quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Incidente com o cônsul norte-americano


"Na cidade do Rio Grande

CONFLICTOS E FERIMENTOS NO POLYTHEAMA - O JORNAL MARUI - PRISÃO DO CONSUL AMERICANO

Em a noite de 12 do corrente, na cidade do Rio Grande, antes de começar o espectaculo da companhia Furtado Coelho, que trabalha no Polytheama (representação do Mestre de forjas), o consul dos Estados Unidos ali residente, sr. Bekford Mackey, desfechou o revólver contra Tadio Amorim, proprietario do semanario caricato Marui.

O facto tem despertado vivo interesse entre a população rio-grandense, e admira-nos que o telegrapho não o tivesse communicado a esta capital.

✤✤✤✤✤✤✤✤

Os jornaes que temos á vista narram differentemente o occorrido, mas todos mostram-se sympathicos á causa do sr. Mackey, que é considerado e goza de todo o conceito entre a sociedade em que vive.

O Marui insultava constantemente áquelle representante de uma grande nação amiga, levando a injuria e a calumnia ao ponto de envolver até a familia, ausente, de quem vive em terra hospitaleira.

No dia da lamentavel occorrencia, o sr. Mackey vio-se tôrpemente atacado.

Á noite, foi ao Polytheama.

Estava sentado no salão quando entrou Thadio Amorim, que, segundo um collega do Rio Grande, dirigio provocações ao sr. Mackey.

Acto continuo, este aggredio-o, fazendo uso de uma fraca bengala.

Thadio repellio, tambem armado de bengala.

Então, o consul americano tirou do revólver e aturdidamente desfechou-o a queima-roupa sobre o homem que tanto o provocava.

Duas balas empregaram-se, e uma outra foi ferir em uma mão o sr. Porphyrio Alves da Silva.

Thadio tentou igualmente desfechar o seu revólver, mas foi contido por grande numero de pessoas.

Imagine-se quantas desgraças poderiam ter occorrido, na sala de um theatro litteralmente cheio.

Felizmente, além do desastre de que foi victima o cidadão Porphyrio, as muitas pessoas presentes não soffreram senão um grande susto.

✤✤✤✤✤✤✤✤

A policia que estava no Polytheama deu voz de prisão ao sr. Mackey, mas o sr. Luiz Fraeb, consul do imperio germanico, conduzio-o de braço.

Mackey compareceu immediatamente á presença da autoridade policial e entregou-se á prisão, sendo recolhido ao quartel do 17o. batalhão de infantaria.

Thadio, apezar de ferido, perseguio-o na rua, tentando assassinal-o.

Consta que o dr. juiz municipal do termo requereu a prisão d'esse individuo.

✤✤✤✤✤✤✤✤

O corpo consular, os representantes da imprensa, funccionarios publicos e grande numero de pessoas respeitaveis da localidade têm visitado o representante dos Estados-Unidos.

O dr. João de Miranda Sobrinho offereceu-lhe espontaneamente os seus serviços de advogado.

✤✤✤✤✤✤✤✤

Narramos os factos, rapidamente, conforme nol-os transmittem os dignos collegas da imprensa do Rio Grande.

Não os presenciámos, não conhecemos a folha de Thadio nem os seus habitos."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 18 de Abril de 1885, pág. 01, col. 03

"RIO GRANDE

9 de Junho:

- Pelo tribunal do jury foi unanimente absolvido o cidadão Beckford Mackay, consul dos Estados-Unidos, ali residente, submettido a processo por haver tomado publicamente um desforço pessoal contra Thadio Amorim, pelas tôrpes aggressões que este lhe dirigio em um pasquim impresso.

Foi seu defensor o dr. Miranda Ribeiro.

Toda a imprensa dirige felicitações ao honrado funccionario estrangeiro - um moço de 23 annos - e toda a população exultou com o resultado do julgamento.

O cidadão Mackay recebeu as mais honrosas demonstrações de subito apreço e á noite foi alvo de uma enthusiastica manifestação.

