quinta-feira, 5 de abril de 2018

A comida e a América


"Não há nada mais brasileiro que uma caipirinha, mais francês que o filé com fritas, mais italiano que o macarrão al sugo, certo? Nem tanto. No ano em que se completam cinco séculos da chegada de Cristóvão Colombo à América, e tanto se polemiza sobre as consequências morais e políticas desse acontecimento, também se poderia lembrar que o panorama da gastronomia do mundo mudou radicalmente com a união promovida entre os continentes. Muito do que hoje parecem pratos ou ingredientes ligados desde sempre à história de alguns povos não é mais que um conjunto de aquisições relativamente recentes, produto da nova geografia criada com as grandes navegações. Se do intercâmbio daí nascido não tivessem participado as guloseimas, então típica de cada um dos lados, hoje os italianos teriam que passar com anêmicas pizzas sem uma gota de molho de tomate; os mineiros nem sequer sonhariam em se lambuzar com suas bistequinhas de porco; franceses, belgas e suíços teriam que se conformar com outros acompanhamentos para seus pratos no lugar da batata; os argentinos seriam até hoje vegetarianos, destituídos de suas carnes e churrascos; os franceses jamais saberiam o sabor de um vigoroso cassoulet de feijão branco; e um enorme vazio teria ocupado o lugar do vistoso cacho de bananas no cesto de frutas que ornava a cabeça de Carmen Miranda, simbolizando a natureza tropical do Brasil.

Isto porque esses ingredientes, ao contrário de serem nativos dos países que os adotaram com tanto apetite, na verdade vieram de além-mar para se constituir em mais uma marca da era aberta pelo genovês Colombo. Depois do século XVI ficou mais interessante comer, a partir da introdução dos novos produtos - mesmo que alguns deles tenham demorado às vezes centenas de anos para serem assimilados. A batata, por exemplo, migrou da América para a Europa no século XVI, depois que foi encontrada na Colômbia pelo conquistador Juan de Castellanos (ao vê-la entre outros cereais numa vila deserta, ele inicialmente a confundiu com as valiosas trufas). Sua popularização no Velho Continente, no entanto, foi muito lenta. Enquanto para alguns nobres o tubérculo poderia ter benfazejas propriedades afrodisíacas, para a massa de camponeses ele parecia indigesto e venenoso: o temor chegava a ponto de famintas legiões de prussianos o terem recusado quando Frederico, o Grande, enviou, em 1774, um carregamento de batatas para aliviar a fome em Kolberg. Na Itália, a batata era usada como ração para os porcos, o que aumentava o preconceito em tê-la como alimentação humana, relata Jean-Louis Flandrin (Chronicle de Platine - Pour une Gastronomie Historique); e na França, onde hoje é um prato nacional, as primeiras receitas só apareceram em livro em 1755, na obra Les Soupers de la Cour.

Apesar de a aceitação ter sido lenta e gradual, a batata terminou vingando. Ainda no século XVIII, Catarina (também a Grande) propagou seu cultivo na Rússia, ciente de que a produtividade da cultura e sua resistência às guerras e ao frio eram uma forte arma contra a fome. E contra a sede também: da casca da batata os russos prepararam um alegre destilado cujo consumo ganharia o mundo quase dois séculos depois - a vodca. Na Irlanda, a implantação e o intenso consumo da batata permitiram a triplicação da população em 100 anos.

A batata é um exemplo eloquente das mudanças culturais produzidas com a migração pós-colombiana dos alimentos. Mas até mesmo no microcosmo mais simples da mesa familiar as mudanças foram consideráveis, principalmente em relação ao enriquecimento de cardápios. Até 1492, a mesa europeia era, nas camadas populares, bem limitada - com variações em torno do pão de centeio ou trigo, sopa de repolho e queijo. Nas famílias muito abastadas a diversidade de pratos era bem maior, mas especialmente no que dizia respeito às carnes, vindas de raças variadas. Um importante traço distintivo entre as classes sociais era o uso das especiarias trazidas do Oriente, muito caras. Elas serviam para introduzir maior quantidade de sabores, e ainda para alguns fins práticos, como disfarçar os sabores e os odores de alimentos em vias de putrefação.

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Já pelas Américas, o consumo de carne (à exceção de peixes) era bastante limitado. No Peru, por exemplo, uma das raras ofertas era a de porquinhos-da-índia (também chamados de cobaias). No México, o milho era ingrediente para o mingau matinal ou para as tortillas vespertinas, acompanhadas de mel, pimenta, feijão ou molho de tomate - às vezes temperados por iguarias um tanto exóticas, como larvas ou ovos de insetos. Ali a carne restringia-se à de peru e à de cachorros, estes últimos substituídos com a chegada do gado bovino europeu. No Brasil, os peixes de mar ou rio faziam parte do cardápio, junto à mandioca, o cará, o milho, alguma caça e as frutas silvestres.

Tanto americanos quanto europeus veriam esta sua rotina alimentar profundamente alterada. A Europa recebeu, além da batata, um outro produto que já chegou a ser considerado praga nas plantações de milho dos astecas: o tomate. Este se aclimatou melhor nas regiões mais quentes do Mediterrâneo, tornando-se com o tempo ingrediente fundamental para a cozinha do sul da Itália, compondo generosos e ricos molhos. No México o tomate já era utilizado amplamente, seja ainda verde, cortado em finas lâminas, seja bem maduro, combinado com pimenta para guarnecer pratos de feijão cozido. Das dezenas de variedades em que era conhecido na América, a que provavelmente chegou à Europa tinha uma cara diferente da que melhor conhecemos hoje: o nome italiano pomodoro (maçã dourada) sugere que ele teria a pele amarela. 


Também o tomate enfrentou certo estranhamento inicial, principalmente fora da região mediterrânea. Foi somente no século XX que a Grã-Bretanha, como outros países da Europa do norte e do leste, o adotou em sua alimentação: 'Até então ele era descrito como um alimento extremamente 'frio', causador de gota e fraco de nutrientes e substância', conta Reay Tannahill (Food in History).

A chegada à Europa do milho - elemento fundamental na formação das civilizações das Américas Central e do Sul - teve também um forte peso cultural. Como a batata, o milho permitia um maior rendimento do solo para a alimentação, possibilitando com isso o crescimento populacional. Colombo o experimentou pela primeira vez em Cuba, achando-o 'mais saboroso cozido, assado ou moído com farinha'. De lá, levou-o para a Espanha, de onde seria espalhado pelo Mediterrâneo, tornando-se familiar na região em menos de um século. Além de pães e broas, o milho possibilitou a criação de pratos que terminaram totalmente assimilados a culturas locais - caso da polenta italiana.


