terça-feira, 26 de maio de 2015

Almanaque de Pelotas 1862 - Parte 1

Primeira página da edição de 13 de Setembro de 1910 do jornal "A Opinião Pública" de Pelotas
NOTA: Transcrição da cópia publicada em 21 partes em diversas edições do periódico “A Opinião Pública”, de Pelotas; a primeira parte surge na edição de 13 de Setembro de 1910 e a última parte na edição de 10 de Outubro do mesmo ano. Foi conservada a grafia original. Autor: Joaquim Dias. E-mail: joaquimdias.1980@gmail.com


Almanack do anno de 1862
                Publicado em Pelotas, por Joaquim Ferreira Nunes, na typ. á rua da Igreja n.62
_____________________________________________________________________________
O ALMANAK
                Meus charos leitores, e amaveis leitoras, tivessem mui boas festas, boas sahidas de extincto, e melhores entradas do anno 1862. Eis o que de coração e pela oportunidade do ensejo, lhes posso dizer.
                Os leitores sabem perfeitamente o que é um ALMANAK: por consequência fazer-lhes uma explicação clara e precisa do que é e do que vale este livrinho, creio que seria uma loucura.
                Não ignorão pois, que em um ALMANAK, o mais interessante não é sempre  o calendário, nem os dias de galla, nem as efemérides; isto esta provado: por esta razão, não instamos muito com o nosso colaborador, para que preparasse a folhinha, deste bem aventurado anno de 1862 que promete vir menos calamitoso que o finado, de terrível memoria.
                Não julguem que essa denominação é exagerada; pois não: lembrem-se da catástrofe de Mendonza, das mortes, do rei de Portugal e seu augusto irmão; dos apuros do Papa e da morte do Conde de Cavour.
                Qualquer destes acontecimentos foi uma verdadeira calamidade, sentida por todos, e por todos deplorada. Tomamos parte na dôr geral, portanto, damos qualquer desses assumptos discutidos.
                Adiante.
                Prescindindo da FOLHINHA, (por este anno só) resta-nos a parte instructiva e recreativa, para hir em seguimento á parte comercial, que é sempre a que mais interessa e a que menos recreia. Para esse fim, fiz-mos um apelo á mocidade talentosa do paiz, a fim de cada um vir enriquecer o nosso pequeno ramalhete com uma perfumada flor de seu vasto jardim. Foi um appelo em vão, ou como diz o rifão: - CLAMAR NOS DECERTO.
                A nossa mocidade, perdida no turbilhão de bailes, festas, theatros e cavalinhos, deixem as suas flores perderem-se no rodominhar de uma walsa; dispersarem-se no estoirar de foguetes; e confundir-se n’uma mutação de scena, em evoluções equestres de uma Mistriz de azulados olhos, frios e embaciados como os nevoeiros de sua patria.
                A mocidade cruzou os braços, e emquanto sós por sós, luctavamos energicamente contra mil dificuldades, ella, espectadora impassível, esperava o resultado da lucta para então tomar parte. O resultado não se fez esperar.
                Se não nos orna a fronte a corôa do vencedor, também nos não cabe a vergonha dos vencidos, mórmente quanto o combate era tão desigual.
                Levamos ao cabo a nossa missão, senão com gloria, ao menos com consciencia.  O ALMANAK de 1862 é uma prova: ele ahi vae, talvez incompleto, mas cremos que perfeito.
                Em uma publicação desta ordem, quando todos os cuidados são poucos, vendo-nos sós, não podia de ser assim, e podemos dizer mesmo, que foi uma victoria poder realisa-la, a dispeito dos AUGURES que lhe prognosticavão a morte no hymbrião.
                Porém o ALMANAK nasceo, hade criar-se, e de anno para anno, corrigindo uma falta, segmentando um artigo, hade attingir a perfeição, realisando nossas esperanças e fundamentando nossas promessas.
                Eis o fim que esperamos alcançar, para que trabalhamos, para que nunca deixaremos de trabalhar.
                Oxalá os leitores comprehendão assim o nosso ALMANAK, aceitam-no apesar de suas falhas, e nos coadjuvem com o seu contingente para o do anno seguinte. Farão desse modo um serviço a seu paiz, e tornar-se-hão credores da estima e gratidão que lhe proferem. – O REDACTOR DO ALMANAK.
_____________________________________________________________________________
                Eis-nos chegado ao fim do ALMANAK PELOTENSE para o anno de 1862. Aquillo que muitíssimas pessoas julgavão irrealizável, acha-se hoje executado; é verdade que, não poucos forão os sacrificios e esforços que fizemos para apresentar ao nosso publico uma obra desta natureza.
                Não se pode duvidar que é um trabalho de summa importância e auxilio para todos, infelizmente apesar d’isso, custa-nos a dizer que tentando nós todos os meios para apresentarmos um trabalho regular, baldado foi todo o nosso cuidado em pedir a uns e outros notas e esclarecimentos necessarios para formarmos o nosso ALMANAK; por isso ufanos podemos afiançar que o que hoje apresentamos, embora incompleto é fructo especial do nosso trabalho, esforço e zelo; não tivemos aquelles recursos com que contávamos e que nos voluntariamente nos havião prometido. Paciencia! O primeiro passo esta dado.
                Ainda existe entre nós um prejuízo, e não pequeno, que deve ser removido, afim de não obstar a marcha dos progressos materiaes desta boa terra, e vem a ser: quando se tenta uma empresa qualquer e esta apresenta algumas dificuldades, que com um pouco de paciencia e boa vontade de todo desapparecerão, gritão logo que é impossivel, que não é para nossos dias, que só d’aqui para cem anos, etc., etc.
                Quando estas e outras insinuações chegão a desanimar os Rothschilds, nas menores tentativas, o que será de nós pobretões, que só comnosco contamos?
                Eis não hade ser nada, não ha tempestade que se não acalme. Já agora prosseguiremos impavidos, qual intrepido nauta ao furor das tempestades, e dos escolhos que povoão o vasto oceano das difficuldades.
                Pretendemos para o anno apresentar ao nosso respeitável publico um ALMANAK, senão completo, ao menos regular. Irá seguido de artigos interessantes, poesias, charadas, etc. conhecemos perfeitamente que o que agora apresentamos está mui incompleto, mas nós temos muita confiança no antigo adagio: - DE VAGAR SE VAE AO LONGE.
                Ao finalisarmos este pequeno cavaco, pedimos a todos nossos favorecedores hajão de desculpar as faltas que involuntariamente se tenhão dado na presente obra. – DA REDACÇÃO.

