sábado, 13 de outubro de 2018

Pelotas: a fama & o carnaval


"Pelotas, RS: um carnaval de onze dias, aproveitando a fama da cidade

Francisco Alves da Fonseca, economista, professor universitário, prefeito de Pelotas (154949 habitantes), está chateado.

Outro dia, ele estava assistindo, na televisão, a uma entrevista do costureiro Evandro de Castro Lima, o campeão dos concursos de fantasias do Municipal do Rio. E o Evandro disse que tinha nascido em Pelotas.

- Bueno, che. O Evandro é baiano. Será que ele pensa que está promovendo Pelotas, dizendo que é daqui?

Numa reunião num Ministério, no Rio, um carioca perguntou a ele como ia a BR-24.

- Eu percebi tudo, che, mas me fiz de bobo. Perguntei que estrada era essa. Ele respondeu: rodovia Campinas-Pelotas. Vê só, che, que triste fama tem a nossa cidade e a outra, lá de São Paulo.

Ele me explica a razão dessa fama triste de Pelotas:

- É que Pelotas era a terra da charqueada. Enquanto o estancieiro trabalhava o ano todo, criando boi, o charqueador trabalhava só quatro meses por ano para cortar, salgar, secar a carne ao sol e vendê-la. Com isso, ganhava muito mais que o estancieiro.

E o que fazia o charqueador, com todo esse dinheiro, no resto do ano?

- Ia passear em Paris, e trazia de lá hábitos, linguagem e estilo de vida requintados. Isso irritava o gaúcho da campanha, mas ele respeitava o pelotense, porque o pelotense tinha dinheiro. O Banco de Pelotas foi sempre mais forte que o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, até 1930, quando faliu.

Aí tudo mudou:

- Ninguém respeita um sujeito sem dinheiro que anda de punhos de renda e tem fala sofisticada. Vem daí a triste fama do pelotense.

Mais do que o prefeito, a gente de Pelotas vive preocupada com essa fama. Há poucos dias, um grupo de rapazes perseguiu até o limite da cidade um ônibus de turistas uruguaios que insistiam em brincar com a masculinidade do pelotense. Todos os vidros do ônibus foram quebrados.

Outros, porém, conformam-se. E às vezes o conformismo chega a ser grotesco:

- Doce ou pelotense?

É o garçom do Estoril, perguntando se quero sobremesa. Percebo que a autogozação é uma tentativa de me agradar.

Finjo não entender. Ele completa:

- O senhor quer doce ou fruta?

Quando saio, passa um ônibus de turistas. Enquanto os homens gritam um palavrão para cada pelotense, as moças cantam a musiquinha do Sílvio César: 'Machão, machão, mas quando chega o carnaval ele vai de baiana pro Municipal'.

No carnaval de Pelotas - que dura onze dias, e é uma festa realmente popular, animadíssima - parece que todos resolvem gozar a fama da cidade. Em cada rua se vê um dos chamados 'blocos dos sujos'. Os homens estão vestidos de mulher e armados de panelas, latas e alguns instrumentos musicais, saem pela cidade, durante os onze dias - da quinta-feira anterior ao carnaval até o domingo depois da quarta-feira de cinzas. Gozam tudo e todos, e também o carnaval oficial: enquanto as escolas desfilam na rua 15 de Novembro, organizadas, com alas e divisões, cantando belos sambas-enredo, os sujos percorrem as ruas laterais, tocando e cantando, aos berros, coisas como Atirei o Pau no Gato, Carneirinho, Carneirão e Boêmio Demodé.

Como o carnaval dos sujos é muito mais divertido a eles cantam o que todo mundo conhece, seus blocos, que saem com vinte ou trinta pessoas, acabam liderando nas ruas, carnavais paralelos de que participam, às vezes, mais de mil.

No ano passado, acabou uma das últimas tradições da Pelotas sofisticada de quarenta anos atrás: as pompas fúnebres. Embora as funerárias ainda se chamem 'Emprezas de Pompas Fúnebres', a última delas recolheu as carruagens, vendeu os cavalos brancos e guardou os imensos penachos que eram colocados na cabeça dos animais durante os cortejos fúnebres.

- Tivemos que nos modernizar - conta Roberto Ribeiro, dono da empresa funerária e um dos organizadores do carnaval de rua.