Poucos dias demorou-se o sr. Mackay no Rio Grande depois do julgamento do jury, pois seguio para seu paiz natal no gozo de uma licença.

(...)"

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 11 de Junho de 1885, pág. 01, col. 05


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A fada de Natal de Strasburg


Um conto folclórico recolhido pelo escritor Frances Jenkins Olcott
Certa vez, há muito tempo, vivia perto da antiga cidade de Strasburg, no rio Reno, um conde jovem e bonito, cujo nome era Otto. Com o passar dos anos, ele permaneceu solteira, e nunca lançou um olhar para as donzelas justas do país; por esse motivo, as pessoas começaram a chamá-lo de "coração de pedra".
Por acaso, o conde Otto, em uma véspera de Natal, ordenou que uma grande caçada fosse realizada na floresta ao redor de seu castelo. Ele, seus convidados e seus muitos retentores seguiram em frente, e a perseguição se tornou cada vez mais emocionante. Ele atravessava matas e sobre trilhos sem trilhas da floresta, até que finalmente o conde Otto se viu separado de seus companheiros.
Ele seguiu sozinho até chegar a uma fonte de água límpida e borbulhante, conhecida pelas pessoas ao redor como o “Poço das Fadas”. Aqui o Conde Otto desmontou. Ele se inclinou sobre a primavera e começou a lavar as mãos na maré brilhante, mas, para sua surpresa, descobriu que, embora o tempo estivesse frio e gelado, a água estava quente e deliciosamente acariciada. Ele sentiu um brilho de alegria passar por suas veias e, ao aprofundar as mãos, imaginou que a mão direita era agarrada por outra, macia e pequena, que deslizava suavemente de seu dedo o anel de ouro que sempre usava. E eis! quando ele estendeu a mão, o anel de ouro se foi.
Cheio de admiração com este evento misterioso, o conde montou em seu cavalo e retornou ao seu castelo, resolvendo em sua mente que no dia seguinte ele teria o Poço de Fadas esvaziado por seus servos. Ele se retirou para seu quarto e como ele estava em seu sofá, tentou dormir; mas a estranheza da aventura o manteve inquieto e acordado.
De repente, ouviu o ruído rouco dos cães de guarda no pátio e depois o rangido da ponte levadiça, como se estivesse sendo abaixada. Então chegou ao ouvido o tamborilar de muitos pés pequenos na escada de pedra e, em seguida, ouviu indistintamente o som de passos leves na câmara ao lado do seu.
O conde Otto saltou de seu sofá e, ao fazê-lo, soou uma música deliciosa, e a porta de sua câmara foi aberta. Apressando-se para a sala ao lado, ele se viu no meio de inúmeros seres das Fadas, vestidos com roupas gays e brilhantes. Eles não lhe deram atenção, mas começaram a dançar, a rir e a cantar ao som de música misteriosa.
No centro do apartamento, havia uma esplêndida árvore de Natal, a primeira já vista naquele país. Em vez de brinquedos e velas, penduravam em seus galhos iluminados estrelas de diamante, colares de pérolas, pulseiras de ouro enfeitadas com jóias coloridas, pérolas de rubis e safiras, cintos de seda bordados com pérolas orientais e punhais montados em ouro e adornados com as jóias mais raras. A árvore inteira balançava, brilhava e brilhava no brilho de suas muitas luzes.
O conde Otto ficou sem fala, olhando para toda essa maravilha, quando de repente as fadas pararam de dançar e recuaram, para dar espaço a uma dama de beleza deslumbrante que veio devagar em sua direção.
Ela usava nas tranças negras um diadema de ouro cravejado de jóias. Seus cabelos caíam sobre uma túnica de cetim rosado e veludo cremoso. Ela estendeu duas mãos pequenas e brancas para o conde e se dirigiu a ele em tons doces e atraentes:

