quarta-feira, 6 de junho de 2018

A casa de feiticeiras da Várzea


"Lê-se na <<Gazeta de Noticias>>:

<<Tendo o sr. Manoel Luiz da Cunha, subdelegado de policia de Pelotas, denuncia de que, em uma casa na Varzea, algumas negras entretinham-se no celebre officio de feitiçaria ou manipancio,  para alli se dirigiu na noite de 17, depois de concluido o espectaculo da companhia Loyal's, acompanhado de seu escrivão, do capitão Delfino e de diversas praças da policia.

Ahi chegados, foram recebidos com todas as honras pela feiticeira, que dizia ser enviada de Deus para salvar a humanidade!

Em um quarto no interior da casa viam-se espalhadas mais de cincoenta tigelas de barro, contendo um liquido côr de leite, algumas vasilhas de louça com pedaços de carne, pennas de gallinha, sangue, sapos, e uma infinidade de objectos, estando o quarto illuminado com velas de sebo!

Algumas imagens de barro e outras em quadros completavam o adorno desse quarto dos mysterios.

Na sala, em um canto, estavam collocadas duas pedras, ensebadas e salpicadas de sangue, um copo com um liquido côr de leite, um outro com vinho, pennas de gallinhas e tambem illuminado com velas de sebo.

A feiticeira, a todas as perguntas que se lhe fazia, respondia que era enviada de Deus, e que seus trabalhos eram feitos de porta aberta, para que todo o mundo os vissem!

Disse tambem que aquella tinha preparado uma succulenta ceia de bolos de bacalháo para convidar o sr. delegado de policia, que era muito seu conhecido e que costumava ceiar algumas vezes em sua companhia.>>"

Fonte: O LIBERAL DO PARÁ (PA), 23 de Fevereiro de 1878, pág. 01, col. 03

terça-feira, 5 de junho de 2018

Matias de Albuquerque


"Patriota brasileiro, nascido em Olinda (PE), em data desconhecida, morto em Lisboa, em 1647. Foi grande soldado na luta contra os holandeses que se estabeleceram no Brasil a partir de 1624. Os holandeses aportaram na Bahia, prenderam o governador do Brasil e o remeteram para a Holanda. Designado para substituí-lo, Albuquerque organizou a resistência. Em 1626 deixou a governadoria e foi à Europa, de onde trouxe reforços. Apesar disso, os holandeses venciam e em 1630 dominavam também Olinda e o Recife. Albuquerque então fundou o Arraial do Bom Jesus, de onde por mais de cinco anos chefiou guerrilhas contra o invasor holandês. Vítima de intrigas, foi chamado a Lisboa e lá esteve preso até 1640, quando Portugal se libertou do domínio espanhol. Em 1644 venceu a Batalha de Montijo, contra a Espanha, e foi feito Conde de Alegrete pelo Rei D. João IV."

Fonte: Dicionário Cívico-Histórico Brasileiro, 1980.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quilombo em Cerrito/RS


"PELOTAS

11 de janeiro:

(...)

- Diz a Discussão:

<< Somos informados de que, nas proximidades do Cerrito, existe um novo quilombo, que conta regular numero de pretos fugidos.

<< Na semana passada alguns d'estes pretos carnearam rezes na chacara do Sr. Henrique de Moraes Patacão e assaltaram a dispensa da quinta do sr. José B. de Campos, d'onde furtaram grande quantidade de mantimentos.

<< Os moradores d'aquellas immediações reclamam a attenção da policia, pois ali vivem em completo sobresalto.>>"

Fonte: A FEDERAÇÃO, 14 de Janeiro de 1885, p.02, c.02-03

domingo, 3 de junho de 2018

A Quadrilha das Mulheres-Homens


"- Diz o Diario de Pelotas:

<<Informão-nos que quasi todas as noites apparecem em algumas ruas da cidade certos vultos vestidos de mulher, cujos vultos pertencem ao sexo masculino.

<<Ante-hontem (18) foi um desses industriosos, permitta-se-nos assim chamal-os, encontrado na Rua Yatahy, entre as do General Netto e Voluntarios.

<<Serão essas mulheres-homens pertencentes a alguma quadrilha de gatunos que pedem pousada para praticarem suas gentilezas mais a salvo."

