segunda-feira, 10 de maio de 2021

Como posso saber se tenho ascendência judaica?



 Resposta simples e clara: pesquisa genealógica. E se preferir, pesquisa genética. 

Primeiro fato: sobrenome que se enquadra como sobrenome judaico não significa absolutamente nada. Simplesmente porque, embora alguns sobrenomes são mais comuns em linhagens judias, há sempre linhagens cristãs com o mesmo sobrenome que não registram um judeu sequer nas últimas dez gerações anteriores. Além disso, há sobrenomes usados tanto por famílias judias quanto por famílias cristãs ou de outras confissões de forma indistinta. Mesmo aqueles sobrenomes com muito mais probabilidade de serem judeus (e até culturalmente identificados como judeus) não são absolutamente exclusivos judeus. Exemplo: quando se fala o sobrenome Rosenberg, todos reconhecem que é um sobrenome judeu. E está certo! A maioria dos Rosenberg do mundo são judeus. Porém, há uma parte significativa que não tem relação nenhuma com ascendência judaica conhecida. São sobrenomes Rosenberg surgidos por uma questão toponímica (nome de lugar). Inclusive, há uma vertente histórica dos Rosenberg na Áustria e na Boêmia que é muito católica há séculos!

Segundo fato: a cultura fala mais que a ascendência na maioria absoluta dos casos. Vamos entender. Já parou para pensar que cada um de nós tem pai e mãe, mas tem quatro avós, oito bisavós, dezesseis trisavós, trinta e dois tataravós e sessenta e quatro pentavós. Vamos imaginar então que, alguém sendo de uma família de tradição católica, luterana, presbiteriana, espírita, muçulmana, etc., encontra em sua árvore genealógica um tataravô que era judeu. Que legal! Ele legou a religião ou a cultura dele aos seus descendentes? E os outros trinta e um tataravós que você teve eram o quê? Qual religião? Qual procedência étnica? Qual a sua religião hoje? Em que cultura você está inserido e se reconhece hoje? Na verdade, há muita possibilidade de encontrarmos um ou outro ascendente judeu numa árvore genealógica mais profunda. Porém, isso não te credencia a pedir a cidadania junto ao Estado de Israel. Se a sua família é fervorosamente luterana ou católica há quatro ou cinco gerações, e você tem 1/32 avos de judeu, perdão pela sinceridade: mas você não é judeu!

Terceiro fato: sobrenome etimologicamente hebraico não é credencial de judaísmo, nem religioso, nem étnico. Acaso o Velho Testamento cristão não corresponde aos Escritos Sagrados do judaísmo? E isso não inspira o nome a ser dado a homens e mulheres ao longo de inúmeras gerações? Na Europa após a Reforma Protestante, em quase todas as comunidades luteranas, huguenotes, presbiterianos, pietistas, etc., você vai encontrar muitos nomes inspirados na Bíblia. Até nas católicas também! Então, tem muito Abraão, Moisés, Elias, Samuel, David ao longo da história que deram origem a sobrenomes patronímicos como Abrahamsohn, Mosesohn, Elijah, Samuelssohn, Davis, etc. que não tinham nada de judeus. Talvez até alguns odiassem judeus. Aliás, tem o caso também de sobrenomes falsos cognatos, como é o caso do sobrenome Aron - que seria a princípio uma contração do sobrenome Aaron (Aarão). Em algumas partes da Holanda e de regiões da Alemanha, Aron é uma contração de Arnon - esta forma, por sua vez, uma forma dialetal românica do nome germânico Arnold. Então, há sobrenomes Aron que são originários de Aaron, mas há famílias com esse mesmo sobrenome, cuja origem do mesmo é de Arnon/Arnold.

