quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Macróbia de Uruguaiana


"Macrobia. - De Uruguayana escreverão ao Correio Mercantil de Pelotas o seguinte:

<<Falleceo nesta cidade Luiza Japuhy, vulgarmente conhecida por Vovó Rosa, China, na idade extraordinaria de 140 annos aproximadamente!

<<Ouvio-se-lhe dizer muitas vezes que fôra criada dos jesuitas em Missões, cuja expulsão foi ha 120 anos, sendo ella naquella idade mulher já feita.

<<Com a simples ajuda de uma bengala, percorria a pé toda a cidade, esmolando de porta em porta, e muitas vezes tomava banho em qualquer sanga, fosse qual fosse a estação: no rigor do inverno, nos dias de frio mais cortante, foi vista banhar-se!

<<Possuia ainda uma visão perfeita, e só nos ultimos tempos se queixou de alguma fraqueza e de umas nevoas que lhe não permittião ver claramente.

<<Esta extraordinaria matrona, que nos tempos primitivos seria uma mocinha ingenua e inexperiente, offerece-nos um caso de duração pouco vulgar nos nossos dias, em que é moda morrer-se com a terça parte daquella idade, e passar a gente para melhor, satisfeita e contente por ter vivido já por tanto tempo.>>"

Fonte:  DIARIO DE MINAS (MG), 31 de Março de 1875, pág. 04, col. 04

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A casa de feiticeiras da Várzea


"Lê-se na <<Gazeta de Noticias>>:

<<Tendo o sr. Manoel Luiz da Cunha, subdelegado de policia de Pelotas, denuncia de que, em uma casa na Varzea, algumas negras entretinham-se no celebre officio de feitiçaria ou manipancio,  para alli se dirigiu na noite de 17, depois de concluido o espectaculo da companhia Loyal's, acompanhado de seu escrivão, do capitão Delfino e de diversas praças da policia.

Ahi chegados, foram recebidos com todas as honras pela feiticeira, que dizia ser enviada de Deus para salvar a humanidade!

Em um quarto no interior da casa viam-se espalhadas mais de cincoenta tigelas de barro, contendo um liquido côr de leite, algumas vasilhas de louça com pedaços de carne, pennas de gallinha, sangue, sapos, e uma infinidade de objectos, estando o quarto illuminado com velas de sebo!

Algumas imagens de barro e outras em quadros completavam o adorno desse quarto dos mysterios.

Na sala, em um canto, estavam collocadas duas pedras, ensebadas e salpicadas de sangue, um copo com um liquido côr de leite, um outro com vinho, pennas de gallinhas e tambem illuminado com velas de sebo.

A feiticeira, a todas as perguntas que se lhe fazia, respondia que era enviada de Deus, e que seus trabalhos eram feitos de porta aberta, para que todo o mundo os vissem!

Disse tambem que aquella tinha preparado uma succulenta ceia de bolos de bacalháo para convidar o sr. delegado de policia, que era muito seu conhecido e que costumava ceiar algumas vezes em sua companhia.>>"

Fonte: O LIBERAL DO PARÁ (PA), 23 de Fevereiro de 1878, pág. 01, col. 03

terça-feira, 5 de junho de 2018

Matias de Albuquerque


"Patriota brasileiro, nascido em Olinda (PE), em data desconhecida, morto em Lisboa, em 1647. Foi grande soldado na luta contra os holandeses que se estabeleceram no Brasil a partir de 1624. Os holandeses aportaram na Bahia, prenderam o governador do Brasil e o remeteram para a Holanda. Designado para substituí-lo, Albuquerque organizou a resistência. Em 1626 deixou a governadoria e foi à Europa, de onde trouxe reforços. Apesar disso, os holandeses venciam e em 1630 dominavam também Olinda e o Recife. Albuquerque então fundou o Arraial do Bom Jesus, de onde por mais de cinco anos chefiou guerrilhas contra o invasor holandês. Vítima de intrigas, foi chamado a Lisboa e lá esteve preso até 1640, quando Portugal se libertou do domínio espanhol. Em 1644 venceu a Batalha de Montijo, contra a Espanha, e foi feito Conde de Alegrete pelo Rei D. João IV."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quilombo em Cerrito/RS


"PELOTAS

11 de janeiro:

(...)

- Diz a Discussão:

<< Somos informados de que, nas proximidades do Cerrito, existe um novo quilombo, que conta regular numero de pretos fugidos.