Fonte: O LIBERAL DO PARÁ (PA), 17 de Março de 1877, pág. 01, col. 05

sábado, 2 de junho de 2018

A grande invasão de Jaguarão em 1865


"Rio Grande do Sul.

Tinha invadido a fronteira do Jaguarão uma partida de blancos, commandada por Bazilio Munhoz, cuja missão é assolar no territorio brazileiro as povoações indefezas, ou que apenas lhe possam offerecer uma debil resistencia. Considerando neste caso a cidade de Jaguarão, atacou-a Munhoz no dia 27 do passado com 1,500 homens de cavallaria, que foram repellidos com galhardia.

O tenente-coronel José Auto, que já se achava em Bagé, tinha sido obrigado a voltar para Jaguarão dando montada á todo o seu batalhão.

Eis o que encontramos nas folhas do Rio-Grande sobre este acontecimento:

O Diario de 31 de Janeiro diz:

<<Infelizmente vão se realizando as más novas que desde sabbado corriam com referencia a approximação de forças blancas á fronteira de Jaguarão.

<<As ultimas noticias recebidas em Pelotas por um segundo proprio são datadas de 28, e confirmam a passagem de mil e tantos assassinos pelo passo da Armada, que ficavam em frente a cidade de Jaguarão, tendo já havido algum tiroteio.

<<O inimigo acampara-se nos arrabaldes da cidade, entre os cemiterios, tendo horas antes desligado uma força de 400 sicarios, talvez que para assaltarem os pequenos povoados do Arroio Grande ou Herval, que estão completamente abandonados de forças imperiaes.

<<Jaguarão, porém, julgava-se forte, capaz de resistir e repellir o vil inimigo.

<<Além da força de 600 homens que alli se acham, e do 10o. batalhão de infantaria, esperado a todos os momentos de Bagé, aggregaram-se á ella todos os guardas nacionaes da reserva, e muitos estrangeiros, como se fossem Portuguezes, Orientaes colorados, Allemães e Francezes, offerecendo-se estes ultimos para tomar conta das peças dos vapores Apa e Cachoeira e a do lanchão da mesa de rendas, que foram immediatamente postas em terra e a elles entregues.

<<Além desses recursos, que os julgamos sufficientes para rechaçar o inimigo, o Sr. Presidente da Provincia fez seguir para alli, domingo pelas 7 horas da manhã, no vapor Rio Grandense, 50 guardas nacionaes da secção da cidade de Pelotas, commandados pelo Sr. Tenente Julião José Tavares: e hontem embarcaram tambem para aquella cidade, no vapor Especulação, duas peças com todos seus petrechos e munições.

<<Ainda que um pouco tarde, as providencias se vão tomando; mas muito melhor teris sido se já se houvesse tomado, porque então esses bandidos não teriam tido o arrojo de invadir nosso territorio.

<<Será para estimar que a licção aproveite, e nesta convicção pedimos a S. Exc. o Sr. Presidente da Provincia que quanto antes mande engrossar, não só as guarnições das fronteiras, como as das importantes cidades do Rio-Grande e Pelotas.>>

A mesma folha de 1 do corrente accrescenta:

<<O estafeta de Jaguarão chegou hontem de tarde, com cartas de 29 as 7 horas da noite.

<<Os blancos atacaram de facto aquella cidade, mas não a penetraram e foram repellidos com toda a energia, apezar da falta de recursos que se fazia sentir.

<<A carta que em seguida apresentamos, que é escripta por pessoa fidedigna e dirigida á um Sr. Commerciante desta praça, orientará plenamente o leitor do que alli houve.

<<O inimigo retirou-se com direcção a Bagé, depois de 30 horas de resistencia, arrebanhando para mais de tres mil cavallos e muitos escravos, e saqueando todas as casas que encontravam.

<<Uma carta, porém, do Arroio Grande noticia que o numero de escravos arrebatados pelos vandalos subia a cem.

<<A' Jaguarão deveriam ter chegado hontem 1,600 homens, sob o commando do Sr. Coronel Barão de Serro-Alegre, sendo 1,200 de cavallaria e 400 infantes do 10o. batalhão, com ordem de perseguir o inimigo até Taquary, no Estado Oriental.