Concluindo, a pesquisa genealógica é a melhor forma de saber suas próprias origens, tanto étnicas, quanto culturais e religiosas. É o caminho seguro para determinar uma ascendência qualquer, até mesmo se o sujeito pretende uma ascendência judaica. E também, encontrar um judeu, um chinês, um escandinavo, etc., perdido na própria árvore genealógica, não significa muita coisa. Principalmente, se essa referência ancestral se perdeu numa linhagem familiar que, na maior parte das gerações, tanto étnica quanto culturalmente se identificava com outro povo ou tradição. O sujeito pode ser descendente de alemães e reportando a três ou quatro gerações atrás ele encontra fervorosos luteranos, ou então, descendentes de italianos, que são católicos há mais de 200 anos e que sempre participaram da procissão em honra à Nossa Senhora do Caravaggio. Mesmo que ele tenha um sobrenome que se enquadre dentro daqueles sobrenomes tradicionalmente atribuídos a famílias judias, o recomendável é prudência e pesquisa séria. E isso que entendo e posso contribuir. Não se precipite. No fim das contas, se você é morador de qualquer uma das Américas, assim como eu, seja bem vindo: somos todos mestiços!

Dica: pesquise na Wikipedia dois verbetes interessantes sobre pessoas que tem o mesmo sobrenome: "Alfred Rosenberg", primeiro; depois, pesquise "Julius e Ethel Rosenberg".

domingo, 9 de maio de 2021

O Vulcão do Jarau



 "O Jarau

Um vulcão na fronteira - Os naturalistas - Cumpre-se a prophecia - Quarahy ameaçado.

O nosso colega El Deber, de S. Eugenio, deu ha dias a seguinte noticia, que foi transcripta por muitos jornaes:

'Um visinho de S. João Baptista (Quarahy) nos communica que tendo chegado a esse localidade dois sabios naturalistas, geologos, mineralogicos, encontraram umas quantas pedras pomes ao pé de um vulcão extincto, nos cerros do Jarau, e com grande admiração observaram que desse extincto vulcão saía fumaça impregnada dum forte cheiro de enxofre.

Dizem os sabio alludidos que si chega a fazer erupção esse vulcão, a ardente lava que elle arrojará invadirá o rio Quarahy, transbordando as ambas margens e convertendo-o em um mar de fogo e petroleo.'

A noticia que ahi fica, um canard arromba impingido aos incautos leitores do collega visinho, foi transmittida telegraphicamente a bem informada, espalhafatosa e exagerada imprensa de Montevidéu para alguns jornaes do Rio e para o não menos nem informado Correio do Povo, de Porto Alegre, que, por sua vez, addicionou, á monumental rodella do vulcão do Jarau, algumas notas originaes e fidedignas.

A Fronteira, que foi a causante desse gemer de prelos em editar uma innocente troça, assistia impassivel esse avolumar de factos em torno de um argueiro que, finalmente, pelos collegas foi elevado á cathegoria de cavalleiro.

A origem dessa noticia, podemos asseverar, foi a seguinte piada que, na secção Mosquiteiro, o nosso companheiro Etesbão, o furão, publicou na edição d'A Fronteira de 31 de maio ultimo:

'Devido á erupção de diversos vulcões está o nosso povo muito impressionado com a nossa visinhança com o Jarau, que de um momento para outro é capaz de tambem nos fazer a finesa de dirigir-nos saudações de...lava.

(...).'

Varias pessoas, ou porque tomassem o caso a serio, ou no intuito de fazer o espirito, transmittiram-no, correcta e consideravelmente augmentada, e como quem conta um conto... a alguem da visinha villa de S. Eugenio, chegando aos ouvidos do nosso collega El Deber, que por sua vez editou-a com alguns ponto mais...

De ponto em ponto, como o ovo do marido, da fabula, a noticia foi correndo mundo e adquirindo fóros de verdade. O que era um calembourg e mero gracejo foi transformando se em trovoadas terríveis, crateras expellindo fumo, pedras pomes, chegada de sabios, mineralogicos, naturalistas, e finalmente o rio Quarahy convertido em um oceano de fogo, transbordando pelas margens e inundando tudo, tudo...

