sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Bicicletas em Pelotas


Fonte: MAGALHÃES, Mario Osorio. História aos domingos (coletânea de artigos publicados no Diário Popular entre setembro de 2001 e setembro de 2003). Pelotas: Livraria Mundial, 2003, p. 129-132.

"O site da Caloi, na internet, conta que a história da bicicleta tem início em 1790, ano que foi criado o Celerífero, 'veículo primitivo de duas rodas, ligadas por uma ponte de madeira, em forma de cavalo, e acionadas por impulsos alternados dos pés sobre o chão'. Dois marcos da sua evolução ocorreram quase cem anos depois, em 1887, quando o irlandês James Boyd Dunlop inventou o pneu, e exatamente cem anos depois, em 1890, quando Michelin inventou o pneu desmontável. A partir daí, suas maiores modificações foram a roda livre, a tubular e o câmbio.

Em Pelotas, as primeiras bicicletas apareceram em 1885 - antes da invenção do pneu. É o que conta Matias de Albuquerque, num artigo publicado no Diário Popular de 20 de setembro de 1953.

Foram adquiridas pelo Visconde de Souza Soares, para servir de diversão a quem frequentava, sobretudo nos domingos e dias santos, as memoráveis tardes do Parque Pelotense; como não eram novas, mas já usadas, supõe-se que houvessem pertencido a algum circo de variedades, dos muitos que excursionavam pela cidade. Sua armação era metálica, as rodas, de madeira, eram chapeadas de ferro, seus pedais acionavam a roda anterior e elas tinham o comprimento de um metro e oitenta centímetros.

No ano seguinte surgiu por aqui um modelo mais elegante: o velocípede. A roda da frente tinha um metro e vinte de diâmetro, e a de trás, trinta e cinco centímetros; eram de borracha maciça. Seu pedal, ao contrário das primeiras, era na roda da frente. O usuário subia nela correndo, depois de dar impulso e apoiar-se num suporte, que havia na roda traseira. Pertencia, esta, a Bernardo da Nova Monteiro.

Dez anos depois - em 1896 - apareceram em Pelotas seis bicicletas da marca Clément, com pneus da fábrica Dunlop (portanto, nove anos depois da sua invenção). Seus proprietários: dois irmãos Leivas Leite, dois irmãos Simões Lopes, dois irmãos Souza Soares. Estes, Leopoldo e Miguel, filhos do Visconde português, dono do Parque, estudavam em Rio Grande, e faziam grande sucesso quando saíam pelas ruas da cidade vizinha, onde as bicicletas ainda não eram conhecidas. Acumulava-se gente nas portas das casas, dos bares, das lojas, dos armazéns, para admirar a novidade mas se divertir a valer, também, com a voracidade dos cães, que se atiravam às pernas desses pioneiros do ciclismo!

Em 1897, chegou aqui um modelo de outra marca, 'La Française', encomendado por Carino de Souza e acompanhado por dois trajes completos de ciclista.

Pouco depois surgiu a primeira 'tandem', ou 'dupleta', de grande comprimento e com dois selins. Era montada pelos irmãos Le Coultre, relojoeiros suíços.

A seguir, Hermann Von Huelsen, mecânico aqui estabelecido, aumentou a velocidade de sua bicicleta, adaptando a ela uma pinha e uma roda dentada bem maiores que o normal. Nesse veículo, desafiou o campeão rio-grandino da época e o venceu, em memorável corrida no Prado Pelotense. Disputou um 'match', mais tarde, com um cavalo (!), saindo igualmente vencedor.

Foi então que apareceram as outras modificações, que mencionei atrás: a roda livre, o tubular e o câmbio. Ah, e também as lanternas movidas a pilha, já que as mais antigas eram acionadas por querosene, depois por gás acetileno e, depois, por eletricidade.

Só não menciona Matias de Albuquerque, nesse artigo, que em 14 de novembro de 1897 já era fundado em Pelotas, um Clube Ciclista. Nem que o seu primeiro presidente foi J. Simões Lopes Neto, o nosso maior escritor, autor dos Contos gauchescos, das Lendas do Sul e dos Causos do Romualdo. Deixa de comentar, por isso, um desfile realizado em fevereiro de 1898, no qual se destacaram o sr. Heráclito Brusque, com 'sua custosa e elegante vestimenta, de camiseta de seda, com listras ouro e preto, calção preto e meias de seda, cores também iguais à camiseta', e o próprio capitão João Simões, que 'ostentava belíssima borboleta presa ao guidon de sua bicicleta'."

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