quinta-feira, 11 de maio de 2017

Juvêncio Pereira - o terror da Serra dos Tapes

Interior do município de Cerrito

Célebre, Celebérrimo, famigerado, facínora, lendário, inditoso, façanhudo, terror, celerado – eis alguns dos adjetivos que pululavam em jornais de Pelotas, Rio Grande, Jaguarão, Bagé, Porto Alegre, e até mesmo na capital do império, o Rio de Janeiro, quando na década de 1880 ia se noticiar as bandidagens de Cândido Juvêncio Pereira, ou simplesmente Juvêncio Pereira, como era mais conhecido.
                Juvêncio Pereira era procedente da freguesia do Cerrito (hoje município), que na época pertencia ao município de Canguçu. Nasceu por volta de 1851 ou 1852 e desde a mais tenra juventude já era conhecido por suas contravenções. Consta que desertou da Guarda Nacional em 1873 e se ocultou durante certo tempo no interior de Canguçu em razão disso. Todavia, voltou a morar na freguesia do Cerrito e não era pessoa muito bem vista na comunidade, pois o alcunhavam bandido de longos tempos na região. Agia no interior, praticando roubos diversos, quase sempre buscando dinheiro ou objetos de valor. Também era de uma família conhecida pela má-fama. Tinha um irmão, João Pereira, que o acompanhava nos crimes, e um primo de apelido Belo Pereira (Belarmino Pereira de Castro), igualmente biltre. Os Pereira do distrito do Cerrito encontraram confrades perfeitos para sua vida de crimes entre os Couto de Canguçu, dentre os quais se destacavam Francisco Luiz Couto, Galiano Couto, Raphael Couto, Marciano e Camillo Couto. Importante destacar que esta aliança criminosa entre as duas famílias vai ser a origem do bando liderado pelo próprio Juvêncio anos depois.


                A entrada de Juvêncio Pereira na notoriedade pública muito além do pequeno mundo da freguesia do Cerrito se deu em 08 de Junho de 1880, quando assassinou Luiz Manoel Guerreiro, de 24 anos, após ter ido a casa deste na localidade do Tatu cobrar uma suposta dívida por causa de uma carreira de cavalos perdida. A partir de então, a clandestinidade passou a ser sua marca e se tornou um típico bandoleiro – acoitado, nômade, ladrão, assassino. Aterrorizou o interior de Canguçu, Piratini e Pelotas, sendo caçado por diversas patrulhas, envolvendo-se em fugas espetaculares, tiroteios e mortes.
                No inverno de 1882, foi preso pela primeira vez pela polícia de Canguçu numa escaramuça com a polícia nas imediações da Coxilha das Três Pedras. Preso, foi julgado logo em seguida e condenado às galés perpétuas (trabalhos forçados) pelo juiz da comarca daquele município. A prisão foi uma mera trivialidade na trajetória de Juvêncio Pereira. Aproveitando-se da precariedade da cadeia, Juvêncio organizou a própria fuga e a dos demais presos na noite do dia 15 de Setembro de 1882. Todos escaparam para pavor dos moradores.
               