Nós, pobresitos! que foramos os causantes de tanta cousa, assistindo de longe ao desencadear das lavas... dos noticiaristas, já meio assustados pensavamos ser a cousa séria quando accudiu-nos á memoria aquella historia do barulho no beco, em que o proprio auctor da pilheria, vende tão grande ajuntamento ali, ia sendo victima de sua troça, e chegámos mesmo a pensar que o Jarau, apesar das boas tres e meia leguas que o dista de nós, já nos circundava de lavas, reduzindo-nos á triste condição de torresmos!

Mas, como tudo tem a sua causa, começámos a cogitar: os vendedores d'agua, cantando do alto de suas pipas, os verduleiros annunciando seus generos, os trabalhadores procurando o sustento no seio da grande mãe terra; tudo isso veio nos fazer duvidar de que verdadeiramente estivessemos torrados, e, para mais nos certificarmos, corremos á casa do amigo Olympio Giudice, cuja fazenda fica ao sopé do carrancudo morro, e ao vermol-o, surpresos, com vida interpelamol-o acerca da terrivel catastrophe, ao que gentil e risonhamente nos respondeu ser inveridica a nova, porquanto os bois mais gordos que pretende vender nesta safra sustentam-se do pasto da cratera do Jarau, e que tal fumaça notada pelo nosso collega El Deber devia ser do enorme cigarro de palha de seu capataz, que tinha o singular habito de parar-se no alto do Jarau, soltando fumaradas para o céo, e que o cheiro de enxofre devia ser, forçosamente, de algum terneiro ao qual o mesmo capataz lhe houvesse curado a bicheira.

Eis ahi, leitores, a explicação do facto de como o vulcão imaginado pelos collegas em plena ebullição ainda não nos queimou a todos.

Collegas do Prata o mesmo da capital do Estado pretenderam-nos dar um furo de pyramidal reportagem, ficando no emtanto furados pela innocente troça.

Queira Deus que o Jarau, para fazer a delícia dos noticiaristas indigenas, não nos fure o bolo, pregando-nos alguma peça quando menos o esperarmos.

Em tempo.

No principio do plano inclinado do Jarau, ha um grande laranjal cujos fructos amarellos, como esterlinas, capazes de tentar ao proprio Santo Antonio caem de maduros, e ahi, como é natural vaão procurar seu sustento grande vara de porcos, que ao disputar a prosa roncam desbragadamente.

Os trovões ouvidos pelos sabios geologos, mineralogos, botanicos, naturalistas, presumimos seja o rouco dos supracitados porcos.

Fica deste modo scientificamente provada a não existencia do vulcão do Jarau.

(Da Fronteira, de Quarahy)."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 15 de Agosto de 1902, pág. 02, col. 01

sábado, 8 de maio de 2021

Leopoldo Miguez



 "Leopoldo Miguez

O nosso telegramma de hontem nos annunciou a morte, na capital federal, do laureado patricio Leopoldo Miguez, um primoroso cultor da litteratura musical.

Os seus talentos e aptidões lhe tinham dado um lugar honroso na galeria dos nossos homens notaveis e o seu nome era já respeitado como o de um mestre.

No concurso estabelecido para a leitura de um hymno nacional, logo que se fundou a Republica, foi proferida e premiada a musica de Leopoldo Miguez.

Mais tarde, foi elevado ao logar de director do conservatorio do Rio de Janeiro logar em que prestou relevantes serviços á arte e aos frequentadores daquelle instituto.

Leopoldo Miguez é o auctor da opera Saldunes, representada numa das ultimas estações lyricas do Rio pela companhia Sansone e que lhe grangeou novos triumphos.

A grande arte, que no Brazil tem tão poucos apostolos, verdadeiramente dignos desse nome, perde com Leopoldo Miguez mais um elemento poderoso para a sua grandesa."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 08 de Julho de 1902, pág. 02, col. 05

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Álvaro Chaves

 "DR. ALVARO CHAVES



Falleceu ante-hontem, em Pelotas, cidade de seu nascimento, o distincto rio-grandense Dr. Alvaro Chaves.