Mais uma prova de que Pelotas se moderniza:

Estacionei o carro na rua 15 e fui tomar um lanche no bar Taperinha. Regina, morena, dezoito anos, estudante secundária, olhos vivos, baixinha, inteligente, bonita, vê a placa do carro, e vem falar comigo. Pergunta para onde vou. Conto que vou a Bajé e Chuí e ela me pede carona até Santa Vitória do Palmar. Conversamos. Uma de suas histórias:

- Sempre que posso, me arranco daqui. Mas meu irmão sempre me acha. Minha bala é um inferno, minha coroa vive me chamando de vagabunda, meu irmão é outro careta, brigam comigo sempre que fico até mais tarde com meu garotinho. Tens um crivo aí?

Prometo a carona que não vou ter coragem de dar. E ele se despede com um beijo. Na boca."

Fonte: REALIDADE (SP), edição 74, ano 1972, pág. 171-172.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

A Colônia Maciel


"A Colônia Maciel encontra-se localizada na porção elevada do município (nota nossa: Pelotas), em terreno acidentado. Foi ocupada e colonizada por imigrantes italianos que se dedicaram, quase que em sua totalidade, à agricultura familiar.

A formação da Colônia se deu por volta de 1883, quando o antigo proprietário do local, chamado Maciel, dividiu em três colônias da qual uma delas recebeu o nome do mesmo. O processo de colonização nesta colônia não foi propriamente oficial, apesar do governo ter dado o apoio inicial para a construção do barracão, que serviu de abrigo para os imigrantes recém-chegados da Itália, como também a alimentação, os instrumentos e sementes necessários para que eles implantassem suas lavouras e construíssem suas casas. Ela foi considerada privada no sentido de que as terras já possuíam dono, sendo então divididas em lotes e vendidas aos imigrantes.

Um dos lotes foi dividido em quatro partes, sendo que em uma das partes foi construído o barracão, a segunda ficou destinada à construção da igreja, uma terceira para o cemitério e uma quarta, sem ocupação definida naquele período.

Por volta de 1884 a 1886, vieram os primeiros imigrantes italianos para se instalar na Colônia, procedentes da região do Vêneto na Itália, em sua grande maioria da Província de Treviso. Ficaram instalados no barracão, enquanto desbravavam a mata para construir suas casas e instalar suas lavouras. Os primeiros cultivos foram a batata, o milho, a abóbora e a uva, cujo registro se encontra no Livro Tombo da Paróquia de Sant'Ana, localizada na sede da Colônia.

Depois dos colonos instalados em suas próprias casas, o barracão serviu por muito tempo como capela. Somente em 1930 foi construída a Matriz de Sant'Ana, que permanece até hoje com as mesmas características da época de sua construção. Ela possui uma torre com altura de 21 metros; já a altura interna da igreja é de 8 metros, com uma largura de 9 metros. Foi construída com 115.000 tijolos, a partir do serviço voluntário dos colonos.

(...)

A realidade vivida pela população local do local pesquisado, atualmente, é bem diferente daquela dos recém-chegados imigrantes italianos. Segundo relatos de alguns entrevistados, descendentes de italianos e que cultivam na memória a herança cultural deixada pelos seus antepassados, foi possível perceber a dificuldade e, ao mesmo tempo, a adaptação e persistência em busca da sobrevivência, por parte daquelas famílias vindas da Itália.

Quando os primeiros imigrantes chegaram, encontraram apenas a mata virgem, a qual tiveram que desbravar. As primeiras casas foram bastante simples, geralmente de madeira e bem pequenas, simplesmente para abrigá-los enquanto trabalhavam na preparação das lavouras. Segundo um dos entrevistados, que tem muito prazer em relatar o que seus antepassados contavam,

(...) tinha muito mato quando os primeiros chegaram, só tinha um roçadinho, onde armaram a barraca aí e ficaram. A minha avó contava que eles olhavam para cima era o céu e para baixo era a terra, não via mais nada, puro e puro mato. E aí eles foram derrubando. Veio a ordem do governo para eles ir limpando. O governo fornecia muito material para eles, alimentação e tudo, e eles foram trabalhando. (ENTREVISTADO B)

No começo, eles não podiam comer a polenta, alimentação tão comum dos italianos, porque não havia moinho para moer o milho. Então, eles quebravam o milho no pilão e cozinhavam essa canjica com sal e comiam. Depois, então, começou a surgir os primeiros moinhos, simplificando o trabalho para a fabricação da farinha.

