sábado, 21 de dezembro de 2019

Companhia Fábrica de Chitas Porto-Alegrense


"Fabrica de chitas

A convite dos distinctos cavalheiros srs. coronel Taborda Ribas e C. Schilling, directores da Companhia Fabrica de Chitas, fomos hoje visitar este estabelecimento, que já se acha funccionando.

Para significar a importancia da fabrica, vamos transmittir ao publico os apontamentos que tomámos, os quaes valerão mais do que as nossas palavras.

Tres são as secções da fabrica: a de branqueamento, a de tinturaria e estamparia e a de fixação das tintas e preparo final da fazenda.

O algo tão destinado á fabricacção da chita soffre mais ou menos este processo.

Passa para uma machina que tem no centro um cylindro de cobre incandescente afim de chamuscar a felpa da fazenda e d'ahi a uma outra, onde leva um banho de vapor, afim de prevenir qualquer incendio.

Em seguida, submettido a um banho accidulado e a outro de agua pura, é mettido em um wagonete, que comporta de 13 a 18000 metros de fazenda, e este impellido para uma grande caldeira, cuja porta abre se para recebel-o por meio de uma bomba hydraulica.

Na caldeira o algodão é mergulhado durante 8 horas em um banho fraco de soda caustica, banho esse que uma bomba centrifuga faz circular por todo o panno.

Recebe ainda o algodão dois banhos, um com acido sulphurico e outro com chlorureto de cal, intercalados de banhos de agua pura.

Passa em seguida á machina de espremer, depois á de seccar e está terminado o processo do branqueamento.

O algodão apresenta-se então de uma alvura de neve.

Quando o algodão é destinado a morim, vai elle á secção respectiva só para receber a gomma e o assetinado preciso.

Quando é para ser convertido em chita, vai a enrolar em uma machina, em rolos de 1000 metros, sendo estes depois levados á machina de estampar, que póde trabalhar em 4 côres ao mesmo tempo, mas que por emquanto só trabalha em duas.

Já transformado em chita, o algodão vai ter ao pavimento superior, onde estão as machinas destinadas á fixar as côres, engommar e lustrar o tecido.

D'ahi passa para uma machina de dobrar, medir e cortar os metros e está concluindo o trabalho.

Iamo-nos esquecendo:

O algodão antes de ser levado á machina de estampar, é submettido a uma outra munida de navalhas circulares que tosam a felpa levantada pelo processo de branqueamento, de maneira a deixar o tecido bem igual, o que é necessario para a nitidez da impressão.

Outras chitas são tingidas, como a azul escuro, que tem grande consumo na região colonial, passando á machina de estampar.

A fabrica n'essas chitas emprega sómente anil puro, e, si os nossos agricultores se dedicassem a cultura da planta que o produz, poderiam conseguir um bom resultado, pois o consumo agora vai ser grande.

Para se avaliar a importancia da secção de tinturaria, basta dizer que ella tem 14 machinas.

A fabrica tem 6 motores, dos quaes 2 são da força de 70 cavallos cada um. Todas sairam das officinas de Mather & Platt, de Manchester, e bem assim todas as machinas, á excepção da bomba que puxa a agua do rio, a qual é de uma fabrica norte-americana.

As outras machinas são em numero de quarenta e tantas e, com os motores, representam um capital de mais de 3000:000$.

A fabrica póde preparara diariamente 400 peças a 30 metros, e apresentar umas cem variedades de chita.

Tem cerca de 50 operarios de ambos os sexos, dos quaes apenas 4 são extrangeiros e estes são os directores das secções de branqueamento, tinturaria e estamparia e o superintendente technico geral.

Varios operarios e operarias já tomaram conta de algumas machinas, entre elles uma menina.

Na fabrica de chitas, como em outras, tem se verificado que o operario brasileiro possue grandes aptidões para a industria fabril.