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O continente europeu, primeiro depositário das novidades trazidas do novo mundo, também alavancou a dispersão desses novos ingredientes por outros continentes. Caso exemplar é o das pimentas de cheiro, do tipo chili e malagueta, bem diferentes das variedades de pimentas em grão que os europeus descobriram no Oriente.

Essas pimentas, do gênero Capsicum, também estão entre as culturas que floresceram muito bem nos climas do sul da Europa, incorporando-se a pratos com molho italiano all'arrabbiata. Mas não pararam por aí. Ainda na Europa, foram adotadas pelos húngaros, que as batizaram com o termo com que designam a pimenta: páprica. Seguindo o caminho do Oriente, elas foram mais longe, chegando à Índia e à China. O milho também chegaria à Ásia pela rota da Europa, sendo adotado pelos chineses.

Através dos portugueses, chegaram à África a batata-doce, a mandioca e também o milho. Este último logo foi implantado em grande escala, menos por possíveis sentimentos humanitários dos portugueses e mais para atender um inconfessável apetite colonialista: a alta produtividade da cultura permitia o crescimento populacional - e, com isso, a multiplicação da mão-de-obra escrava ambicionada por Portugal. A adesão ao milho como alimento quase exclusivo em regiões da África foi tamanha que mais tarde provocaria nas populações que o consumiam graves problemas de deficiência de vitaminas (o que na Europa não ocorria por ser ele combinado com peixes, tomates ou pimenta).

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O chocolate vindo das Américas só veio a ser consumido com maior regularidade, na França e nos países vizinhos, nos meados do século XVII - e, mesmo assim, somente como bebida, à moda dos astecas. Foram precisos mais 100 anos para que sua forma hoje tão popular, em tabletes, começasse a ser conhecida, até se tornar um dos orgulhos da indústria alimentar francesa e de países como a Suíça e a Bélgica.

O trânsito de alimentos entre os continentes tinha duas mãos. A Europa também trouxe à América muitos ingredientes que se incorporaram no universo alimentar do novo continente. A presença dos colonizadores espanhóis e portugueses radicados nas novas terras exigia a presença de alimentos com os quais eles estavam habituados, e não disponíveis inicialmente nas colônias. O leite de vaca, por exemplo, não existia na América, dada a inexistência de gado bovino.

A carne de carneiro e a de cabra, com seu leite por extensão, vieram também como novidades do Velho Mundo. A prosaica galinha, hoje de consumo tão corriqueiro, também inexistia num continente onde reinava, como ave de consumo, o peru - levado aliás com sucesso para a Europa. Entre os cereais, o trigo é dos mais relevantes trazidos pelos colonizadores - o pão nosso de cada dia não seria feito como o conhecemos se não tivessem chegado da Europa as sementes de seu cereal de base.

Quanto a uma das mais típicas iguarias brasileiras - a feijoada, ela seria impossível sem a rota iniciada por Colombo, já que a carne de porco não existia na América. Se não bastasse a ausência de seu prato nacional, os brasileiros não poderiam sequer lamentar-se diante de uma boa dose de caipirinha, já que ela seria igualmente inviável: a cana-de-açúcar, cuja cultura hoje ocupa extensões incalculáveis de solo brasileiro, foi trazida pelos europeus, da mesma forma que o limão e as demais frutas cítricas.

Ao menos o feijão, outro símbolo de identidade nacional, já existia na América, tendo sido levado para a Europa depois de Colombo: mas o arroz consumido no Brasil, de tipo asiático, chegou somente com as navegações - as mesmas que trouxeram a banana, sem a qual não poderia vadiar sossegado o Macunaíma de Mário de Andrade.

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O curioso é verificar que essa troca alimentar entre os continentes não parou somente na ida. Muitos dos ingredientes fizeram uma escala nos países onde aportavam pela primeira vez, para daí ganhar o mundo - como as já citadas pimentas vermelhas. Em outros casos, após um estágio no exterior, eles voltaram com outra cara, vestindo nova roupagem e com sotaque estrangeiro, sendo porém muito bem-vindos em sua nova forma. A vodca, originalmente produzida a partir da batata levada da América, tem hoje nos Estados Unidos um dos mais fanáticos consumidores, da mesma forma que o rum, consumido em coquetéis por toda a Europa, veio a ser produzido na América Central com a cana trazida pelos europeus.

A América Portuguesa também foi a fonte de alimentos levados para a África, como o milho, a batata-doce e a mandioca. Estes foram incorporados a pratos, modos de preparo (como a fritura em dendê) e ingredientes (como o quiabo e o próprio dendê), trazidos de volta para o Brasil e levados à América do Norte nos navios negreiros.

O processo de troca alimentar deflagrado com as grandes navegações levou a uma certa universalização dos ingredientes, o que com o passar dos séculos só veio a se acentuar. Mas isso não significou, naquele momento, algum tipo de homogeneização nos hábitos alimentares do planeta. Pelo contrário, o que se verificou foi um enriquecimento na variedade de pratos e cardápios, já que cada povo assimilou os novos produtos criando fórmulas próprias e novas. A comida viajava o mundo e servia de instrumento de afirmação da nacionalidade. Algo que hoje, com as comidas padronizadas que chegam prontas e idênticas aos vários países, talvez não aconteça mais."

Fonte: MELO, Josimar. A rota culinária de Colombo. Playboy, São Paulo, Ed. Abril, outubro de 1992, p. 86-89; p.120.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Bicho-da-Seda em Pelotas


“A distincta senhora, italiana D. Angela Signorini foi quem iniciou, há anos, no município de Pelotas, a cultura do bambiyx, e, com uma perseverança admirável, vem, desde então, fiando e tecendo excelente seda em trabalhos formosíssimos, de malhas múltiplas e difíceis, e que obtiveram merecidas recompensas elogiosos encitamentos nos certamens onde expostos.

É verdadeiramente digna de encômios esta simpática anciã de cabellos de prata, rosto suave e bondoso e que se fez industrialista!

