02, col. 03

"Dôres de Camaquam

Escrevem-nos:

<<Pela primeira vez se levou a effeito o carnaval nesta villa, por iniciativa do nosso amigo, o solicitador Manoel Jorge de Azevedo, que foi incançavel e tenaz para a execução do respectivo programma, encontrando toda a boa vontade da parte d'aquelles a quem consultou e concorreram com o seu valioso contingente.

No domingo 7, ás 4 horas da tarde um numeroso grupo - <Zé Pereira> - e varios mascaras, ao som de instrumentos de pancadaria e alguns de metal, ao esturgir de foguetes, percorreram as ruas e praças da villa, annunciando os folguedos do deus Momo, recolhendo-se depois á sua caverna.

No sabbado seguinte, 13, á tarde, o mesmo - <Zé Pereira> -, devidamente encasacado, arvorando enormes chapeus altos, sahiu da caverna, no extremo da rua Augusta, a principal da villa, e ruidosamente foi receber o velho carnaval que vinha acompanhado de vistoso sequito, em viagem pela estrada que vem de Camaquam, encontrando-se os dois grupos em uma ponte de madeira que atravessa um arroio nos limites urbanos.

Ahi feitos os cumprimentos do estylo, dirigiram-se á casa do intendente municipal, aquem apresentaram as suas saudações, declarando o fim a que se propunham e offerecendo-lhe os retratos de alguns dos comparsas do grupo carnavalesco em chistosas caricaturas, feito o que percorreram a villa recolhendo-se á referida caverna.

No dia seguinte, achando-se embandeirada toda a rua Augusta até á praça, com galhardetes, bandeiras, signaes e flamulas, a tarde apenas percorreram a villa varios grupos de graciosos mascaras, devido a circumstancias que adiaram o passeio á phantasia para o dia seguinte.

Segunda-feira gorda, ás 5 horas da tarde, da mesma caverna começou a desfilar o vistoso prestito do passeio á phantasia.

Puxavam os mesmos como batedores, dois vistosos indios representando as duas Americas, montados a cavallo, correctamente carecterisados, com cocares e tangas de pennas, arcos e frechas.

Seguiam-se um carro representando um perfeito vapor de dois mastros, devidamente embandeirado, com fornalha, canos, regulados, apitando e lançando fumarada, sob a direcção de um bem caracterisado machinista.

Á pôpa achava-se sentada a rainha da festa entre dois pagens escudeiros, sendo ella a menina Doralina e elles os meninos Arlindo e Deoclecio, os dois primeiros filhos do nosso referido amigo Azevedo e o ultimo do nosso amigo Antonio Nogueira Barbosa, cujas creanças estavão vistosamente trajadas, representando no vestuario as côres da bandeira nacional.

Mais a ré achavam-se de pé um garboso almirante, um impassivel lord e não orgulhoso moço fidalgo, todos perfeitamente caracterisados, vestindo o ultimo uma genuina casaca ou fardão verde negra, completamente e ricamente bordada a ouro, que custou ao seu finado proprietário quinhentos mil réis, isto ha oitenta annos; guarnecendo o mesmo barco de meia nau para a prôa, varios marinheiros navaes.

Logo após vinha um grande carro conduzindo um gracioso grupo de muitos meninos, em duas alas, uniformisados de blusa e calça vermelhas e barrete phrygio, com o numero cinco dourado, representando um regimento de cavallaria republicana, armados de cinturão e espada, commandados por um adulto bellamente fardado como tenente-coronel.

O terceiro carro conduzia, montado sobre uma grande pipa, o nedio e rubicundo deus Baccho, de uma immensa obesidade, coberto de verdes parras, tendo em uma das mãos um copo e na outra uma garrafa, bamboleando-se naturalmente pelos effeitos dos vapores do sumo da uva.

Fechava o prestito o club de marinheiros navaes, embarcados em um vistoso escaler, perfeitamente uniformisados e remando, commandados por um correcto cabo ou mestre guardião.

Foi abundante, a desfilar dos carros de prestito, o jogo de confetti, petalas, folhagens e banquets.