<<Eis a carta á que nos referimos:

<<Sobre a madrugada do dia 27 principiou a força blanca ao mando do general Bazilio Munhoz com 1,500 homens de cavallaria a transpor a nossa fronteira pelo passo denominado da Armada. Os nossos dous corpos de cavallaria da guarda nacional com 300 e tantos homens, que estavam de observação proximo ás fronteiras, vieram fazendo guerrilhas com o inimigo, até que se viram forçados a entrar dentro da cidade a galope, deixando apenas um espaço de 100 passos do inimigo quando [nota nossa: trecho ilegível] que entrou o nosso ultimo soldado, a brava 3a. companhia avulsa da guarda nacional ao mando do intrepido capitão Emygdio José de Sant'Anna fez sobre o inimigo uma vivissima descarga, que o obrigou a retirar-se, ficando nessa occasião alguns mortos e perto de vinte feridos do inimigo. Esta força que esperou o inimigo guarnecia a unica bocca da rua que estava sem trincheira, em frente á casa de Polydoro A. Costa.

<<O cantão immediato, junto á casa do major Simplicio, foi igualmente atacado pelos blancos e com energia repellidos.

<<Cumpre observar que quando estes malvados vieram de marcha batida sobre a cidade foi na certeza de não a encontrarem com trincheiras, estas foram começadas na tarde do dia 25 e terminadas ao escurecer do dia 26, e, se hoje estamos com vida, devemos á inaudita actividade do ex-primeiro tenente da armada Pedro Maria Amaro da Silveira, que de motu proprio tomou sobre si essa tarefa, contra a vontade de muita gente, e com especialidade das nossas autoridades militares, que diziam que os blancos cá não vinham.

<<Ao meio-dia do dia 27 mandou o chefe dessa horda de canibaes um parlamentar com officio ao coronel commandante desta guarnição, intimando-o a que nos rendessemos e entregassemos a cidade, sob pena de ser este responsavel com sua vida pelas desgraças, que sobreviessem no caso de não acceder a essa intimação: a resposta foi energica e condigna com os brios da nação brazileira.

<<O inimigo durante todo o dia conservou-se em frente á cidade, e á noute retirou-se para fóra, levando os feridos em carretilhas, depois de haverem enterrado os mortos.

<<De nossa gente apenas perdemos um homem velho que nas guerrilhas cahio do cavallo, ao qual, depois de o lancearem, lhe tiraram os olhos, castraram-o e o estrangularam! Veja que humanidade!!

<<Tivemos dous feridos inclusive o major Anacleto Porto, que supponho não escapará. Nos arrebaldes da cidade saquearam horrivel e desapiedadamente, não exceptuando a mais insignificante choupana: o que não podiam levar quebravam, estragavam e reduziam a ruinas. As casas de Hypolito Passos e João de Farias Santos sofreram prejuizos no valor de mais de... 16:000$: e a algumas casas lançaram fogo. Roubaram cavalhada em numero de mais de 3,000; enfim, foi um disforço do que fizeram em Paysandú, não a nossa gente, mas sim os seus proprios compatriotas.

<<Não finalizo sem render um tributo de homenagem aos estrangeiros aqui residentes, e com especialidade os Portuguezes, que se portaram como verdadeiros guerreiros, fazendo a guarnição dos cantões e sahindo muito fóra das trincheiras em grande distancia, para provocar o inimigo a que chegasse, e a fazerem fogo com vontade de brigar. Estes homens estavam como leões, e em seus semblantes se notava o desejo ardente que tinham de destroçar o inimigo.

<<Hoje (29) consta que o inimigo seguio com direcção ao Herval, onde pretende continuar na sua cruzada de devastação e pilhagem!

<<E' preciso, meu amigo, providencias do nosso governo, que se tem tornado pouco previdente, para evitar que estes malvados não se approximem de nossas fronteiras; e, se de prompto não forem tomadas, acredite que esta provincia muito terá que soffrer.

<<De muito nos serviram aqui as duas canhoneiras que, collocadas nos flancos da cidade, a deffenderem energicamente, quer deste lado, quer do outro em Artigas, e muito concorreram para afugentar o inimigo.

<<Estamos á espera de recursos do Presidente da Provincia, e até esta hora (6) ainda nada dahi veio apenas hontem á tarde chegou um lanchão de guerra de Pelotas com 50 tercerolas, algumas lanças e munição: o mais necessario, que eram espingardas, não veio.

