segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A caçada a Berto Cuxarra e Paulo Burro


"Captura de criminoso e morte

O delegado de policia da Taquara do Mundo Novo expediu diversas escoltas em perseguição dos criminosos Felisberto Leite Ribeiro, vulgo Berto Cuxarra, e Paulo Burro, pai d'aquelle, para a captura dos quaes havia recebido requisição, por terem, com outros na linha Palmyra, municipio de São Sebastião do Cahy, assassinado o negociante italiano Deboni e sua familia e saqueado a casa, a que em seguida deitaram fogo.

Uma das escoltas conseguiu alcançal-os, ás 3 horas da tarde de 8 d'este mez, em casa de um individuo conhecido pela alcunha de Roça Velha, no termo de Vaccaria.

Intimada a prisão aos criminosos, recusaram obedecer, travando-se então renhida lucta, da qual saíu morto Cuxarra e feridos gravemente Paulo Burro e Manoel de Oliveira Pinto, que fazia parte da escolta.

O subdelegado do districto em que se deu a resistencia tomou conhecimento do facto.

Foi aprehendida n'essa ocasião grande quantidade de artigos roubados da casa de Deboni, encontrados em dous saccos de couro, que em um cargueiro conduziam os criminosos."

Fonte: A FEDERAÇÃO (RS), 27 de Janeiro de 1890, pág. 02, col. 02

domingo, 6 de janeiro de 2019

A Colônia de Três Forquilhas - Parte 04 (Final)


"Os colonos chegados a Tres Forquilhas ou porque se encontrassem muito afastados de S. Leopoldo e, portanto, lhes fosse dificil manterem relações com o elemento germanico existente na Provincia, ou porque desde logo forçados pela necessidade de proverem á propria subsistencia, tivessem de manter relações com os nacionaes estabelecidos no logar, assimilaram, rapidamente usos e costumes todos nossos e a tal ponto que parece não se incorrer em erro affirmando que, de todos os nucleos de colonisação germanica existente nos tres Estados do Sul do Brasil, Tres Forquilhas é aquelle onde mais difficilmente se poderá distinguir entre nacionaes e extrangeiros de origem e onde não existe a menor rivalidade entre uns e outros, antes uma perfeita cordialidade, cujos laços nem os pendores religiosos ousam ferir como sóe acontecer alhures.

Teremos demonstrado isso de modo pratico, narrando alguns factos que na sua simplicidade são indices preciosos para o bom observador.

Além de varias outras, ha alli as familias Santos, Oliveira Mello, Candido e Vieira, que descendem dos naturaes que ou casaram com allemãs, como Manoel dos Santos, ou com filhos dos primeiros colonos já nascidos na Colonia, como os outros.

Existem na Colonia Adolpho dos Santos e João dos Santos, filhos de Manoel dos Santos, os quaes, por sua vez, tambem casaram com moças de origem allemã.

Algumas dessas familias fallam allemão e mantêm certos costumes allemães; outras, ao contrario, não fallam allemão, são catholicas e todos os seus costumes são genuinamente brasileiros.

Nas suas festas e nos seus kerbs tanto se pode ver os Erling, os Schvartzhaupt e os Witt, como os Santos, os Mello e os Vieira.

Na generalidade toda a população da colonia falla perfeitamente o nosso idioma quasi sem defeito algum de pronuncia. A proposito nos occorre narrar o seguinte: Existe alli a familia Voges, cujo tronco foi o virtuoso pastor Carlos Leopoldo Voges. Obedecendo ás regras de pronuncia allemã, deviam os da colonia chamar 'Fogues', mas tal não succede: Indistinctamente, os genuinos brasileiros e os que são descendentes dos velhos colonos e os membros da propria familia, todos empregam uma só pronuncia: Voges.