O Bando de Juvêncio
                O bando de Juvêncio era composto pelo consórcio entre os Pereira e os Couto, mas atraía para si toda sorte de delinquentes que passaram a enxergar em Juvêncio Pereira uma espécie de personagem lendário. Também faziam parte da quadrilha: João Manoel de Barros (procedente de Camaquã), Vicente José Gonçalves, Manoel de Braga (pardo quilombola), Adriano Soares de Maia (português), Florentino Marques de Bittencourt (alcunhado Florindo Casú), João Nepomuceno, João Pequeno, José Miguel, Timóteo dos Santos, Rivadavia (uruguaio procedente de Durazno), Francisco Ayres Filho, José Gonçalves (procedente do Passo das Pedras, distrito da Buena), Zeferino Ermelino Furtado, José Ventura, Emygdio Borges, Honório “Piaco” Feijó (de Arroio Grande, associado ao bando, porém aparentemente líder de uma quadrilha própria), Serafim Estrella, Petrônio Álvares, Serrão Pacheco, Testa Furada, entre vários outros ignorados. No auge de suas tropelias em Canguçu, os cronistas da época afirmam que Juvêncio chegou a arregimentar mais de 30 homens. Nos momentos em que eram quase desbaratados, o núcleo podia descer a meros três ou quatro meliantes. Também há o registro que várias mulheres acompanhavam o bando na condição de concubinas. Segundo os noticiários, muitas delas teriam sido obrigadas a se amancebar.
                Galiano Couto era o imediato de Juvêncio, uma espécie de homem de confiança do criminoso. Posteriormente, essa função será delegada a Serrão Pacheco, mas este ainda é apenas um dos quadrilheiros de Juvêncio. Ressalve-se que vários membros do bando foram mortos e presos em momentos diferentes e Juvêncio desde a fuga da prisão em 1882 manteve-se sempre a salvo.
                Durante o ano de 1883, Juvêncio Pereira e seus bandoleiros aterrorizam as freguesias do Cerrito e da Buena, e o sul de Canguçu, chegando mesmo perto do núcleo urbano, mas também fazendo incursões além do rio Piratini, aparecendo em Arroio Grande e também na área da antiga capital farroupilha. No ano seguinte, o bando intensifica suas ações e passa a ser nota frequente nos jornais da região.
                Em 04 de fevereiro de 1884, Juvêncio Pereira e Francisco Ayres Filho surpreendem, roubam e matam os mascates italianos Pedro Brancati e Antonio Sanzio nas matas da freguesia do Cerrito.  Logo em seguida, em 02 de março o bando é visto furtando gado na freguesia de Santa Isabel, Arroio Grande. Ainda no fim deste mês, veementes pedidos de socorro provêm da região do Arroio Malo, em Herval. Em suma, o nomadismo dos salteadores é muito evidente, igualmente porque patrulhas policiais das mais diferentes freguesias e cidades se põem ao encalço dos bandidos. No dia 09 de abril, violento tiroteio entre a quadrilha de Juvêncio Pereira e a força policial do subdelegado Bernardino Ferreira Porto ocorre no Passo dos Marmeleiros, Canguçu. Há muitos mortos entre os bandoleiros e se informa falsamente que Juvêncio Pereira também está entre as vítimas fatais. Apesar das baixas entre os criminosos e alguns presos, Juvêncio escapa com vida e parte da quadrilha se mantém em sua trajetória desvairada.
                Logo em seguida, em maio ocorre outro crime de grande repercussão: a morte de uma família de nove pessoas no Passo das Pedras (freguesia da Buena, hoje parte do município de Capão do Leão). Mais gente da quadrilha passa a ser presas em diferentes localidades, mas Juvêncio mantém-se escondido. Em junho, outro tiroteio com a polícia nas imediações do Cerro do Graxaim, em Canguçu. Em julho, roubo a uma casa comercial no 2º. distrito de Piratini, onde os bandidos usando máscaras espancam até a morte o dono do estabelecimento, o espanhol Pedro Miguel Leyoñoz. Novos crimes se sucedem no Cerrito e na Buena – espécie de área preferencial de Juvêncio e seus asseclas.
                Um detalhe ímpar da ação do bando é que os criminosos juram de morte cada um dos que os perseguem ou ainda pior os traem. Relatos dão conta que informantes são assassinados em suas casas na calada da noite e os bandidos fazem questão de propagar juras intimidatórias a delegados e chefes de polícia. Os dois mais odiados (e justamente aqueles que infringiam a perseguição mais intensa a quadrilha) são Bernardino Ferreira Porto, subdelegado do Cerrito, e o capitão João Manoel Barbosa, subdelegado da Buena.