<<Conservam-se fóra e em distancia da cidade piquetes de avançada para descobrir o inimigo, e todos neste pequeno Sebastopol estão promptos a resistir.

<<O estafeta está proximo a partir e não me sobra tempo para ser mais minucioso nas peripecias deste ataque.

<<Até esta data não consta que se tenha movido força alguma do general Flores em perseguição desses assassinos.

Antes deste ataque expedira Munhoz, que se intitula general em chefe do exercito da vanguarda, uma proclamação declarando que vinha reconquistar o territorio que o Imperio havia usurpado!

A força invasora é acompanhada por um Andel Muniz, chefe do departamento do Serro-Largo, segundo declara, o qual tambem proclama chamando as armas todos os que puderem empunhál-as para acompanhar aquelle caudilho na sua obra de roubo e de devastação.

Na previsão de novos ataques no mesmo ou em outros pontos, tomava o Presidente da Provincia medidas para que os invasores recebessem uma boa lição.

Por sua parte as populações desenvolviam grande enthusiasmo."

Fonte: JORNAL DO RECIFE (PE), 25 de Fevereiro de 1865, pág. 02, col. 01-03


sexta-feira, 1 de junho de 2018

João Jacintho de Mendonça


Por Fernando Osório

"O Duque de Caxias, em carta ao General Osório, referia-se a este notável pelotense: 'Muito me penalizou a morte do nosso comum amigo João Jacintho de Mendonça, que de certo foi uma perda para a Província do Rio Grande, pois era um talento e um ótimo caráter'.

Ao falecer (3 de junho de 1869) o seu nome ocupava o primeiro lugar na lista tríplice que ia ser submetida à escolha do imperador. Era irmão do Dr. Joaquim Jacintho de Mendonça, outro respeitável pelotense, probo magistrado, administrador e político, de palavra elegante, que governou Sergipe e a terra natal, foi deputado e mereceu o título de conselho do governo de Pedro II.

O Dr. João Jacintho de Mendonça nasceu na Vila de S. Francisco de Paula (cidade de Pelotas) em 16 de março de 1817, sendo seus pais o Capitão João Jacintho de Mendonça e D. Florinda Luiza da Silva. Em 1836 formou-se na escola médico-cirúrgica da corte. Foi, a par de Pedro Chaves, Francisco Brusque e Secco, que apareceu João Jacintho de Mendonça, eleito pela primeira vez deputado na eleição de 1852.

Estreando nobremente na senda espinhosa da política, conseguindo assinalados triunfos na tribuna, trocou mais tarde o apostolado de médico pela missão de estadista. Contudo, nunca a pobreza bateu-lhe em vão à porta, e nas quadras calamitosas em que a cólera morbus acometeu esta cidade, prestou o distinto médico serviços notáveis. Durante a legislatura de 1862 a 1865, em que o partido progressista conseguiu levar à câmara todos os deputados, o Dr. Mendonça esteve proscrito, afastado dos negócios públicos. Chamado a presidir os destinos da província de S. Paulo, e isto em uma época melindrosa, foi tão importante o seu tino administrativo, que a imprensa liberal foi a primeira a render-lhe homenagens.

Uma das datas mais memoráveis dos anais da assembleia legislativa provincial é sem dúvida aquela em que Félix da Cunha, Silveira Martins, Felippe Nery e Mendonça discutiram, além de outros assuntos de elevada política, sobre o direito de revolução. Foi uma luta brilhante, titânica! 

Em 3 de junho de 1869 faleceu na cidade do Rio de Janeiro o ilustre filho do Rio Grande, ocupando o primeiro lugar na lista tríplice para senador. Os vagalhões ameaçadores das conveniências nunca puderam minar-lhe a força de ânimo, que era sobretudo o seu mais notável atributo. A sua eloquência conquistou-lhe uma reputação brilhante: a lealdade aos princípios pagou-lhe a província do Rio Grande, conferindo-lhe por mais de uma vez o diploma de seu representante na assembleia legislativa e no parlamento."

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A História das Bebidas Destiladas

"As bebidas são destiladas por meio de dois processos diferentes. O primeiro se dá no alambique tradicional e mais artesanal. Chamado de pot still, esse alambique é constituído de um tacho de cobre em que se aquece a matéria-prima a ser destilada e de uma serpentina que leva o vapor até o condensador, onde volta ao estado líquido. O outro método é conhecido como continuous. Neste processo, utiliza-se outro tipo de alambique, formado por duas colunas de metal de até 25 metros de altura. O líquido frio entra na primeira coluna, passa por tubos em espiral, é aquecido por vapor e vai para a outra coluna. Ali, ele é resfriado, voltando em seguida ao estado líquido. Depois, é redestilado, num sistema contínuo e mais rápido.