Vi-a a trabalhar e a fiar, a tecer e destecer os sedosos fios dos casulos alvíssimos, como só fossem os próprios fios nevados e cândidos da sua veneranda cabeça – casulo sublime de uma velhice inteligente e útil.”


Fonte: IL BERSAGLIE, 10 de junho de 1913, p.2, c.4

terça-feira, 3 de abril de 2018

Imigração em São Paulo - Parte 02


"Nas fazendas, a disciplina e o regime de trabalho eram intensos. Trabalhavam os homens, as mulheres e as crianças. Acordavam às 4 horas da manhã e às 5:30 horas, iniciavam o trabalho que ia até o anoitecer. Ao longo dos 12 meses do ano, sem descanso, plantavam, carpiam e colhiam o café. As mulheres e os jovens chegavam a cuidar de aproximadamente mil pés de café, enquanto os homens adultos tratavam de 2 mil pés.

O salário era baixo, algo em torno de 60$ a 90$000 mil-réis por mil pés de café a 500$ a 600$ réis por 50 litros de café colhido. Muitos fazendeiros permitiam o cultivo de outras culturas entre os pés de café, o que garantia a alguns colonos um pouco mais de dinheiro no final da colheita. Mas em caso de falta grave, o imigrante podia ser dispensado e seus bens confiscados pelo fazendeiro para saldar eventuais dívidas. Não havia escola para as crianças e tampouco assistência médica. E não faltaram denúncias de abuso de poder, espancamento, estupros e assassinatos. A família Aguilar Ortega, natural de Granada, Espanha, chegou ao Brasil em 1925. Depois de oito meses de trabalho, fugiu de uma fazenda de café, na região de Araraquara, 'assustados pela presença de um negro que ambicionava casar-se com uma das filhas', lembra Angela Aguilar Ortega, 89 anos.

Muitos colonos abandonaram as fazendas, rompendo o contrato ou fugindo da sanha dos proprietários. Muitos voltaram para o seu país de origem. Alguns foram em busca do sonho de enriquecimento na Argentina. Outros tantos deixaram as fazendas para se instalar em núcleos urbanos próximos ou se transferiram para a cidade de São Paulo para tentar a sorte nas indústrias.

(...)

A notícia dos maus-tratos aos imigrantes correu o mundo e, no início do século XX, Itália e Espanha proibiram a vinda de imigrantes para o Brasil. Diante da nova crise de falta de mão-de-obra, o governo paulista decidiu criar o Patronato Agrícola, uma espécie de serviço de fiscalização do trabalho dos imigrantes nas fazendas de café e, ao mesmo tempo, estimular a vinda de trabalhadores japoneses para as lavouras paulistas, a partir de 1908.

A ação do Patronato Agrícola melhorou a vida dos imigrantes. Quando a família de Kaoru Yamada, 75 anos, chegou ao Brasil, em 1928, vindos da província de Kagawa, no Japão, a situação já era outra. Seus pais vieram trabalhar nas lavouras de café da Fazenda Aliança, perto de Mirandópolis. Kaoru lembra da escola, distante 4 quilômetros da colônia, onde assistia a filmes mudos, das festas de ano-novo, das gincanas, das verduras que sua mãe plantava e dos novos hábitos alimentares da família.

(...)

A história dos imigrantes, no entanto, não é feita só de tragédias. Ao contrário. As pequenas lavouras de subsistência, plantadas com autorização dos fazendeiros no meio do cafezal, permitiram que uma parcela desses trabalhadores acumulasse recursos para adquirir uma pequena propriedade. A maioria desses lotes estava localizada nos núcleos coloniais criados pelo governo do Estado ou por particulares, voltados para a produção de gêneros alimentícios que abasteciam as fazendas e pequenas cidades.

De 1877 a 1894, foram criados 25 núcleos coloniais que ocupavam as terras esgotadas dos antigos cafezais ou zonas impróprias para o cultivo do café. Esses núcleos deram origem a diversas cidades como Nova Odessa, Cananéia, Ribeirão Pires, entre outras.

A riqueza gerada pelo café também propiciou um formidável desenvolvimento de inúmeras cidades paulistas como Jundiaí, Campinas, Ribeirão Preto, Rio Claro, São Carlos e, é claro, da capital, que se tornou a cidade mais importante da República. Ali nasceram os primeiros bancos e se expandiram a indústria e o comércio. Esses núcleos urbanos se constituíram num forte fator de atração dos imigrantes que deixavam as fazendas de café em busca de melhores oportunidades nas áreas urbanas."

Fonte: UMA América por fazer. Horizonte Geográfico - A emoção de descobrir o mundo. São Paulo, ano 13, número 67, p. 65-66.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Significado e origem de sobrenomes alemães - Parte 61


890. Aa: córrego, ribeiro, curso d'água, isto é, alguém que vive à margem de um local assim. Derivado do gótico ahwa, sendo que no sul da Alemanha encontra-se a forma ach, e no alto alemão medieval o termo ahe e no suíço-alemão a palavra aa. Todos tem sua origem no vocábulo latino aqua (água).

891. Dümmer (1a. vertente): sobrenome metanímico que significa tolo, idiota, estúpido, porém também pode ser usado com o significado de mudo ou mesmo taciturno, calado, quieto.  A raiz semântica do termo em alemão é a mesma dos vocábulos da língua inglesa dumb (=mudo) e dummy (= estúpido ou manequim). 
Dümmer (2a. vertente): sobrenome toponímico que significa procedente de Dümmer. É mais provável que o local relacionado ao sobrenome seja a comuna homônima no distrito de Ludwigslut-Parchim, no estado alemão de Mecklemburgo-Pomerânia. Todavia, também existe na Baixa Saxônia, um lago com esse nome na planície alemã do norte, entre as cidades de Lemförde, Damme e Diepholz.
As duas vertentes do sobrenome concentram-se mais especificamente no norte da Alemanha, mas estão espalhados em toda a Europa de língua alemã. Data do século XV.
Variantes:
Dummer - variante mais comum e abundante.
Diummeri - variante arcaica e rara.
Dumm - variante que significa literalmente estúpido no alemão moderno.
Duemmer, Dumer, Dumere - variantes relacionadas.
Dom - variante na língua neerlandesa.
Dum - variante encontrada nas línguas dinamarquesa, sueca e norueguesa.
Domm - variante na língua luxemburguesa.
Dummchen - variante que significa literalmente bobo no alemão moderno.
Dummi - variante que significa burro no alemão moderno.
Strohdumm - variante que significa cabela vazia no alemão moderno.
Strunzdumm - variante que significa pessoa de cabeça vazia no alemão moderno.