O estabelecimento dirigido pelos srs. Taborda & Schilling tem já um deposito de 6000 peças de chita e cretone, no valor de cento e tantos contos de réis.

O publico poderá apreciar alguns especimens na loja de fazendas do sr. Amaro Candido de Souza, á rua dos Andradas, onde a chita rio grandense está sendo vendida a 800 réis o metro.

Si viesse do extrangeiro não custaria menos de 1$200, em vista de sua excellente qualidade.

Sabemos, porém, que os srs. Taborda & Schilling vão providenciar de modo a não exceder de 750 réis o preço para a venda a varejo, conciliando o interesse do negociante com o do consumidor.

No pavimento superior do edificio da Fabrica de Chitas ha varios salões desoccupados e que se destinavam ao estabelecimento da industria textil, mas disto tiveram de desistir os fundadores da fabrica por causa da elevação do cambio e de outras circumstancias.

Mais tarde é possivel que sejam aproveitados com a fundação de uma industria amnexa, - uma fabrica de camisetas ou qualquer outra.

Na fabrica tem-se trabalhado com materia prima legitimamente nacional - com algodão colhido em Pernambuco e tecido no Rio de Janeiro.

Terminando estas informações, resta-nos pedir aos negociantes e consumidores toda a protecção possivel em favor da Fabrica de Chitas Porto Alegrense, isto é, em favor da industria rio-grandense."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 29 de Dezembro de 1892, pág. 01, col. 06

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Club Italiano Michelangelo Buonarroti


"Teve todo o brilho a festa inaugural do club italiano Michelangelo Buonarroti, realizada hontem.

Foi grande a concorrencia de cidadãos italianos, que, congregados para dar toda a solemnidade á inauguração de uma sociedade litteraria e recreativa, festejaram tambem o anniversario do juramento da carta constitucional da Italia.

Depois do acto official da inauguração do club Michelangelo Buonarroti, durante o qual fizeram-se ouvir diversos membros d'aquella corporação, servio-se um lauto banquete.

Trocaram-se então saudações enthusiasticas, á Italia e ao Brazil, aos trabalhadores emeritos da grande patria de Mazzini e aos que entre nós collaboram na confraternisação das nacionalidades.

Por entre as alegrias da festa não ficou esquecida a Federação, que foi saudada por um digno cidadão italiano.

Um nosso co-religionario, que esteve presente, correspondeu a tão honrosa distincção.

- Eis o menu do banquete:

ANTIPASTO - Alici alla Cristoforo Colombo, presciutto salame, etc.

Zuppa all'italiana.

Capon maigre alla Genovese.

Milanese di pollo.

Filé con funghi alla Veneziana.

Pernici con piselli alla Tirolese.

Carne suina al forno.

Asparagi alla Torinese.

Dindo con lattughe alla Fiorentina.

POSPASTO - Crèma alla Garibaldi.

Boudin alla Marsigliese.

Marzapane alla Crispi.

Caffé, etc.

VINI (Italiani) - Asti, Barbera, Grignolino; (Francesi) - Bordeaux, Lormont, Châteaux Lafitte, Bourgogne; Champagne - Montebello, Cl-quot, Monopolio; Reno e vino oporto 1a."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 08 de Junho de 1885, pág. 02, col. 02

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Primitivos colonos de Novo Hamburgo - Parte 04


Observação: relação incompleta de colonos alemães estabelecidos antes de 1850 nas picadas Costa da Serra e Estância Velha (denominada genericamente em crônicas setecentistas de "Campo Ocidental"), na região de Lomba Grande (parte das terras da Feitoria Velha, chamada anteriormente Sendente).

Segue a lista com o nome do colono e família (quando houver) e o ano da chegada no Rio dos Sinos (São Leopoldo). 