(...)

Armagnac
Ao contrário do que muita gente pensa, o armagnac não é um tipo ou variedade de conhaque. Mas, apesar de não ser o mais conhecido, é o mais antigo destilado da França. Documentos do século XIV já mencionam uma eau de vie - aguardente - da região de Armagnac, que começa no sul da cidade de Bourdeaux e se espalha em direção às montanhas dos Pirineus, divisa com a Espanha. Segundo a lenda, o armagnac era a bebida favorita de D'Artagnan, o famoso mosqueteiro do romance de Alexandre Dumas inspirado no marechal Charles de Batz. Foi criada até uma confraria, a dos 'Mousquetaires', que ainda se reúne na cidade de Auch, para beber e divagar sobre o destilado.

Vários detalhes fazem a diferença entre o conhaque e o armagnac: este é produzido a partir do vinho branco feito com uvas que nascem em solo arenoso; e o conhaque, de uvas de solo calcário. O clima de Armagnac é rigoroso, muito quente; enquanto o de Charentes, terra do conhaque, na região de Cognac, é marítimo, doce e brumoso. O conhaque é feito por um processo de dupla destilação; e o armagnac, obtido de uma única destilação. Por fim, o armagnac não pode ser produzido por meio de cortes (misturas de produções de anos e lotes diferentes). Já o conhaque é feito através do blend de vários barris. Três zonas produtoras fazem parte da região de Armagnac: Haut-Armagnac, que faz um produto considerado menos nobre; Bas-Armagnac e Ténarèze, responsáveis pelos melhores produtos. O armagnac recebe as seguintes denominações, entre um e três anos de envelhecimento; V.S.O.P. (iniciais da expressão inglesa very special old pale), que significa apenas que a bebida foi envelhecida por mais de quatro anos; e hors d'âge (em português, muito velho), mais de seis anos. Além deles, existem os millesimés - ou seja, de safras excepcionais, considerados as elites dos armagnacs - , que especificam no rótulo o ano em que foram produzidos. Boas marcas de bebidas são o Leberdolive, o Francis Darroze, o Janneau e o Marquis de Montesquieu.

Arak
Existem vários destilados que levam esse nome, todos originários de países do Oriente,
como Índia e Arábia Saudita, e da Europa Oriental, caso da Grécia. São feitos a partir de álcool de grãos de cereais, tâmaras ou da seiva de coqueiros, prensados para fermentar e que são, depois, destilados. Alguns países, durante a destilação, aromatizam a bebida com anis. Na Índia fabrica-se o arak destilando-se a seiva fermentada da palmeira ou grão de arroz. No Egito, prefere-se utilizar as tâmaras. A Grécia faz o seu arak com álcool obtido de grãos. Nessa categoria de destilado, o melhor tipo, o Batávia Arak, é produzido na ilha de Java, na Indonésia, a partir da mistura de arroz fermentado e melado de cana-de-açúcar. Esta bebida, aromatizada com anis, envelhece entre sete e dez anos. Deve ser servida como aperitivo ou digestivo em pequenos cálices.

Aquavit
Vem dos países escandinavos, principalmente Dinamarca e Suécia. É destilada de cereais ou batatas, e comercializada pura ou aromatizada com ervas e especiarias. Na Suécia, onde teria surgido por volta de 1498, a bebida também é conhecida como snaps, e destilada inicialmente do vinho. Apenas no século XVIII é que se começou a utilizar batatas na produção da aquavit. Depois de descascadas, elas são fervidas no vapor, misturadas com malte de cevada e com outros grãos. Essa pasta é então fermentada e destilada, quando perde o sabor acentuado da batata. Grãos de cominho e laranjas amargas conferem aroma à bebida.

Já na Dinamarca ela é conhecida como schnapps. A destilação também é feita de grãos e batatas e o produto é, depois, aromatizado com ervas e especiarias. O país produz, desde 1846, a marca de aquavit mais famosa e exportada do mundo, a Aalborg Akvavit.