O que occorre em Tres Forquilhas observa-se tambem por identica razão na Colonia das Torres (São Pedro de Alcantara). Ha alli os descendentes do velho colono Antonio Kreutzburger, que passaram a chamar-se Kras Borges. É essa uma familia numerosa e todos os seus membros não sómente são chamados de Kras Borges como grapham assim o seu cognome na correspondencia e em documentos publicos e particulares.

Os Emerich se tornaram Emerim e os Eberhardt são em geral cognominados Barata.

Por occasião da grande guerra que agitou todos os centros dando logar a serios attrictos entre latinos e teutos, em Tres Forquilhas, e cremos que em S. Pedro de Alcantara tambem, não occorreu o mais leve incidente que viesse quebrar a fraternidade sempre reinante. Uns e outros continuaram entregues ao seu labor quotidiano, confiantes na perfeita garantia da ordem e na completa segurança publica, que foi sempre a preoccupação constante das autoridades locaes.

Aliás, razões existem para que aquella gente não se deixasse abater em tal momento historico, sentindo inclinações pela terra dos seus avós com descaso pelos interesses da sua patria - de Brasil - patria que não sómente acolheu em seu seio immenso e riquissimo os velhos immigrantes, como continuava a mimosear os rebentos daquella estirpe valorosa com as melhores caricias e com os mais preciosos dons de uma natureza luxuriante, debaixo deste incomparavel clima tropical. É que, a consolidar esse affecto, já havia corrido o precioso sangue daquelles obreiros da terra, quando por occasião da Guerra do Paraguay, a fina flôr da mocidade da Colonia havia trocado a enxada pela lança para correr pressurosa com defesa do Brasil, marchando para o theatro da guerra, donde infelizmente nem todos os valentes conseguiram voltar.

Segundo as informações que nos prestou o sr. Carlos Frederico Voges, um dos descendentes do velho Pastor Carlos Leopoldo Voges, antigo commerciante da Colonia e pessoa de toda a respeitabilidade, foram os seguintes os moços que dalli marcharam para o Paraguay:

1 Serafim Rodrigues
2 Luis Rodrigues

[Nota nossa: parte não encontrada]

(...)

Sobreveiu depois a revolução rio-grandense. A colonia foi theatro de correrias. Os colonos forma muito inquietados durante o longo periodo da guerra, vivendo em contínuos sobresaltos. A aggravar toda essa situação, vem a circumstancia de estar o governo a braços com a revolta e não poder, portanto, prover as necessidades da colonia.

Varios tiroteios e escaramuças houve na colonia e até um combate entre legalistas e farrapos, no logar do Cemiterio Velho, sendo então ferido o colono João Peck, que passou a ser alcunhado - João Baleado.

Durante os primeiros tempos o culto religioso era praticado em uma dependencia da casa do pastor Voges. Mais tarde levantaram uma tosca egreja com cobertura de palha no logar onde se encontra a actual, que é de alvenaria.

Em 1858, esta ultima apenas apresentava as suas paredes externas, sem madeiramento ou cobertura. Foi levantada ás expensas dos fieis.

A segunda casa commercial que surgiu na colonia foi a de Felippe Pedro Schmitt, por alcunha - Velho Pedro Commandante.

O pastor Voges montou tambem um cortume e alguns annos depois surgiu um outro que ignoramos a quem pertencia.

Desde logo comprehenderam os colonos que a cultura mais rendosa lhes seria a canna de assucar, não sómente pela excellencia das terras como pelo clima da região. A ella dedicaram-se, pois, levantando tambem os seus engenhos para o fabrico de aguardente e rapaduras, productos muito procurados pela gente da Serra.

Entretanto, não abandonaram as outras culturas. Plantavam feijão, milho, batatas, mandioca, arroz, e até fizeram plantações de café, chegando a exportar êsse precioso grão.

Trinta annos depois da fundação da colonia contavam-se alli 21 engenhos de canna e 40 de farinha.

Manoel Fernandes Bastos."

