domingo, 10 de junho de 2018

A toureira Julia Rachel



Obs.: Reconstituição com base em reportagens dos jornais Diario do Rio de Janeiro, O Lábaro, Correio Paulistano e Correio Mercantil de 1875, no período de março a agosto.


Julia Rachel da Figueira foi uma jovem moça proveniente de Jaguarão que alcançou fama em 1875 em vários lugares do Rio Grande do Sul e teve esse sucesso repercutido em jornais de vários pontos do País, a ponto de receber um elogio do escritor e cronista fluminense João Curvello.

A moça começou a ser reconhecida em sua cidade de origem pela exímia capacidade como toureira, apresentando-se para plateias que ficavam admiradas com sua coragem e também pelo fato insólito para a época de ser uma mulher. Até gente do outro lado da fronteira vinha assistir as toreadas de Julia Rachel. Não obstante, seja por sua competência ou pela curiosidade de uma sociedade predominante machista, os feitos da moça a levaram a se apresentar para outros públicos, em várias cidades da Campanha Gaúcha.

Sem nunca ter saído derrotada de uma arena, seu grande momento se deu quando foi convidada para se apresentar nas duas cidades mais importantes do interior da província naquele momento, respectivamente Pelotas e Rio Grande. Em Rio Grande, Julia Rachel foi plenamente aclamada, além de ter recebido diversas homenagens da população. Em Pelotas, houve a coroação de sua carreira. Numa plateia formada por membros diversos da sociedade local, importantes negociantes e políticos da capital do Império, além de estrangeiros (conta-se que até membros da companhia dramática ligada à Ópera de Paris), Julia Rachel pois a termo final, numa batalha contra um touro pampeano, o animal na arena em que outrora se praticava este esporte sangrento. Além de vivas e gritos de aclamação, a moça recebeu uma medalha simbólica de campino feminino (isto é, campeão feminino, campeã) pelas autoridades locais.

Posteriormente, a moça ainda se apresentaria em Porto Alegre e, segundo consta, até em Santa Catarina. Terminou por voltar a Jaguarão para o casamento com um rapaz daquela cidade, o que, de acordo com o costume da época, foi o final de sua carreira como toureira. 

No Rio de Janeiro, os jornais até alcunharam uma expressão diante do ineditismo e da intrepidez da toureira rio-grandense: em política, os homens devem ser como Julia Rachel e não se acobardar ante as muitas e pesadas difficuldades, tal qual a moça não teme as marradas e investidas do touro.

Vale a lembrança pela atitude de vanguarda da moça, embora, simplesmente, após seu casamento, provavelmente confinada agora à vida doméstica, tudo o mais que se poderia saber dela, desapareceu.








sábado, 9 de junho de 2018

Um duelo em Alegrete em 1846


"No ano de 1846, ao fim do mês de maio ou no princípio do mês de junho ocorreu um duelo no Terceiro Distrito da Vila de Alegrete, entre o alferes Francisco Machado Pacífico e Patrício Pinheiro, resultando na morte deste último. O autor do repto, Patrício Pinheiro, que desafiou seu oponente através do envio de uma carta acompanhada de uma luva, foi o próprio vitimado do embate. Francisco Machado Pacífico, por sua vez, figura no processo como réu por haver assassinado ao seu contendor. Conforme o auto de corpo de delito, o corpo de Patrício Pinheiro, possuía talhos no rosto, um 'pontaço' no meio do peito e estava degolado.

Conforme o depoimento do réu no processo crime, este afirma que quando recebeu a carta de ofensa e a luva, se negou a duelar; porém, indo para a sua casa encontrou Patrício Pinheiro em uma coxilha e este o provocou, ao que Francisco Machado Pacífico viu-se obrigado a reagir e defender-se.

Diz o Alferes do (ilegível) 2 Linha Francisco Machado Pacífico que tendo recebido o cartel junto o [Suplicante] se portou com dignidade e não quis aceitar a luva porem sahindo para sua casa na Costa de Quarahim, encontrou com Patricio Pinheiro, que na coxilha o desafiou, e o [Suplicante] para defender a sua vida pos-se em guarda, e o Supplicando lhe deo um tiro de pistola que felizmente não foi (ilegível) e puxando ambos por armas brancas recebeo o [Suplicante] as feridas no joelho e outra na mão esquerda [...].