<< Na semana passada alguns d'estes pretos carnearam rezes na chacara do Sr. Henrique de Moraes Patacão e assaltaram a dispensa da quinta do sr. José B. de Campos, d'onde furtaram grande quantidade de mantimentos.

<< Os moradores d'aquellas immediações reclamam a attenção da policia, pois ali vivem em completo sobresalto.>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO, 14 de Janeiro de 1885, p.02, c.02-03

domingo, 3 de junho de 2018

A Quadrilha das Mulheres-Homens


"- Diz o Diario de Pelotas:

<<Informão-nos que quasi todas as noites apparecem em algumas ruas da cidade certos vultos vestidos de mulher, cujos vultos pertencem ao sexo masculino.

<<Ante-hontem (18) foi um desses industriosos, permitta-se-nos assim chamal-os, encontrado na Rua Yatahy, entre as do General Netto e Voluntarios.

<<Serão essas mulheres-homens pertencentes a alguma quadrilha de gatunos que pedem pousada para praticarem suas gentilezas mais a salvo."

Fonte: O LIBERAL DO PARÁ (PA), 17 de Março de 1877, pág. 01, col. 05

sábado, 2 de junho de 2018

A grande invasão de Jaguarão em 1865


"Rio Grande do Sul.

Tinha invadido a fronteira do Jaguarão uma partida de blancos, commandada por Bazilio Munhoz, cuja missão é assolar no territorio brazileiro as povoações indefezas, ou que apenas lhe possam offerecer uma debil resistencia. Considerando neste caso a cidade de Jaguarão, atacou-a Munhoz no dia 27 do passado com 1,500 homens de cavallaria, que foram repellidos com galhardia.

O tenente-coronel José Auto, que já se achava em Bagé, tinha sido obrigado a voltar para Jaguarão dando montada á todo o seu batalhão.

Eis o que encontramos nas folhas do Rio-Grande sobre este acontecimento:

O Diario de 31 de Janeiro diz:

<<Infelizmente vão se realizando as más novas que desde sabbado corriam com referencia a approximação de forças blancas á fronteira de Jaguarão.

<<As ultimas noticias recebidas em Pelotas por um segundo proprio são datadas de 28, e confirmam a passagem de mil e tantos assassinos pelo passo da Armada, que ficavam em frente a cidade de Jaguarão, tendo já havido algum tiroteio.

<<O inimigo acampara-se nos arrabaldes da cidade, entre os cemiterios, tendo horas antes desligado uma força de 400 sicarios, talvez que para assaltarem os pequenos povoados do Arroio Grande ou Herval, que estão completamente abandonados de forças imperiaes.

<<Jaguarão, porém, julgava-se forte, capaz de resistir e repellir o vil inimigo.

<<Além da força de 600 homens que alli se acham, e do 10o. batalhão de infantaria, esperado a todos os momentos de Bagé, aggregaram-se á ella todos os guardas nacionaes da reserva, e muitos estrangeiros, como se fossem Portuguezes, Orientaes colorados, Allemães e Francezes, offerecendo-se estes ultimos para tomar conta das peças dos vapores Apa e Cachoeira e a do lanchão da mesa de rendas, que foram immediatamente postas em terra e a elles entregues.

<<Além desses recursos, que os julgamos sufficientes para rechaçar o inimigo, o Sr. Presidente da Provincia fez seguir para alli, domingo pelas 7 horas da manhã, no vapor Rio Grandense, 50 guardas nacionaes da secção da cidade de Pelotas, commandados pelo Sr. Tenente Julião José Tavares: e hontem embarcaram tambem para aquella cidade, no vapor Especulação, duas peças com todos seus petrechos e munições.

<<Ainda que um pouco tarde, as providencias se vão tomando; mas muito melhor teris sido se já se houvesse tomado, porque então esses bandidos não teriam tido o arrojo de invadir nosso territorio.

<<Será para estimar que a licção aproveite, e nesta convicção pedimos a S. Exc. o Sr. Presidente da Provincia que quanto antes mande engrossar, não só as guarnições das fronteiras, como as das importantes cidades do Rio-Grande e Pelotas.>>

A mesma folha de 1 do corrente accrescenta:

<<O estafeta de Jaguarão chegou hontem de tarde, com cartas de 29 as 7 horas da noite.

<<Os blancos atacaram de facto aquella cidade, mas não a penetraram e foram repellidos com toda a energia, apezar da falta de recursos que se fazia sentir.

<<A carta que em seguida apresentamos, que é escripta por pessoa fidedigna e dirigida á um Sr. Commerciante desta praça, orientará plenamente o leitor do que alli houve.