Fonte: A FEDERAÇÃO (RS), 12 de Novembro de 1926, pág. 01, col. 06-07; pág. 02, col. 01

sábado, 5 de janeiro de 2019

A Colônia de Três Forquilhas - Parte 03


"3. - Origem do nome - Topographia - Regimen territorial

A colonia Tres Forquilhas deve o seu nome ao rio em cujas margens ella assenta - o rio Tres Forquilhas.

Esse rio é a divisa actual que separa os municipios de Conceição do Arroio e Torres; de modo que parte da colonia pertence a este ultimo municipio e parte no de Conceição do Arroio.

Na épocha de sua fundação Tres Forquilhas pertencia ao territorio da Villa de Santo Antonio da Patrulha, pois a zona que comprehende os actuaes municipios de Conceição do Arroio e Torres formava a Freguezia da Serra ou Freguezia de N.S. da Conceição do Arroio pertencente áquella villa.

Mais tarde, em 1857, Conceição do Arroio é elevada á cathegoria de Villa, abrangendo a Freguezia das Torres. Passa Tres Forquilhas a pertencer a Conceição do Arroio.

Sendo Torres elevada á cathegoria de Villa e municipio em 1878 com os limites da antiga Freguezia, (com Conceição do Arroio e rio Tres Forquilhas) passa essa colonia á jurisdicção dos dois municipios.

Volta ella á jurisdicção de Conceição do Arroio em 1887, quando Torres voltou a ser Freguezia, mas torna á de Torres quando esta Villa em 1890 é restaurada.

Forma-se o rio Tres Forquilhas pela confluencia dos rios do Pinto e dos Carvalhos que nascem na serra do Mar.

Depois de um percurso de cerca de cinco leguas o rio Tres Forquilhas lança-se na lagôa Itapeva. Esta lagôa despeja pelo Sangradouro dos Cornelios para a lagôa dos Quadros ou das Casas de Telhas (também lagôa do Ignacinho), da qual nasce, na barra do João Pedro, o Sangradouro das Malvas que forma o rio Tramandahy. Este rio tem sua foz no Oceano.

Varios tributarios de maior e menor importancia recebe o rio Tres Forquilhas por uma e outra margem até lançar-se na lagôa da Itapeva.

Os principaes são os seguintes: pela margem direita, o arroio do Padre, o arroio do Erling, e rio Tres Pinheiros e a sanga do Espinho; pela margem esquerda, o rio Josaphat ou do José Feil, o arroio dos Dahl, a sanga dos Teixeiras, o rio dos Alaggios e o rio do Chapéo.

Alfredo Varella, na sua obra - O Rio Grande do Sul - dá para o rio Tres Forquilhas mais os seguintes affluentes que não conhecemos: arroio da Encantada, das Pedras e das Larangeiras. Suppomos que o arroio da Encantada seja o rio dos Tres Pinheiros e que do das Pedras seja o arroio do Padre.

As embocaduras dos tres ultimos affluentes do rio Tres Forquilhas formam as forquilhas que lhe deram o nome.

Encontramos tambem em documentos antigos o nome - rio da Forquilha.

O valle formado pelo rio Tres Forquilhas e sobre o qual assenta a colonia do mesmo nome é extenso e largo com uma penetração de cerca de cinco leguas.

Contrafortes da Serra do Mar ladeiam-no approximando-se em alguns pontos e noutros desdobram-se em valles menores e canhadas por onde descem as aguas dos tributarios do curso principal.

Dos altos d'esses contrafortes precipitam-se alguns veios de agua formando encantadoras cascatas que quebram o silencio d'aquellas mattas e de longe ao revérbero do sol a pino semelham traços de prata, sobre um fundo verde escuro.

Sujeito a grandes innundações, o terreno ahi é de uma fertilidade assombrosa.

Basta informar que ha pedaços de terra que vêm sendo cultivados ha quasi um seculo, sem adubação alguma, offerecendo sempre colheita tão farta como a que recolheram os primeiros colonos.