Conforme o depoimento da testemunha, Marcos Joze de Souza, Patrício Pinheiro havia lhe contado que o Alferes Francisco havia recusado um negócio com Patrício, que julgava haver sido por proibição da mulher de Francisco, dizia Patrício caçoando do oponente, 'por medo de apanhar da mulher'. Passados alguns dias, Patrício teria enviado uma carta de conteúdo bastante ofensivo a Francisco desafiando-o para baterem-se em duelo. Segundo o relato da testemunha João Batista de Souza, no momento do desentendimento, Francisco Machado, que estava armado com um rebenque, teria afrontado a Patrício Pinheiro que respondeu dizendo 'Patife, voucé me dis isto, he porque eu estou desarmado, eu não sou como voucé, que se dizia governar por mulhe'.

No auto do corpo de delito, os peritos indicam que talvez não fosse apenas um homem que matara Patrício Pinheiro 'por serem [feridas] (ilegível) pelaz Costa e todas mortaes' e por haver vários rastros de cavalos no local. A mesma afirmação é feita por Floriana Maria Pinheiro, esposa de Patrício Pinheiro. Porém, a quinta testemunha, Clementino Joze Pereira, que foi quem enterrou o corpo e avisou o cunhado do falecido, afirmou que a ferida nas costas era da ponta da espada que varou o corpo e que os vários rastros de cavalos eram do seu cavalo e do cunhado de Patrício Pinheiro que foram ao local duas vezes, afirmando, assim, que o Alferes estava sozinho com Patrício Pinheiro.

Basicamente, considerado os aspectos que constituem as regras de um duelo, este só deverá ter lugar quando o sentimento de honra de um indivíduo é ofendido e o insultado pode revidar. Um duelo só pode ocorrer entre pessoas que se reconhecem mutuamente como cavalheiros, ou seja, desafios vindos de sujeitos considerados inferiores social e moralmente sequer deveriam ser levados em conta. Antes do lançamento do desafio podem haver tentativas de reconciliação através de pedidos de desculpa, nos casos mal sucedidos o ofendido desafia o rival, jogando a luva na sua frente e/ou enviando um cartão de desafio, com hora e local marcados. Nos duelos de cavalheiros, carregados de normatizações, a presença de padrinhos - que muitas vezes tentavam conciliar os rivais para evitar o duelo - e médicos era comum, já que a assistência de terceiros também cumpria papel no reconhecimento público de que a honra fora reabilitada. Normalmente as armas utilizadas eram brancas e deveriam ser do mesmo tipo entre os querelantes; caso um deles estivesse em desvantagem, o desafio não devia acontecer. Geralmente, aquele que está vencendo podia escolher entre preservar a vida do adversário ou matá-lo; contudo, o super regramento e a cavalheirização pela qual passa a prática do duelo no Prata leva a que a maior parte dos duelos não acabassem em morte, sendo que esse desfecho nem parecia mais ser a intenção de fato da disputa, mas apenas provar a coragem de aceitar o desafio e lavá-lo até que uma das partes fosse apenas ferida ou até que a parte ultrajada declarasse sentir-se satisfeita e reparada.

Neste processo-crime, podemos perceber elementos que pertencem ao ritual de duelar, os quais acabam por diferenciar este caso das demais ocorrências. Entre eles destaca-se a carta de desafio em que Patrício Pinheiro lança o repto e chama o oponente para o duelo com palavras ofensivas. Outro elemento componente do ritual e presente no processo é a luva que, ao ser jogada no chão perante o adversário, o interpela para a disputa. Nesse caso a luva foi enviada junto com a carta, mas aponta o conhecimento de algum código. A recusa do desafio, em um primeiro momento, por parte de Francisco, também pode indicar certo domínio dos códigos que informam o ritual, considerando que o desafiado pode não ter reconhecido no desafiante um oponente 'a sua altura'. Contudo, outros elementos aproximam essa ocorrência de uma prática não ritualizada por códigos de honra de elite: o teor da carta de desafio, por exemplo, adota uma linguagem extremamente ofensiva, e a morte seguida de, ou através de, degola também constitui um ato revelador da ausência de normatização.