DUAS PALAVRAS AOS LEITORES
RIDENDO, CASTIGAT MORES
                No momento que veio me a idéa fazer um almanack, qual vos apresento, minha única ficção foi poder dar-vos um meio mais facilitoso d’esta ou d’aquella pessoa onde residia, e conjunctamente adaptar charadas, enigmas, logogryphos, anedoctas, e mais diversões, que por ventura os meus amaveis leitores queirão mandar inserir: afiançando-vos que além do util, terão o agradavel.

                Alem d’isso prometo-lhes que sómente no anno de 1862, é que terão simplesmente almanack, mas que nos anos vindouros, adjuntado dito terão uma folhinha. Vinde, charos leitores, accudi a esta vossa casa, comprae-me muitos e muitos almanacks. Vida, saude e dinheiro sempre vos heide desejar, (assim como para mim) porque com isso, bem sabeis que continuo a imprimir muitos e novos almanacks que vos recrêem, e a receber os vossos abençoados e amaveis cobres.

Almanaque de Pelotas do ano de 1862 - Introdução

Detalhe do texto do almanaque sendo reproduzido na edição da "A Opinião Pública" de 13 de Setembro de 1910
Encontrei esse texto que creio que seja o integral numa pesquisa que fiz em 2009 no Centro de Documentação & Obras Valiosas da Bibliotheca Pública Pelotense, em Pelotas no jornal "A Opinião Pública" do conjunto do ano de 1910. Naquela ocasião, eu estava fazendo uma pesquisa sobre outro tema, mas tive a surpresa de encontrar esse texto, que logo, de imediato, considerei importante, justamente por não saber de nenhuma fonte que citasse a existência deste almanaque. Transcrevo aqui neste blog para uso público e novas pesquisas. SÓ PEÇO A GENTILEZA DA CITAÇÃO DA FONTE.

Resumidamente, o almanaque de Pelotas de 1862 foi criado e editado por um sujeito de nome Joaquim Ferreira Nunes, dono de uma tipografia na cidade naquela época. Na introdução do almanaque, o sujeito em questão fala que iria apresentar tão somente um almanaque e deixaria a "folhinha" para anos subsequentes. Explico isso, por que o tal almanaque lembra muito um guia comercial e de endereços gerais. Não há textos mais abrangentes, pois ele fala na introdução que iria juntar pequenos artigos literários, poesias, anedotas, enigmas, etc., mas isso não foi reproduzido na "A Opinião Pública". Minha suposição é que nesta primeira edição deste almanaque, isso ficou de fora, pois ele trata o conceito de almanaque como uma espécie de guia geral mesmo. E digo na primeira edição, pois ele deixa claro também esse detalhe na introdução. Isto é, em 1862 foi a primeira vez que ele conseguiu trazer à tona a ideia de um almanaque de Pelotas.

IMPORTÂNCIA: o sujeito listou praticamente tudo o que havia em Pelotas na época: o corpo de membros da Igreja, as irmandades religiosas leigas, o poder judiciário, a guarda, os comércios, as empresas, os hotéis, as charqueadas, o correio, as escolas, a administração pública, a coletoria de impostos, etc. É como se fosse um censo político e comercial da cidade. Ele aponta quem é responsável pelo quê, onde mora, com a rua e algumas vezes (não todas) o número da casa.

Meu olhar sobre Capão do Leão

Artigo originalmente escrito por mim para a coletânea "Olhares sobre Capão do Leão", publicada em 2014 pela editora Oikós. Na ocasião, tive dois artigos publicados na coletânea, mas este ficou de fora. Mais tarde, passei a uma professora de Estudos Sociais da rede municipal de ensino para uso em aula. Publico, por hora, como texto pedagógico a quem quiser usá-lo. Só solicito a gentileza de citar a fonte.