Nasceu aos 13 de setembro de 1862 e 1877, concluidos os seus estudos de humanidades, matriculou-se na faculdade de direito de S. Paulo, onde distinguiu-se por seu brilhante talento, ao lado de uma pleiade de moços igualmente talentosos, como Assis Brasil, Julio de Castilhos, Ernesto Alves e outros.

Durante o curso foi um dos mais ardentes propugnadores da causa republicana, idéa a que prestou ate os ultimos mezes de sua existencia o concurso de seu talento, da sua illustração e da sua atividade. Em S. Paulo fundou o Club Republicano 20 de Setembro de que foi orador; aqui a sua palavra fez-se ouvir em conferencias publicas, em clubs politicos, sempre em favor da causa republicana. Na imprensa não foi menor a sua actividade. Fundou a Republica, orgao do Club 20 de Setembro, collaborou em varias revistas e jornaes.

Foi um dos organisadores do partido republicano do Rio Grande do Sul e seus amigos e correligionarios, reconhecendo os bons serviços que havia prestado, fizeram-no candidato á assembléa provincial em mais de uma legislatura e ultimamente á assembléa geral pela provincia do Paraná.

Ultimamente, viajando a Europa, foi sorprendido com a noticia da proclamação da republica no Brasil. Em Madrid, a convite do Cassino Federal, fez uma notavel conferencia acerca do estabelecimento da republica, conferencia que mereceu grandes applausos.

Regressando, partiu para o Rio Grande do Sul, onde falleceu."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 25 de Fevereiro de 1890, pág. 01, col. 04

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pelotas em 1891

 



Indubitavelmente Pelotas é hoje a mais elegante cidade da republica brazileira, e uma das mais florescentes devido ao extraordinário augmento do seu commercio, industrias e artes.

Edificada próxima ao rio S. Gonçalo, offerece ao viajante uma bellissima perspectiva, e o seu clima é tão ameno que causa admiração e delicias ao ex- trangeiro aqui domiciliado.

A sua construcção consta actualinente de 4.175 edifícios, para uma população de 25.000 habitantes, o que dá uma media de 6 habitantes para cada edifício.

Tem 42 magnificas e bem alinhadas ruas, nas quaes rodam diariamente 600 vehiculos, sendo que duzentos destes são carros de praça, cuja occupação ordinaria é aconducção de passageiros e passeantes, da cidade ao porto e estação da estrada de ferro e vice-versa, os quaes preferem o macio estofo de velludo escarlate ao insupportavel solavanco do bonde, que, imparcialmente falando, é a peior cousa que existe em Pelotas.

Para fazer-se uma idéa justa do augmento que tem tido esta cidade, basta dizer-se que, no período dê 10 annos, construiram-se 727 casas, ou 72 pqr anno, mais ou menos, o que já é bastante para uma cidade de província.

Os elegantes edifícios da Biblictheca Publica, cujas estantes se acham enriquecidas com 12.000 volumes de excellentes obras ; da Camara Municipal e do Lyceu de Artes e Officios, constituem o monumento do orgulho pelotense.

Alem disso. Pelotas possue aprazíveis arrabaldes, pittorescos arredores e magnificas chacaras, onde o rico e o remediado vão, em pleno estio, gosar as blandícias e doçuras que a natureza distribue áquelles que, já do berço, se vêm insuflados pelas auras da sorte.                                                            .

No periodo de 1880 a 1889, o registro do matadouro assignalou o numero de 118.661 rezes abatidas para consumo da população, o que dá uma media de 998 rezes mensaes.

A instrucção. se não está extraordinariamente adeantada, tem tido, nestes últimos tempos, um desenvolvimento digno de nota, pois, alem de 5 excellentes collegios de estudo secundário, possue Pelotas 15 aulas publicas, de instrucçào primária, assim divididas: 6 do sexo masculino, 6 do sexo feminino e 3mixtas, e aue distribuem ensino a 1.130 crianças.