Terça-feira teve logar o passeio burlesco, á tarde, constando de numerosos mascaras e chistosas criticas, em avultado numero, que com suas pilherias, esgares, tregeitos e momizes provocavam gostosa hilaridade.

Esteve animado o jogo do entrudo que constou de confetti, flores, extractos aromaticos e de farinha e polvilho, sendo abolido por completo o jogo da agua.

Abrilhantou os festejos a banda de musica do velho maestro Henrique Voltz, que nos dois ultimos dias acompanhou os prestitos."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 02 de Março de 1904, pág. 01, col. 07


"Não passou desappercebido este anno o carnaval em Caxias.

No domingo um grupo de apreciadores do deus Momo foram esperar o <<Carnaval>> em S. Pellegrino e o trouxeram em charola até o centro da villa.

Na segunda-feira sahiram carros conduzindo diversas mascaras em grotesca exhibição, alem de diversos mascarados avulsos que percorreram algumas ruas.

Na terça-feira repetiu-se a passeiata dos mascaras em grupos pelas ruas e realisou-se um animado baile à phantasia nos salões do sr. A. Chittolina, prolongando-se até [ilegível]."

Fonte: O COSMOPOLITA (Caxias do Sul/RS), 21 de Fevereiro de 1904, pág. 02, col. 03

Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - 1903


"Club do Menino Deus

Essa associação pretende levar a effeito este anno festejos carnavalescos no arrabalde que lhe deu o nome e para esse fim já está se preparando convenientemente.

Todas as tardes e noites faz-se ouvir na séde da associação, ruidoso Zé-Pereira."

(coluna 02)

"Segundo ouvimos, as pessoas que se acham actualmente veraneando no arrabalde da Tristesa pretendem solemnisar, este anno, o carnaval."

(coluna 03)

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 10 de Janeiro de 1903, pág. 02

"Club de Menino Deus

Como já noticiámos, essa associação que tem sua séde no arrabalde do mesmo nome, prepara-se para ali festejar este anno o carnaval.

Amanhã, ao escurecer, o club irá, encorporado e precedido de uma banda de musica, receber na praia o Carnaval, fazendo depois um passeio até a séde da associação, á rua Trese de Maio.

Domingo, á tarde, haverá batalha de flores e terça-feira realisar-se-á um baile á fantasia, nos salões do club.

Agradecemos ao convite que nos foi dirigido."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 20 de Fevereiro de 1903, pág. 02, col. 08

"(...)

Grupo dos pierrots

Esse grupo, constituído de desoito figuras componentes de bem organisada orchestra, tomará tambem parte nos festejos carnavalescos, percorrendo as ruas principaes nos tres dias.

Segunda-feira, como acima dissemos, irá elle ao Parque da Exposição; visitando também a imprensa, auctoridades e casas de familia.

Na Tristesa

No arrabalde da Tristesa, onde ha um grande numero de familias desta capital veraneando, foi organisado um club carnavalesco, que tomou a denominação de Club Lambary e festejará ali o carnaval.

Para os festejos reina grande enthusiasmo, tendo sido organisado o programa seguinte:

Ás 5 horas da tarde de amanhã, reunir-se-ão, no salão Cosmopolita, as pessoas fantasiadas e depois, precedidas de uma banda de musica da Brigada Militar e Zé Pereira, farão um passeio burlesco até a estação da estrada de ferro municipal.

Á noite, terá logar, no referido salão, um baile á fantasia, para o qual ha muita animação.

A intendencia municipal fará correr um trem extraordinario, que partirá da Tristesa, para a cidade ás 7 horas da manhã, no qual poderão regressar as pessoas que daqui tiverem ido assistir aos festejos.

Terça-feira, realisar-se-ão outros, com baile, etc.

(...)"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 21 de Fevereiro de 1903, pág. 02, col. 01

"A Sociedade B. Caxiense, dá hoje seu 3o. baile.

Nota-se grande animação.

Já que o carnaval morreu, que venha o baile substituil-o."