O rio Tres Forquilhas é navegavel em parte. O porto principal é o dos Allagios. Rio fundo e de aguas cristalinas, bordado de mattas alterosas, é um encanto a viagem por elle acima.

Logo á entrada da barra, sobre a margem esquerda e á sombra da Serra, ha campos de banhados de excellente qualidade, onde pasta gado medio e são abundantes as aves aquaticas que voltejam em bandos enormes confundindo os seus diversos pios. Emprestam á paysagem um lindo effeito aquelles milhares de azas de todos os tamanhos e de todas as côres, numa louca confusão, a descreverem curvas e contra-curvas num doido volutear, até que a embarcação se afaste e aquella nuvem alada desça tranquila aos seus dominios pantanosos.

Começam depois os mattos de um e outro lado a se mirarem no espelho das aguas. Aqui, uma canoa presa por cipó a alguma estaca, á frente de risonha habitação que apparece sobre o barranco alteroso do rio meio encoberta por arvores que o machado devastador alli deixou para abrigo da modestia, dá verdadeiros saltos quando as aguas se agitam em pequenas ondas regulares á passagem da lancha. Alli, são figueiras enormes de cujos galhos pendem flocos de barba de páo por entre orchydeas odorantes e vistosas, que encantam a vista. Acolá, roças á beira-rio onde homens e mulheres trabalham alegremente, ou cortando as cannas já sazonadas para fabrico de assucar ou arroteando o terreno para novas plantações.

Tudo isso de par com o suave canto dos passaros que povoam os mattos ribeirinhos, alegra o excursionista já deslumbrado ante o espectaculo grandioso daquella natureza maravilhosa.

Ao fundo, a silhueta graciosa da Serra do Mar, cujos taymbés se vêm distinctamente enclinados nos mattos ralos dos quaes sobressahem vetustos pinheiros, firmes alli como sentinellas seculares que lá estão á beira dos campos de Cima da Serra, testemunhas mudas de toda a historia daquella terra e d'aquellas gentes.

Á direita estão os morros do Chapéo e dos Tres Irmãos; á esquerda surge o dos Tres Pinheiros.

Pelas encostas se divisam manchas de um verde claro como que retalhos sobrepostos áquelle vasto manto de verdura que cobre montes e canhadas. São as plantações de canna de assucar, cultura preferida naquella zona, e que offerece aos agricultores vantagens melhores que qualquer outra.

Os primeiros colonos foram estabelecidos por ambas as margens dos rios nos terrenos de varzea como chamam alli á planície. Successivas enchentes, entretanto, os foram obrigando a procurar as encostas, de modo que hoje poucas habitações restam das primitivas.

Contam-se alli verdadeiros horrores das enchentes. São casas arrancadas; centenas de animaes arrastados pelas aguas; familias inteiras que pereceram; plantações destruídas e até cadaveres a corrente arrebatou do Cemiterio.

O Governo Imperial ao fundar a Colonia, mandou demarcar a cada familia ou colono um lote de terreno ou data, formando-se assim uma extensa picada, de Oeste para Lesta. Em geral os lotes ou datas fazem frente ao rio, variando muito quanto á sua extensão. Ha os de 1.600 até 2 mil e tantos metros de fundo. A arca primitiva de cada lote, segundo os documentos consultados era de 160.000 braças quadradas, que corresponde a 77 Hectares mais ou menos.

A posição geographica da Colonia era excellente. Em 5 horas, no maximo, ia-se do extremo leste da picada aos campos de Cima da Serra.

Havia dois caminhos. Um sahia nas Contendas e o outro na Fazenda de Manoel Marques da Roza.

Não nos foi possivel encontrar uma planta geral da Colonia. Cremos mesmo que não exista, porque empregamos esforços para encontral-a e elles foram baldados.

Sómente um novo levantamento completo nos permittirá conhecer a verdadeira localização de todos os lotes.

Nos primeiros annos da Colonia houve duvidas e contendas entre os colonos por que não foram executados como o deveriam ser os trabalhos de demarcação.