Meu olhar sobre Capão do Leão
            Desde pequeno ouço dizer que Capão do Leão é sinônimo de pedra. Morei parte de minha infância em Pelotas e havia próximo a casa em que morava um senhor gordo aposentado que era amigo de meu pai. Vez ou outra, ele passava defronte à nossa casa e conversava com meu pai e brincava conosco usando alguma sorte de pilhéria. Cada vez que nós íamos visitar nossos avós em Capão do Leão, este senhor gordo dizia que íamos tomar “sopa de pedra”. Quando voltávamos, ele não perdia tempo e nos perguntava se a tal sopa de pedra estava boa. Para ele, assim como para tantos outros moradores de cidades de região, Capão do Leão e suas pedreiras são dois elementos indissociáveis no imaginário.
            Não digo que ele estivesse errado, a não ser pelo fato que jamais tomei a tal sopa de pedra (ou conhecesse alguém que a tivesse experimentado). Capão do Leão tem muito de sua história e identidade relacionadas de modo profundo com suas reservas de granito. Muito embora, não foi a pedra que fundou o Capão do Leão, mas o boi.
            No turbulento século XVIII de disputas territoriais entre portugueses e castelhanos pelas terras da margem oriental do rio Uruguai, os habitantes da vila de Rio Grande se lançaram além do São Gonçalo[1] e ocuparam terras que mais tarde seriam os atuais municípios de São Lourenço do Sul, Turuçu, Arroio do Padre, Canguçu, Morro Redondo, Arroio Grande, o próprio Capão do Leão, chegando mesmo às serras de Piratini e às praias do rio Jaguarão. Tudo com o propósito de “marcar território” diante de castelhanos que reivindicavam direitos mais antigos sobre a terra que os lusos. Depois de 1777, ano do Tratado de Santo Ildefonso, podemos dizer que toda a região supracitada já era portuguesa de fato e direito e daí começa a história documental mais abundante sobre todos esses rincões. Capão do Leão aparece como um ponto inóspito a meio caminho entre “os campos de Pelotas” e o Forte São Gonçalo (Arroio Grande). Não existia verdadeiramente Capão do Leão como ponto localidade delimitada, existiam sim cinco sesmarias[2] na área do atual município: Sant’Ana, das Pedras, São Thomé, Pavão e do Padre Doutor. Padre este que chamava-se Pedro Pereira Fernandes de Mesquita e foi tio do eminente Hipólito José da Costa, fundador do primeiro jornal brasileiro[3] e patrono da Imprensa Brasileira. Hipólito muito provavelmente recebeu seus primeiros estudos na estância do Padre Doutor – residência hoje que é a sede da Estância Santa Tecla.
            Bem, mas eu falei de boi. Pois foi o boi e a necessidade de ocupar a terra que trouxe para esses pagos – sem considerar os índios tapes e minuanos que havia aqui – os primeiros colonos luso-brasileiros e sacramentinos.[4] Rebanhos e rebanhos, ora xucros, ora domesticados, eram a riqueza da região naquela época, seja para a produção do charque que já se embrionava, seja para a produção de couro que sempre tinha mercado.
            A pecuária de corte no Capão do Leão foi a atividade econômica mais importante desde a chegada dos primeiros luso-brasileiros no fim do século XVIII até a década de 1880. Tropas de gado e os tropeiros que a conduziam ajudaram a criar os primeiros caminhos leonenses, literalmente abertos na ponta de cascos de bois, cavalos e mulas. A maioria de nossas estradas rurais e mesmo vias urbanas como a Avenida Narciso Silva e a Avenida Três de Maio, simplesmente eram no passado “corredores de tropas” que se direcionavam ou para as charqueadas pelotenses, ou para serem negociadas na Tablada, ou para engorda nos campos úmidos do Pavão.