A princípio não se deve recusar um duelo, isso demonstra fragilidade e covardia, a não ser que o desafiado considere que aquele que o desafia lhe é inferior e, portanto, não é digno de duelar. É possível, portanto, considerar que o desafiado tenha recusado o duelo por não reconhecer dignidade e honradez no oponente; mas, de outra parte, Francisco também não se mostra totalmente imbuído dos regramentos rituais quando, ao enfrentar seu oponente, imprime como desfecho da morte a degola do mesmo. Segundo Bouton, 'bien sabemos que degollado un animal, es la mejor manera de que sangre bien'. Dessa maneira, a degola, ou qualquer ferimento produzido na cabeça, é uma ação carregada de significado que remete à submissão e inferiorização proposital do oponente, sendo um expediente reconhecidamente utilizado na cultura bélica platina em vários conflitos, chegando a denominar um deles: a Revolta da Degola, ou Revolução Federalista de 1893. Com isto percebemos que a degola cometida pelo Alferes Francisco corresponde a um elemento presente nessa cultura, que tem por finalidade a humilhação irreversível do rival através da profanação do corpo que levaria a desonra da derrota para o túmulo."

Fonte: FLORES, Mariana Flores da Cunha Thompson & AREND, Jéssica Fernanda. Noções de honra e justiça entre as classes populares da fronteira no Brasil meridional na segunda metade do século XIX - estudo de casos. In: Aedos, Porto Alegre, v.9, n.20, ago. 2017, p. 306-308.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Pelotas em 1887


"A CIDADE DE PELOTAS

A crescente prosperidade das provincias de S. Paulo e Rio Grande do Sul deve attrahir a attenção dos mineiros, estimulando-lhes o patriotismo em bem de nossa provincia, que continua em grande parte ou em triste decadencia, ou estacionaria.

Não fallamos já das cidades de S. Paulo e Porto Alegre - capitaes -; basta mencionar diversas outras, que excedem  muitas vezes ao que se poderá encontrar na melhor cidade de Minas.

Nessas condições estão Campinas, Santos, Pelotas, Rio Grande e ainda outras cidades das referidas provincias.

Eis, em resumo, o que é a cidade de Pelotas, conforme uma exacta noticia que lemos no Monitor Sul-Mineiro, no interessante itinerario - DO SUL DE MINAS AO SUL DO IMPERIO:

- Pelotas possue 1,109 casas de negocio que pagão de imposto annual 45:693$000; e fóra do dominium urbis,  mas nas proximidades da cidade, existem muitas casas commerciaes e 25 estabelecimentos de charqueadas, em que se prepara a carne secca, sendo todas movidas a vapor e empregando-se nellas mais de 1,500 operarios.

Os mais importantes desses estabelecimentos são os dos Srs. Junius Brutus Cassio de Almeida e Barão de Santa Tecla, ao primeiro dos quaes visitei e assisti a todo trabalho, penhorando-me a maneira benevola e attenciosa com que acolheu-me o sr. Brutus de Almeida, intelligente e laborioso industrialista.

Nessas 25 charqueadas abatem-se anualmente 300 mil cabeças de gado vaccum, cujo valor excede de dez mil contos de réis e produzem 18 milhões de kilos de carne secca, 6 milhões de graxa e cebo, mil toneladas de guano artificial, couros, linguas, chifres e ossos, sendo os ossos pequenos convertidos em cinza, que eleva-se a mais de cinco mil toneladas e que em barricas é exportada para a Inglaterra onde a empregão no fabrico de louça: - todos esses productos attingem ao valor de 15 mil contos.

Para o preparo das linguas ha 4 fabricas e para o do guano ha uma, e seu proprietario goza de privilegio, sendo seu estabelecimento montado com apparelhos modernos, movidos á vapor, empregando-se nelle grande pessoal e no serviço de recolher os residuos das charqueadas trabalha uma barca a vapor.