Outro fator a ser superado foi a língua, não propriamente a língua portuguesa, mas a usada pelos diversos grupos que chegavam ao Brasil, pois na Itália se falavam diversos dialetos e como as famílias vinham de lugares diferentes, não se entendiam entre si. O entrevistado B, quando questionado sobre esse assunto, diz que:

Era dialetos. Aqui os meus avós vieram de Vêneto, os Aldrigues eram de Montana, os Potenza vieram de Nápoles, mas tinha mais lugares. Tinha dificuldade na comunicação. O que meu pai falava, tinha palavra que a minha mãe não entendia. Então, depois que casaram, passaram a falar italiano. (ENTREVISTADO B)

Os colonos levavam uma vida bastante simples, dedicada, quase que exclusivamente, ao trabalho. Não existiam escolas para as crianças, que desde pequenos ajudavam seus pais nas tarefas diárias. As primeiras tentativas de alfabetização surgiram por parte de alguns moradores que tinham mais acesso ao centro urbano e adquiriram conhecimento, passando a dar aulas em suas próprias casas, para aqueles que tivessem interesse. Nesse sentido, o mesmo entrevistado afirma que: 

Nada, nada de escola aqui, as primeiras aulas que apareceram aqui, foi na casa do Otilho. Naquele tempo era o mais poderoso que tinha. Ele tinha comércio. Ele pegava levava o milho em Pelotas e lá ele estudava. Aí ele veio aqui, começou a dar aula. O meu avô mesmo pagou umas aulas para meu pai, mas tinha bem pouco aluno. (ENTREVISTADO B)

As dificuldades também existiam na comercialização dos produtos. O transporte dos produtos era bastante dispendioso. No começo, eram levados de carroça ou carretas puxadas a boi até Pelotas. Às vezes, pelos próprios colonos ou, então, entregavam seus produtos aos 'Carreteiros' que faziam frete.

Os produtos que mais comercializaram naquela época, eram o milho, a batata, a alfafa, o feijão, o vinho. Também vendiam galinhas e palha de vassoura, sendo tudo enviado a Pelotas. A diversidade de produtos comercializados aumentou quando começou a surgir o transporte motorizado - os caminhões - o que facilitou o transporte, incentivando a produção. Com isso, novos produtos foram agregados à agricultura familiar, principalmente o cultivo da cebola, da ervilha e do pêssego, destinado às agroindústrias que já se instalavam no município.

Um dos fatores que auxiliou os colonos a superarem as adversidades era a fervorosa fé católica. Frequentavam a missa sempre que possível, quando não faziam todos os domingos, além de ser o momento de encontro com os vizinhos e parentes. Comemoravam os dias santos como o Natal, Ano Novo, Páscoa, Semana Santa, Santo Antônio, São Pedro, Santa Terezinha. Desde pequenas, as crianças recebiam dos pais a orientação religiosa, praticando as orações todos os dias. Conforme afirma o Entrevistado B: 'Todos dias ela (a mãe) fazia nós se ajoelhar antes de dormir, e aí que ensinava o Pai Nosso, a Ave-Maria.'

A religiosidade era algo realmente importante para os colonos."

Fonte: CASARIN, Margarete Cristina. Imigração Italiana no município de Pelotas: Uma análise sobre a Colônia Maciel - Distrito do Rincão da Cruz - Pelotas - RS. Monografia, Licenciatura Plena em Geografia, Instituto de Ciências Humanas/UFPel, março de 2003, pág. 51-56.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Francisco Barreto de Menezes