892. Tuchtenhagen: sobrenome toponímico que significa procedente de Tuchenhagen. Tuchenhagen é um nome de lugar que não existe atualmente na Alemanha ou em qualquer outro lugar da Europa. O termo "tuchen" quer dizer "panos, toalhas" e "hagen" tem vários sentidos e interpretações, mas de acordo com a Toponímia alemã normalmente tem o sentido de "assentamento" ou "área que foi desmatada" (mais provavelmente, no aspecto de se referir a uma pastagem que surge num local que anteriormente era uma floresta). Onde, então, estaria Tuchenhagen? De acordo com o que conseguimos encontrar em fontes de língua alemã, há o registro de uma "igreja de Tuchenhagen" em Brandemburgo no ano de 1585. Tuchenhagen portanto seria uma aldeia que existiu durante a Idade Moderna (desde Idade Média? Não sabemos!) na área do atual estado alemão de Brandemburgo, porém cujo topônimo não se conservou. Curioso é que existe atualmente a localidade de Tüchen, no município de Gross Pankow, justamente em Brandemburgo. Não encontramos alguma bibliografia que comprove que este lugar seja a antiga Tuchenhagen, porém percebemos essa correspondência. Interessante também é que a existe a partir do século XVIII registros frequentes da família na Prússia Oriental, isto é, indicando que a linhagem se estabeleceu como migrante no processo de germanização do Leste Europeu. Aliás, o "t" que transforma Tuchenhagen em Tuchtenhagen seria resultado deste processo. 
Esclarecendo também que existe o nome de família Tuchenhagen, hodiernamente. 
A maior concentração de Tuchtenhagen na Alemanha encontra-se na região do distrito de Rostock, Mecklemburgo-Pomerânia. Já a maior concentração de Tuchenhagen está no centro-leste da Baixa Saxônia. Porém, ambos os sobrenomes estão espalhados em toda a Europa de língua alemã, incluindo concentrações importantes no sul da Alemanha, na Pomerânia Ocidental, Polônia, e mesmo nos países bálticos.
No momento atual, todavia, existem mais membros da família Tuchtenhagen nos Estados Unidos (maior número) e no Brasil, do que propriamente na Europa.

893. Neuenfeld: sobrenome toponímico que significa procedente de Neuenfeld. Neuenfeld quer dizer "campo novo" em alemão. Pode se referir a três lugares na Alemanha:
1. Uma aldeia no município de Lindlar, distrito de Oberbergischer, Renânia do Norte-Westfália;
2. Uma localidade no município de Nandrensee, distrito de Vorpommern-Greifswald, Mecklemburgo-Pomerânia;
3. Uma localidade no município de Schönfeld, distrito de Uckermark, Brandemburgo.
O sobrenome está concentrado principalmente no estado alemão de Mecklemburgo-Pomerânia e na voivodia (província) da Pomerânia Ocidental, Polônia.
Variante:
Neuenfeldt - variante relacionada.

894. Neuenfelde: sobrenome toponímico que significa procedente de Neuenfelde. Tal como o item anterior, o significado da palavra é o mesmo, só que no plural: "campos novos".
Os topônimos a que se refere este sobrenome são:
1. Uma localidade de Hamburg-Neuenfelde no distrito de Harburg, na cidade livre de Hamburgo;
2. Uma localidade da cidade de Elsfleth, distrito de Wesermarsch, Baixa Saxônia;
3. Uma localidade na cidade de Helvesiek, distrito de Rotenburg (Wümme), Baixa Saxônia;
4. Uma localidade na cidade de Osterholz-Scharmbeck, distrito de Osterholz, Baixa Saxônia;
5. Uma localidade na cidade de Preussisch Oldendorf, distrito de Minden-Lübbecke, Renânia do Norte-Westfália;
6. Uma localidade no município de Seevetal, distrito de Harburg, Baixa Saxônia.
O sobrenome concentra-se no norte da Alemanha, com focos importantes em Berlim e na linha fronteiriça entre o Hesse e a Turíngia.

895. Neufelden: sobrenome toponímico que significa procedente de Neufelden. Neufelden é uma cidade no distrito de Rohrbach, Alta Áustria, Áustria. É um sobrenome tipicamente austríaco.

896. Kanne: sobrenome metanímico que significa jarro. É um sobrenome com várias interpretações, mormente entendido como a alcunha para o fabricante de jarros e potes (tanto de cerâmica ou metal). Porém, pode ainda designar um tanoeiro. Igualmente, pode ser um aliteração da palavra kan do alto alemão medieval que significa capitão, ou mesmo uma forma curta do patronímico de Konrad (Conrado em português). Admite-se que o sobrenome do mesmo modo pode ser um toponímico relacionado aos nomes de lugares Canitz (encontrado quatro vezes na Alemanha) e Kanitz (encontrado quatro vezes na República Tcheca e uma na Polônia). Por fim, o termo kanne pode ser uma metáfora para alguém de pescoço carnudo.
Etimologicamente, a palavra seria originária do termo idêntico no alto alemão medieval, por sua vez derivado do alto alemão antigo channa ou kanna, possivelmente provindo do latim canna.
O sobrenome é percebido desde o século XV e concentra-se principalmente no sul da Baixa Saxônia e leste da Renânia do Norte-Westfália.
Variantes:
Milchkanne - variante que significa jarro de leite e designa alguém que trabalha com laticínios.
Kahn, Kahnne, Kahne, Kane, Kannemann, Kahnemann - variantes relacionadas e bem abundantes em toda a Europa da língua alemã.
Kannke, Kahnke - variantes do norte da Alemanha.
Kaun - variante no dialeto platdietsch.
Kanna - variante arcaica do alemão e presente hodiernamente na língua sueca.
Kande - variante na língua dinamarquesa.
Kan - variante na língua neerlandesa.
Can - variante na língua norueguesa.
Konew - variante na língua polonesa.
Kanva, Kanvica - variantes na língua eslovaca.
Konvice, Konva, Konvick - variantes na língua tcheca.
Kannen - variante no plural da língua alemã.