“Caro conde Otto”, disse ela, “eu volto para sua visita de Natal. Eu sou Ernestine, a Rainha das Fadas. Trago-lhe algo que você perdeu no Poço das Fadas.
E, enquanto falava, tirou do peito um caixão de ouro, cravejado de diamantes, e o colocou nas mãos dele. Ele abriu ansiosamente e encontrou dentro de seu anel de ouro perdido.
Levado pela maravilha de tudo, e vencido por um impulso irresistível, o conde pressionou a fada Ernestine em seu coração, enquanto ela, segurando-o pela mão, o atraía para os labirintos mágicos da dança. A música misteriosa flutuou pela sala, e o resto da companhia de fadas circulou e girou em torno da rainha das fadas e do conde Otto, e depois se dissolveu gradualmente em uma névoa de muitas cores, deixando o conde e sua bela convidada em paz.
Então, o jovem, esquecendo toda a frieza anterior em relação às donzelas do país, caiu de joelhos diante da fada e implorou que ela se tornasse sua noiva. Por fim, ela consentiu com a condição de que ele nunca pronunciasse a palavra "morte" em sua presença.
No dia seguinte, o casamento do conde Otto e Ernestine, rainha das fadas, foi celebrado com grande pompa e magnificência, e os dois continuaram a viver felizes por muitos anos.

Agora aconteceu uma vez, que o conde e sua esposa Fada caçariam na floresta ao redor do castelo. Os cavalos estavam selados e com freio, e de pé na porta, a companhia esperou, e o conde percorreu o salão com grande impaciência; mas ainda assim a fada Ernestine ficou muito tempo em seu quarto. Por fim, ela apareceu na porta do corredor, e o conde se dirigiu a ela com raiva.
"Você nos deixou esperando tanto tempo", ele exclamou, "que você seria um bom mensageiro para pedir a morte!"

Mal ele falou a palavra proibida e fatal, quando a Fada, proferindo um grito selvagem, desapareceu de sua vista. Em vão, o Conde Otto, tomado de tristeza e remorso, vasculhou o castelo e o Poço das Fadas, nenhum vestígio de sua bela esposa perdida, mas a marca de sua delicada mão colocada no arco de pedra acima do portão do castelo.
Os anos se passaram e a fada Ernestine não voltou. A contagem continuou a lamentar. Toda véspera de Natal, ele montava uma árvore iluminada na sala onde conhecera a Fada, esperando em vão que ela voltasse para ele. O tempo passou e a contagem morreu. O castelo caiu em ruínas. Mas até hoje pode ser visto acima do portão maciço, profundamente afundado no arco de pedra, a impressão de uma mão pequena e delicada.
E assim, dizem as boas pessoas de Strasburg, foi a origem da Árvore de Natal.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Christmas Cracker - uma tradição do Natal do Reino Unido


Christmas cracker é um elemento tradicional da ceia de Natal do Reino Unido e dos países de colonização inglesa - dentre eles, notadamente Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, mas também se encontra o costume na ilha vizinha da Irlanda, tanto no Ulster quanto no Eire - que consiste num tubo de papelão segmentado, embrulhado em um papel brilhante e decorado. No meio encontra-se um doce, mas também há os Christmas cracker que trazem brinquedos ou uma outra prenda qualquer. 

O "ritual" principal de abertura do Christmas cracker necessita duas pessoas, sendo que cada uma delas segura um dos lados e puxa com força. Ao abrir o Christmas cracker, uma delas será "premiada" e a outra ficará apenas com a parte vazia da embalagem. No movimento de abertura do Christmas cracker é emitido um estalo na fricção (graças à presença de fulminato de prata).

Uma pintura do artista norte-americano Norman Rockwell retratando a abertura do Christmas cracker, 1919.

