História, Genealogia, Opinião, Onomástica e Curiosidades.Capão do Leão/RS. Para informações ou colaborações com o blog: joaquimdias.1980@gmail.com
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segunda-feira, 30 de maio de 2022
A Fama de Pelotas
domingo, 29 de maio de 2022
Um esconjuro brasileiro contra bruxas do século XIX
Pelo caminho ia rezando uma reza que a minha santa avósinha, que Deus haja, me ensinou quando eu era pequenito, p'ra exconjurar bruxas.
A reza que ia a rezar é assim:
Ó bruxa da mão furada,
Das unhas escarrapachadas,
Toda a casa tem quatro cantos,
Cada canto tem seu santo,
Padre, Filho e Espírito Santo.
Fé tinha eu na resa da minha avó, porque, a fallar a verdade, nunca o filho de meu pai tinha visto bruxas, trasgos, nem aventesmas!
(Tio João).
Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 09 de Outubro de 1889, pág. 01, col. 08
sábado, 28 de maio de 2022
A Baiana da Rua Barão de Mesquita
ALMAS DO OUTRO MUNDO
NOVAS MANIFESTAÇÕES
NA
RUA DO BARÃO DE MESQUITA
(...)
O que vamos narrar não é producto da fantasia. É a pura verdade. Áquelles que duvidarem, aconselhamos que procurem as praças de policia que, ante-hontem rondaram a rua do Barão de Mesquita, e que lhes perguntem o que viram e o que ouviram.
Passemos ao facto, que é interessante, mysterioso, singular e extraordinario.
Ás 10 horas da noite de ante-hontem começou a patrulha a fazer a sua ronda pela citada rua.
Os soldados estavam despreoccupadamente a fazer o seu serviço, com aquelle authomatismo de quem se habitua a um certo trabalho que não demanda de nenhum esforço de intelligencia, e que o faz dia a dia com a monotona regularidade de um relogio.
Isto tudo vem para dizer que não pensavel elles em almas do outro mundo, ou cousas de igual jaez, quando ouviram as doze pancadas da meia noite.
E com as doze pancadas da meia noite ouviram tambem agudissimos assovios, que partiam das proximidades da rua de S. Francisco Xavier, esquina da do Barão de Mesquita.
Intrigados com aquillo, e suppondo que fossem signaes convencionados por gatunos, occultaram-se em um capinzal, e puzeram-se a imitar os assovios, contando que os gatunos se approximassem.
Era plano d'elles attrahir por essa fórma os que assoviavem e prendel-os.
Vendo, porém, que ninguem apparecia, e que os assovios continuavam, dirigiram-se para o ponto d'onde partiam os mysteriosos signaes.
Apenas chegaram á rua de S. Francisco Xavier notaram, com grande espanto, que já os assovios não partiam d'alli, mas do ponto em que elles, soldados, tinham estado occultos.
De novo voltou a patrulha áquelle ponto, e d'ahi ouviu logo em seguida os mesmos assovios, partindo da rua de S. Francisco Xavier.
Cada vez mais intrigados com aquelle singularissimo phenomeno, procuraram os dous soldados descobrir a causa d'aquillo, para o que não achavam explicação plausivel.
Percorreram então a rua do Barão de Mesquita, de um ponto a outro, com a maior velocidade, notando com grande estupefacção que os assovios partiam sempre do ponto opposto áquelle em que se achavam!
Um dos solados propôz que ficassem ambos á espreita, porém cada um d'elles em ponto extremo.
Executado este novo plano, ouviram então repetido trilar de apitos que partiam do centro dos terrenos do hospital militar, sem que pudessem descobrir pessoa alguma.
Acto continuo ouviram tropel de animal.
Acreditando ser o official rondante que viesse a cavallo, como é de costume, dirigiram-se os dous soldados para o vulto que viram ao longe.
Subito, porém, cessou o tropel do animal, e cavallo e cavalleiro desappareceram como por encanto!
Pouco depois tomaram os soldados um bond do Andarahy Grande que passava, e um d'elles, dirigindo-se ao conductor perguntou-lhe:
- Que diabo de lambança é esta que se está passando aqui na rua do Barão de Mesquita?
É singular o que narram alguns capineiros, a proposito das mysteriosas manifestações n'aquella rua.
Dizem elles, e affirmam com a maior convicção, já terem visto fóra de horas uma mulher extremamente alta, magra, de trunfa á cabeça e vestida de preto. Essa mulher, a quem denominam a bahiana, anda apressadamente, e ás vezes com velocidade incrivel.