151. João Henrique Hartmann, sem indicação precisa de ano.

152. Christiano Carlos Hirt, sem indicação precisa de ano.

153. João Henrique Jacks, esposa e 2 filhos, chegou em 1824.

154. Joaquim Frederico Guilherme Jaeger, sem indicação precisa de ano.

155. Jorge Jung, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

156. Carlos Jung, chegou em 1829.

157. Jorge Jaeger, sem indicação precisa de ano.

158. Augusto Jacobsen, chegou após 1829.

159. Miguel Krämer, chegou em 1824.

160. Kuntz, chegou em 1825.

161. Frederico Kamp, sem indicação precisa de ano.

162. Felippe Kamp, esposa e 2 filhos, sem indicação precisa de ano.

163. João Pedro Klos, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

164. Jacob Koch, sem indicação precisa de ano.

165. João Henrique Keller, chegou em 1826.

166. João Knewitz, esposa e 6 filhos, sem indicação precisa de ano.

167. Cristiano Krämer, sem indicação precisa de ano.

168. Gabriel Korndörfer, esposa e 4 filhos, chegou em 1827.

169. Antônio Kieling, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

170. Luiz Kersting, sem indicação precisa de ano.

171. Frederico Kersting, sem indicação precisa de ano.

172. Fernando Augusto Maximiano Kersting, sem indicação precisa de ano.

173. Jacob Klein, esposa e 8 filhos, sem indicação precisa de ano.

174. Henrique Kronbauer, esposa e 2 filhos, sem indicação precisa de ano.

175. João Kayser, esposa e 3 filhos, sem indicação precisa de ano.

176. Frederico Krug, sem indicação precisa de ano.

177. Nicolau Kehl, esposa e 3 filhos, sem indicação precisa de ano.

178. Pedro Kern, esposa e 1 filho, sem indicação precisa de ano.

179. João Krämer, sem indicação precisa de ano.

180. Pedro Kramer, chegou em 1829.

181. Henrique Klapper, sem indicação precisa de ano.

182. Kazius, sem indicação precisa de ano.

183. Guilherme Knewitz, sem indicação precisa de ano.

184. Miguel Kirsch, esposa e 1 filho, sem indicação precisa de ano.

185. Christiano Kohlrausch, esposa e 1 filho, sem indicação precisa de ano.

186. Jorge Koch, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

187. João Kussler, sem indicação precisa de ano.

188. Henrique Kampf, sem indicação precisa de ano.

189. Klaser, chegou após 1829.

190. Pedro Kautzmann, chegou após 1829.

191. Jacob Korb, chegou após 1829.

192. Jorge Kronmeyer, chegou após 1829.

193. Köche, chegou após 1829.

194. Simão Kappel, chegou após 1829.

195. Pedro Kremer, chegou em 1845.

196. Felippe Kunz, sem indicação precisa de ano.

197. Luiz Kunz, sem indicação precisa de ano.

198. Jacó Keiper, sem indicação precisa de ano.

199. Jacob Kroeff, sem indicação precisa de ano.

200. Carlos Klar, sem indicação precisa de ano.


Fonte adaptada: PETRY, Leopoldo. Nôvo Hamburgo: florescente município do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo: Editora Rotermund & Cia., 4a. edição, 1963, pág. 32-33.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Primitivos colonos de Novo Hamburgo - Parte 03


Observação: relação incompleta de colonos alemães estabelecidos antes de 1850 nas picadas Costa da Serra e Estância Velha (denominada genericamente em crônicas setecentistas de "Campo Ocidental"), na região de Lomba Grande (parte das terras da Feitoria Velha, chamada anteriormente Sendente).

Segue a lista com o nome do colono e família (quando houver) e o ano da chegada no Rio dos Sinos (São Leopoldo). 