Existem dentro da cidade e em seus suburbios mais as seguintes fabricas: 1 de couros invernisados; além de bezerros e sollas invernisadas preparão-se nellas os chamados couros da Russia, tão bons ou melhores do que os que são importados, e cujo preço é inferior aos destes, de 20 a 30 por cento. E' o Rio de Janeiro o unico mercado a que tem vindo esses couros, assim como é Pelotas o único lugar em que os prepara;

Duas fabricas de sabonetes iguaes aos similares estrangeiros, quer na côr, fórma e perfume, quer em seu acondicionamento, e inferiores em preço; - são já exportados em grande quantidade para o Rio de Janeiro, S. Paulo, Bahia e Pernambuco;

Oito fabricas de sabão commum e de vellas de superior qualidade; 

Cinco de seges, em que trabalha numeroso pessoal e sendo os carros de passeio, caleches, victorias e coupés feitos das melhores madeiras e muito elegantes;

Vinte de cortume;

Duas de distillação, sendo uma dellas á vapor;

Seis de chapéos, em duas das quaes trabalha o vapor e tem mais de cem operarios;

Seis de cerveja;

Uma padaria mechanica e serraria á vapor, cujo proprietario pretende supprir o mercado de Montevidéo de madeiras serradas em seu estabelecimento;

Duas de preparar fumos, pertencendo a mais importante dellas ao Sr. Jacob Klaes, que por algum tempo residio no sul de Minas e que tem ganho muito com o estabelecimento que fundou em Pelotas, no qual, além do vapor, tem empregado mechanismo modernos e aperfeiçoados;

Uma de moagem de grãos que póde produzir centenares de arrobas de farinha de trigo por dia, e que vai ser poderoso incentivo para se desenvolver a cultura deste importante genero;

Sete fabricas de vinho, collocadas fóra da cidade, sendo os próprios fabricantes os plantadores da vinha; e em uma dellas, além do muito apreciado vinho, prepara-se licôres de differentes qualidades, superior cognac, frutas em conservas e queijos especiaes;

Um para refinação de assucar, á vapor;

Duas de vella de cêra;

Duas de colla, sendo uma em grande escala;

Uma de louça de barro;

Uma de chapéos de sol; 

Duas de chocolate;

Dezenove olarias;

Seis estabelecimentos typographicos, dois dos quaes são á vapor e perfeitamente montados;

Um estaleiro, com um dique artificial, para concerto de qualquer navio;

Um prado administrado por uma companhia que promove corridas e distribue premios.

Visitei a maior parte destas fabricas, sempre acompanhado pelo honrado Sr. Miguel Ribas, a quem devo as minuciosas informações que me forão prestadas, e que aqui consigno com sinceros e profundos agradecimentos a elle e a quantos se mostrarão benevolos satisfazendo a minha curiosidade.

Existem em Pelotas as seguintes sociedades anonymas:

Companhia de illuminação a gaz, que tem por fim illuminar tres cidades, Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, com o capital realisado de 1,300:000$000;

Companhia Hydraulica Pelotense, - que suppre de agua potavel a cidade e seus arrabaldes, com o capital realisado de 600:000$000;

Companhia de seguros Pelotense, contra riscos maritimos e terrestres, com o capital de 1,000:000$000;

Companhia Ferro Carril com o capital de 540:000$000 e está em projecto a formação de uma companhia de illuminação electrica.

Entre os edificios publicos, são dignos de menção o paço da camara municipal, grande sobrado de architectura moderna e luxuosamente decorado, cujo custo foi de cem contos de réis;

- A escola Maciel, elegante edificio em que vai ser estabelecido a escola veterinaria, feito á expensas da familia do conselheiro Maciel e por ella doado ao municipio;

O mercado, que fôrma um vasto quadrilatero de soteia, mandado construir pela camara municipal, que nesta obra despendeu cincoenta contos de réis;

O matadouro, edificio novo e moderno com todas as accomodações, feito por contrato entre a camara municipal e um particular;

O cemiterio, espaçoso e cheio de monumentos de sabido valor, tendo no centro uma capella;

A santa casa de misericordia, importante edificio ainda não concluido, pois está apenas construida a 4a. parte da planta que foi adoptada, e entretanto tem já capacidade para o duplo de enfermos que ahi estão. A capella da santa casa é um primor, o retabulo é de marmore e seus adornos são modernos e do melhor gosto: seu patrimonio approxima-se da quantia de 500:000$000;

Asylo de Nossa Senhora da Conceição, que tem a seu cargo 30 orphãos desvallidos e cujo patrimonio excede de cem contos de reis: - amnexo á este pio estabelecimento ha uma bonita capella;

A egreja matriz, construida com donativos particulares e pequenas subvenções do governo provincial; embora pequena para matriz de uma grande cidade, é um edificio vistoso, bem decorado internamente, no gosto moderno, branco e ouro;

Bibliotheca publica, elegante edificio de moderna architectura, com vastos salões, construido por subscripção popular que attingio á sessenta contos de réis: - sustenta aulas nocturnas gratuitas.