            Pouco se sabe a respeito do Capão do Leão no século XIX, a não ser que o tal Capão era um rincão certamente povoado nos arredores de Pelotas. O fato é que Capão do Leão existia documentalmente. Em 1809, um requerimento levado ao Rio de Janeiro pelo Padre Felício pede que seja autorizado o erguimento de uma freguesia[5] no “lugar denominado Capão do Leão da fazenda de Pelotas”. O pedido foi acatado, porém a freguesia surgiria onde hoje é o centro de Pelotas. Em 1828, o soldado alemão Carl Seidler, a serviço do Império na Guerra da Cisplatina, por aqui passou e pernoitou. Experiência esta não muito agradável no seu olhar eurocêntrico, pois ela teve que se abrigar numa “venda de mulatos” – lugar onde muitos aspectos o assombraram[6].
            Na Guerra dos Farrapos, o rincão leonense foi disputado bravamente por legalistas e revolucionários. Consta até o registro de uma batalha oficial em 1837, vencida pelos farroupilhas. Mais tarde, no ano de 1851, uma inusitada experiência colonizadora foi tentada nos campos que hoje fazem parte do Jardim América, Embrapa e Loteamento Zona Sul: uma colônia formada por irlandeses e ingleses[7]. Não teve êxito a colônia, mas muitos descendentes permaneceram na região e no município. É a partir da década de 1880 que as coisas no obscuro Capão do Leão das tropas de bois e de ralas informações começam a mudar. Em 1884, a Southern Brazil Railway Company inaugura a ferrovia Pelotas-Bagé. Capão do Leão torna-se um ponto de parada e é agraciado com uma estação. Logo, outros acontecimentos favorecem a transformação da antiga grota em próspera vila.
Até aquele momento, pessoa importante aqui era um sujeito chamado Florentino Antonio dos Santos. Importante por que possuía por essas bandas uma espécie de taverna com hospedaria e potreiro destinada a atender viajantes e tropeiros que vinham da Campanha[8]. Florentino e sua taverna eram a referência naquilo que era denominado o Capão do Leão. Só que Florentino resolveu vender todas as suas propriedades a outro sujeito: um tal de Domingos Fernandes da Rocha. Rocha queria ganhar dinheiro com criação e reprodução de cavalos. Sabe-se lá porquê, teve revés nos negócios e para arcar com as dívidas resolveu vender tudo o que tinha. Só que não passou a propriedade para outrem. Loteou a área em pequenas propriedades e as vendeu para renomados cidadãos das elites pelotense e rio-grandina. Essas pequenas propriedades foram ocupadas por elegantes casas de inspiração europeia e famílias que desejavam aproveitar o clima silvestre do lugar, principalmente nas épocas de veraneio. Em pouco tempo, surgiriam as elegantes Villa do Capão do Leão e Villa Theodózio.
A multiplicação dessas novas moradias fez surgir toda uma rede de comércio e serviços. A estação ferroviária também foi um motivo para que isso acontecesse. Pessoas e produtos agrícolas se dirigiam à estação com rumo à Campanha ou à Pelotas. Onde há circulação, há necessidades de comércio. O primitivo núcleo urbano leonense crescia e se desenvolvia aceleradamente. Em paralelo, a fruticultura de clima temperado tomava corpo como importante atividade econômica. Logo em seguida, a produção de lenha, carvão e as primeiras explorações de granito completavam o quadro favorável do fim do século XIX. Até a Princesa Isabel esteve por aqui, almoçando no requintado Hotel Benjamin em 1885. Com a República, o Capão do Leão passava a ser oficialmente distrito de Pelotas (1893).
Foi a partir de 1909, porém que a Villa do Capão do Leão assistiu seu cotidiano transformar-se ainda mais. Com o propósito de construção dos Molhes da Barra de Rio Grande, a Companhia Francesa[9] ocupara o antigo Cerro das Pombas[10] para extrair grandes blocos de pedra. Junto vieram uma tecnologia de extração mineral inovadora para a época, eletricidade, migrantes e progresso econômico. Mesmo com a saída da companhia em 1919, Capão do Leão e suas pedras tornaram-se famosos na região. A atividade mineradora sempre permaneceu como um destaque leonense, não circunscrito somente a Serra do Granito, mas se estendendo até o Cerro das Almas, Descanso e Passo das Pedras.