101. Frederico Ernesto Falkmann, chegou após 1829.

102. Nicolau Fick, chegou após 1829.

103. Jacob Faller, chegou após 1829.

104. Conrado Gerhard, 3 filhos, chegou em 1825.

105. Frederico Graf, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

106. Jorge Grub, esposa e 5 filhos, sem indicação precisa de ano.

107. Jacob Gerhard, chegou em 1826.

108. Felipe Gerhard, sem indicação precisa de ano.

109. Frederico Grohs, esposa e 3 filhos, sem indicação precisa de ano.

110. Mathias Geyer, esposa e 6 filhos, sem indicação precisa de ano.

111. Mathias Grün, esposa e 5 filhos, chegou em 1827.

112. Zacarias Grin, sem indicação precisa de ano.

113. Gaewersen, chegou após 1827.

114. Carlos Gressler, chegou após 1827.

115. Jorge Groess, chegou após 1827.

116. Henrique Jacob Gräff, chegou após 1827.

117. Guilherme Gaelzer, chegou após 1827.

118. Guilherme Georg, chegou após 1827.

119. Jacob Hofmann, chegou em 1825.

120. Jorge Hofmann, chegou em 1825.

121. Jorge Hoefel, 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

122. Joaquim Christiano Hack e esposa, sem indicação precisa de ano.

123. Jorge Nicolau Heidrich, sem indicação precisa de ano.

124. Guilherme Heldt, esposa e 3 filhos, sem indicação precisa de ano.

125. Daniel Habigzang, chegou em 1826.

126. João Nicolaos Hans, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

127. Guilherme Hartz, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

128. Felipe Hofmeister, esposa e 8 filhos, sem indicação precisa de ano.

129. Ludovico Hinkel e esposa, sem indicação precisa de ano.

130. Felipe Huf, esposa e 3 filhos, sem indicação precisa de ano.

131. Wendelino Hennemann, esposa e 2 filhos, chegou em 1827.

132. Christiano Horn, esposa e 6 filhos, sem indicação precisa de ano.

133. Adão Hexsel, esposa e 1 filho, sem indicação precisa de ano.

134. Pedro Haas, sem indicação precisa de ano.

135. João Haas, sem indicação precisa de ano.

136. Ernesto Heller, chegou em 1828.

137. João Heberle, esposa e 4 filhos, sem indicação precisa de ano.

138. Frederico Hauschild, chegou em 1829.

139. João Haas, sem indicação precisa de ano.

140. João Hermann, sem indicação precisa de ano.

141. Felipe Hoffstätter, sem indicação precisa de ano.

142. João Pedro Höher, sem indicação precisa de ano.

143. Patrik Horn, sem indicação precisa de ano.

144. Henke, chegou após 1829.

145. Heimburg, chegou após 1829.

146. Heineck, chegou após 1829.

147. Jacob Heller, chegou em 1845.

148. João Pedro Haesbert, sem indicação precisa de ano.

149. João Henrique Haertel, sem indicação precisa de ano.

150. Adão Hubert, sem indicação precisa de ano.

Fonte adaptada: PETRY, Leopoldo. Nôvo Hamburgo: florescente município do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo: Editora Rotermund & Cia., 4a. edição, 1963, pág. 31-32.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A procissão de Medinas


"A Acacia, folha de Buenos-Aires, dá esta noticia:

<<Será possivel que n'este século de luzes e de adiantamentos se deixem vêr em certos povos actos de selvageria como o que vamos narrar?

<<Eis aqui o que se passou:

<<Acontece todos os annos, em dias da semana santa, na povoação de Medinas, uma das mais adiantadas da província de Tucuman, que no dia de sexta-feira santa, na procissão, sahe acompanhado o padre da localidade por uma numerosa concurrencia, entre a qual vai um grande numero de homens nús, usando um lençol em fórma de chiripá, os quaes com um silicio em uma mão, cheio de tachas nas pontas, vão dando nas costas continuos golpes, a tal extremo que fazem jorrar sangue por todo o corpo.

<<Cada vez que pára a procissão, um homem absorve um bom trago de cana e borrifa as costas ensanguentadas dos pobres penitentes, limpando com uma mão as feridas e dando com a outra fortes palmadas sobre as carnes nuas que se ouvem a grande distancia.