A tradição do Christmas cracker tem uma origem precisa: sua invenção se deve ao padeiro e confeiteiro inglês Tom Smith (1823-1869). Para poder reverter a baixa na venda de doces e produtos de sua confeitaria, ele teve a ideia de inserir pequenas mensagens de amor nos invólucros de seus bombons, isso em 1847. Dois anos depois, ele substituiu os bombons por itens como brinquedos, bijuterias ou pequenos chapeuzinhos de papel. Por fim, em 1860, ele adicionou o estalido. Seus filhos deram continuidade à ideia do pai (constituíam uma família de confeiteiros industriais) e já na década de 1890 os Christmas Cracker estavam muito popularizados nas Ilhas Britânicas, bem como sendo exportados para os Estados Unidos, a Europa continental e o Japão.

Fontes da matéria:
http://projectbritain.com/holidays.html
https://www.historic-uk.com/
https://en.wikipedia.org/wiki/Main_Page
https://www.whychristmas.com/


Feliz Natal 2019


Um Feliz Natal a todos os amigos, seguidores e visitantes do blog!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Sobrenome Osório


"A palavra Osório usa-se como apelido de família tanto em Portugal, como em Hespanha (aqui escrito por vezes Ossorio). Na província de Gerona há um lugar chamado San Pedro Osor.

Quanto a origem histórica, relativamente a Portugal, dizem os nossos Nobiliarios ou Livros de Linhagens, que ela está no vizinho reino, pois foi o Conde hespanhol Dom Osorio que 'veo a pobrar a Portugal'. Também Villasboas, na citada Nobiliarchia, pág. 309, afirma que os Osórios 'procedem do Conde Dom Osorio de Campos, no Reynado del Rey Dom Affonso VI de Leão'. Devemos porém dar pouca fé aos genealogistas, pois antes dêste Rei (1072-1109) há Osorius em documentos nossos, e não como apelido, mas como nome próprio, por exemplo: Osorius Lucidi, em 943, nos Dipl. et. Ch., pág. 30; Osoilo (simplesmente), em 1029, ib., pág. 163; Osorio Telliz, em 1043, ib., pág. 202. Do próprio tempo em que reinou D. Afonso VI, no séc. XI, temos Osoyro (1077), ib., pág. 332.

Quer do nome, quer do seu patronímico, há muitos exemplos em documentos, do séc. XI em diante: Osorit e Osoriz (1025), nos Dipl. et Ch., pág. 160; Osoriquiz (1077), ib., pág. 334; Osorizi (1081), ib., pág. 362; Monio (ou Monîo) Osóriz (1130), no Elucidario, s.v. 'censo'; Osorio Pelagii (1178), nos Docc. do Souto, pág. 4; Osoir'Eannes, trovador; D. João Usórez, 1308, a par de João Usoriz e D. João Osorio, na introdução de A. de Sá aos Estudos de Cartographia do V. de Santarem, vol. I, pág. LXXVI; Maria Osoyre ou Osórez, irmã de Sarrazinho Osórez, e D. Sancha Osorez, filha de D. Ozorio Anes: nos Nobiliarios, pág. 344 e 355, e 176.

Textos dos séculos XIII-XIV, do séc. XV, e do XVI mostram-nos já Osorio, ou suas variantes fonéticas, como apelido própriamente dito, e além disso precedido de de, o que testemunha origem geográfica, por exemplo: Orraca Nunes de Osoiro; Dona Maria d'Ozoiro; Jorge do Soyro, nome de um genro de Pero Vaz de Caminha; Rodrigo dOsoyro ou Rodrigo do Souro, nome de um neto; e bem assim Dioguo dOsouro, também escrito de Souro, do Souro, Diego Soyro, Diego de Ousoiro, Diogo do Sorio, o que tudo se refere a um mesmo indivíduo (almoxarife da Guarda). É muito conhecido o seiscentista D. Jerónimo Osorio, Bispo de Silves, e historiador; nas suas cartas, de que há um manuscrito na Biblioteca Nacional de Lisboa, cód. do séc. XVI, no. 8920, fls. 56, lê-se porém: D. Jeronymo do Souro, com grafia igual a uma das que ficam mencionadas, e que interpreto por d'Osouro=d'Osorio.