Quando alguem tenta approximar-se ella desapparece, sem que se saiba como, sem que se saiba como, sem que se possa encontrar nenhum vestigio da sua passagem, nenhum logar onde pudesse occultar-se, nada, absolutamente nada.
Essa mysteriosa mulher, a bahiana, como já a tratam, apparece muitas vezes, segundo dizem os capineiros.
É provavel que amanhã possamos dar novas informações acerca d'esses singularissimos phenomenos, que se reproduzem na rua do Barão de Mesquita.
Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 04 de Outubro de 1889, pág. 01, col. 04
sexta-feira, 27 de maio de 2022
San Francisco e as minas da Califórnia
Exterior.
CALIFORNIA. - Nada mais curioso de que o extraordinario desenvolvimento dado em meia duzia de annos á cidade de S. Francisco, que, antes de descobertas as minas da California, contava apenas umas 5 a 6,000 almas, contando as almas santas das esquinas. Hoje, quereis saber o que alli ha?
Ha 31 escolas publicas, com 70 mestres e 5,000 discipulos; despendem-se com ellas 137,000 pesos fortes, desses que valem ahi no Brasil, si bem me lembro, coisa dos seus 2$000.
Ha quatro associações scientificas com as suas competentes bibliothecas.
Ha quarenta livrarias publicas.
Ha doze periodicos diarios, entre os quaes dous francezes e dous allemães, tres semanaes, um italiano, um francez, e um hespanhol; dez semanaes, dos quaes um é chinez. Ao todo vinte e cinco periodicos.
Ha dezoito typographias, e sete lithographias.
Ha quatro hospitaes para enfermos pobres; um delles é sustentado pelo governo federal, que a isso applica 60,000 pesos.
Ha 136 medicos e 65 boticarios, apezar de ser limitado o numero de obitos, pois em 50 habitantes morre um por anno, emquanto nas cidades de Nova-York e Philadelphia morre um em 32 - e em Boston, um em 37. - Em 1,233 obitos que houve este anno ultimo, figurão 48 pessoas affogadas e 58 crianças nascidas mortas.
Ha 275 advogados, e 18 escrivães (Santa Barbara!).
Para objectos de beneficencia ha 8 sociedades de estrangeiros = duas de senhoras, duas hebraicas, duas allemãs, uma italiana e 1 franceza.
São representados por 18 consules os estados estrangeiros.
Ha uma companhia de gaz, que tem enterrado tubos para elle na extensão de treze milhas, e acende todas as noite 482 lampeões.
Ha seis theatros, dos quaes um é allemão, outro francez e outro chinez.
Ha tres salas para concertos.
Ha sete lojas maçonicas, quatorze clubs, quatro barracas para exercicios gynasticos.
Ha 12 moinhos de vapor.
Ha 63,000 habitantes.
E ha, que é o melhor de tudo, dinheiro em barra para todos, uma vez que queirão trabalhar.
Fonte: CORREIO OFFICIAL DE MINAS (Ouro Preto/MG), 23 de Abril de 1857, pág. 04, col. 01
quinta-feira, 26 de maio de 2022
Um relato sobre o tráfico transatlântico de africanos no século XIX
- O TRAFICO DE AFRICANOS. - Encontra-se no Ausland o curioso depoimento feito perante os tribunaes da America por um marinheiro que pertenceu á equipagem do Mary E Smith: diz elle -
"Depois de navegar tres annos na pesca da balêa, voltei a Boston, tendo gasto quanto ajuntei, o que nos succede sempre a nós marinheiros, fui obrigado a procurar trabalho e contractei-me como marinheiro a bordo do Mary E Smith.
Disse-me o capitão que deviamos ir para Montevidéo. Mas, logo que estivemos no alto mar, percebi que era falsa aquella asserção. Em vez de tomar para a America, o barco dirigia-se para a costa d'Africa.
Havia a bordo outro marinheiro enganado como eu.
Disserão-nos então, para nos applacarem, que nos darião uma boa paga, isto é 600 dollars a cada um pela viagem da costa d'Africa até Cuba, passagem gratis para nossa patria e dous negros. O que fazer no alto mar? Calamo-nos.
Na travessia preparou-se tudo para a recepção dos negros. Evitava-se qualquer encontro com outros navios.
Chegados á costa, tomou-se o carregamento. Nós dous aproveitamos do momento para desertar, e fomos ter a uma feitoria ou barracão. Foi uma fortuna o termos desertado, porque soubemos depois que o Mary E Smith tinha sido apresado por um navio brasileiro.
A feitoria onde me refugiei era dirigida por um residente, e tive occasião de observar como se faz ainda hoje o trafico. A feitoria estava situada em um ponto que não se podia descubrir, olhando-se do mar, precaução necessaria por causa dos crusadores britanicos e americanos. Compunha-se de dous edificios, um para os negros, outros para as negras e crianças.