Pedras, veraneios, frutas e um regular progresso marcaram o Capão do Leão até meados do século XX. Depois, as antigas famílias que aqui tinham chácaras passaram a ir embora. A fruticultura foi quebrando graças à maestria de algumas políticas econômicas regionais e seus criadores. As pedras sempre continuaram, mas foi a partir de 1950 até meados da década de 1980, com o início do processo do êxodo rural em toda a metade sul do estado, que se inicia um considerável período de contínua migração em território leonense. Mais do que saiu, entrou gente em Capão do Leão. Era afinal o distrito mais próximo a Pelotas.
É a época do surgimento do Jardim América (década de 1950), das expansões das áreas urbanas na Embrapa, Teodósio, Cerro do Estado e as primeiras casinhas às margens da BR-293, embriões das futuras Vila do Toco, Vila Gabriela Gastal e Parque Fragata. Enquanto alguns desses migrantes são absorvidos pela ainda importante mas não tão forte agroindústria de conservas e doces, boa parte vem para trabalhar nos nascentes frigoríficos, nas grandes obras das rodovias, na Universidade Federal e nas plantações de arroz.
Em 1963, Capão do Leão já com algum destaque socioeconômico regional tentou sua emancipação, sonho logo posto abaixo pelo prefeito de Pelotas. Em 1981-1982, a história se repetiria, só que agora com a conquista da autonomia política finalmente concretizada. Eu, particularmente, penso que Capão do Leão, mesmo com todos os seus problemas, ganhou com a emancipação. Um fato se impõe: pela arrecadação que o antigo quarto distrito de Pelotas produzia, o Capão do Leão era muito maltratado nas decisões políticas. Serviços básicos demoravam um “eito” para chegarem, a prioridade das ações públicas se direcionava mais para a zona norte de Pelotas e seus distritos “alemães”. Mesmo tendo permanente um representante na Câmara de Vereadores – Elberto Madruga – a situação não vislumbrava muito uma melhoria.
Com a emancipação, ao menos Capão do Leão passou a ser responsável por aquilo que poderia ter feito de certo ou errado. Na década de 1980, a realidade já era bem diferente de décadas anteriores. Foi o boom da imigração! O município estava sendo construído dentro de um contexto regional turbulento[11]. A década seguinte não fugiu à tona.
No alvorecer do século XXI, Capão do Leão ainda tem uma identificação muito grande com suas pedreiras. Embora, ele não seja somente pedra. O Jardim América possui uma realidade diferente e seu crescimento populacional nos permite dizer que é um núcleo urbano que possui identidade própria. Outras zonas do município também. O arroz e a soja dominam nossa agricultura. A pecuária leiteira também tem sua importância, não desfazendo de nossa agricultura familiar igualmente. Bem sigo falando de economia, vou mudar o disco.
O povo leonense possui muitas matizes em sua origem. Recebe o sangue dos migrantes de nossa região, de vários rincões e municípios do estado. Mesclam-se fortemente os elementos português, ameríndio e negro africano. Dos europeus, ainda conta-se o alemão, o italiano, o basco e o espanhol. O uruguaio também se achegou por estes pagos no decorrer da história.
Seguramente, vivemos em mais de três décadas de emancipação política a primeira e genuína geração de leonenses – no sentido mais amplo da palavra. Não somente pessoas que nasceram aqui, mas pessoas que viveram e vivem a realidade de Capão do Leão desde que ele tornou-se independente. Houve muitas conquistas, novos desafios surgiram. É uma terra com grande potencial humano, natural e econômico. O futuro se coloca como uma indagação persistente, pois já se percebe que aquilo que pertencia ao chamado “ciclo emancipacionista” como ideias e personagens já ocupou seu lugar na história e teve seu legado. A nova geração que vive Capão do Leão tem o desafio de dar continuidade à história deste chão. Mais do que um chamamento, isto é também um imperativo. Afinal, em 2060 seremos o terceiro município mais populoso[12] de toda a zona sul!