Nos sécuos subseqüentes Osorio continua naturalmente a empregar-se como apelido, umas vezes com de, outras (em tempos mais modernos), sem essa preposição. O Invent. dos livros de matric. da Casa Real, vol. I, Lisboa 1911, correspondente aos anos de 1641 a 1681, menciona-se quinze vezes, aplicado a outras tantas pessoas. Nos Regist. paroc. da Sé de Tanger, Lisboa 1910, pág. 351, lê-se João Frz (=Fernandez) Dosoiro (=d'Osoiro), de 1642. Relativamente ao mesmo século XVII, e também aos XVIII e XIX, fala-nos o Diccionario Bibliogr. de Inocêncio & Aranha, t. XI, pág. 115, de onze autores portugueses (ou dez, se um é hespanhol, como parece) que usaram êste apelido. Com relação à actualidade, veja-se o Annuario Comercial, por exemplo, o de 1918, vol. I, pág. 652. Nem no Dicc. Bibl., nem aqui, aparece de. - Como notícia histórica, lembro que, tanto quanto me parece, Osorio tem sido sobretudo usado por pessoas de qualidade, pelo menos entre nós, e últimamente; o povo adopta-o pouco.

Do patrimònio Osorez, empregado do mesmo modo como apelido, conheço exemplos galegos dos sécs. XVIII e XIX (-XX): Gayoso Ariasa Ozores; D. Jaime Ozores de Prado: ambos os quais Ozores representa claramente Osorez.

Antes de passar à explicação etimológica, convem fazer algumas observações gráficas e fonéticas às fórmas mencionadas.

A diversidade de grafias de Souro, do Souro faz perguntar se Souro será de facto palavra independente, tanto mais que temos na toponímia moderna, Souro e Sourinho (diminutivo); mas a favor da interpretação de do Souro por d'Osouro está não só o escrever-se de várias maneiras, como vimos, ora do Souro, ou do Soyro, ora dOsouro, dOsoyro, etc., o nome de dois indivíduos (o almoxarife da Guarda, e o neto de Vaz de Caminha), senão também o terem sempre todos os nossos autores interpretado por Osorio o apelido do citado historiador e bispo, apesar de êle também aparecer escrito do Souro. A propósito dêste ùltimo acrescentarei, como confirmação, o possuir eu uma obra latina de D. Jerónimo Osório, De Gloria, impressa em Alcalá de Henares (Complutum) em 1568, portanto em sua vida (Osório faleceu em 1580, diz Barbosa Machado), na qual obra se lê Hieronymi Osorii Lusitani de Gloria; que Osorii não é tradução literal de d'Osouro ou d'Osoiro o mostra não só o privilégio de Felipe II, estampado no comêço, com Geronymo Osorio, mas um epigrama de Simão de Acuña ou da Cunha, também no comêço, ad clarissimum virum Hieronymum Osorium. Outro exemplo, posterior porém a 1568, no-lo dão as Constituições do bispado do Algarve, impressas em Évoraa em 1674: D. Hieronymo Osorio. As grafias Diego Soyro, Diogo de Souro, etc. são mera negligência de escribas: já nas Lições de Philologia, pág. 269, indique outros exemplos antigos. Às vezes nasceram de análogas negligências verdadeiros apelidos, como d'Ornelas, em vez de Dornelas; e Dantas em vez de d'Antas (desde o séc. XIII). A esta negligência ou plebeísmo gráfico corresponde no nosso caso algumas vezes grafia inversa, isto é, altamente literária: Hieronymo por Jerónimo. Em tôdas as coisas há modas, para não dizer também descuidos, e caprichos! - O topónimo Souro, de que falei anteriormente, nada tem, quanto a mim, com Osorio ou Osouro, que de mais a mais se pronuncia com s sonoro: seria origináriamente nome de homem, Saurus (cognome romano) ou Saurius (gentilício), de que Soure, ainda no séc. XIV (comêços) Souri representará o genetivo, isto é, Saurivel, Saurii (sc. villa). Sourinho tanto póde ser diminutivo de Souro, como estar por Soeirinho, conforme me lembrou o meu amigo Doutor Joaquim da Silveira, a quem me refiro em nota; cf. Souro-Pires (Soeiro-Pires) em Pinho Leal, Port. ant. e mod., IX, 436 e Souralvo e Souralva, explicáveis na mesma ordem de ideias.