897. Wollin: sobrenome toponímico que significa procedente de Wollin. Wollin é um nome de lugar na Europa que remete às seguintes localidades:
1. Uma parte do município de Altenkirchen, distrito de Vorpommern-Rügen, Mecklemburgo-Pomerânia, Alemanha;
2. Um município no distrito de Potsdam-Mittelmark, Brandemburgo, Alemanha;
3. Uma aldeia no município de Penkun, distrito de Vorpommern-Greifswald, Mecklemburgo, Alemanha;
4. Uma residência no município de Randowtal, distrito de Uckermark, Brandemburgo, Alemanha;
5. Uma cidade na voivodia (província) da Pomerânia Ocidental, Polônia;
6. A aldeia de Wolinia na cidade de Wollin, Pomerânia Ocidental, Polônia;
7. A cidade de Volyně (nome alemão Wollin), República Tcheca.
É um sobrenome típico e concentrado nos estados alemães de Mecklemburgo-Pomerânia e Brandemburgo e na voivodia (província) polonesa da Pomerânia Ocidental. Os mais antigos registros conhecidos remetem ao século XV.
Variantes:
Wolin - variante simples.
Wollinia, Wolinia - variantes relacionadas às vertentes polonesas.
Wollinger, Wolinger, Wollinmann, Wollimann, Wolinman, Wolinmann - variantes derivadas encontradas irregularmente no norte da Alemanha.

898. Maske: sobrenome que, se traduzido literalmente, significa máscara no alemão moderno, porém sua real acepção é outra, pois sua raiz semântica provém do prussiano maskolus. O significado seria portanto aproximadamente moscovita ou procedente da Moscóvia (Grão-Principado de Moscou que existiu entre 1283 e 1547). Em sentido estrito, pode ainda designar filho de um moscovita, referindo-se a alguém que mesmo nascido fora daquele domínio, descende diretamente de um cidadão do Grão-Principado.
O sobrenome já é percebido desde a primeira metade do século XIV em registros de Samland.
A maior área de ocorrência está em Mecklemburgo-Pomerânia, porém com alguma distribuição ao longo da região renana e focos importantes em Brandemburgo e Berlim.
Variantes:
Maschke - variante relacionada, porém pode ser um correlato ao patronímico de Thomas.
Masicke - variante arcaica, encontrada na Pomerânia histórica.
Masuke, Masucke - variantes encontradas na Pomerânia histórica.
Maskolis - variante na língua lituana.
Mask, Masko, Maskolus, Maskleid, Maszkutat, Maschkalies - variantes encontradas desde a região do Báltico até o norte da Alemanha, sempre em zonas próximas ao litoral.
Muskulin, Muskul, Muskate, Muskalius, Muskatewitz - variantes relacionadas.
Matschke - variante relacionada, porém pode ser um correlato ao patronímico de Thomas.
Maasch - variante incerta.

899. Nobel: sobrenome metanímico que significa nobre. Etimologicamente provém do francês noble, por sua vez derivado do latim nobilis. Todavia, o sobrenome também pode derivar de nabel (umbigo no alemão moderno) e corresponder a uma característica física da pessoa ou metaforicamente designar aquele que vive voltado para si mesmo, recluso ou mesmo pessoa vaidosa. Em menor ocorrência, pode ser um patronímico dialetal do nome alemão medieval Notbert.
Entretanto, se considerarmos a interpretação mais aceita do sobrenome que é um sinônimo de nobre, vale ressaltar que o sentido é muito mais elogioso do que propriamente usado para indicar alguém pertencente à classe terratenente. Isto é, na literatura germânica, o termo é empregado para designar alguém nobre (de espírito), generoso, honrado.
É um sobrenome encontrado irregularmente no norte e oeste da Alemanha, com um foco importante na Baixa Saxônia. Igualmente pode ser encontrada nos países escandinavos com destaque. O mais antigo registro do sobrenome remete a um Hans Nobel em Sinsheim, no ano de 1465.
Variantes:
Nobele, Noble, Nöbel - variantes relacionadas.
Nopel - variante incerta encontrada no ano de 1388.

900. Hefter: sobrenome metanímico que significa literalmente grampeador. Provém etimologicamente do alemão medieval heftel que significa fecho, objeto que fixa ou prende. O sentido histórico do sobrenome remete ao fabricante de fechos medieval.
O sobrenome é percebido principalmente no Hesse e no sul da Baviera, mas com ocorrência em praticamente toda a Alemanha.
O mais antigo registro indica um Nikolaus Hefter na Renânia do Norte em 1471.
Variantes:
Heftel - variante comum.
Hefterin - variante arcaica.
Heffter - variante comum na Áustria e sul da Alemanha.
Hefteler, Heftler - variantes encontradas no centro e sul da Alemanha.





domingo, 1 de abril de 2018

Imigração em São Paulo - Parte 01

"O cenário era preocupante. A abolição da escravatura no Brasil já era dada, em meados do século XIX, como uma questão de tempo, tanto pelas pressões internacionais como pelo movimento abolicionista, que vinha num crescendo. A Guerra do Paraguai expusera a fragilidade das fronteiras do país ao sul, onde grandes áreas desocupadas do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul eram alvo de cobiça de nossos vizinhos. E o café, cujo cultivo começara timidamente no Rio de Janeiro no início do século XIX, havia se transformado no nosso ouro negro e avançava com toda a velocidade em direção ao interior do Estado de São Paulo. Rasgava a geografia, fazia fortunas da noite para o dia e exigia mais e mais trabalhadores, uma demanda possível de ser suportada pelo já execrado tráfico de escravos.

Assim começou a se desenhar a solução da imigração. Em 1870 - ainda no Império e antes mesmo da Abolição - começaram a chegar as primeiras levas de italianos, espanhóis, alemães, poloneses, ucranianos para atingir, até 1930, período conhecido como o da Grande Migração, a impressionante cifra de 2,5 milhões de trabalhadores de 70 nacionalidades diferentes, só no Estado de São Paulo. Para se ter uma ideia do tamanho desse contingente migratório, é bom lembrar que, em 1889, o Brasil tinha uma população em torno de 14 milhões de habitantes.

Os imigrantes chegavam cheios de esperança, fugindo da miséria, da fome e do desemprego, resultantes das profundas transformações socioeconômicas ocorridas na Europa e, posteriormente, no Japão. A América, aí incluído o Brasil, era o Eldorado, a terra de oportunidades e da promessa de enriquecimento.