Theatro <<Sete de Abril>>, propriedade de uma associação;

Hospital da beneficencia portugueza, de que só está concluida uma parte, importando as despezas já feitas em 77:000$000 e que tem de patrimonio 150:000$000;

O club commercial, á que concorrem quotidianamente os principaes commerciantes, que ali discutem e resolvem importantes negocios, jogão, lém jornaes, etc.

- O serviço de locomoção é feito por bonds de uma companhia, e por 150 carros de aluguel, todos de 4 rodas; além destes carros ha mais de 250 pertencentes a particulares. Há 4 linhas de bonds;  uma do porto á egreja, tendo de extensão 2,500 metros; outra do mercado; outra do mercado á Tablada e matadouro, com 3,000 metros; a terceira vai á estação da estrada de ferro e tem 1,000 metros, e a quarta se estende até o Parque Pelotense, percorrendo a distancia de 3,000 metros.

A Tablada é o lugar em que se vendem as boiadas, e onde todos os dias, mesmo aos domingos, se reunem muitos negociantes, charqueadores e curiosos que vão assistir ao leilão ou ver reunida grande quantidade de gado vaccum, que todos os annos, nos mezes de Dezembro á Junho, é remettido para alli.

O Parque Pelotense é o passeio favorito; construido pelo subdito portuguez José Alves de Souza Soares, foi inaugurado a 2 de Fevereiro de 1883. Occupa uma área superior a 200 mil metros quadrados e o caminho que da cidade vai alli é uma avenida de 25 metros de largura e 440 metros de comprimento, toda arborisada. No Parque ha lindos jardins, lagos, repuchos, cascatas, grandes labyrintos, praças com estatuas, alamedas, magnifica estufa que vi cheia de plantas raras, diversos jogos, rink, etc. Funccionão ahi uma escola gratuita que é frequentada por muitas meninas e um laboratorio homeopathico. - Tem um vasto e bonito e edificio, existindo em parte delle o estabelecimento em que se prepara o Peitoral de Cambará, preconisado para moléstias do peito.

Tudo isto foi feito por um individuo que de mui poucos recursos dispunha, mas que póde ser apresentado como typo de homem laborioso e que vê ao longe.

Pelotas tem 53 ruas largas, perfeitamente alinhadas, sendo 27 traçadas de N. a S. e 26 de L. a O., e 5 praças. Destas a de Pedro II, situadas bem no centro da cidade, cercada de gradil de ferro elegantemente ajardinada, é verdadeiro primor; é ahi que as familias se reunem todas as tardes na estação calmosa para se recrearem ao som de agradavel musica; é ahi que eu verifiquei ter fundamento a fama de bellas de que gozão as pelotenses.

- Dentro dos limites urbanos existem 3,595 predios, que produzem do imposto de decima mais de 112:000$000; e fóra desses limites existem cerca de 500 casas, sendo muitas dellas comerciaes; elevando-se á 30,000 almas a população da cidade e seus arrabaldes.

O porto de Pelotas é frequentado por todos os vapores que se dirigem á provincia do Rio Grande do Sul e annualmente por mais de 300 navios de alto bordo, que alli vão procurar os productos bovinos e que estabelecem importantissimo commercio.

A mesa provincial de Pelotas rende mais de 500:000$000 annuaes; a geral no ultimo exercicio excedeu de 600:000$ e á muito mais se elevaria esta renda si concedessem a esta cidade porto alfandegado, unica e legitima aspiração que tem seus habitantes e que injustamente não tem sido attendida, sob a allegação de não se facilitar o contrabando."

Fonte: A PROVINCIA DE MINAS (MG), 31 de Março de 1887, pág. 01, col. 04-05, pág. 02, col. 01-02


quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Macróbia de Uruguaiana


"Macrobia. - De Uruguayana escreverão ao Correio Mercantil de Pelotas o seguinte:

<<Falleceo nesta cidade Luiza Japuhy, vulgarmente conhecida por Vovó Rosa, China, na idade extraordinaria de 140 annos aproximadamente!

<<Ouvio-se-lhe dizer muitas vezes que fôra criada dos jesuitas em Missões, cuja expulsão foi ha 120 anos, sendo ella naquella idade mulher já feita.