O systema para obter negros é o seguinte: Educão-se neste mister pessoas cuja occupação unica é attrahil-os. Trazem-nos ás feitorias, onde lhes dão botões de metal, espingardas velhas, anneis e pulseiras de cobre. O preço regular de um negro bem constituido, nessas occasiões, é de 16$000, e o das negras e crianças, de 6$ a 8$000, pagaveis em mercadorias.
Tal é a paixão destes povos pelos ornatos e pela aguardente, que ás vezes os pais vendem os filhos e os maridos as mulheres.
Emquanto se demorão nos barracões, os negros andão encorrentados em lotes de 8 a 12. Logo que entrão alli, são marcados. Cada feitoria tem o seu signal particular e um lugar especial onde o applica. Ora é n'um braço, ora é nas costas, ora nas pernas, etc. O lugar mais ordinario é o lado direito do peito. O instrumento é sempre o mesmo: um ferro em brasa.
Depois de dous mezes e meio de estar eu naquella localidade, apareceu um barco negreiro, o Altivie de New-York, que comprou quatrocentos negros, pelo preço de 120$000 por cada homem, e de 60$ a 80$000 por cada mulher. Embarquei-me nelle para voltar para a patria.
Durante a viagem, morrêrão no Altivie cem negros, por falta de ar e de alimentação regular. Ao cabo de quarenta dias, desembarcou-se o contrabando em uma ilha perto de Cuba, vendendo-se os negros mais vigorosos a 1:600$000."
Depois disto, incendiarão o Altivie. O marinheiro pôde tomar passagem para New-York, onde fez a sua communicação á autoridade.
Fonte: CORREIO OFFICIAL DE MINAS (Ouro Preto/MG), 26 de Janeiro de 1857, pág. 03, col. 02-03
quarta-feira, 25 de maio de 2022
Enchente em Pelotas em 1889
A ENCHENTE EM PELOTAS
As grandes chuvas que cahiram nos dias 9 e 10 do corrente nas proximidades da cidade de Pelotas fizeram transbordar as aguas do rio S. Gonçalo de uma maneira como não ha exemplo ha muitos annos.
O rio, sahindo do leito, inundou consideravelmente as margens, ficando todos os estabelecimentos da margem esquerda debaixo d'agua.
No porto, a agua cobriu a linha dos bonds e chegou, ás 4 horas da tarde, até a bacia do chafariz da praça S. Domingos.
Toda a rua do Conde de Porto Alegre, ficou transformada em um grande rio.
Na margem direita, os estragos são medonhos.
As casas ficaram com 3 e 4 palmos d'agua e alguns moradores tiveram de dormir em cima das mesas e no forro dos predios para não ficarem de môlho..
O gado que existia na margem direita de S. Gonçalo foi colhido pela agua, e consideravel numero de rezes pereceram afogadas.
Nas margens do Santa Barbara ficaram com agua da altura de tres ou quatro palmos todos os edificios, inclusive as fabricas de farinhas, ratoeiras e barracas.
Ás 3 horas da madrugada do dia 12, o Sr. Pio Rosa, morador nas Larangeiras com sua familia, teve de mudar-se ás pressas, porque a agua entrava aos borbotões na habitação.
Todos os campos e casas marginaes do S. Gonçalo até Santa Isabel foram invadidos pelas aguas.
Um horror!
Os estragos causados pela enchente na fabrica do gaz são importantissimos. Segundo os melhores calculos nem em 15 dias haverá n'aquella cidade illuminação a gaz.
A agua chegou á altura de 1m,30 dentro do estabelecimento, alagando fornalhas, retortas, deposito de carvão, etc.
Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 20 de Junho de 1889, pág. 01, col. 03
terça-feira, 24 de maio de 2022
Incidente na Cabeça de Porco
AINDA A CABEÇA DE PORCO
A afamada estalagem da rua do Barão de S. Feliz, a muito conhecida Cabeça de Porco, foi ante-hontem theatro de uma grande desordem. A 1 hora da madrugada, mais ou menos, estavam em lucta renhida, n'uma troca de murros e pontapés, João Browns, Avelina de Araujo Santos, Maria Florinda Machado, Marcellina Rosa de Aguiar e Alzira Maria da Conceição. Na occasião em que eram presos, oppoz-se tenazmente a essa prisão o musico do 23o. batalhão de infantaria, que, com os outros, foi detido, ficando á disposição do ajudante-general. A prisão do musico foi effectuada por um sargento do 25o. batalhão.
Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 01 de Abril de 1889, pág. 01, col. 04