A lavoura cafeeira expandia-se rapidamente na direção do oeste do Estado de São Paulo, acompanhando a mancha de terra roxa, de solo rico, fértil e pouco acidentado. A produção brasileira de café, em 1880, atingia a marca de 5,9 milhões de sacas, ultrapassando o total da produção do resto do mundo. Mas faltavam braços para o plantio e a colheita.

O tráfico de escravos tinha sido proibido, em 1850, e o escravo tornava-se um produto raro e caro, de acordo com Sônia Maria de Freitas, historiadora do Memorial dos Imigrantes, em São Paulo, e autora do livro E chegam os imigrantes...

Para piorar a situação, não havia mão-de-obra livre em número suficiente para atender à demanda das fazendas de café que multiplicavam, principalmente no interior de São Paulo. O número de propriedades rurais no Estado saltou de 56 mil, em 1905, para 80 mil, em 1920. Neste ano, as 1.999 fazendas com mais de 1.001 alqueires, os grandes latifúndios cafeeiros, ocupavam quase a metade do total da área plantada.

(...)

Para atender à demanda por mão-de-obra, a solução foi importar trabalhadores europeus e, posteriormente, asiáticos. A imigração começou tímida, a partir da iniciativa de alguns fazendeiros, como por exemplo, a do senador Nicolau Vergueiro. Mas, a partir de 1870, a imigração passou a contar com o apoio do governo imperial que, além de autorizar a propaganda do Eldorado brasileiro na Europa, chegou a estabelecer um serviço de subsídios às passagens de imigrantes. Em 1886, foi criada a Sociedade Promotora da Imigração, por iniciativa de Antônio de Queiroz Telles, o Conde de Parnaíba, cafeicultor e presidente da província de São Paulo, que passou a bancar a maioria dos gastos com a imigração. Só para se fazer uma ideia, de 1889 a 1928, a Sociedade obteve do governo de São Paulo verbas da ordem de 1.781.306:888$ para o financiamento de viagens.

Com o apoio da Sociedade, o imigrante viajava de graça desde o seu país de origem até as fazendas de café. Cruzavam o Atlântico até o Porto de Santos e, de trem, atravessavam a Serra do Mar, até desembarcar na estação da Hospedaria dos Imigrantes, um prédio imenso, com mais de 30 mil metros quadrados, inaugurado em 1888, e com capacidade de abrigar até 3 mil pessoas. 'Há registros, no entanto de que o número de migrantes chegava a 8 mil', diz Sônia Maria de Freitas.

Na Hospedaria, os imigrantes permaneciam por uma semana, até que a Agência Oficial de Colonização e Trabalho os encaminhasse às fazendas de café."

Fonte: UMA América por fazer. Horizonte Geográfico - A emoção de descobrir o mundo. São Paulo, ano 13, número 67, p. 64-65.

sábado, 31 de março de 2018

Malhação do Judas em Pelotas em 1861


"Rio-Grande do Sul. - Rio-Grande, 16 de abril de 1861. - (Carta do correspondente)

(...)

- Sobre a celebre questão - Judas - de que os nossos leitores já teem conhecimento, o correspondente do Echo do Sul em Pelotas dá os seguintes pormenores:

O punho nos treme de indignação ao traçarmos as presentes linhas, que vão noticiar aos leitores do Echo um daquelles factos de feroz vandalismo, que felizmente só poucas vezes se vêm no antro das cidades civilisadas.

Hoje manhecerão em vários logares da cidade algumas figuras, conhecidas por Judas, que ao romper a alleluia na igreja estalão.

É sabido que o humor popular nunca deixa de manifestar-se nestes dias para com pessoas de poucas sympathias.

É assim que em uma travessa da rua de S. Miguel, amanheceu fincada no páo uma figura que não tinha letreiro nem indicação directa alguma de haver sido posto alli de acinte a qualquer dos vizinhos.

O Sr. Luiz Brandão, porém, moço estabelecido com loja de fazendas na rua de S. Miguel, e que goza de poucas sympathias por ter fama de usurario, achou no citado - Judas - semelhanças comsigo e entendeu, portanto, que era o seu retrato, embora a figura não trouxesse distico nem letreiro.

Muito insultado com semelhante desaforo, dirigiu-se o Sr. Brandão ao subdelegado de policia, que, na louvavel intenção de evitar disturbios, mandou pela policia tirar o - Judas - em questão.

Mas as boas intenções do Sr. subdelegado produzirão effeito contrario ao que S.S. pensava, porque, tomando ganja com tal ordem, entendeu o Sr. Brandão e o Sr. Godinho seu sogro que devião tomar satisfações aos vizinhos.

Com esta intenção armou-se o Sr. Godinho (sogro do sugeito que se julgava retratado) de bengala de estoque e dirigiu-se primeiramente á casa do Sr. Manoel José de Oliveira, para (segundo elle dizia) dar a um irmão deste os agradecimentos por haver arvorado o seu genro em - Judas -, mas não encontrando na loja o dito moço, considerou o Sr. Godinho que um pobre velhote de nome Candido A. Xavier, que tem uma lojinha defronta, lhe offerecia occasião mais facil e menos perigosa para dar largas ao seu genio, que o irmão do Sr. Oliveira talvez não houvesse querido supportar e portanto investiu para a loja do Sr. Candido, que estava almoçando com a sua familia.

Havendo Candido comparecido na loja e indo apertar a mão ao seu visitante, este lhe cahiu de bofetões e depois o socou a bel prazer com a bengala que trazia..

Acudiu então o genro Brandão que mora na casa vizinha, armado com um covado, e vendo o Sr. Candido já deitado no chão e calcado aos pés por Godinho, descarregou furibundos golpes de covado na cabeça da victima, despedaçando-lhe o craneo em varias partes e tentando assassina-lo. Acudindo a corajosa mulher da victima em defesa do seu marido, que estavão assassinando, o Sr. Godinho lançou-se sobre ella e a espancou cruelmente com a bengala, fazendo-lhe graves contusões e ferindo-a em varias partes e até uma pobre menina de 12 annos, filha das victimas, foi cruelmente espancada.

Somente a muito custo conseguirão as pessoas que presenciárão o facto arrancar as victimas ás sanguinarias mãos dos seus furiosos algozes, ambos homens casados e pais de familia!!