Hoje, entretanto, apezar de se encontrarem muito subdivididas aquellas terras é pacifica a situação de todos os proprietarios.

Cada familia cultiva as suas terras e mantem abertas as linhas de divisa, havendo respeito por parte dos confinantes.

Manoel Fernandes Bastos."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 03 de Novembro de 1926, pág. 01, col. 05-07; pág. 02, col. 01

Uma rifa portuguesa


"Em Guimarães, província do Minho, Portugal, um sujeito rifou sua mulher e sua filha.

O preço dos bilhetes para a primeira era de 200 rs. e de 500 rs. para a segunda.

A filha tocou por sorte a um padeiro, que a reclamou; a mãe, porém, que não sabia que havia sido rifada com sua filha, ao ter d'isso noticia, correu a contar o facto ás autoridades policiaes que metteram no xadrez o rifador das duas mulheres."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 18 de Janeiro de 1892, pág. 02, col. 01 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sangue-frio


"(...)

Refere-se o Correio Mercantil:

<<Informam-nos de que um trabalhador da estrada de ferro, da secção de Maria Gomes, tendo-se ha dias deitado a dormir no campo, foi mordido por uma grande cobra jararaca, no dedo indicador da mão direita.

<<Esse homem teve tal presença de espírito, que, sem fazer o menor estrepito, tirou de um facão que trazia á cinta e com elle cortou o dedo mordido!

<<Este valente veio imediatamente para a cidade, onde foi medicado pelo sr.dr. Miguel Barcellos, e curado na pharmacia Popular, do sr. J. da Silva Silveira."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 10 de Março de 1884, pág. 01, col. 04

África - o novo horizonte agrícola internacional


Importante reportagem disponível no canal Le Monde Diplomatique Brasil no YouTube.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A Colônia de Três Forquilhas - Parte 02


"2. - Controversia

No Retrospecto Economico e Financeiro do Rio Grande do Sul, 1822-1922, organisado pelo Dr. Florencio Carlos de Abreu e Silva e publicado no Volume 8o. da Revista do Archivo Publico do Estado, diz esse nosso historiador que a colonia de São Pedro das Torres foi fundada com o estabelecimento de 86 familias allemãs, das quaes 28 d'alli se retiraram, dois mezes depois, formando um total de 182 individuos, que fundaram a Colonia de Tres Forquilhas. Essas 28 familias eram todas protestantes.

Parece haver um equivoco, determinado, certamente, por informações erroneas colhidas em documentos que não foram escriptos com o necessario escrupulo que sómente os historiadores devem observar: tanto mais facil de occorrer quanto não se trata de um ponto de grande importancia.

Entretanto, como pretendemos emprestar a este nosso trabalhinho o cunho de maior veracidade historica, vamos insistir um pouco neste ponto controvertido.

Talvez o nosso esforço estimule outras energias e provoque novas contribuições que façam toda a luz sobre o caso.

*****

A nossa opinião é que as duas colonias estabeleceram-se simultaneamente. A de São Pedro de Alcantara com o elemento catholico; a de Tres Forquilhas com o protestante.

Fundamo-nos no seguinte:

Na sua Memoria das Torres apresentada por Francisco de Paula Soares em 01 de Novembro de 1847 ao Governo da Provincia, documento que se encontra na Secção Historica do Archivo Publico do Estado, diz o fundador da Colonia das Torres:

'Os colonos protestantes como não precisavam serem soccorridos pelo Cura das Torres, os colloquei com seu Pastor e Medico, 8 leguas mais ou menos distantes da povoação ou Prezidio, nas pingues margens do rio das 3 forquilhas, em duas linhas parallelas; os colonos assim arranxados ficaram mui bem accomodados pela vantagem que gosam da navegação d'este rio.
Os colonos catholicos romanos que necessitavam serem soccorridos do Pasto espiritual pelo Cura das Torres, foram estabelecidos primeiramente pela estrada que abri no Mampituba e Rio Verde (rio este em que se abriu um paço que se acha arrematado), mas como sobreviesse uma não esperada inundação que desalojou a muitos de suas casas, por ordem do Exmo. Presidente Maciel foram transferidos para os terrenos devolutos que haviam entre a lagoa do Morro do Forno e do Jacaré onde acham-se arranxados', etc.