Pelotas conta adtualmente os seguintes estabelecimentos commerciaes, artísticos e induetrines, que contribuem poderosamente para o seu notável en­grandecimento :

Fabricas: de massas 3, de serrar madeira 1, de beneficiar café d, de chapéos de sol 1. de cerveja 6, de cal 1, de colla 1, de cartonagem 1, de fumo 4, de farinhas 1, de gelo 1. de gaiolas e ratoeiras 1, de louça de barro 3, de mo­veis 17, de malas e bahús 2. de pão (padarias) 16, de tijollos 5, de carros di­versos 6. de sepas 1. de sabão e vellas 7, de sabonetes e perfumarias 1, de objectos de vime 2. de vinagre 2, de vassouras 3. de chapéos 7, e de licores 4. ([1])

Oficinas: de alfaiate 21, de barbeiro 27, de carpinteiro 13, de cigarreiro 12, de colchoeiro 4. de corrieiro 20, de carpinteirò naval 2, de funileiro 14, de fogueteiro 4, de lithographia 2, de mármores 2, de ourives 13, de relojoeiro 11, de sapateiro 44, de tamanqueiro 20, de typographia 7, de tanoeiro 10, de tintureiro 3.

Açougues 60, leiloeiros 3. armarinhos 6. casas de armas 3, armadores- eirgueiros 3, botequins (cafés e restaurantes) 34, bilhares 20, agencias de bilhetes deloteria 12, barracas de couro 10, deposito de calçado extrangeiro 1, casas de cominissões e consignações 20, cambistas 2, confeitarias 4. depositos de couros 4, cortumes 20, lojas de fazendas 43, ferradores 7, casas importadoras de fazendas 15, lojas de ferragens 9, depositos de fructas 2, hotéis 8, casas de joias 4, de­positos de louça de barro 4, livrarias 2, lojas de louça e objectos de bazar 5, casas de modasõ, deposito de moveis 4, armazéns de molhados (por atacado) 12 depositos de madeiras 4, pharmacias e drogarias 8, photographias 2, curraesde vaccas leiteiras 11, vidraceiros 2, tavernas242; e mais 17 estabelecimentos (xar- queadas) destinados especialmente á preparação e conservação de carnes, que rivalisam com os do Rio da Prata e que são a mais poderosa fonte de receita da cidade de Pelotas.

A cidade é toda illuminada a gaz corrente, e uma bem organisada companhia hydraulica tomou a si o encargo do fornecimento de agua á popu­lação, por preço resumido.

Os habitantes de Pelotas vivem em constante communicação com os do Rio Grande, por meio do telephone, que liga as duas cidades, numa distancia de 53,3 Itilometros mais ou menos.

Se não nos extendemos mais em detalhes, é porque o espaço que nos está reservado neste livro não nol-o permitte. Entretanto, ahi fica rapidamente esboçada a cidade de Pelotas, e esse esboço não tem senão um fim util: tornar bem conhecida, onde quer que chegue o Almanak, a bella e futurosa cidade que o vulgo denominou — Princeza do Sul.

Júlio Soeiro (Pelotas)



[1] Quasi todas estas fabricas são movidas a vapor.


Fonte: ALMANAK DO RIO GRANDE DO SUL (Porto Alegre/RS), edição do ano de 1892, pág. 89-90.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Imigração Judaica no Rio Grande do Sul