Agora a fonética. Abstraindo dos genetivos, e do emprêgo de z por s, temos, evidentemente como fórma primitiva e normal, Osorio, desde o séc. XI, com veste latina Osorius, desde o séc. X; e depois Osoiro (variante Osoilo, num texto de 1029), com transposição das vogais terminais; Osouro, com -our-; Ousoiro, com ditongamento do O inicial. Todos estes fenòmenos são correntes em português: de -oiro, representação normal de -orio, nos dá outra amostra Vitóiro (em Braga há uma igreja de S. Vitoiro), de Victoriues; a par de -oiro, a língua vulgar diz -ouro, por exemplo, Douro e Doiro, de Dorius. Quanto ao ditongamento do O átono inicial (Ousoiro), êle, exceptuando certos falares populares, só aparece, que me lembre, em palavras de carácter literário, posto-que antigas: oucioso, oupiniam, etc.; essa fórma Ousoiro tenho-a por esporádica, ou meramente gráfica, própria do texto em que a vemos.

A explicação etimológica de Osorio foi já objecto de várias especulações.

Godoy Alcántara, Apellidos castell., Madrid 1871, pág. 176, relaciona Osorio, Osoyro com sutor, o que já foi combatido por Pidal, Cantar de mio Cid (Gramática), pág. 257, nota 1. Um amigo meu, também Hespanhol, diz-me em carta: 'Osorius puede lo mismo ser nombre personal latino o latinizado (cf. Sertorius, Honorius, etc., y en siglo X Odorius); su tema parece ser urs-', isto é, ursus; mas ursus, se deu oso em hespanhol, e osso em português antigo, não explica Osorio, nem fonética, nem morfológicamente (o -s- de Osorio, como já disse, é sonoro, ao passo que em osso temos um som surdo; e -orio não se junta a temas de origem zoológica). Em 1904, nas suas Romanische Namenstudien, I (Viena), pág. 16 e 82, relaciona Meyer-Lübke a palavra Osorius com o tema indo-germânico aus-, a que se juntaria a terminação de Honorius, criando-se assim um home híbrido: para se justificar, menciona aquele autor, de um lado Osoredus (=Oso-redus), Osgildus (=Os-gildus), do outro Odoriues (=Od-orius). Todos estes nomes aparecem em documentos medievais nossos. Von Grienberger, no exame que fez do trabalho de Meyer-Lübke no vol. XXXVII da Zs. f. deutsche Philologie, diz a pág. 541 que como base de Osorius podia ver-se o gótico -Us. Meyer-Lübke volta a ocupar-se de Osorius no fascículo 2o. (1917) da citada obra Romanische Namenstud., pág. 69-70, e cita a opinião de Schuchardt, que pergunta se em Osorius se conterá o nome biscainho oso, que significa 'inteiro', 'ileso', 'são'.

A etimologia não está pois ainda suficientemente esclarecida. As opiniões citadas permita-se-me juntar outra: não será Osorius metátese de Orosius, provocada pela terminação, mais corrente, -orius? Como é sabido, Osorius existiu na Península, no séc. V, como sobrenome de um historiador (Paulus Orosius); e já anteriormente a esta data houvera Orosius, vir Christianus, na Cilícia, e Orosius, prespiter Romanus."