[1] Canal São Gonçalo, ligação fluvial entre a Laguna dos Patos e a Lagoa Mirim.
[2] Espécie de unidade agrária correspondente a 6.600 metros de distância. Na época colonial, tornou-se sinônimo de área rural concedida a alguém por serviços prestados à Coroa Portuguesa. Na maioria dos casos, as sesmarias ultrapassam as medidas oficiais. O brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, por exemplo, tinha uma “sesmaria” que contava mais de seis sesmarias de área.
[3] O Correio Braziliense, publicado em Londres, em 1808.
[4] Procedentes da antiga Colônia do Sacramento, atual Uruguay, último entreposto português na América do Sul.
[5] No sentido do texto, uma paróquia com capela matriz.
[6] Seidler descreve sua passagem em Capão do Leão eivada de preconceito, pois fora recebido por mestiços e negros. De certa maneira, ele se choca com os costumes rústicos das pessoas que encontrou. Diferente de quando chega a Pelotas, onde é hospedado por pessoas de costumes bem mais próximos à dita educação europeia.
[7] Vieram patrocinados pela Associação Auxiliadora da Colonização de Pelotas. Os irlandeses eram provenientes da baronia de Forth, Condado de Wexford.
[8] As informações em itálico são do cronista pelotense Alberto Coelho da Cunha que escreveu a obra manuscrita “História dos Distritos de Pelotas” na década de 1920.
[9] Compagnie Française du Port du Rio Grande do Sul.
[10] Nome antigo do Cerro do Estado.
[11] Foi o período da crise derradeira da indústria conserveira na região.
[12] Segundo um estudo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/UFPel, de 2005.