"Militar português também nomeado por Francisco Barreto de Menezes (embora o nome Menezes lhe viesse do pai, parece que nunca o assinou), herói das lutas contra os invasores holandeses. Veio para o Brasil como integrante da tropa de Luís Barbalho, na armada do Conde de Torre, desembarcando na Bahia em 16 de agosto de 1637. Deu combate ao invasor e em seguida foi chamado a Portugal para participar do movimento de restauração da Monarquia (1640, quando Portugal se livrou do domínio espanhol). De novo no Brasil e em luta contra os flamengos, esteve durante algum tempo preso pelo inimigo; fugiu, e na qualidade de general-chefe e governador de Pernambuco assumiu a direção geral da guerra. Com Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira, Henrique Dias, Filipe Camarão e outros colheu ambas as vitórias dos Montes Guararapes (em 1648 e 1649). Comandando a resistência até o final da campanha (os holandeses foram afinal expulsos do Brasil depois da Batalha da Campina da Taborda, em 26 de janeiro de 1654), governou Pernambuco até 1657, quando foi nomeado governador-geral do Brasil. Retornou a Portugal em 1663; nomeado donatário da Capitania do Rio Grande (hoje Rio Grande do Norte), não chegou a administrá-la."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O Alemão-Negro


"Os imigrantes teuto-gaúchos, como outros imigrantes vindos ao Brasil deveriam cumprir certas condições, para em troca receber seus lotes de terra.

Entre estas 'ordens' encontram-se leis que proibiam ao colono alemão o direito de ter escravos negros, deveria morar em seu lote de terra e o trabalho empregado na lavoura deveria ser o seu próprio e de sua família.

A cada uma das Províncias do Império ficam concedidas no mesmo, ou em diferentes lugares de seu território, seis léguas de terras devolutas, as quais serão exclusivamente destinadas à colonização e não poderão ser roteadas por braços escravos.

Nas colônias alemãs o negro estava presente, mas nunca existiu a relação escravista. O negro era tido como empregado do colono alemão, não possuía direito algum, mas também não era maltratado pelo colono, existia entre eles uma relação diferenciada pela cor.

A bem da verdade, deve-se dizer que havia exceções quanto ao tratamento, pois muitas famílias que se serviam de seu trabalho tratavam-no bem, fazendo deles, apenas 'empregados', obviamente sem direitos, mas sem lhes infligir os maus tratos referidos nos livros de História.

O convívio do negro com o colono alemão fez com que o antigo escravo adotasse o idioma do seu patrão. 'Como curiosidade cabe citar que os negros, por viverem em companhia de gente que falava alemão, acabavam assimilando o idioma como se sua própria língua fosse.'

Um dos indícios da integração entre estas duas etnias - o negro e o alemão - poderia ser observada na educação dos seus filhos, pois negros e colonos frequentavam a mesma escola. 

As únicas diferenças visíveis entre o empregado negro e o patrão alemão era a cor e a moradia mais simples do empregado de cor.

Os negros chegaram a ter relações de emprego com os colonos, mas sem nenhuma conotação escravista, embora a relação fosse escalonada: branco é branco e preto é preto. Suas casas eram simples choupanas ou casas de bambu trançado e preenchido com barro vermelho. Dizia-se em dialeto hunsrück que era um 'vechehaus', casa de preto. Curioso é que os negros iam nas mesmas escolas dos colonos. Não se sabe de nenhum 'quebra-quebra' que isso tivesse causado. Disso tudo resultou um fato curiosíssimo. Em vez de os colonos aprenderem a falar melhor o português, foram os negros que passaram a falar alemão. Deveria ser uma figura inesquecível um negro retinto dizer a conhecida frase a eles atribuída: 'Mie daitsche Buwe misse sesame halle!', em dialeto, e que significa: 'Nós jovens alemães temos de ficar unidos!'."

Fonte: HEPP, Vera Enilda Pautz. Imigração alemã e as transformações culturais: o exemplo da Colônia Passo do Santana - Cerrito - RS. Monografia de conclusão do curso de Licenciatura Plena em Geografia, Instituto de Ciências Humanas, UFPel, 2002, pág. 37-39.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

A Colônia do Sacramento


"A fundação da Colônia do Sacramento na margem norte do Rio da Prata conjugava os interesses dos comerciantes do Rio de Janeiro, interessados na retomada do intenso comércio com Buenos Aires existente na época da União Ibérica, assim como os da Coroa Portuguesa, que desejava expandir seus domínios até o Rio da Prata. Os principais elementos responsáveis pelo desenvolvimento da rede contrabandista eram os lusos. A relativa proximidade do Prata com os portos brasileiros e a facilidade de obtenção de escravos em suas feitorias na África foram os principais fatores da preponderância comercial dos luso-brasileiros em Buenos Aires durante a União Ibérica.