Fonte: LEITE DE VASCONCELLOS, J. Opusculos, volume III. Coimbra/Portugal: Imprensa da Universidade, 1931, pág. 32-41.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Sobrenome Cardoso


"Muitos dos nossos apelidos provêm de nomes de localidades, donde os respectivos indivíduos ou os seus maiores eram naturais ou onde residiram. Cardoso, como já em 1883 eu disse na Mocidade de hoje (revista portuense), faz parte dessa classe, e significa originariamente 'terreno abundante de cardos'. Deve entender-se que a princípio a expressão plena seria chão cardoso, terreno cardoso, ou outra análoga, e que por elipse do substantivo ficou só o adjectivo determinante, isto é, cardoso, com funções substantivas. Num cardoso ou chão cardoso edificaram-se casas, para aí viverem os proprietários; com o tempo a população aumentou, e formou-se um casario, de que depois se desenvolveu um lugar maior ou menor: assim pode explicar-se a origem dos campos, quintas, herdades, e povoações que se chamam Cardoso nas províncias do Minho, Beira, etc. A par de Cardoso Cardosa, isto é, na origem: terra cardosa. Da formação adjectival, que aqui se vê, ministra a toponímia outros exemplos, e muitos abundantes, quer com relação a flora: Aveloso, Azinhoso, Carregosa, Cercosa, Feitosa, Figueirosa, Folgosa, Folgoso, Freixiosa, Gestosa, Matoso, Murtosa, Relvosa, Sabugosa, Salgueirosa, Salgueiroso, Silvoso, Teixoso, Tojoso, Vimioso, quer com relação a outros elementos da Natureza: Coelhoso, Pedrosa, Seixoso, Terroso, Vermelha (sc. terra). 

Em expressões como monte da Cardosa (Alentejo), onde monte significa habitação, casal das Cardosas, quinta do Cardoso, e congéneres, as palavras Cardosa, Cardosas, Cardoso significam, quanto a mim, apelidos de antigos proprietários, embora na origem fôssem nomes geográficos.

Um fulano natural de um lugar ou sítio chamado Cardoso ou aí residente chamou-se F. de Cardoso, ou F. Cardoso, com de ou sem de, segundo o que escrevi na Rev. Lusitana, XXI, 316 ss. (vid. adiante) e o apelido transmitiu-se aos descendentes ou vindouros. Os próprios genealogistas, no que toca à nobreza da família dos Cardosos, dizem que o solar era a quinta de Cardoso, junto a Lamego, por exemplo Villasboas, Nobiliarchia Portuguesa, Lisboa, 1676, pág. 256. Mas isto é um caso particular; os exemplos seriam mais gerais, e tanto entre nobres como entre não nobres. Usualmente diz-se hoje F. Cardoso, mas todos conheceram um maestro cujo nome soava Cyriaco de Cardoso. Da analogia de Cardoso com cardo também os genealogistas tiveram suspeita, pois dão à família como brasão esta planta."

Fonte: LEITE DE VASCONCELLOS, J. Opusculos, volume III. Coimbra/Portugal: Imprensa da Universidade, 1931, pág. 28-30.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Companhia Fábrica de Chitas Porto-Alegrense


"Fabrica de chitas

A convite dos distinctos cavalheiros srs. coronel Taborda Ribas e C. Schilling, directores da Companhia Fabrica de Chitas, fomos hoje visitar este estabelecimento, que já se acha funccionando.

Para significar a importancia da fabrica, vamos transmittir ao publico os apontamentos que tomámos, os quaes valerão mais do que as nossas palavras.

Tres são as secções da fabrica: a de branqueamento, a de tinturaria e estamparia e a de fixação das tintas e preparo final da fazenda.

O algo tão destinado á fabricacção da chita soffre mais ou menos este processo.

Passa para uma machina que tem no centro um cylindro de cobre incandescente afim de chamuscar a felpa da fazenda e d'ahi a uma outra, onde leva um banho de vapor, afim de prevenir qualquer incendio.

Em seguida, submettido a um banho accidulado e a outro de agua pura, é mettido em um wagonete, que comporta de 13 a 18000 metros de fazenda, e este impellido para uma grande caldeira, cuja porta abre se para recebel-o por meio de uma bomba hydraulica.

Na caldeira o algodão é mergulhado durante 8 horas em um banho fraco de soda caustica, banho esse que uma bomba centrifuga faz circular por todo o panno.