<<Sem entrarmos em mais commentários sobre estes actos de barbarismo, deixaremos ao publico sensato que faça os juizos que lhe pareçam mais prudentes, e só nos limitaremos a dizer ao padre d'essa localidade que nem entre os mouros se vê fanatismo semelhante, e que por seu Deus não permitta mais esses escandalos.>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 06 de Junho de 1885, pág. 01, col. 02

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sonho de Natal 2019


Divulgação.

Imigração Árabe no Brasil - Parte 02


"O sucesso mais ostensivo, porém, estava localizado na indústria, principalmente nas duas primeiras décadas do Século XX, quando deslanchou o processo de substituição das importações através da industrialização do País. Um caso significativo é o da família Jafet. Nami Jafet imigrou em 1893 já com a idade de 33 anos. Era formado pela Universidade Americana de Beirute, tendo trabalhado por dez anos como professor. Publicou em 1886 um livro sobre matemática. A saída do Líbano deveu-se a uma discussão filosófica e religiosa sobre a tese darwinista da evolução das espécies. Com todos esses predicados, percebe-se que Nami Jafet não era um imigrante comum, embora Truzzi afirme que os irmãos não tinham o mesmo nível intelectual, e por isso foram trabalhar na mascateação. Em 1897, abriu uma firma comercial que estava sediada, em 1903, na rua Florêncio de Abreu, tradicional rua atacadista da área central de São Paulo. A fábrica de tecidos, a Fiação, Tecelagem e Estamparia Jafet S.A., foi instalada em 1907. Ao contrário dos industriais italianos como Matarazzo, Crespi ou Sicialino, Jafet construiu sua mansão nas proximidades da fábrica, no bairro do Ipiranga, sendo seguido pelos irmãos, desviando-se do padrão de nobilitação que tinha erigido a avenida Paulista como signo do poder. Os tecidos fabricados, o morim 'Beirute', a chita 'Sultão', e o xadrezinho 'Jafet' faziam sucesso nas mãos dos mascates sírios e libaneses pelo interior. Com a Primeira Guerra Mundial a fortuna da família Jafet multiplicou-se pois, como tinha estocado uma boa quantidade de anilinas importadas da Alemanha, a eclosão do conflito permitiu-lhe trabalhar com boa folga de custos enquanto a concorrência era obrigada a procurar novos fornecedores ou vender seus produtos por preço mais caro. Foi fundador da Igreja Cristã Ortodoxa, chefe do Senado Religioso, presidente da Associação dos Ex-Alunos da Universidade Americana residentes no Brasil, e um dos grandes propugnadores da Grande Síria, isto é, a união do Líbano com a Síria.

A origem religiosa e regional dos imigrantes teve grande influência na estruturação da rede de associações comerciais, religiosas, culturais e beneficentes. Mesmo com o crescente poderio econômico dos seus membros, as divisões religiosas e regionais impediram a constituição de uma Câmara de Comércio, como era praxe entre as demais  colônias. Nami Jafet, em 1913, tinha liderado uma Câmara Síria de Comércio, mas aparentemente fracassou no seu intento. Até a década de 50 não apareceu nenhuma agremiação e logo que se estabeleceu uma Câmara de Comércio Árabe no Brasil, Jorge Safady (1972) assinalou que ela passou a se chamar Câmara de Comércio Sírio-Libanesa Brasileira, para se subdividir em uma Câmara Síria e outra LIbanesa.

Em São Paulo, desde 1890, a comunidade maronita vem realizando suas celebrações litúrgicas. A primeira igreja foi erguida no Parque D. Pedro, nas proximidades da rua 25 de Março, tendo sido destruída nas obras de reurbanização do local. Em 1897, já se haviam instalado no País as Igrejas Ortodoxa e Melquita. A corrente muçulmana sempre foi minoritária. O Censo Populacional de 1940 indicou 3053 muçulmanos, sendo que desses, 1393 estavam em São Paulo e 767 no Rio de Janeiro. Uma Sociedade Beneficente Muçulmana lançou na década de 30 as bases para a construção de uma mesquita na avenida do Estado, sendo que em 1942 foi lançada a pedra fundamental.