A morte de Bernardino Porto e a fuga para o Oeste
                Em 25 de Outubro de 1884, no Passo do Vieira (atualmente parte do município de Morro Redondo), o subdelegado Bernardino Ferreira Porto e o soldado Raymundo Serra em expedição a cavalo em busca dos bandoleiros de Juvêncio Pereira se deparam com dois indivíduos deitados e dormindo na aba de um capão de mato e supondo que eram companheiros da mesma jornada, dirigiram-se a eles sem a menor prevenção. O desfecho do encontro é trágico: os dois homens são o próprio Juvêncio Pereira e Marciano Couto. Sobressaltado, Juvêncio puxa a pistola que trazia na cintura e fere mortalmente o subdelegado Bernardino Porto, que imediatamente cai em agonia. O soldado Serra depois do primeiro tiro, desfere outro sobre Marciano Couto que é fulminado ali mesmo. Allucinado e persuadido que havia mais gente a persegui-lo, Juvencio Pereira bateu em retirada para o mato, atirando, porém, ainda alguns tiros sobre o companheiro de sua victima que o perseguia a distancia. Vários petrechos de seu arsenal de guerra são deixados por Juvêncio, que dizem estar ferido e refugiado nas matas da região.  Alguns julgam que ele possa estar morto. Ainda não.
                A morte de Bernardino Porto causa profunda impressão em toda a região, pois o subdelegado era considerado o mais implacável perseguidor do facínora. Os jornais repercutem o acontecido, solicita-se apoio do governo da província, lamenta-se em toda a parte os malogros da polícia.
Contudo, quatro dias depois da morte de Porto, a força policial de Cerrito com apoio do subdestacamento da Buena e de guarda de Canguçu trava novo conflito com os bandoleiros. Tiroteio pesado entre os dois grupos próximo ao Passo de Maria Gomes, com muitos mortos e feridos. Morrem José Ferreira Porto (irmão de Bernardino) e o fiscal Antônio Maria do lado da polícia. Do lado dos bandidos, vários são alvejados fatalmente e João Pereira (irmão de Juvêncio) e Serafim Estrella são presos. Armamentos e munição são confiscados. Brevemente, os sucessos das autoridades de segurança induzem falsamente que a quadrilha está abatida. Juvêncio e alguns de seus seguidores conseguem escapar e fogem para o oeste.


Provavelmente para reorganizar o bando e conseguir novos recursos para recuperarem armas e munições, Juvêncio intensifica seus roubos e a violência empregada. Em novembro de 1884, consta um assalto com espancamento até a morte no Passo do Acampamento, em Piratini, na estalagem de Pedro Miguel Sobreira, onde também são roubados mais de quinhentos mil réis. Na mesma empreitada, um caixeiro do financista Pedro Espelet é roubado de todos os seus provimentos, mas tem melhor sorte e consegue evitar a morte certa se evadindo em meio a vegetação. Ataques registrados na localidade do Juncal, em Jaguarão. Em seguida, latrocínios em Pedras Altas. Sucedem-se ataques a propriedades de Israel Fagundes (três contos de réis) e Zeferino Faria (cinco contos de réis) já em Cacimbinhas (atual município de Pinheiro Machado). O ano está terminando e se tem notícia que os bandoleiros entram em confronto com outros bandidos próximo a Dom Pedrito. No dia 14 de dezembro, observa-se a quadrilha na Bolena, em Bagé. Os jornais chegam a afirmar que em janeiro de 1885, Juvêncio Pereira já rondava Uruguaiana. O bando, porém, não se demora na Campanha. O retorno será breve.

O retorno de Juvêncio e o grande revés do bando
                No dia 18 de fevereiro de 1885, Juvêncio e seus bandidos atacam a casa de Domingos Antônio Barbosa, próximo ao Arroio das Pedras, na divisa entre o Cerrito e a Buena. Atravessando uma restinga de matos e se aproximando do local, a súcia tem intenção de assaltar a propriedade do sujeito que dizem ser conhecido como homem de moeda. No entanto, após terem sido avistados por uma escrava da casa, que adentra a residência em desespero e aos gritos, os bandidos encontram a residência já completamente fechada. No interior da casa, sitiados seus moradores aguardam a desistência dos criminosos. Contudo, os bandoleiros desferem uma descarga violenta de tiros na moradia, antes de se retirarem, quase vitimando uma criança recém-nascida que se encontrava ali abrigada. O ataque à casa de Domingos Antônio Barbosa causa muito espanto na região. Duas coisas passam a pesar após mais uma brutalidade de Juvêncio Pereira e seus quadrilheiros: as autoridades da região não podiam mais tolerar tantos episódios de violência; os bandidos tinham atacado uma pessoa influente da região, providências iriam ser tomadas com mais celeridade.
                Usando de intimidação e violência, as polícias de Pelotas, Canguçu, Piratini, Arroio Grande e até Jaguarão se colocam na perseguição implacável a Juvêncio Pereira e seu bando. Abusos são cometidos e a imprensa noticia o desconforto da população em vários rincões. A casa de parentes dos Couto no interior de Canguçu sofre uma abordagem violenta da polícia em busca de informações.
                No dia 15 de abril, num local próximo ao Passo do Machado, Canguçu, ocorre um novo e decisivo confronto entre o bando de Juvêncio Pereira e as forças policiais. O tenente Augusto César da Cunha e o capitão João Manoel Barbosa de Menezes no comando de uma grande linha de policiais de Canguçu, Buena e Cerrito, cerca de 50 homens ao todo, infringem perdas significativas ao bando e praticamente aniquilam sua ação na região. Após um tiroteio intenso nos campos e matas da região, em que os cavalos são instrumentos de combate valiosos, muitos bandidos são mortos e presos. Na mesma empreitada, o tenente Cunha – homem conhecido por seu caráter enérgico e obstinado – consegue numa perseguição praticamente individual capturar o “número dois” da quadrilha: o braço-direito de Juvêncio, Galiano Couto. A prisão de Galiano é um duro baque ao bando. Os Couto eram diretamente responsáveis pelo provimento de armas, munições e mantimentos aos bandoleiros, devido às suas ligações pessoais. A população da Serra dos Tapes e os jornais festejam o sucesso da autoridade pública.
                Quase que de forma concomitante, outros bandidos são presos em diversos municípios da zona sul. Ocorre uma grande devassa contra os criminosos. No Passo do Vieira, no Chasqueiro, na Serra das Asperezas, e até na Vila de Camaquã, vários delinquentes ligados à quadrilha são capturados.