Recebe ainda o algodão dois banhos, um com acido sulphurico e outro com chlorureto de cal, intercalados de banhos de agua pura.

Passa em seguida á machina de espremer, depois á de seccar e está terminado o processo do branqueamento.

O algodão apresenta-se então de uma alvura de neve.

Quando o algodão é destinado a morim, vai elle á secção respectiva só para receber a gomma e o assetinado preciso.

Quando é para ser convertido em chita, vai a enrolar em uma machina, em rolos de 1000 metros, sendo estes depois levados á machina de estampar, que póde trabalhar em 4 côres ao mesmo tempo, mas que por emquanto só trabalha em duas.

Já transformado em chita, o algodão vai ter ao pavimento superior, onde estão as machinas destinadas á fixar as côres, engommar e lustrar o tecido.

D'ahi passa para uma machina de dobrar, medir e cortar os metros e está concluindo o trabalho.

Iamo-nos esquecendo:

O algodão antes de ser levado á machina de estampar, é submettido a uma outra munida de navalhas circulares que tosam a felpa levantada pelo processo de branqueamento, de maneira a deixar o tecido bem igual, o que é necessario para a nitidez da impressão.

Outras chitas são tingidas, como a azul escuro, que tem grande consumo na região colonial, passando á machina de estampar.

A fabrica n'essas chitas emprega sómente anil puro, e, si os nossos agricultores se dedicassem a cultura da planta que o produz, poderiam conseguir um bom resultado, pois o consumo agora vai ser grande.

Para se avaliar a importancia da secção de tinturaria, basta dizer que ella tem 14 machinas.

A fabrica tem 6 motores, dos quaes 2 são da força de 70 cavallos cada um. Todas sairam das officinas de Mather & Platt, de Manchester, e bem assim todas as machinas, á excepção da bomba que puxa a agua do rio, a qual é de uma fabrica norte-americana.

As outras machinas são em numero de quarenta e tantas e, com os motores, representam um capital de mais de 3000:000$.

A fabrica póde preparara diariamente 400 peças a 30 metros, e apresentar umas cem variedades de chita.

Tem cerca de 50 operarios de ambos os sexos, dos quaes apenas 4 são extrangeiros e estes são os directores das secções de branqueamento, tinturaria e estamparia e o superintendente technico geral.

Varios operarios e operarias já tomaram conta de algumas machinas, entre elles uma menina.

Na fabrica de chitas, como em outras, tem se verificado que o operario brasileiro possue grandes aptidões para a industria fabril.

O estabelecimento dirigido pelos srs. Taborda & Schilling tem já um deposito de 6000 peças de chita e cretone, no valor de cento e tantos contos de réis.

O publico poderá apreciar alguns especimens na loja de fazendas do sr. Amaro Candido de Souza, á rua dos Andradas, onde a chita rio grandense está sendo vendida a 800 réis o metro.

Si viesse do extrangeiro não custaria menos de 1$200, em vista de sua excellente qualidade.

Sabemos, porém, que os srs. Taborda & Schilling vão providenciar de modo a não exceder de 750 réis o preço para a venda a varejo, conciliando o interesse do negociante com o do consumidor.

No pavimento superior do edificio da Fabrica de Chitas ha varios salões desoccupados e que se destinavam ao estabelecimento da industria textil, mas disto tiveram de desistir os fundadores da fabrica por causa da elevação do cambio e de outras circumstancias.

Mais tarde é possivel que sejam aproveitados com a fundação de uma industria amnexa, - uma fabrica de camisetas ou qualquer outra.

Na fabrica tem-se trabalhado com materia prima legitimamente nacional - com algodão colhido em Pernambuco e tecido no Rio de Janeiro.

Terminando estas informações, resta-nos pedir aos negociantes e consumidores toda a protecção possivel em favor da Fabrica de Chitas Porto Alegrense, isto é, em favor da industria rio-grandense."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 29 de Dezembro de 1892, pág. 01, col. 06
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