Essas vantagens levaram os portugueses a investir num entreposto no Prata.

D. Manuel Lobo tomou posse do governo do Rio de Janeiro em 09 de maio de 1679, dando logo início à preparação da expedição que viria a fundar uma fortaleza às margens do Rio da Prata. Em janeiro de 1680 D. Manuel Lobo fundou a fortaleza do Santíssimo Sacramento em frente às ilhas de São Gabriel. Contudo, a expedição não pôde resistir ao ataque combinado das forças coloniais espanholas e dos exércitos indígenas das missões jesuíticas, grupos para os quais a presença portuguesa no Prata constituía uma grande ameaça. A destruição de Sacramento, oito meses após sua fundação, levou o príncipe regente forçar a Coroa espanhola a restituir-lhe a posse do território, o que lhe foi concedido através do Tratado Provisional de 1681.

Foram bastante difíceis os primeiros anos que se seguiram ao restabelecimento dos portugueses em 1682, quando as restrições do governo de Buenos Aires, que procurava impedir o contrabando e a exploração do gado selvagem que abundava na campanha, se somaram à corrupção generalizada que marcou o governo de Cristóvão Ornelas de Abreu (1683-1689). A situação melhorou consideravelmente sob as administrações de Francisco Naper de Lencastre (1689-1699) e de seu sucessor, Sebastião da Veiga Cabral (1699-1705), com o incremento da política de povoamento e da exploração das riquezas pecuárias da região.

A Guerra da Sucessão Espanhola colocaria Portugal e Espanha em campos opostos na Europa, resultando no rompimento das hostilidades na América e no abandono de Colônia aos castelhanos em 1705. A guerra terminou com a assinatura dos tratados de Utrecht, nos quais Felipe V teve de fazer várias concessões a fim de obter o reconhecimento das nações europeias à ascensão dos Bourbons ao trono espanhol. O tratado de paz com Portugal, assinado em 1715, assegurou aos portugueses a devolução do território da Colônia do Sacramento.

A partir de então, a Coroa Portuguesa iniciou uma verdadeira política de povoamento na região, enviando sessenta casais da província de Trás-os-Montes em 1718 para dar início à agricultura e desenvolver criação de gado, assim como garantir uma guarnição militar permanente. As constantes deserções dos soldados que serviam em Sacramento levaram o Conselho Ultramarino a defender o envio de casais, argumentando que 'à experiência de tantos desertores será melhor que vão casais porque não é tão fácil largarem suas mulheres e filhos e irem viver em reino estranho'. Logo os povoadores foram enquadrados no sistema militar, pois antes de chegar ao seu destino, a Coroa já enviara trezentas armas para a formação de 'algumas companhias de ordenança dos mesmos casais que ajudem a defesa da dita praça'.

Se os primeiro tempos ainda foram difíceis devido aos problemas de abastecimento que marcaram o governo de Manuel Gomes Barbosa (1716-1722), a situação mudaria com a chegada do seu sucessor. A junção do apoio decidido da Coroa à capacidade administrativa do governador Antônio Pedro de Vasconcelos (1722-1749) foram os fatores responsáveis por um período de grande desenvolvimento que pode ser considerado como o apogeu da presença portuguesa no Rio da Prata.

Porém, a prosperidade dos habitantes da Colônia do Sacramento preocupava a Coroa espanhola, lesada pelo intenso contrabando, enquanto os colonos e os índios das missões conviviam a contragosto com a concorrência portuguesa na exploração do gado selvagem. A tensão permanente, alimentada pelos frequentes conflitos com os espanhóis e indígenas na campanha, chegaria ao auge em outubro de 1735, quando as tropas castelhanas apareceram em frente aos muros da Colônia do Sacramento, iniciando um sítio que duraria cerca de dois anos. 