<<O inimigo retirou-se com direcção a Bagé, depois de 30 horas de resistencia, arrebanhando para mais de tres mil cavallos e muitos escravos, e saqueando todas as casas que encontravam.

<<Uma carta, porém, do Arroio Grande noticia que o numero de escravos arrebatados pelos vandalos subia a cem.

<<A' Jaguarão deveriam ter chegado hontem 1,600 homens, sob o commando do Sr. Coronel Barão de Serro-Alegre, sendo 1,200 de cavallaria e 400 infantes do 10o. batalhão, com ordem de perseguir o inimigo até Taquary, no Estado Oriental.

<<Eis a carta á que nos referimos:

<<Sobre a madrugada do dia 27 principiou a força blanca ao mando do general Bazilio Munhoz com 1,500 homens de cavallaria a transpor a nossa fronteira pelo passo denominado da Armada. Os nossos dous corpos de cavallaria da guarda nacional com 300 e tantos homens, que estavam de observação proximo ás fronteiras, vieram fazendo guerrilhas com o inimigo, até que se viram forçados a entrar dentro da cidade a galope, deixando apenas um espaço de 100 passos do inimigo quando [nota nossa: trecho ilegível] que entrou o nosso ultimo soldado, a brava 3a. companhia avulsa da guarda nacional ao mando do intrepido capitão Emygdio José de Sant'Anna fez sobre o inimigo uma vivissima descarga, que o obrigou a retirar-se, ficando nessa occasião alguns mortos e perto de vinte feridos do inimigo. Esta força que esperou o inimigo guarnecia a unica bocca da rua que estava sem trincheira, em frente á casa de Polydoro A. Costa.

<<O cantão immediato, junto á casa do major Simplicio, foi igualmente atacado pelos blancos e com energia repellidos.

<<Cumpre observar que quando estes malvados vieram de marcha batida sobre a cidade foi na certeza de não a encontrarem com trincheiras, estas foram começadas na tarde do dia 25 e terminadas ao escurecer do dia 26, e, se hoje estamos com vida, devemos á inaudita actividade do ex-primeiro tenente da armada Pedro Maria Amaro da Silveira, que de motu proprio tomou sobre si essa tarefa, contra a vontade de muita gente, e com especialidade das nossas autoridades militares, que diziam que os blancos cá não vinham.

<<Ao meio-dia do dia 27 mandou o chefe dessa horda de canibaes um parlamentar com officio ao coronel commandante desta guarnição, intimando-o a que nos rendessemos e entregassemos a cidade, sob pena de ser este responsavel com sua vida pelas desgraças, que sobreviessem no caso de não acceder a essa intimação: a resposta foi energica e condigna com os brios da nação brazileira.

<<O inimigo durante todo o dia conservou-se em frente á cidade, e á noute retirou-se para fóra, levando os feridos em carretilhas, depois de haverem enterrado os mortos.

<<De nossa gente apenas perdemos um homem velho que nas guerrilhas cahio do cavallo, ao qual, depois de o lancearem, lhe tiraram os olhos, castraram-o e o estrangularam! Veja que humanidade!!

<<Tivemos dous feridos inclusive o major Anacleto Porto, que supponho não escapará. Nos arrebaldes da cidade saquearam horrivel e desapiedadamente, não exceptuando a mais insignificante choupana: o que não podiam levar quebravam, estragavam e reduziam a ruinas. As casas de Hypolito Passos e João de Farias Santos sofreram prejuizos no valor de mais de... 16:000$: e a algumas casas lançaram fogo. Roubaram cavalhada em numero de mais de 3,000; enfim, foi um disforço do que fizeram em Paysandú, não a nossa gente, mas sim os seus proprios compatriotas.

<<Não finalizo sem render um tributo de homenagem aos estrangeiros aqui residentes, e com especialidade os Portuguezes, que se portaram como verdadeiros guerreiros, fazendo a guarnição dos cantões e sahindo muito fóra das trincheiras em grande distancia, para provocar o inimigo a que chegasse, e a fazerem fogo com vontade de brigar. Estes homens estavam como leões, e em seus semblantes se notava o desejo ardente que tinham de destroçar o inimigo.

<<Hoje (29) consta que o inimigo seguio com direcção ao Herval, onde pretende continuar na sua cruzada de devastação e pilhagem!

<<E' preciso, meu amigo, providencias do nosso governo, que se tem tornado pouco previdente, para evitar que estes malvados não se approximem de nossas fronteiras; e, se de prompto não forem tomadas, acredite que esta provincia muito terá que soffrer.