O movimento associativo expandiu-se depois de 1903. Nesse ano foram identificadas quatro associações em São Paulo e três no Rio. São citadas a Sociedade São Nicolau, Irmandade Maronita e Sociedade Patriótica Homciense, ligada à aldeia de Homs. Esses números foram se multiplicando até atingirem a cifra de 121 entidades, apenas na capital de São Paulo, e outras 60 no interior do estado. A fonte de identidade era religiosa e de região natal e não nacional. Tal fato levou Knowlton a escrever que, na década de 50, a 'colônia sírio-libanesa, em geral, está de tal forma dividida por diferenças religiosas e econômicas, rivalidades de famílias e de região e ciúmes pessoais, que não foi possível organizar uma sociedade que representasse a colônia toda'. As diferenças afloraram também nas associações esportivas ou beneficentes. Quando da fundação do Esporte Clube Sírio, em 1907, os libaneses tentaram colocar o nome do país. Na impossibilidade, fundaram o Clube Atlético Monte Líbano. O Hospital Sírio-Libanês começou como Hospital Sírio. Contudo as diferenças entre os grupos étnicos fez com que os sírios se retirassem da Sociedade Beneficente de Damas Pró-Hospital Sírio-Libanês, partindo para a fundação do Hospital do Tórax, atual Hospital do Coração.

Em outros campos as diferenças também se fizeram presentes. Entre 1895 e 1971, foram publicados cerca de 160 periódicos dirigidos à colônia. Em 1941, ano em que o Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP proibiu a circulação de qualquer publicação em língua estrangeira, foram suspensos dois diários, quatro jornais que eram publicados duas vezes por semana, um semanário, quatro quinzenários e quatro mensários. Não se sabe o número dos que voltaram a ser publicados em português. Em 1971, havia em São Paulo um jornal publicado duas vezes por semana, três semanários e três mensários. Dentro destes números, Truzzi destacou a perda de importância cultural e informativa dos periódicos, muitos deles dedicados a retratar periódicos, muitos deles dedicados a retratar acontecimentos sociais e mundanos. Uma livraria especializada estava aberta em 1902, Jorge Safady destacou a existência de 14 tipografias especializadas em 1971.

A escolaridade sempre foi incentivada entre os sírios e libaneses, sendo que em 1897 já havia uma Escola Sírio-Francesa (Maronita) em São Paulo. Nos anos seguintes foram fundados na capital paulista o Ginásio Oriental (1912), o Colégio Sírio-Brasileiro (1917), o Colégio Moderno Sírio (1919) e o Liceu São Miguel (1922). No Rio de Janeiro, a Escola Cedro do Líbano (1935); e em Campos, a Escola Árabe. Quanto aos níveis de escolaridade superior, Truzzi diz que embora numericamente inferiores, os árabes conseguiram atingir percentuais próximos aos das colônias mais numerosas nos campos das profissões liberais como advocacia, medicina e engenharia (entre 1884 e 1943 os turco-árabes representavam 2,5% do total dos imigrantes no Brasil contra 33,7% dos italianos, 29,2% dos portugueses e 13,9% dos espanhóis). O investimento familiar na escolaridade agia tanto sobre os homens quanto sobre as mulheres. A diferenciação surgia no ensino superior. Enquanto os homens eram privilegiados, relatando-se casos de família em que o sacrifício para a formação de 'doutores' foi muito grande, as mulheres eram instadas a não se profissionalizarem, limitando-se na maioria dos casos à obtenção do diploma.

A imigração árabe vem decaindo desde os anos 20. Embora não tenha havido censo demográfico em 1930, os dados para as décadas seguintes mostram como o Brasil perdeu atração para outros países como o Canadá e os Estados Unidos, tradicional destinatário da corrente migratória árabe.