No mesmo documento o referido Tenente-Coronel informa que, projectada que foi em 1825 a fundação de uma colonia de allemães nas Torres, logo que elle concluiu os trabalhos da Egreja e do Cemiterio (no Prezidio) passou a 'tratar da abertura da estrada do rio Mampituba que divide esta Provincia com a de S. Catharina, e a do rio das 3 forquilhas que desagoa na lagoa do Armazem descendo da Serra, nas quaes se devia estabelecer'.

À margem do referido documento ha umas notas. Uma d'ellas é concebida nestes termos:

'Sendo o Exmo. S. Leopoldo (Visconde de) chamado para o Ministerio, ordenou que fossem os colonos collocados ao longo das estradas que se tinham aberto e o Exmo. V. de Camamu que então administrava a Provincia me encarregou de assim praticar'.

O rio Tres Forquilhas em certa altura tem o nome de rio do deposito.  A tradicção informa que naquelle ponto - desembarcara os colonos fundadores de Tres Forquilhas. Alli, á margem d'aquelle rio, foi levantada uma construcção para abrigo dos colonos, dando-se-lhe o nome de Deposito.

Ora, si os fundadores de Tres Forquilhas procedessem de S. Pedro de Alcantara, o seu transporte teria sido feito por terra, preferentemente, porque, para tomarem qualquer embarcação na lagoa de Itapeva, estavam obrigados a um grande trajecto, quasi tão penosa como o que os levaria de uma vez ao sitio das Tres Forquilhas.

Para esclarecer este ponto consultamos ainda os Relatorios e Falas dos Presidentes da Provincia.

Nos Relatorios anteriores a 1851 pouco se diz sobre as colonias de Tres Forquilhas e Sâo Pedro de Alcantara. Pela leitura do pouco que alli se encontra, chega-se á conclusão de que, infelizmente, não havia por essas colonias o devido interesse. Jogados que foram aquelles pobres colonos numa zona muito distante da capital, tiveram elles de luctar por si sós contra toda a sorte de difficuldades, como teremos occasião de ver. A Colonia allemã de que se fallava, então, era a de S. Leopoldo. Proximo da Capital, as vistas do Governo estavam sempre voltadas para ella e havia a maior solicitude em facilitar-se-lhe quanto era preciso para apressar e garantir o seu desenvolvimento material e assegurar o bem estar da população.

O Presidente João Luiz Vieira Cansanção de Sinimbu, no seu Relatorio de 1853, dizia:

'Já não podem ser consideradas colonias. (Referia-se a Tres Forquilhas e Torres). Seus habitantes acham-se confundidos na massa da população do paiz', etc.

Ainda no seu Relatorio de 1854 repetia:

'...já não merecem ser mencionadas nem as das Torres e Tres Forquilhas, por se acharem já quasi fundidas na massa da população do paiz'.

Si não sobreviesse um facto que chamou novamente a attenção do poder publico para aquelles dois nucleos coloniaes, estariam elles d'ahi em deante esquecidos completamente e nenhuma menção mereceriam nos futuros Relatorios. Esse facto foi a visita que se dignou fazer-lhes o Presidente Sinimbu em principios de 1855.

Do que viu e observou aquelle Presidente deu conta em officio de 1o. de Março do mesmo anno dirigido ao Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Imperio. D'esse officio trasladamos para aqui o que segue:

'...Além d'estas existem na Provincia tambem as duas colonias agrícolas de São Pedro de Alcantara das Torres e Tres Forquilhas, das quaes nunca fiz menção especial em meus realatorios, por falta de informações officiaes, e só dellas posso agora fallar por as ter visitado.