 No século XVI, chegaram ao Brasil, vindos de Portugal, os primeiros judeus, que, na maioria, tinham vivido antes na Espanha. A 31 de Março de 1492, em Granada, os reis Fernando e Isabel assinaram o decreto que ordenava a saída da Espanha de todos os judeus que no prazo de 4 meses não se convertessem ao catolicismo. Dos milhares de judeus que viviam na Espanha, bom número foi para Marrocos e para a Turquia. Mas de a metade, porém, atravessou a fronteira e entrou em Portugal, a corrida por Dom João II mas, em dezembro de 1496, o novo Rei de Portugal, Dom Manuel, decretou a expulsão de todos os judeus de Portugal que não se convertessem ao catolicismo dentro de 10 meses. Tinham que sair pelo Porto de Lisboa. o cerca de 5000 mais ricos embarcaram para Marrocos e países da África a maior parte, porém, se converteu ao catolicismo, passando a ser os cristãos novos. E os que, as ocultas, se mantiveram ligados a crença judaica, passaram a se chamar marranos no final de 1497 Não havia mais nenhum judeu declarado em Portugal, todos se tinham convertido em cristãos-novos. 

O Brasil, colônia portuguesa, sujeito a inquisição, foi o país do mundo que recebeu o maior número de marranos, mas os que praticassem qualquer ação atestando se judeus eram enviados a Lisboa para julgamento, enquanto os judeus que iam para Turquia, Marrocos, Holanda e Inglaterra tinham liberdade de viverem como judeus. 


No descobrimento do Brasil, já com três anos de Governo, Dom Manuel converterá ao catolicismo todos os judeus residentes em Portugal assim, os 250 mil judeus vindos da Espanha e o cerca de 150.000 que desde remotos tempos viviam em Portugal foram integrados à comunidade cristã Portugal tinha, então, 1200000 habitantes, dos quais 400.000 eram de origem judaica e a maioria praticava, azul cultas, sua religião de cada três portugueses, um era Cristão novo. eram cristãos novos, por exemplo, Gaspar da Gama, da expedição de Cabral; Fernando de Noronha que em 1503, recebia de Dom Manuel autorização para explorar a costa brasileira, e descobriu a ilha batizada com seu nome. João Ramalho também era Cristão novo.  o governador geral, Duarte Coelho, trouxe da Ilha da Madeira idade São Tomé numerosos capatazes e Operários de Deus, que, além de eficientes, libertavam da Furia religiosa da Península Ibérica Gilberto Freyre refere uma especializada ação de mecânico judeus nos engenhos de Açúcar.


 Em 1544 no quarto auto-de-fé realizado pela inquisição em Lisboa, temos o primeiro degredado para o Brasil por crime de judaísmo, o que depois se tornaria  comum. Olinda, Recife e Salvador foram especiais para deimos de judeus degredados o degredo para o Brasil era caminho para liberdade de ser judeu o próprio Dom sardinha dizia " enterra tão vasta e despovoada convém fechar os olhos ", maneira de pensar também adotada pelos padres jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega "vieram traço diz Pedro Calmon, em sua história do Brasil traço na qualidade de cristãos-novos, mas tão se implantou entre nós. transferiu para o reino os que lá deviam ser julgados. Ao contrário, sem nunca terem importado A Perseguição, o Brasil exportou a coexistência, com a missão política que levou ao Portugal, em 1641, o Padre António Vieira, comissionado pelos Mercadores e homens bons para pedir a Dom João quarto justiça e segurança para os cristãos novos... "


 A propósito dos marranos, conclui Calmon: "onde estão as dezenas de milhares de cristãos novos que desde a expedição de Martim Afonso E desde o povoamento maciço da terra do Ouro deram com os ossos nestas plagas e com eles a adubação ponto e, os que vieram com Tomé de Souza; os que vieram por todo século 17; os que vieram durante o século 18, Cujo sobrenomes lusos, peixeira, do primeiro poeta nosso, Silva, de Antonio Jose, o teatro logo, se confundem com os dos cristãos velhos deste país? Hoje é impossível identificar eles a descendência. "