Apesar de fazer menos espirituosos que a Suécia e a Dinamarca, a Noruega é o país que tem mais rituais para a preparação da bebida. Apostando na crença de que a qualidade melhora se passar um período no mar, os noruegueses colocam o destilado em tonéis de xerez, e os mandam para uma viagem, em cargueiros, de ida e volta até a Austrália - cruzando duas vezes a linha do Equador. Os fabricantes garantem que o balanço do navio, as mudanças de temperatura no percurso e a maresia tornam o aquavit ainda melhor. Sua marca mais famosa é a Linie Aquavit.

A aquavit deve ser bebida bem gelada, em pequenos cálices previamente colocados no congelador.

Bagaceiras e aguardentes portuguesas
Praticamente todas as regiões de Portugal produzem um destilado de uvas vínicas.
Começaram sendo feitas em pequenas quintas apenas para consumo familiar, passando depois a ser produzidas nas cantinas de forma artesanal e em pequena escala. As bagaceiras são provenientes da destilação direta dos bagaços frescos da uva em grandes caldeiras. Geralmente, é tomada como digestivo. Já as aguardentes velhas provêm de vinhos previamente destilados e que envelhecem em barris de carvalho. A região dos Vinhos Verdes de Lafões e a do Ribatejo têm os melhores produtos, com aromas finos e delicados. Boas marcas são Anticua, Carvalho Ribeiro, Ferreira, Palácio da Brejoeira e Aveleda. São servidas na temperatura ambiente em pequenos cálices.





Bourbon e Tennessee whiskey
Um pregador protestante foi o responsável pelo surgimento do Bourbon. Elijah Craig, ministro batista, instalou-se no Estado de Kentucky, nos Estados Unidos, em 1786, onde ergueu uma igreja e começou a plantar e destilar milho. O milho era misturado com cereais para preparar o malte e destilado em alambique de cobre. Atualmente, a bebida não pode ser fabricada com menos de 51% de grãos de milho (o restante da composição é feito com centeio e malte de cevada) e descansar por, no mínimo, dois anos em barris de carvalho branco, queimados por dentro com carvão vegetal - quando adquire cor, suavidade e buquê característicos. As principais marcas são o Jim Beam e o Wild Turkey.

Produzido de forma artesanal, desde 1866, na cidade de Lynchburg, no Estado americano do Tennessee, o Jack Daniel's difere um pouco do bourbon, e recebe o título de Tennessee Sour Mash Whiskey. As diferenças começam em sua composição, que leva 80% de milho e os 20% restantes de cevada maltada e centeio. Esse mosto é fermentado e destilado, num processo igual ao do bourbon. Em seguida, é filtrado gota a gota em colunas de carvão vegetal, e parte depois para um merecido repouso em tonéis de carvalho. O descanso vai durar entre quatro e seis anos, dependendo sempre da quantidade de calor, já que com temperaturas mais quentes ele envelhece mais rápido.

Calvados
A melhor aguardente de maçã do mundo é originária da região francesa que lhe empresta
o nome, na Normandia. O destilado teria surgido no século XVI, na península de Contentin, a oeste de Calvados. Seu sucesso fez com que, em 1946, ele recebesse uma denominação de Appellation Contrôlée, a Calvados du Pays d'Auge, sistema francês que garante que a bebida veio de determinada região e que foi produzida conforme determinadas regras. As maçãs são espremidas e depois fermentadas por pelo menos seis semanas. Em seguida, o mosto é destilado duas vezes em alambique tradicional, e vai para os barris de carvalho, onde deve repousar por no mínimo dois anos. Uma curiosidade que cerca a bebida e a região diz respeito ao seu nome. O galeão El Calvador, da armada espanhola, encalhou, em 1588, na costa normanda e, segundo a lenda, deu seu nome à região e à bebida. A mistura de café com calvados faz o maior sucesso nos cafés parisienses. O Calvados Busnel e o Boulard estão entre as melhores marcas.