Fonte: O COSMOPOLITA (Caxias do Sul/RS), 22 de Fevereiro de 1903, pág. 03, col. 03

"Em Canoas

Tambem em Canoas tem sido festejado o carnaval, começando por um baile, sabbado, na pensão Bascou, e proseguindo hontem".

Fonte:  A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 23 de Fevereiro de 1903, pág. 02, col. 03

"Passaria completamente despercebido o carnaval este anno em Caxias se não fosse realisado um pomposo baile pela Sociedade Bailante Caxiense em a noute de 23 do passado, onde a concorrencia e animação foi enormissima, prolongando-se até as trez horas da madrugada sempre na maior harmonia e contentamento.

Na noute seguinte houve dois bailes um feito pelos caixeiros viajantes realisado em o salão do bonito edificio pertencente ao Sr. A. Chitolina, o outro feito por iniciativa de alguns jovens teve logar no chalet recentemente construido e pertencente a D. Rubelia Pinto.

Ambos deixaram indeleveis recordações."

Fonte: O COSMOPOLITA (Caxias do Sul/RS), 01 de Março de 1903, pág. 02, col. 04




segunda-feira, 1 de julho de 2019

Dom Pedro II em Pelotas em 1865


"S.M. o Imperador e SS. AA. os srs Conde d'Eu e Duque de Saxe partirão de Pelotas a 27, para Porto-Alegre, no vapor S. Miguel. A tal respeito, no Commercial se lê o seguinte:

'S.M. o Imperador, Suas Altezas e comitiva chegárão a 24, pelas 2 horas da tarde, ao Sangradouro; ao passar por Santa Izabel derão fundo os vapores de guerra que transportavão o sequito imperial, desembarcando S. Magestade e mais pessoas que o acompanhavão naquelle freguezia, sendo ahi enthusiasticamente recebido pelo povo, á frente do qual vinha grande numero de senhoras primorosamente vestidas e sob as impressões mais agradaveis de vivas, musica e foguetes, se dirigio á igreja, e após disso foi offerecido a S.M. o Imperador um excellente copo d'agua, que S.M. o Imperador se dignou agradecer, embarcando uma hora depois para Pelotas, onde chegou ás 7 horas da noite.

'S.M. o Imperador foi recebido nesta cidade com o maior enthusiasmo que é possivel imaginar, no porto de desembarque, além das autoridades e povo que o esperavão, estavão as senhoras mais gradas do lugar, e seguindo S.M. a pé até a cidade, encontrou esta primorosamente illuminada, sobresahindo a praça do mercado e theatro.

'O povo em massa não deixou durante a noite as ruas, bandas de musicca e um sem numero de foguetes abrilhantárão durante a noite a recepção de S.M. o Imperador.

'No dia 27 deve S.M. o Imperador seguir para a capital da província, onde se demorará de 3 a 4 dias, vindo depois para essa cidade.

'S.A. o Sr. Conde d'Eu chegou alguma cousa incommodado, porém sem que inspire cuidado."

Fonte: DIARIO DE SÃO PAULO (SP), 10 de Novembro de 1865, pág. 01, col. 02

domingo, 30 de junho de 2019

O Rio Grande do Sul na Idade do Couro


"Que produtos exportou, nessa 'idade do couro', o Rio Grande do Sul? A primeira notícia, que se tem, de atividade lucrativa aqui exercida, refere-se à extração e comercialização de couros. Entre os fundadores contam-se muitos coureadores, gente que se espalhava pela Campanha à caça do gado alçado. Formavam uma classe. Logo depois, vieram os cereais, plantados em pequenos lotes, denominados 'chãos', a uva (de que três anos depois já se fazia consumo no porto de Rio Grande), etc. Foi tão intensa a extração de couros, e tão desordenada, que o governador André Ribeiro Coutinho, sucessor de Silva Pais, baixou o 'Regimento da Courama', para vigorar em todo o território gaúcho a partir de junho de 1739, muito cedo, portanto. De resto, sobre tal produto recaía o imposto do quinto, de modo que interessava vivamente ao governador regular as coisas a fim de não haver desperdício de tão preciosa matéria-prima. Precioso, sim. À falta de melhor material, usava-se o couro na confecção de vários utensílios, na cobertura e como parede dos ranchos e casas, na confecção de vestimentas, nas botas, numa infinidade de outras coisas essenciais. Compreende-se, por isso, a minúcia com que Coutinho definiu obrigações, regulou o transporte, a conservação e a guarda dos couros, cominando penas aos infratores e procurando sempre adequar tudo aos interesses da Provedoria Real e bem-estar da população em germe.