Nas últimas décadas, a contribuição cultural dos árabes tem sido mais lembrada pela culinária, embora haja outros campos em que sua presença tem sido marcante. O aumento das cadeias de fast-food nos grandes centros urbanos aproximou a população do quibe, da esfinha, do tabule e da coalhada seca, antes circunscritos aos restaurantes típicos. A popularização, sobretudo do quibe e da esfiha, fez com que fossem incorporados a outros locais de alimentação, como as tradicionais pastelarias chinesas, e mesmo bares e padarias de portugueses e brasileiros.

A inserção dos imigrantes árabes na política guarda algumas características particulares. Segundo Oswaldo Truzzi, estudando o caso de São Paulo, ela é recente, tendo começado depois do Estado Novo (1937-45), centrada em membros da colônia pertencentes às camadas médias ou à elite econômica, com expressiva participação de candidatos com carreiras iniciadas em cidades do interior e uma representação parlamentar ou em cargos dirigentes numericamente superior ao conjunto dos imigrantes e descendentes, fenômeno que se repetiu em outros estados da federação, levando a um sobre-representação da colônia. Com essas características não é de se estranhar que nos vários níveis legislativos os árabes e seus descendentes tenham localizado a sua base parlamentar em partidos conservadores ou ligados ao populismo. Tendo começado pelas mãos de políticos como Adhemar de Barros, Getúlio Vargas ou Jânio Quadros, e em períodos mais recentes através da Arena ou do PDS, os representantes de origem síria e libanesa contaram com nomes como Emílio Carlos, Ibrahim Abi-Ackel ou Paulo Maluf. O último, inclusive, chegou a se candidatar a um cargo presidencial. Dentro das regras e das formas políticas praticadas no País trata-se de um fato excepcional, mas que ganha um certo sentido dentro da América Latina quando se observa os casos do ex-presidente Menen, na Argentina, ou de Fujimori, no Peru. Há poucos exemplos de atividade política em partidos de esquerda. No passado, pode-se lembrar de um Wilson Rahal, atuando pelo Partido Socialista Brasileiro, em São Paulo.

É preciso lembrar ainda que na literatura as contribuições dadas por Jamil Almansur Haddad (São Paulo, 1914), Mário Chamie (Cajobi, 1933), Raduan Nassar (Pindorama, 1935) e Milton Hatoum (Manaus, 1952), fazem parte do panorama cultural do País. No cinema brasileiro ficou famosa a filmagem do libanês Abrão Benjamin. Após dificultosas e delicadas gestões, conseguiu filmar o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião. Encaminhado para censura no Departamento de Propaganda, no Rio de Janeiro, a iniciativa pioneira foi vista com desagrado, proibindo-se o filme, cujos fragmentos foram resgatados somente na década de 60. O fotógrafo Benjamin virou tema central de uma película recente sobre o cangaço, Baile perfumado. Outros nomes de destaque aparecidos nas décadas de 50 e 60 são o de Walter Hugo Khouri e Arnaldo Jabor. A Universidade é o local onde os nomes de origem sírio-libanesa têm se mostrado mais evidentes à educação citado acima. Profissionais nas áreas da Medicina, como Adib Jatene (Xapuri, Acre); no Direito, Alfredo Buzaid (Jaboticabal, 1914); na Filosofia, Marilena Chauí (São Paulo, 1941); na Sociologia, Aziz Simão (São Paulo); na Filologia, Antonio Houaiss (Rio de Janeiro, 1915-1999), entre tantos outros, indicam a notável contribuição das gerações crescidas com o País que os recebeu."

Fonte: MOTT, Maria Lúcia. Imigração Árabe: um certo oriente no Brasil. IN: IBGE, Centro de Documentação e Disseminação. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro/RJ: IBGE, 2007, pág. 187-193
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