 Em 1752 se instalaram nas margens do Guaíba, junto a capital do Rio Grande do Sul, 60 casais açorianos, entre os quais havia bom número de judeus.  pela lei assinada em 25 de maio de 1773, pelo Marquês de Pombal, foram revogadas as leis discriminatórias aos cristãos novos não mais sujeitos a Perseguição, também, em consequência dos casamentos mistos, os marranos do Brasil foram se filiando ao catolicismo religião oficial. antes de meados do século 18, milhares de judeus sefaradim, judeus orientais emigrados para Espanha, depois para Portugal, para Marrocos e, enfim, entrados na Amazônia , estabelecendo-se principalmente em Belém e Manaus e localidades menores, atuando maciçamente no comércio, utilização de vias fluviais, transformando barcos em lojas flutuantes.

 em Belém e Manaus estão as comunidades judaicas mais antigas do Brasil, Como se comprova pela sepulturas judeus em Belém de 1830 e 1840 a partir de 1870, chegam ao Brasil, especialmente em São Paulo, Porto Alegre e Rio Grande judeus alsacianos, franceses e ingleses.


Mas o início da imigração Judaica organizada no Rio Grande do Sul inicia em 1904 com a vinda do primeiro grupo para phillipson, através da Jewish colonization Association (ICA), onde 1905 funcionava a primeira sinagoga do estado, e Em 1906, a primeira escola judaica no Rio Grande do Sul ponto. e continuaram chegando Imigrantes para phillipson, donde foram partindo para Santa Maria, Cruz Alta e Porto Alegre na capital logo foram se organizando, tanto assim que, em 1909, já formaram o primeiro miniam, mínimo de dez homens preparados, em condições de iniciar as orações, nos dias do rosh hashaná ( ano novo) e do  yom kippur ( dia do Perdão) ponto fizeram parte das orações, que tiveram lugar Na casa de Salomão Levy, além dele, as seguintes pessoas: Leon Back, Jacob Mostowsky, Maurício Rosenbaum, Natan Cohen, Harry Fineberg,  Martin Horris,  Bernardo lewgoy,Isaak Holman, Miguel Galanternick, Jacob Pagorelsky, Volf Melzer, Abrahan Silverstone,  Francisco Rosemberg e Marcos Saffer, Todos da comunidade israelita de Porto Alegre em 1910 era fundada a união Israelita Porto Alegrense, entidade Judaica mais antiga do município.


Em 1911 chega o primeiro grupo de imigrantes para quatro irmãos ( fazenda com 93850 hectares, que fazia parte de Passo Fundo e hoje, de Erechim e Getúlio Vargas, transformada em colônias), e em 1913, o segundo grupo bom dois outros grupos vieram em 1926 e 1927, fugindo da opressão dos países Onde viviam.


A Comunidade Judaica Gaúcha está preparando Com intensa programação o primeiro Centenário da imigração Judaica no Rio Grande do Sul, a 18 de outubro, lembrando a mesma data de 1904, quando 38 famílias, após longa viagem, desembarcavam de um vagaroso trem maria fumaça na pequenina estação da colônia phillipson, próxima de Santa Maria Diferentemente dos demais Imigrantes não vinham propriamente em busca de fazer América do desenvolvimento econômico, mas em busca de segurança, fugindo da discriminação, do preconceito, na miséria, das humilhações e do antissemitismo. Como todos os imigrantes, enfrentaram dificuldades iniciais com o desconhecimento da língua, a falta de experiência no cultivo da terra, atividade que eles era proibida em suas pátrias exatamente por serem judeus. mas em phillipson, onde Imigrantes de diferentes etnias tentavam viver o mesmo sonho a ser alcançado pela solidariedade e pelo trabalho, logo construíram belas amizades com liberdade de se organizarem e cultivar em também sua identidade familiar, histórica, social e religiosa.


De países diferentes, os judeus foram se reencontrando em famílias e comunidades, respeitando e sendo respeitados pelas demais etnias, que, juntando diferentes histórias e experiências, construíram esta maravilhosa realidade brasileira O que é a fisionomia mais completa da humanidade intermos de raças, etnias e culturas para uma sempre mais rica e sólida unidade nacional.


FONTE: CORREIO RIOGRANDENSE (Caxias do Sul/RS), 13 de Outubro de 2004, pág. 04


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