domingo, 24 de maio de 2015

O Município de Capão do Leão

Artigo de minha autoria que faz parte do Plano Municipal de Educação do Capão do Leão de 2015, como parte introdutória e de apresentação. Na ocasião, fui convidado pela Ilma. Sra. Suelen Cunha Cardoso, secretária municipal de Educação, a contribuir com o texto no documento principal. O texto pode ser usado como resumo de apresentação a pessoas que buscam informações sobre o município.

O Município de Capão do Leão
                Capão do Leão é um município gaúcho emancipado de Pelotas em 1982, mas enquanto localidade data de meados do século XVIII. A área atual do município pertencia ao distrito do Cerro Pelado da Comandância Militar da Vila de Rio Grande. Logo após o Tratado de Santo Ildefonso (1777) percebia-se em nossa região cinco sesmarias com regular atividade pecuária: Sant’Anna, São Thomé, das Pedras, do Padre Doutor e do Pavão, sendo esta última a maior e pertencente ao Brigadeiro Rafael Pinto Bandeira – personagem de destaque das lutas entre portugueses e espanhóis pelas fronteiras do sul do Brasil. Na sesmaria do Padre Doutor, alcunha do padre Pedro Pereira Fernandes de Mesquita, viveu seu sobrinho Hipólito José da Costa – patrono da Imprensa Brasileira. Na propriedade do Padre Doutor também foi estabelecido o primeiro templo religioso da região, o Oratório Nossa Senhora da Conceição em 1794.
                Em 1809, numa petição enviada ao príncipe-regente Dom João VI no Rio de Janeiro, temos a mais antiga menção ao Capão do Leão, o que intui a existência de um primitivo povoado já naquela época por essas terras. O alemão Carl Seidler em 1828 também denota, na sua passagem por Capão do Leão, a existência de uma pequena aglomeração. Durante o século XIX, a região do Capão do Leão será marcada por uma economia fundamentada principalmente na pecuária, com diversas estradas e caminhos percorridos por tropas de bois e tropeiros, além de várias invernadas para engorda do gado. Em menor escala, encontravam-se plantações de trigo e arroz.
                Aproximadamente em 1870, Domingos Fernandes da Rocha comprou uma porção de terras entre o arroio São Thomé e a encosta da atual pedreira da Empem do comerciante Florentino Antônio dos Santos. Posteriormente, ele loteou a área e, a partir da década de 1880, Capão do Leão foi sendo ocupado por diversas chácaras e sítios com o propósito de veraneio e descanso das famílias ricas de Pelotas e Rio Grande. Em 1884, com a instalação da linha férrea e a construção de uma estação ferroviária, o crescimento populacional e urbano via se acelerar consideravelmente. Desenvolve-se igualmente com muito destaque a fruticultura de clima temperado. Em 1893, Capão do Leão é alçado à condição de distrito de Pelotas. Mais tarde em 1909, no denominado Cerro das Pombas (atual Cerro do Estado) instala-se a Companhia Francesa do Porto de Rio Grande, com o objetivo de extrair pedras para a construção dos molhes da Barra de Rio Grande e do novo porto daquela cidade. O fato também vai ser decisivo para o desenvolvimento da então Villa do Capão do Leão, que em 1920 já conta com aproximadamente 1200 habitantes.
                Até aproximadamente 1950, o tripé econômico extração mineral/fruticultura/veraneio será a base do desenvolvimento leonense. A partir desta época, o êxodo rural verificado na região favoreceu o crescimento populacional mais intenso. Em 1954, a Companhia Comercial e Construtora América cria o bairro Jardim América. Em 1963, ocorre uma primeira tentativa de emancipação política, porém malograda. Com a chegada da década de 1970, houve a instalação de frigoríficos e as grandes obras das rodovias BR-116 e BR-293, o que trouxe uma ampliação considerável da área urbana. São dessa época o bairro Parque Fragata (1974), o Loteamento Zona Sul (1977) e a Vila Gabriela Gastal (1978). Em 1982, após um novo movimento emancipacionista iniciado no ano anterior, Capão do Leão por fim torna-se município.
                Capão do Leão possui uma história indiscutivelmente ligada à migração regional. Recebeu e recebe vários migrantes de diversos municípios da zona sul – fato sempre relacionado às diversas atividades econômicas que aqui se desenvolveram. O povo leonense é também profundamente miscigenado, com a presença de descendentes, desde a sua origem, de luso-brasileiros, sacramentinos, portugueses, espanhóis, alemães, africanos, italianos, franceses, etc. Da matriz indígena, percorriam o território antes da chegada europeia, índios tapes e minuanos.
                Em termos geográficos, Capão do Leão localiza-se na latitude 31º45'48" sul e na  longitude 52º29'02" oeste, no sul do estado do Rio Grande do Sul e possui uma área de 785,373 km2. A altitude média é de 21 metros e o clima é subtropical. O ponto mais alto é o Cerro das Almas com 282 metros de altitude. Os principais cursos d’água são o Rio Piratini, o Canal São Gonçalo, os arroios São Tomé, das Pedras, Itaita, Fragata (ou Moreira), Ávila, São Pedro e Palma, além de uma variedade de açudes e pequenos córregos. O relevo é marcado por uma vasta planície que domina as porções leste sul do município, justamente na área costeira do canal São Gonçalo. Nas porções norte e oeste, verificam-se maior número de elevações, com a presença de vários cerros e morros que fazem parte da Serra dos Tapes.  A vegetação típica é a do bioma Pampa.