Gim
O nascimento do gim, uma bebida seca e perfumada, é bastante curioso. Sua fórmula original é atribuída ao médico holandês Franciscus de La Boe, um catedrático do século XVII da Universidade de Leiden, a 39 quilômetros de Amsterdã. Ele buscava um medicamento barato para curar os colonizadores holandeses na Índia atacados pela febre amarela. A receita do professor Franciscus aliava o álcool destilado dos cereais, como malte, cevada e milho, ao zimbro, uma planta utilizada como componente medicinal muito respeitada na Europa naquela época. O gim, a exemplo da vodca, é uma bebida destilada e retificada, ou seja, destilada novamente para eliminação de impurezas. A redestilação do gim é feita na presença de bagos de zimbro e de substâncias vegetais aromáticas, como raízes de alcaçuz e cascas de limão e laranja, canela e erva-doce.

Da Holanda, o gim naturalizou-se inglês, levado para a Inglaterra por soldados do exército que retornavam de combate nos Países Baixos. Os gins produzidos anualmente na Inglaterra e nos Estados Unidos contêm um álcool altamente retificado e neutro. Já os gins holandeses apresentam sabor mais distinto, pois são fabricados segundo os antigos métodos, para preservação das características originais dos cereais, que passam duas vezes por alambique de cobre, sendo, depois, misturados ao álcool neutro.

Os holandeses tomam o gim sem qualquer mistura - puro, muito gelado, em pequenos copos, como um aperitivo ou drinque forte. Fora da Holanda a bebida quase não é tomada pura. Seus apreciadores preferem consagrá-la nos coquetéis, como o Gim Tônica e Dry Martini. Boas marcas são Gordon's, Tanqueray, Beerfater e Bombay Sapphire.

Grappa
Produzida na Itália, é um destilado de bagaços e talos de uvas brancas. A origem da
grappa - produzida hoje predominantemente nas regiões de Veneto, Friuli e Piemonte - remonta ao século XI, em Veneza, quando era uma bebida doméstica, com várias famílias produzindo seu próprio destilado. Sua elaboração começa com as uvas ainda nos cachos, quando se escolhem as mais perfumadas, que darão ao produto final um aroma genuíno e elegante. As uvas são prensadas nas adegas e fermentam por um período entre oito e quinze dias. São necessários 100 quilos de bagaço para obter de 9 a 11 litros da bebida. A destilação é feita por sistema de vapor direto, em pequenos alambiques de cobre. Em seguida, ela descansa por no mínimo três meses, durante os quais adquire maciez e equilíbrio de aromas e sabores bastante pronunciados. Na Itália é servida na temperatura ambiente, em pequenos cálices. No Brasil são encontradas belas marcas artesanais, como as das destilarias Bottega, Maschio Libarna e Ciemme Friuldoro.

Pisco
É o destilado de vinhos menos conhecido. Feito a partir de uvas moscatel, tem sua origem disputada por dois países, Chile e Peru. O mais certo é que a bebida tenha nascido em território peruano, na província de Ica, perto do porto de Pisco. Mesmo assim, é o Chile que parece se importar mais com a qualidade da bebida, tendo criado, inclusive, uma Denominação de Origem Controlada para supervisionar a produção da aguardente. Em ambos os países, as uvas são prensadas delicadamente e destiladas em alambiques do tipo pot still. O envelhecimento pode acontecer em barris e, na maioria dos casos, em recipientes de barro. Seu sabor é marcante e mais suave do que a grappa. As melhores marcas são a peruana Inca e as chilenas Control e Tres Cruces.

Poire e Kirsch
Além desses dois tipos, o primeiro feito de peras, o segundo de cerejas, existe uma grande variedade dos chamados álcoois brancos. Todos feitos de frutas, obedecem, basicamente, ao mesmo processo de destilação e são igualmente apreciados. Na fabricação procura-se obter um álcool que conserve o gosto original da fruta. Elas são colocadas para fermentar, destiladas em alambiques aquecidos com vapor e, depois, retificadas. Os melhores produtos são os da Alsácia, na França, Floresta Negra, na Alemanha, e na porção setentrional da Suíça.

São necessários 30 quilos de cerejas para conseguir onze garrafas de kirsch. O melhor vem das planícies e dos cumes dos montes de Vosges, na Alsácia. Os primos mais próximos são os destilados de ameixas amarelas (o mirabeille) e roxas (o quetsche). Mais delicada, a framboesa (framboise) também entrou para a turma - mas passando por maceração em álcool antes da destilação, pois tem baixo teor de açúcar para sustentar a fermentação. Também originário da região da Alsácia, são precisos 30 quilos da fruta para produzir uma única garrafa.