O Sr. Candido acha-se em perigo de vida, estando o craneo fracturado na extensão de duas pollegadas e tendo uma ferida funda e muito perigosa em uma das fontes, além de muitas contusões. A sua mulher está igualmente ferida e contusa, estando por ora com um braço inutilisado e com uma contusão no seio, que apresenta todos os signaes proprios para tornar-se cancro.

A menina tambem está bastante contusa e maltratada.

É assim, pois, que de dia e á vista de todo o mundo, dous homens invadirão a propriedade alheia, violando o asylo do cidadão, e tornárão-se culpaveis de tentativa de morte, espancando uma familia inteira, marido, mulher e filha!

E porque?

Porque julgárão erroneamente que aquelle pobre homem fosse autor do Judas, quando está provado que elle nem se quer teve parte e sciencia disso!

E um dos dous criminosos é homem velho e de alguma posição na sociedade, ambos são pais de familia!!

O Sr. subdelegado procedeu incontinenti a auto de corpo de delicto nas pessoas das victimas, mais ainda não prendeu os criminosos, que já devião estar recolhidos á prisão, visto que ha 20 e mais testemunhas oculares de tudo quanto acabamos de narrar.

O crime é patente e o mais escandaloso possivel; violação do asylo do cidadão e tentativa de morte em uma familia inteira, sem causa justificavel, nem circumstancias attenuantes.

É, pois, forçoso que a moralidade publica tenha uma desforra e que os criminosos sejão presos e punidos.

Bem sabemos que haverá empenhos e protecção aos criminosos; mas da justiça esperamos o justo castigo dos réos.

E aguardamos o ulterior procedimento da autoridade para voltar ao assumpto."

Fonte: CORREIO MERCANTIL (RJ), 26 de Abril de 1861, p.01. c.04

sexta-feira, 30 de março de 2018

Sobrenomes holandeses - Parte 06


101. Eg (1a. vertente): sobrenome patronímico originário da Frísia Ocidental que significa filho de Eg. Eg, Egbert, Egg, Eggo, Eggen, Eggon são primeiros nomes masculinos comuns na região e que compartilham da mesma raiz semântica germânica que significam "ponta afiada, ponta, ponta de espada", ou ainda "canto, coisa que está numa ponta".
Eg (2a. vertente): sobrenome toponímico que significa aproximadamente aquele que está localizado numa ponta, aquele que habita no canto. Comparando com a vertente anterior, o significado etimológico é o mesmo, isto é, "ponta, canto". Entretanto, enquanto na 1a. vertente o sobrenome derivou do fato de ser um patronímico, nesta vertente o sobrenome surgiu como uma denominação para indicar a morada de uma pessoa.
O sobrenome ocorre mais comumente em Stede Broec, Holanda do Norte, Países Baixos, e em Bruxelas, na Bélgica.
Variantes: Egg, Egge, Eggo, Eggen, Eggon, Eggh, Egh, Egt, Ego.

102. Elias: sobrenome patronímico que significa filho de Elia (Elias em português). Apesar do nome masculino holandês ser Elia, enquanto sobrenome a forma Elias é deveras mais comum.
Elias também é o nome de uma família nobre de Amsterdam com origem no século XIV.
O sobrenome é encontrado principalmente em Amsterdam, Holanda do Norte, Almere, Flevolândia, Rotterdam e Den Haag, Holanda do Sul,  e Tilburg, Brabante do Norte.
Variantes: Elia, Elie, Eliassen, Eliasson, Eljasz, Ilia, Ilias, Iliasz, Ilijas, Iljasch, Ilyas, Ylias, Eliat, Iliat, Ely, Hely, Elle, Eliard, Eliart, Eliaert, Eliaerts, Eliaertt, Eli.

103. Elslander: sobrenome toponímico que significa procedente de Elsland. Elsland é a denominação de uma possessão feudal que existiu na Idade Média na área do atual município de Werwik, Flandres Ocidental, Bélgica. 
O sobrenome é significativo em Eindhoven e Veldhoven, Brabante do Norte.
Variantes: Van Elslander, Elsland, Van Elsland, Elstland, Van Elstland.

104. Emmens: sobrenome que pode ser tanto um patronímico quanto um matronímico e que está relacionado ao prefixo Emm- encontrado em nomes próprios de origem germânica. Isto é, pode ser um patronímico curto de um nome masculino como Emmerick, ou um matronímico de um nome feminino como Emma.
As maiores ocorrências estão nos municípios de Noordenveld e Tynaarlo, província de Drenthe, Países Baixos.
Variantes: Immens, Emmen, Hemmens, Emme, Imme, Emminga, Emmius.

105. Van Ginkel: sobrenome toponímico que se refere ao nome de lugar Ginkel. Ginkel pode ser: um planalto na província da Guéldria; um forte da cidade de Venlo, província de Limburgo; uma área de terras baixas na província da Guéldria; uma rua em Venlo, província de Limburgo.
A maior aglomeração de pessoas com este sobrenome nos Países Baixos encontra-se em Ede, província da Guéldria.
Variantes: Ginkel, Vanginkel.

106. Van Aarle: sobrenome toponímico que significa procedente de Aarle. Aarle é um aldeia de origem medieval (início do século XIV) que atualmente faz parte do município de Best, Brabante do Norte, Países Baixos. A área de maior ocorrência do sobrenome está em Tilburg, Brabante do Norte.
Variantes: Aarle, De Aarle, Aerle, Van Aerle, Arle.

107. Garfunkel: sobrenome metanímico que significa fabricante de velas. Não encontramos dados suficientes sobre a sua distribuição. 
Variantes: Garfinkel, Garfinliel, Gurfinkiel, Gurfinkel, Gorfinkelis.

108. Van Gaal: sobrenome toponímico que significa procedente de Gaal. Gaal é uma aldeia próximo a Schaijk, Brabante do Norte, Países Baixos. A mais significativa concentração do sobrenome está em Oss, Brabante do Norte.
Variantes: Gaal, Van Gal, Gal, Van Gael, Van Geel, Geel, Gael.