                . A população em 2010, segundo dados do IBGE é de 24.298 habitantes. A economia tem como base o setor de serviços. São atividades econômicas de destaque: a extração mineral, as lavouras de soja e arroz, a criação de gado leiteiro e a produção de forrageiras. O município conta com três distritos: Pavão, Hidráulica e Passo das Pedras.  O município limita-se ao norte com Morro Redondo, a leste com Rio Grande e Pelotas, a sul com Arroio Grande e a oeste com Cerrito e Pedro Osório.

Minha contribuição sobre a origem do nome do Capão do Leão em vídeo

Parte do documentário "Capão do Leão - História, desenvolvimento e natureza" produzido por Thalys Produções conveniado com a Prefeitura de Capão do Leão, SEMA/RS e DMA.

A edição do vídeo no YouTube foi feita pelo meu amigo e companheiro de IHGCL, Arthur Victória Silva.

Na ocasião, março de 2014, eu fui convidado a contribuir com meu depoimento pelo geólogo Ricardo Decker.

Blog desatualizado

Tenho tido pouco tempo para acessar o painel do blog, por isso o blog está desatualizado, aliás muito desatualizado. O fato é que não abandonei as pesquisas sobre a história do Capão do Leão, mas desde o momento que me agreguei ao Instituto Histórico e Geográfico do Capão do Leão, muitas das minhas atividades convergiram para esta instituição. Por isso, não há postagens há quase dois anos. 


Se alguém precisar o contato comigo, no momento, peço a gentileza que envie um email para joaquimdias.1980@gmail.com


Quanto a este blog, pretendo mantê-lo no ar ainda como fonte de referência, pois percebo que mesmo que "abandonado", muitos artigos e postagens diversas ainda são surpreendentemente bem acessados.

Tenho algumas sobre a história de Pelotas que colocarei aqui também. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Novo blog

Ainda em construção, com alguns textos sendo reaproveitados, mas que, aos poucos estará se firmando. Acredito que, até o final do ano, ele estará completo e com muitas novidades. Eis o novo endereço, agora no tumblr: http://capaodoleao.tumblr.com/
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...