Por esse Regimento, vê-se também que havia, então, matança de gado em diversos pontos do território: Estreito, Porto, Taim, Albardão, São Miguel, estâncias reais de Torotama e Bojuru e, em todos, a cobrança do imposto era de preceito. Uma vasta área, contudo, escapava à fiscalização. Aventureiros sem rei nem roque, - gente andeja, resultante do acasalamento em várias etnias, entre as quais predominava o aborígine, - percorriam livremente a Campanha, nas Vacarias do Mar, a extrair couros do gado bravo para comerciá-los no litoral, aonde acorriam comerciantes matriculados, contrabandistas e flibusteiros, interessados em levá-los para a Europa, onde obtinham bom preço. Desse meio campesino nasceu o gaúcho. Sua energia e bravura, na fase da courama e das tropeadas, consagraram-no como o expoente de uma classe inculta cuja vida girou por inteiro em torno da vida livre e da pecuária 'extrativa'. Mais tarde, no período das lutas políticas internas, como sucedeu na Guerra dos Farrapos, esse tipo marginal, a seu modo um trabalhador 'autônomo', ganharia especial relevo como guerreiro indomável.

Mas ordenar o mundo caótico da Campanha, pátria desses campeadores primitivos, abarbarados, não foi obra fácil. Ao sentar pé no Rio Grande, a administração lusa fez o possível para civilizar aquela gente, que compartilhava com os índios, Minuanos, Charruas e Tapes, o proteinato das Vacarias. É o que veremos depois.

O sistema militar defensivo, traçado por Silva Pais, compreendia o estabelecimento de guardas, nos passos, na Angustura de Castilhos, no porto de Viamão, nas cercanias do Porto do Rio Grande. A subsequente construção de fortins de campanha, associados às fortalezas do litoral e de Rio Pardo, na confluência do Jacuí, impôs respeito aos platinos e evitou a infiltração de tropas espanholas, especialmente de índios missioneiros, que, se pudessem, teriam barrado a lenta penetração portuguesa em direção ao Rio Uruguai.

A distribuição de terras a antigos militares, leais à Coroa, ou a colonos descendentes ou protegidos do pessoal integrante do estamento régio, foi, em certo momento, em especial no período da ocupação espanhola do Rio Grande (1763-1776), a medida de que se serviram os vices-reis para formar uma fronteira viva no Brasil Meridional. De fato, as sesmarias, então doadas a pessoas de posses ou de prestígio, serviram de base à implantação de estâncias, em cujos campos o gado, sob um costeio antes ignorado, prosperou grandemente. Da mera caça aos bois e aos cavalos, no campo indiviso, passava-se agora a uma nova fase, que iria abrir à estância, no seu sentido clássico de estabelecimento destinado à criação de gado, a oportunidade de centrar, constelar atividades econômicas em todas as áreas do Rio Grande do Sul.

O 'monarca dos coxilhas', o tipo clássico do gaúcho, tem aí um papel singular. Ele é que arrebanha o grosso da gadaria para os matadouros e charqueadas. Esses estabelecimentos, um tanto rudimentares, vinham da época de Silva Pais. Mas, em consequência da crescente demanda do produto e dos mesmos choques armados que ensanguentaram e empobreceram os campos uruguaios, na era artiguista, essa indústria de transição alcança por volta de 1820 extraordinário desenvolvimento. A propriedade fundiária sobe de preço. Aumenta a escravaria. Cresce a exportação."

Fonte: CÉSAR, Guilhermino. Ocupação e diferenciação do espaço. IN: DACANAL, José Hildebrando & GONZAGA, Sergius. RS: Economia e Política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1979, pág. 12-14.
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