domingo, 13 de fevereiro de 2022

João Clapp

 



Um telegramma de Petropolis deu-nos hontem a dolorosa noticia da morte de João Clapp. Era um nome muito conhecido, não só nesta capital, como em todo o paiz, e embora fosse sabido que pertinaz enfermidade o impossibilitava em absoluto da vida activa, não deixou de causar magua sincera o telegramma luctuoso da visinha cidade.

O finado foi um commerciante honrado, de credito solido em nossa praça.

Mas não é esse o traço principal da vida de João Clapp. Foi muito mais elevado o feitio de seu caracter que o evidenciou, foi muito mais nobre a phase da sua carreira publica que chegou ao conhecimento de todos.

João Clapp foi um abolicionista correcto, um batalhador intrepido, em beneficio dos miseros captivos.

Foi elle o fundador do Club dos Libertos. A Confederação Abolicionista, esta cidadella formidavel em que se abrigavam os defensores da santa causa, tinha-o sempre no posto mais difficil de combate.

Em qualquer parte em que era necessaria a sua auctoridade para a liberdade de um escravo, elle não se fazia demorar, e rapido se consummava a obra da restituição de um homem ao sei da Liberdade.

É com este glorioso titulo de abolicionista que João Clapp descerá ao tumulo hoje, ás 9 horas, cercado da saudade e do respeito de seus concidadãos.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 12 de Dezembro de 1902, pág. 01, col. 07

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Jornais diários do Brasil em 1902

 



Le Brésil de Pariz publicou na sua edição de 25 de maio ultimo a seguinte estatistica da imprensa no Brasil:

"São 103 jornais quotidianos do Brasil, que se dividem assim: S. Paulo 33, Rio Grande do Sul 13, Districto Federal 11, Rio de Janeiro 8, Pernambuco 6, Bahia 5, Amazonas 5, Pará 4, Maranhão 4, Minas Geraes 4, Rio Grande do Norte 3, Alagôas 3, Sergipe, Paraná e Santa Catharina 2, Espírito Santo 1 e Parahyba 1.

Os unicos Estados que não têm jornal diario são dos de Piauhy, Matto Grosso e Goyaz."

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 17 de Junho de 1902, pág. 01, col. 07

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Os fanáticos de João Conselheiro - um episódio da Guerra do Pinheirinho

 



O irmão do Conselheiro

Sobre os successos occorridos ultimamente nos municipios de Lageado e Estrella, no Rio Grande do Sul, temos mais as seguintes notas colhidas na ultima mala chegada daquelle Estado.

O Alto Taquary adianta o seguinte:

Entre as forças estadoaes e os fanaticos de João Conselheiro travou-se medonho conflicto, a tiro e a ferro, sahindo da barraca mais de 30 bandidos, armados de facão de larga lamina, espadas, outras armas e páos. De uma casa proxima surgiram tambem numerosos bandidos.

O subdelegado Napoleão, depois de descarregar o revólver, teve de fugir diante do numero, sahindo illeso. Cahiu Guerino Lucca com tres ferimentos por arma branca, arrastando-se em fuga, sem poder ir longe. Elle viu estar matando o irmão; viu a degolla e encommendava-se a Deus, esperando o mesmo destino.

Entretanto, luctava como um verdadeiro leão. O caixeiro viajante Eduardo Sattler, foi o ultimo a cahir na arena do combate. Levava elle uma Winchester, um revolver e um facão.

Empregou com exito o primeiro tiro, matando um dos bandidos. O segundo tiro falhou. A arma havia sido engasgada. Nessa occasião recebeu elle extenso ferimento na cabeça. Atirou a arma fóra, espumando de raiva, desembainhou o facão, que segurou com a mão direita e com a esquerda o revólver. Feriu muitos, mas cahiu vencido pelo numero. Quando este heróe cahiu, Pedro Montini, ferreiro no Encantado, também já ferido gravemente, e João Ferri, negociante, com extenso talho da cabeça ao rosto, trataram de fugir, bem como outros já sem munição. Guerino arrastou-se em direcção ao matto. Um dos bandidos correu sobre elle para degollal-o. Pedro Montini acudiu a tempo, matando com certeiro tiro na cabeça o bandido, que cahiu ao lado da victima. Outro bandido quiz ainda degollal-o, mas o Monge gritou: - deixa este para depois.

Guerino tratou de reunir todas as forças que tinha e conseguiu ir ao matto, onde cahiu desfallecido. Estava abrigado pela selva. João Ferri, Pedro Montini e outros passaram então o rio para a margem direita, onde estavam doze homens de reserva, assistindo ao tiroteio, ouvindo os gritos da lucta, sem poderem auxiliar os companheiros por falta de canôa. Independentemente havia ficado a reserva sem meios de realisar a passagem do rio. Chegados ao Encantado os feridos e derrotados, enorme panico produziram na pacifica e laboriosa população.

Sattler e Lucca ficaram roubados em relogios, correntes e em todo dinheiro. Quando matavam estes dois, gritavam os bandidos: - venham mais! venham mais! que hão de vêr!