109. Joris: sobrenome patronímico que pode tanto significar filho de Gregorius (Gregório em português) ou filho de Georgius (Jorge em português). Atualmente, Joris é compreendido comumente dentro do idioma neerlandês como um primeiro nome masculino equivalente ao Jorge da língua portuguesa. Por isso, algumas linhagens de Joris podem ter identificação com o patronímico de Gregorius, porém é mais provável que seja realmente um patronímico de Georgius
As maiores ocorrências do sobrenome se percebem em Den Haag, Holanda do Sul, e Maasgouw, província de Limburgo.
Variantes: Jorens, Jorissen, Joret, Jorez, Joiret, Joriss, Jouret, Jouretz, Joures, Jores, Jauret, Jure, Jurez, Jorger, Joerger, Jori, Jory, Joary, Juri, Jury, Jorio, Joriot, Jorion, Jurion, Jourion, Jeurissen, Jorisson, Jeursen, Jurrisen, Jore, Joriskes, Jarich (forma particular da frísia).

110. Van Maastricht: sobrenome toponímico que significa procedente de Maastricht. Maastricht é a capital e principal cidade da província de Limburgo, Países Baixos. A maior concentração do sobrenome, que é comum em todo o país, é o município de Werkendam, Brabante do Norte.
Variantes: Maastricht, Van Maastrigt, Maastrigt, Mastrigt, Mestreech.

111. Van Melle (1a. vertente): sobrenome toponímico que significa procedente de Melle. No contexto dos Países Baixos e Bélgica, é mais provável que o sobrenome se relacione ao município de Melle, na província de Flandres Oriental, Bélgica, ou ainda à cidade homônima no estado alemão da Baixa Saxônia. Contudo, também o topônimo nomeia uma comuna francesa do departamento de Deux-Sèvres, uma antiga aldeia no município de Uden, Brabante do Norte, Países Baixos, e uma aldeia na província de Cuneo, na região italiana do Piemonte. Exceptuando o caso da antiga aldeia norte-brabantina, é pouco provável que as linhagens holandesas de Van Melle tenham vinculação com os outros dois locais na França e Itália.
Van Melle (2a. vertente): sobrenome patronímico que significa filho de Melle. Melle é um primeiro nome masculino originário da região da Frísia. A hipótese é que Melle seja uma corruptela, ou do nome germânico Meinolf/Meinholf, ou do nome latino Aemilianus.
O sobrenome aparece com mais destaque em Amsterdam, Holanda do Norte.
Variantes: Melle, Vamelle.

112. Nachtegaal: sobrenome metanímico que significa rouxinol (Luscinia megarhyncos). É próprio e originário da região de Flandres, todavia o sobrenome e suas variações se espalharam em toda a região do Benelux e seus arredores. O significado idiossincrático do sobrenome seria usado para denominar aquele que é bom cantor ou aquele que tem voz agradável. Porém, ainda se admite que o sobrenome possa ter nascido também em outros contextos, seja para designar aquele que é agradável, simpático, ou ainda uma referência ao tamanho diminuto do pássaro. Igualmente, não se pode ignorar que, em alguns casos, ele pode ter tido sua origem como toponímico.
A maior ocorrência do sobrenome se verifica nas regiões de Flandres, na Bélgica, e Brabante do Norte, Países Baixos.
Variantes: Nachtegale, Nachtegaele, Nachtegael, Nachtegals, Nachtegall, Nachtergael, Nachtergaele, Nachtergale, Nachtergaale, Nachtergal, Nagtegaal, Nagtegaels, Nagtegals, Van Nachtegaal, Van Nachtegael, Nacktergael, Van Nacktergaal, Van Nacktergael, Nogtergael, Nactergael, Nachthergael, Nactergal, Nactergaal, Naectergael, Nestergal, Achtergael, Achtergaele, Achtergael, Achtergal, Van Achtergal, Van Achtergaal, Agtergael, Actergal, Achtergalle, Hactergal.

113. Namur: sobrenome toponímico que significa procedente de Namur. Namur é uma cidade e uma província da região da Valônia, Bélgica. O sobrenome é mais comum justamente nesta região, mas com ocorrências significativas também nas províncias flamengas e no sul e sudeste dos Países Baixos.
Variantes: Van Namur, Vanamur, De Namur, Denamur.

114. Utrecht: sobrenome toponímico que significa procedente de Utrecht. Utrecht é uma importante cidade dos Países Baixos, capital da província homônima.
As maiores aglomerações do sobrenome estão em Menterwolde, Delfzijl e Appingedam, província de Groningen, Países Baixos.
Variantes: Van Utrecht, Utrech, Utres, D'Utrecht, D'Utra, Utra, Utre, D'Utre.

115. Nuninga: sobrenome toponímico relacionado a dois locais na Alemanha atual: à aldeia de Nüninghoff, Frísia Oriental; à aldeia de Nünning, próximo a Hannover.
A maior concentração do sobrenome está em Groningen, província de Groningen.
Variantes: Nuininga, Nuinenga, Nunnink.

116. Van der Hoeven: sobrenome toponímico que significa procedente de Hoeven. Hoeven é um nome de lugar que se repete sete vezes entre Bélgica e Países Baixos, mormente empregado como nome de aldeia, e que significa cascos (de animal).
É um sobrenome com ocorrência muito significativa em toda a área oeste dos Países Baixos.
Variantes: Vanderhoeven, Hoeven, Hoven.

117. Karsgaard: sobrenome de origem escocesa encontrado desde o século XV nos Países Baixos. Na verdade, é uma adaptação linguística local para a alcunha original da família nobre que era Cars Gard. Membros da família se estabeleceram em diversos pontos da Holanda do Sul e da região de Flandres devido a uma imigração (não conseguimos encontrar o motivo. 

118. Van Laer: sobrenome toponímico que significa procedente de Laer. Laer ou Laar é um município no distrito de Steinfurt, Renânia do Norte-Westfália, Alemanha. O sobrenome surge na região dos Países Baixos em 1434, com Henric Van den Laer, cavaleiro que recebe o titulo de barão na região de Overissel. 
Atualmente, as maiores concentrações do sobrenome estão em Amsterdam, Holanda do Norte, e Nederweert, província de Limburgo.
Variantes: Laer, Vanlaer, Van Laar, Laar, De Laer, De Laar, Van den Laar, Van den Laer.

119. Marum: sobrenome toponímico que significa procedente de Marum. Marum é um município da província de Groningen, Países Baixos. A ocorrência mais destacada deste sobrenome está em Almere, Flevolândia. 
Variantes: Moarem, Mearum.

120. Naaktgeboren: sobrenome metanímico que significa aquele que nasceu após a morte de seu pai. A maior ocorrência deste sobrenome se dá em Binnenmaas, Holanda do Sul.
Variantes: Posthumus, Naborn, Aagenborn, Radenborg, Welboren.

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