terça-feira, 21 de março de 2017

Rafael Pinto Bandeira e suas sesmarias na região


Trecho extraído de: GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, charqueadas e olarias: um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas/RS: Ed. Universitária/UFPel, 2001, p. 55-57

"Do arroio Pavão, afluente do rio Piratini, até a laguna dos Patos, existiram seis estâncias interceptadas por cinco arroios, que chegavam à margem norte do sangradouro da Mirim. Somando-se a fazenda da Feitoria, localizada às margens da laguna, entre os arroios Grande e Correntes, teríamos as sete fazendas que vieram a formar o município de Pelotas, hoje subdividido nos municípios de Capão do Leão e Morro Redondo. No quadrilátero definido pelo arroio Pavão, ou do Contrabandista, e a laguna dos Patos; o arroio Grande e o sangradouro da Mirim, ou canal da Torotama, atualmente chamado de canal São Gonçalo, funcionaram mais de 40 charqueadas. Desses estabelecimentos, aproximadamente 30 localizaram-se na Sesmaria do Monte Bonito, destinando-se exclusivamente à salga de carnes e tendo, como alternativa, a produção de elementos cerâmicos. As charqueadas restantes, distribuídas pelas outras sesmarias, dedicavam-se também à criação.

Todas essas estâncias estavam afetas ao distrito do Serro Pelado, onde o brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, como Comandante da Fronteira do Rio Grande, dava informações nos processos de concessão de terras. Rafael Pinto Bandeira foi o exemplo máximo do estancieiro-militar. Sua biografia confunde-se com a história do Rio Grande. Ele e seu bando contrabandearam gado, apropriaram-se de terras, trucidaram, aprisionaram e expulsaram nativos e castelhanos, amedrontaram seus companheiros, e, para a Coroa portuguesa, conquistaram e reconquistaram território.

O comandante da fronteira do Rio Grande fazia com que as autoridades instituídas pelo poder colonial ficassem impotentes diante dos seus atos e dependentes de suas ações. Por isso, o vice-rei, marquês de Lavradio, era favorável às arreadas que enfraqueciam os espanhóis, porque acreditava que não havia outro remédio senão permitir a Pinto Bandeira se fartar, ou seja, até que o brigadeiro se julgasse satisfeito. A maneira de agir de Pinto Bandeira deixava a diplomacia portuguesa embaraçada, como no caso da denúncia do comandante espanhol Juan Verniz, sobre o ataque que Pinto Bandeira fez à Guarda de São Martinho, onde, além de matar soldados espanhóis e fazer prisioneiros, pegou numerosa cavalhada, gado vacum e alguns índios; na estância de São Lourenço, chegou a desnudar as índias e apropriar-se de seus poucos bens.

Pinto Bandeira aproveitou-se do conhecimento que tinha para obter as melhores terras. Nos processos de concessões de sesmarias, ele próprio, como Comandante da Fronteira do Rio Grande, fornecia informações sobre a situação dos solicitantes. Na burocracia estatal, com vistas à obtenção de certidões de propriedade de terras, espalhava o medo. Para manter as aparências, conforme observou o vice-rei Luís de Vasconcelos, Pinto Bandeira, auxiliado por ‘contrabandistas da sua parcialidade’, perseguia os contrabandistas vinculados aos outros estancieiros.

O brigadeiro Rafael Pinto Bandeira nasceu em Rio Grande, em 16 de dezembro de 1740, e morreu na mesma cidade, em 9 de abril de 1795. Era filho do coronel de dragões Francisco Pinto Bandeira, nascido em Laguna, Santa Catarina, e de Clara Maria de Oliveira, da Colônia do Sacramento. Fez dois casamentos. No ano de 1773, em Rio Pardo, casou com Maria Madalena Pereira, da missão de São Lourenço, e, em 1788, em Rio Grande, contraiu segundas núpcias com Josefa Eulália de Azevedo. Com Bárbara Vitória, teve uma filha, Bibiana Maria Bandeira e, com a segunda esposa, ganhou outra filha, Rafaela Pinto Bandeira. Esta casou com o coronel baiano Vicente Ferrer da Silva Freire. De Rafaela, ganhou dois netos: Diogo da Silva Freire, assassinado juntamente com seu pai, em sua fazenda no rio dos Sinos, em 1836, e Maria Josefa da Silva Freire, casada com Israel Rodrigues da Silva, filho do comendador Boaventura Rodrigues Barcellos e de Cecília Rodrigues Barcellos. A família Rodrigues Barcellos foi a que teve maior número de charqueadas, todas localizadas na margem direita do Arroio Pelotas, na sesmaria de Monte Bonito."








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