Embora os lusos-brasileiros tenham conseguido impedir a conquista da fortaleza, o armistício de 1737 iniciou uma nova fase da história do Sacramento. Como observou Rego Monteiro, 'terminou o período áureo da Colônia do Sacramento, jamais voltaram a ter seus arredores aquela riqueza de produção, que fazia dela a cobiça espanhola'. Mas, se o campo de bloqueio espanhol, ao invés de impedir, contribuiu para o desenvolvimento do contrabando entre os súditos de Portugal e Espanha, a limitação do uso da campanha ao pequeno espaço permitido pelo campo de bloqueio impediu a retomada da produção agrícola e pecuária por parte dos habitantes da Colônia do Sacramento, que tiveram que buscar o abastecimento entre os espanhóis. 

A busca por gêneros alimentícios em Buenos Aires justificava a presença constante de embarcações portuguesas na cidade, que na maioria das vezes transportavam mercadorias de contrabando. Também era frequente a passagem de suprimentos através da guarnição responsável pela manutenção do campo de bloqueio. Segundo Fabrício Prado: 'Tal momento marca uma inflexão da estratégia lusitana. A Colônia do Sacramento, a partir de então, assumia a constituição de um porto comercial sem um entorno agrícola e uma possível moeda de troca por territórios de Espanha'.

Embora o Tratado de Madri, em 1750, estipulasse a troca da Colônia do Sacramento pelos Sete Povos das Missões, ela jamais foi efetivada, sendo que o Tratado de El Pardo, de 1761, anulou o anterior. A guerra voltaria ao Prata como consequência do conflito europeu que opôs os Bourbons à maior parte das demais nações europeias, entre as quais Portugal, resultando na capitulação de Colônia frente ao governador de Buenos Aires, em setembro de 1761. Pelo Tratado de Paris, assinado em fevereiro de 1763, a influência da Inglaterra, novamente líder vitoriosa de outra liga contra Espanha e França, obrigou a Coroa espanhola a devolver Colônia aos portugueses.

Entrementes, uma nova guerra entre Espanha e Portugal, desta vez sem a participação dos seus poderosos aliados europeus (respectivamente França e Grã-Bretanha), possibilitou a reconquista de Sacramento pelos castelhanos em 1777. Sem a ajuda dos britânicos, cujos esforços estavam direcionados para o combate à Revolução Americana, os portugueses não puderam assegurar seu retorno ao Rio da Prata, sendo que o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em outubro do mesmo ano, manteve a Colônia do Sacramento em poder da Espanha, situação que seria ratificada pelo Tratado de El Pardo, assinado em março do ano seguinte.

Antes de tudo, a Colônia do Sacramento foi uma praça de guerra destinada a defender os interesses comerciais e territoriais da Coroa Portuguesa no Rio da Prata."

Fonte: POSSAMAI, Paulo César. A Guarnição da Colônia do Sacramento. In: ______________. Gente de guerra e fronteira: estudos da história militar do Rio Grande do Sul. Pelotas: Ed. da UFPel, 2010, pág. 13-16.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Dia da Violeta


"O 'Dia da Violeta'

PELOTAS, 10 (Via aérea) - A cidade, ontem, esteve em festas, com o 'Dia da Violeta', em que as nossas ruas foram atravessadas por grupos de gentis senhoritas e garrulas meninas, no nobre afan de trocarem por qualquer generosa dádiva da nossa população, violetas, cujo produto reverteu em favor do 'Asylo de Meninos Desvallidos'.

A gentil senhorita Yolanda Pereira, 'Miss Rio Grande do Sul', acompanhada das graciosas soberanas das associações locaes, esteve nos bancos e no alto commercio, recolhendo dádivas para o 'Dia da Violeta', tendo, em toda parte, como era de se prever, escolhida a altura da tradicional philantropia da nossa cidade."

Fonte: O ESTADO DO RIO GRANDE (RS), 11 de Junho de 1930, pág. 08, col. 04

domingo, 7 de outubro de 2018

Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão convida para seu Almoço de Aniversário


No sábado vindouro, 21 de Outubro de 2018, o Instituto Histórico e Geográfico de Capão do Leão estará promovendo seu "Almoço de Aniversário" alusivo à comemoração do sexto ano da entidade. O evento é beneficente, dado a entidade não possuir fins lucrativos. O almoço ocorrerá no CTG Tropeiros do Sul, à Rua Professor Agostinho 455, centro do município. O cardápio será carreteiro, feijão e mix de saladas. O ingresso custa R$ 15,00 e pode ser adquirido com os membros da diretoria do IHGCL.

Participe! Colabore!



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