Os bandidos só empregam arma branca e com estas se batem como féras. O Monge sempre lhes diz:

- Aquelle que morrer, dentro de oito dias ressuscitará...

Os conselheiristas são ignorantes e não conhecem tactica militar alguma.

- Na cruz da cova em que se acha enterrado Sattler, ha o seguinte escripto: Eduardo Sattler, morreu por defender os amigos, 3 de maio de 1902.

Poucos dias depois destes factos, 60 homens da brigada militar atravessaram o passo do Encantado em direcção aos Pinheirinhos, no municipio de Estrella.

Mais de vinte homens seguiam pelo lado do Encantado, tomando posição em frente aos Pinheirinhos, na margem direita do rio Taquary. Ahi chegados deram seis descargas contra as mattas dos Pinheirinhos, onde se achavam já outros 60 homens que haviam seguido primeiramente, isto é, 1/4 de legua distante do logar onde se achavam Enéas, padre Monge e sua gente. Via-se sahir fumaça das mattas. Eram os mongistas que faziam fogo para aquentar agua e apromptar comida.

Os vinte soldados da brigada fizeram mais algumas descargas. Repentinamente um homem, um mongista, rapaz forte, honesto valente e audacioso, surge do matto. Vinha reconhecer o inimigo. Queria ver quantos homens eram os da brigada, O tenente Teixeira, commandante da força, appareceu nessa occasião com 30 homens dos 60 que haviam partido para Pinheirinhos. O audacioso jagunço deu um signal, assolando bem alto e os mongistas fugiram, levando comsigo barracas e algumas panellas, deixando outras cousas. O tenente Teixeira, minutos depois chegava ao logar onde se havia dado o encontro de Sattler e os irmãos Lucca, contra a gente de Enéas. Incendiaram logo a casa deste ultimo. Foram encontrados nesta occasião tres mongistas mortos. As forças da brigada e dos patriotas são em numero de 250 homens e guarnecem: Campinho, Passo Jacaré, Barra do Guaporé, uma colonia de propriedade de Enéas, em Pinheirinhos e muitos outros logares transitaveis. Os mongistas são sempre acompanhados por mulheres e crianças.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 30 de Maio de 1902, pág. 02, col. 04-05

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Coronel Justo Dias de Siqueira

 


Na solicitação de um amigo, que mora justamente na Rua Coronel Justo Dias de Siqueira, em Capão do Leão, o qual não tínhamos nenhuma informação sobre este personagem histórico, resolvi buscar algum conhecimento sobre o mesmo, afim de dirimir essa dúvida. Segue o que encontramos:

Justo Dias de Siqueira era residente no Passo das Pedras, membro da Guarda Nacional da  Freguesia da Capela da Buena e pela ocasião da Proclamação da República em 1889 encontrava-se como funcionário da Estação Ferroviária do Passo das Pedras. Ainda era capitão. Neste mesmo ano, foi presidente do comissão executiva republicana da Freguesia da Buena.

Logo em seguida foi promovido a major e recebeu o comando do 25o. Corpo Provisório de Cavalaria da Buena, tendo atuado na região como chefe das forças legalistas (republicanas castilhistas).

Foi o 1o. sub-intendente do distrito de Capão do Leão, criado pelo intendente de Pelotas, Henrique Chaves, em 1893. Nesta ocasião, foi alçado ao posto de tenente-coronel.

Com o final da Revolução Federalista, foi promovido a coronel honorário com comenda de distinção, tendo se ocupado mais tarde com a supervisão do alistamento militar nas regiões do Capão do Leão, Capela da Buena e Santo Amor. Possuía um sítio em Capão do Leão, onde se aposentou.

Não dispomos dados de seu passamento.

A malta de bandidos de Lages

 



No Passo das Caneiras

Uma malta de bandidos que percorre as immediações da cidade de Lages, no Rio Grande do Sul, assassinou em dias do mez passado o Sr. Ernesto Canozzi, empregado viajante da firma commercial Santos & Almeida, de Porto Alegre. O Sr. Ernesto que ha seguramente cinco mezes se achava ausente d'aquella capital fôra a Lages em objecto de serviço da casa. Depois de fechar certos negocios e receber de seus freguezes determinadas quantias, teve aviso de que a policia perseguia um numeroso grupo de malfeitores que enfestava o municipio de Lages. Receoso de um ataque evitou a viagem, resolvendo somente a fazel-a em abril, tendo passado o seguinte telegramma aos seus patrões: Sigo direcção Caxias. Acompanhado de um leão sahiu de Lages e ao chegar no Passo das Caneiras foi aggredido, assassinado, saqueado e atirado o seu corpo e o do seu peão, cujo nome é ignorado, a um banhado. Dias depois foram os corpos encontrados pelo Sr. Carlos Hildebrando que caritativo ordenou enterramento. A policia procura capturar os criminosos.

Fonte: GAZETA DE NOTICIAS (Rio de Janeiro/RJ), 21 de Maio de 1902, pág. 02, col. 03

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