No anno de 1826 mandou o Governo d'esta Provincia 86 familias allemãs estabelecerem-se no districto das Torres, extremidade Norte e limitrophe com Santa Catharina: A cada uma d'essas familias se mandou abonar subsidios por dous annos, sendo no primeiro a diaria de 160 réis, e no segundo anno a de 80 réis, com o que se despendeu 31:7018$00. Findo o termo de subsidio, retiraram-se 28 familias com 123 pessoas e mais 50 individuos solteiros, incapazes de se empregarem no trabalho rural. As familias que restaram se dividirão: no logar das Torres ficarão todas as que pertenciam á Egreja Catholica, e as protestantes foram situar-se na margem do rio Tres Forquilhas, a duas leguas de sua embocadura na lagôa dos Quadros. (Houve engano: é a lagôa da Itapeva).

Mais adeante:

'É Pastor Protestante Carlos Leopoldo Voges, que a 28 annos reside na Colonia'.

Ora, vê-se claramente por esse importante documento que dois annos após á chegada dos primeiros colonos, retiraram-se 28 familias com 123 pessoas e mais 50 individuos solteiros, mas que esses immigrantes não foram fundar Tres Forquilhas. As duas colonias formaram-se com as familias que restaram, que permaneceram no logar.

A fonte do erro, sem duvida alguma é o Relatorio que em 1856 apresentou á Assembléa Provincial o Presidente Jeronymo Francisco Coelho.

Lê-se naquelle Relatorio o seguinte:

'A Colonia das Torres foi estabelecida no anno de 1826 com 86 familias allemãs, no fim de 2 annos, tendo-se retirado 28 familias protestantes com 182 individuos, ficarão ahi sómente 35 que pertenciam á Igreja Catholica.

(...)

A Colonia de Tres Forquilhas

(...)

Foi fundada em 1826 com as 28 familias protestantes que se haviam retirado da Colonia das Torres.'

Ha contradicção flagrante. Um Presidente informa que no fim de dois annos retiraram-se da Colonia 28 familias incapazes de se empregarem no trabalho rural; outro, que essas familias foram fundar Tres Forquilhas. A retirada d'aquellas familias occorreu em 1828; entretanto, do segundo Relatorio consta que ambas as colonias foram fundadas em 1826.

Deante d'essa contradicção, fica de pé, como unica informação de valor, até que novas pesquizas convençam do contrario, o Memorial apresentado pelo fundador da Colonia, Francisco de Paula Soares.

Outras informações prestadas pelo mencionado Tenente-Coronel estão inteiramente accordes.

Eil-as:

Officio de 16 de Março de 1830, dirigido ao Presidente Caetano Maria Lopes Gama:

'Que a Colonia de sua inspecção (referia-se a São Pedro de Alcantara e Tres Forquilhas) teve seu principio em Novembro de 1826, entrando para ella 422 colonos allemães, tendo nascido 85 e fallecido 24, pelo que deveriam existir na mesma, 462, mas que faltam 61 para o estado completo e isto porque emigraram os colonos solteiros logo que se concluiu o pagamento do subsidio, bem assim algumas familias das quaes os chefes eram artifices, convindo-lhes mais o exercicio de seus officios mechanicos do que os trabalhos da agricultura.'

Por ultimo, chamamos a attenção para o Relatorio que em 1851 apresentou ao Governo da Provincia o então Director das Colonias Allemãs, Dr. João Daniel Hillebrand, pessoa de notoria auctoridade:

'Tres Forquilhas - Esta Colonia assim como a de São Pedro das Torres, teve sua origem no anno de 1826, epocha em que foram para ahi mandados os primeiros transportes de Allemães escolhidos entre os que vieram de São Leopoldo e a sua actual população, etc., etc.'

Manoel Fernandes Bastos."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (RS), 21 de Outubro de 1926, pág. 01, col. 05-07; pág. 02, col. 01
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