O poire, o primo mais famoso no Brasil, foi o último a chegar. Como a produção dessa eau-de-vie exige grandes quantidades de frutas, a pêra do tipo William, de pele fina, como é de fácil cultivo, resolveu o problema. A bebida ganhou fama no país por ter sido a preferida do falecido deputado Ulysses Guimarães, que comandava a chamada 'turma do poire', durante a Nova
República. Mas, na verdade, o dr. Ulysses nunca foi chegado a essa aguardente - ele gostava mesmo era de um bom scotch 12 anos. Alguns fabricantes costumam prender garrafas nas árvores para que as peras nasçam dentro delas. Isso é mais um efeito visual. Não melhora a bebida.

Para servir essas preciosidades o ideal é gelar bem um cálice pequeno, colocar o líquido em temperatura ambiente e sorver em pequenos goles.






Rum
'Um calor no rosto, Yo, Ho, Ho! e uma garrafa de rum'. Todo filme de pirata que se preze
tem essa canção na trilha sonora. Afinal, o rum era um dos primeiros itens na lista de tesouros que os bandidos do mar procuravam conquistar. Desde que foi trazida pelos espanhóis, no século XVI, para sua colônia de São Domingos - atual República Dominicana - , no Caribe, a cana-de-açúcar é destilada, sendo o carro-chefe das bebidas da região. Destilado de canas frescas trituradas em moinhos ou com melaço - resíduo que fica depois de fervido o caldo para fazer açúcar - , o rum é transparente e cristalino ao sair do alambique. A coloração dourada obtida por alguns tipos de rum é resultado do envelhecimento em tonéis de carvalho ou, na maioria dos casos, pela adição de corantes de caramelo. Os envelhecidos, como o añejo cubano, que repousa por sete anos e tem buquê digno dos melhores conhaques, não devem ser usados em coquetéis. Os mais exigentes recusam-se a bebê-lo com gelo. Já o carta branca é o ideal para preparar drinques. Hoje, cada ilha caribenha produz seu tipo de rum: CUBA - onde em 1861 surgiu a marca mais famosa do mundo, a Bacardi, fora do país desde o início da revolução socialista - produz um rum leve e aromático; a JAMAICA faz uma bebida mais encorpada e forte, como o rum appleton; o HAITI, mais aromático; PORTO RICO, onde se faz hoje o Bacardi, produz uma bebida com pouco corpo e seca; a MARTINICA, fino e rico em aromas; BARBADOS, leve e com muito aroma; TRINIDAD, leve e sem grandes qualidades; GUIANA, não muito frutado, mas o rum com mais cor.

Steinhäger
Bebida popular da Alemanha, surgiu no século XV, na região da Westfália, na pequena aldeia de Steinhägen. Em sua produção as frutinhas da planta de zimbro são esmagadas junto com grãos de trigo. A pasta formada é fermentada e, depois, destilada em alambiques do tipo pot still. Segundo a Lei do Monopólio da Aguardente, que regula as normas do processo de fabricação do Steinhäger na Alemanha, nenhum produto químico pode ser adicionado à mistura de zimbro e trigo. Na Alemanha é tomado à temperatura ambiente, suavemente gelado, ou à temperatura de freezer, a exemplo da vodca. A melhor marca vendida no Brasil é o Schlichte.

Tequila
A bebida nacional do México tem sua origem creditada aos povos maias e astecas, que,
em rituais religiosos e festivos. brindavam com um fermentado que chamavam de pulque. Anos mais tarde, em 1519, o conquistador espanhol Hernán Cortez e sua tropa provaram essa mistura e gostaram. Logo a batizaram Tequila, nome da cidade em que estavam na ocasião e que hoje faz parte do Estado mexicano de Jalisco, principal zona de plantação do agave azul, o ingrediente básico da bebida. Com o tempo, os espanhóis passaram a destilar o fermentado. As frutas do agave azul passam por um cozimento de aproximadamente 72 horas. Em seguida, são espremidas e moídas para a extração dos açúcares. Depois de fermentado o líquido, parte-se para um dupla destilação, cada uma com duas horas de duração, em alambiques de cobre. Boas marcas são José Cuervo, Sauza, Cancún e Camino Real."

Fonte: CASTILHO, Ricardo. O mundo dos destilados. Playboy, setembro de 1996, p.131-136.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...