<<Com a simples ajuda de uma bengala, percorria a pé toda a cidade, esmolando de porta em porta, e muitas vezes tomava banho em qualquer sanga, fosse qual fosse a estação: no rigor do inverno, nos dias de frio mais cortante, foi vista banhar-se!

<<Possuia ainda uma visão perfeita, e só nos ultimos tempos se queixou de alguma fraqueza e de umas nevoas que lhe não permittião ver claramente.

<<Esta extraordinaria matrona, que nos tempos primitivos seria uma mocinha ingenua e inexperiente, offerece-nos um caso de duração pouco vulgar nos nossos dias, em que é moda morrer-se com a terça parte daquella idade, e passar a gente para melhor, satisfeita e contente por ter vivido já por tanto tempo.>>"

Fonte:  DIARIO DE MINAS (MG), 31 de Março de 1875, pág. 04, col. 04

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A casa de feiticeiras da Várzea


"Lê-se na <<Gazeta de Noticias>>:

<<Tendo o sr. Manoel Luiz da Cunha, subdelegado de policia de Pelotas, denuncia de que, em uma casa na Varzea, algumas negras entretinham-se no celebre officio de feitiçaria ou manipancio,  para alli se dirigiu na noite de 17, depois de concluido o espectaculo da companhia Loyal's, acompanhado de seu escrivão, do capitão Delfino e de diversas praças da policia.

Ahi chegados, foram recebidos com todas as honras pela feiticeira, que dizia ser enviada de Deus para salvar a humanidade!

Em um quarto no interior da casa viam-se espalhadas mais de cincoenta tigelas de barro, contendo um liquido côr de leite, algumas vasilhas de louça com pedaços de carne, pennas de gallinha, sangue, sapos, e uma infinidade de objectos, estando o quarto illuminado com velas de sebo!

Algumas imagens de barro e outras em quadros completavam o adorno desse quarto dos mysterios.

Na sala, em um canto, estavam collocadas duas pedras, ensebadas e salpicadas de sangue, um copo com um liquido côr de leite, um outro com vinho, pennas de gallinhas e tambem illuminado com velas de sebo.

A feiticeira, a todas as perguntas que se lhe fazia, respondia que era enviada de Deus, e que seus trabalhos eram feitos de porta aberta, para que todo o mundo os vissem!

Disse tambem que aquella tinha preparado uma succulenta ceia de bolos de bacalháo para convidar o sr. delegado de policia, que era muito seu conhecido e que costumava ceiar algumas vezes em sua companhia.>>"

Fonte: O LIBERAL DO PARÁ (PA), 23 de Fevereiro de 1878, pág. 01, col. 03

terça-feira, 5 de junho de 2018

Matias de Albuquerque


"Patriota brasileiro, nascido em Olinda (PE), em data desconhecida, morto em Lisboa, em 1647. Foi grande soldado na luta contra os holandeses que se estabeleceram no Brasil a partir de 1624. Os holandeses aportaram na Bahia, prenderam o governador do Brasil e o remeteram para a Holanda. Designado para substituí-lo, Albuquerque organizou a resistência. Em 1626 deixou a governadoria e foi à Europa, de onde trouxe reforços. Apesar disso, os holandeses venciam e em 1630 dominavam também Olinda e o Recife. Albuquerque então fundou o Arraial do Bom Jesus, de onde por mais de cinco anos chefiou guerrilhas contra o invasor holandês. Vítima de intrigas, foi chamado a Lisboa e lá esteve preso até 1640, quando Portugal se libertou do domínio espanhol. Em 1644 venceu a Batalha de Montijo, contra a Espanha, e foi feito Conde de Alegrete pelo Rei D. João IV."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quilombo em Cerrito/RS


"PELOTAS

11 de janeiro:

(...)

- Diz a Discussão:

<< Somos informados de que, nas proximidades do Cerrito, existe um novo quilombo, que conta regular numero de pretos fugidos.

<< Na semana passada alguns d'estes pretos carnearam rezes na chacara do Sr. Henrique de Moraes Patacão e assaltaram a dispensa da quinta do sr. José B. de Campos, d'onde furtaram grande quantidade de mantimentos.

<< Os moradores d'aquellas immediações reclamam a attenção da policia, pois ali vivem em completo sobresalto.>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO, 14 de Janeiro de 1885, p.02, c.02-03
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