O destino final de Juvêncio Pereira
                Apesar do revés sofrido no Passo do Machado, Juvêncio Pereira não foi capturado. Mas abandona a região e volta a se esconder. O resto do ano é de um silêncio enigmático sobre o seu paradeiro. Alguns consideram a possibilidade de ele estar morto, pois foi ferido na grande batalha de abril. Ledo engano. O ano de 1885 segue até o seu final sem notícias concretas sobre Juvêncio, apenas boatos. Mas o ano seguinte volta a registrar movimentos do malfeitor.
                Em 05 de janeiro de 1886, uma escolta de 15 praças do 5º. Regimento de Bagé se instala na estação ferroviária do Cerro Chato, após um pedido de socorro da direção da estrada de ferro que avisa que o bando de Juvêncio vagueia a região. É possível que Juvêncio tenha reunido novas asseclas durante o ano anterior, mas sua capacidade de ação encontra-se reduzida. Provavelmente não contava com mais de cinco pessoas. No mesmo mês, no dia 17, Juvêncio e um companheiro são vistos tomando cerveja no Hotel São Pedro na cidade de Pelotas. Avisada a polícia, não encontra nenhum rastro dos meliantes. Sucedem assaltos malogrados em algumas localidades rurais de Pelotas e Canguçu. Não há o mesmo furor de outros tempos. Durante o ano Juvêncio ainda cometerá algumas barbaridades no interior de Bagé. Todavia, caçado pela polícia e duramente fustigado.
                Em janeiro de 1887, um relatório de autoria do delegado Pedro Baptista Corrêa da Câmara de Canguçu enviado à capital da província é taxativo: Juvêncio Pereira refugiou-se em Rivera, no Uruguay. Os supostos bandoleiros de Juvêncio encontram-se dispersos, presos ou mortos. Era o fim do terror da Serra dos Tapes.

Apesar do exílio, o mito ainda persistiu
                Em março de 1888, uma quadrilha atacou e manteve em cárcere privado a família de Mathias Franck, agricultor estabelecido em Santa Isabel, Arroio Grande. O pobre lavrador é obrigado a dar a quantia de quatro contos de réis aos três bandidos. Libertada a família, um detalhe é descoberto pela polícia: quando sequestrado, Mathias Franck foi amordaçado com um lenço que tinha um bordado a retraz com o nome de Juvencio Pereira. Não era o célebre criminoso, muito menos provável que fosse ainda algum do bando. O fato é que o mito de seu nome servia para impor medo. Meliantes de outras paragens entendiam que ter seus nomes vinculados à figura de Juvêncio era sinônimo de ser respeitado e temido.

                Os anos se passaram e quem assumiu a herança maldita de Juvêncio Pereira foi Serrão Pacheco, agora agindo quase exclusivamente no interior de Canguçu. Apesar de suas bandidagens, com o início da Revolução Federalista em 1893, Pacheco não precisará se preocupar muito. É alçado pelas forças maragatas a um posto militar combatendo ao lado dos federalistas. Vários de seus bandoleiros igualmente serão transformados em honrados soldados. Fatos de um passado em que o Rio Grande do Sul vivia a ferro e fogo.

Um comentário:

Edilberto Buck cuba disse...

Que belo trabalho de pesquisa do professor Joaquim Dias! Parabéns professor!

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