<<De muito nos serviram aqui as duas canhoneiras que, collocadas nos flancos da cidade, a deffenderem energicamente, quer deste lado, quer do outro em Artigas, e muito concorreram para afugentar o inimigo.

<<Estamos á espera de recursos do Presidente da Provincia, e até esta hora (6) ainda nada dahi veio apenas hontem á tarde chegou um lanchão de guerra de Pelotas com 50 tercerolas, algumas lanças e munição: o mais necessario, que eram espingardas, não veio.

<<Conservam-se fóra e em distancia da cidade piquetes de avançada para descobrir o inimigo, e todos neste pequeno Sebastopol estão promptos a resistir.

<<O estafeta está proximo a partir e não me sobra tempo para ser mais minucioso nas peripecias deste ataque.

<<Até esta data não consta que se tenha movido força alguma do general Flores em perseguição desses assassinos.

Antes deste ataque expedira Munhoz, que se intitula general em chefe do exercito da vanguarda, uma proclamação declarando que vinha reconquistar o territorio que o Imperio havia usurpado!

A força invasora é acompanhada por um Andel Muniz, chefe do departamento do Serro-Largo, segundo declara, o qual tambem proclama chamando as armas todos os que puderem empunhál-as para acompanhar aquelle caudilho na sua obra de roubo e de devastação.

Na previsão de novos ataques no mesmo ou em outros pontos, tomava o Presidente da Provincia medidas para que os invasores recebessem uma boa lição.

Por sua parte as populações desenvolviam grande enthusiasmo."

Fonte: JORNAL DO RECIFE (PE), 25 de Fevereiro de 1865, pág. 02, col. 01-03


sexta-feira, 1 de junho de 2018

João Jacintho de Mendonça


Por Fernando Osório

"O Duque de Caxias, em carta ao General Osório, referia-se a este notável pelotense: 'Muito me penalizou a morte do nosso comum amigo João Jacintho de Mendonça, que de certo foi uma perda para a Província do Rio Grande, pois era um talento e um ótimo caráter'.

Ao falecer (3 de junho de 1869) o seu nome ocupava o primeiro lugar na lista tríplice que ia ser submetida à escolha do imperador. Era irmão do Dr. Joaquim Jacintho de Mendonça, outro respeitável pelotense, probo magistrado, administrador e político, de palavra elegante, que governou Sergipe e a terra natal, foi deputado e mereceu o título de conselho do governo de Pedro II.

O Dr. João Jacintho de Mendonça nasceu na Vila de S. Francisco de Paula (cidade de Pelotas) em 16 de março de 1817, sendo seus pais o Capitão João Jacintho de Mendonça e D. Florinda Luiza da Silva. Em 1836 formou-se na escola médico-cirúrgica da corte. Foi, a par de Pedro Chaves, Francisco Brusque e Secco, que apareceu João Jacintho de Mendonça, eleito pela primeira vez deputado na eleição de 1852.

Estreando nobremente na senda espinhosa da política, conseguindo assinalados triunfos na tribuna, trocou mais tarde o apostolado de médico pela missão de estadista. Contudo, nunca a pobreza bateu-lhe em vão à porta, e nas quadras calamitosas em que a cólera morbus acometeu esta cidade, prestou o distinto médico serviços notáveis. Durante a legislatura de 1862 a 1865, em que o partido progressista conseguiu levar à câmara todos os deputados, o Dr. Mendonça esteve proscrito, afastado dos negócios públicos. Chamado a presidir os destinos da província de S. Paulo, e isto em uma época melindrosa, foi tão importante o seu tino administrativo, que a imprensa liberal foi a primeira a render-lhe homenagens.

Uma das datas mais memoráveis dos anais da assembleia legislativa provincial é sem dúvida aquela em que Félix da Cunha, Silveira Martins, Felippe Nery e Mendonça discutiram, além de outros assuntos de elevada política, sobre o direito de revolução. Foi uma luta brilhante, titânica! 

Em 3 de junho de 1869 faleceu na cidade do Rio de Janeiro o ilustre filho do Rio Grande, ocupando o primeiro lugar na lista tríplice para senador. Os vagalhões ameaçadores das conveniências nunca puderam minar-lhe a força de ânimo, que era sobretudo o seu mais notável atributo. A sua eloquência conquistou-lhe uma reputação brilhante: a lealdade aos princípios pagou-lhe a província do Rio Grande, conferindo-lhe por mais de uma vez o diploma de seu representante na assembleia legislativa e no parlamento."

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