sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Castelo da Madorna


"Era uma vez um casal que não tinha filhos e muito os desejava ter. Foi uma grande alegria quando a mulher disse que esperava criança. O pai preparou enxoval e nasceram dois meninos bonitos e robustos que eram de encantar. Nesse mesmo dia, na estribaria, a égua teve dois poldrinhos, uma cachorra dois cachorrinhos, e brotaram dois pés de laranja no jardim. Os meninos eram gêmeos e tinham a mesma cara. Cresceram juntos e amigos inseparáveis. Cada um possuía um cavalo, um cão e uma laranjeira.

Já rapazes, pediram ao pai que lhes desse licença de correr mundo para tentar a fortuna. O velho os deixou partir e os dois moços seguiram jornada. Andaram algum tempo juntos e numa encruzilhada separaram-se. O mais velho foi parar a uma cidade onde uma serpente comia todos os dias uma moça. Naquela ocasião a própria filha do rei fôra sorteada e seguira numa carruagem até perto das grutas onde vivia a serpente. O rapaz correu até lá e encontrou a moça de chorar. Vendo o rapaz pediu-lhe que se fôsse embora para não ser devorado pela serpente.

- Nada disso, menina - respondeu o moço - vim para matar a serpente e não arredo pé antes de fazer o que desejo. Tome estas três laranjas e esprema o sumo nesta malga. Quando a serpente estiver caída para um lado e eu para o outro, dê-me de beber, e solte êste cão que deixo amarrado aqui.

A serpente apareceu e dirigiu-se ao rapaz que a enfrentou, dando-lhe com a espada; o cavalo espalhava coices. O cão gania de impaciência, querendo lutar também, mas estava amarrado. Lutaram imenso e a serpente caiu para um lado e o cavaleiro para o outro. A princesa foi para êle com a malga com o sumo das três laranjas e êle bebeu. Depois a moça libertou o cão que precipitou-se para a serpente, mordendo-a valentemente. O rapaz tornou a cavalgar sua sela e acabou de matar a serpente. Pôs a princesa na garupa e voltou à cidade, sendo recebido com festas explêndidas. Casou com a moça e viveu muito feliz.

Uma tarde estava êle na varanda do palácio quando avistou ao longe a tôrre de um castelo vervelho. - Que castelo é aquêle que se avista?

A mulher respondeu:
- É o Castelo da Madorna,
Quem vai lá, não torna!...

- Pois eu vou e voltarei! - disse o rapaz. 

No outro dia despediu-se da mulher e foi galopando para o Castelo da Madorna. Só lá chegou dias depois. Era um castelo alto e forte e parecia sem vivalma. O rapaz gritou, o cavalo relinchou, o cão ladrou e apareceu uma velha muito velhinha e trôpega, arrimada a um bordão. Mandou que entrasse, deixando o cavalo e o cão amarrados pela banda de fora.

- Não tenho com que amarrar os animais.

- Amarre-os com esses dois fios do meu cabelo - disse a velha puxando-os da cabeça. O rapaz, admirado, amarrou-os com os fios de cabelo, e entrou para o pátio onde a velha lhe serviu uma boa refeição. Depois perguntou se êle tinha força e se queria apostar uma bôlsa de ouro como seria jogado ao chão por ela. O rapaz riu muito e aceitou a aposta. Vieram-se às mãos e logo o moço conheceu que a velha era encantada, tendo mais fôrça que dez homens novos. Vendo que ia sucumbir, gritou pelo cavalo:
- Acode, meu cavalão!

- Engrossa, meu cabelão - resmungou a velha, e o fio de cabelo se tornou numa grossa corrente de ferro, subjugando o cavalo que ficou a atirar coices para todos os lados. Lá para depois, grita o rapaz, já sendo vencido:
- Acode, meu cachorrão!

- Engrossa, meu cabelão! - grunhiu a velha, e o cão ficou preso a uma corrente de ferro. O rapaz ficou vencido e a velha, carregou-o ao ombro, sacudindo-o dentro de um alçapão, roubando-lhe quanto levava.

O irmão, que estava noutro reino, teve um pressentimento e veio para o reinado onde o mais velho casara, embora sem saber do que se passara. Chegou e procurou o palácio, vendo que os soldados o cumprimentavam e os criados o foram conduzindo até a princesa, que o recebeu com abraços e beijos de alegria. O rapaz logo pensou que o tomavam pelo irmão e que estava no rumo de saber seu destino. Ceou e foi dormir com a princesa, tirando a espada e pondo-a nua entre ambos, como se fôsse por promessa. A princesa perguntou que modos eram aquêles, mas o rapaz disse ser um compromisso que tomara por três dias.

Na outra tarde, na varanda, vendo as tôrres vervelhas do castelo, perguntou o rapaz quem lá morava.
- É o Castelo da Madorna,
Quem vai lá, não torna!...
... já não to disse da outra vez?
Não foste lá? Que viste no castelo?

O moço deu uma resposta vaga e assentou seguir viagem para encontrar o irmão que lá devia estar. E foi, com sua espada, o cavalo e o cão.

A velha recebeu-o e fez o mesmo pedido. O moço desconfiou de um cabelo segurar um cavalo robusto e um grande cão. Em vez de amarrar os animais, meteu o cabelo pela coleira do cão e pela rédea do cavalo, fingindo dar nós. Ceou bem e a velha convidou-o para uma luta. Logo que o rapaz conheceu tratar-se de uma feiticeira, gritou ao cavalo:
- Acode, meu cavalão!

- Engrossa, meu cabelão! gritou a velha; mas a corrente que se formou no fio de cabelo não estava presa a parte alguma e veio ao chão. O cavalo partiu correndo e largou uma chuva de coices na velha que resistia.
- Acode, meu cachorrão!

- Engrossa, meu cabelão! - berrou a feiticeira. O cão veio aos saltos e ferrou a bruxa na garganta, e os três juntos a mataram. Quando ela deu o último suspiro, ouviu-se uma vendaval furioso, abrindo as portas e janelas do castelo, e saíram homens e mulheres sem fim, livres da prisão em que viviam. Entre êles vinha o irmão do rapaz que muito o abraçou. E o mais velho quis saber de como o outro soubera de seu paradeiro. O moço contou tudo, dizendo que a princesa o havia tomado por seu marido. Ouvindo essas palavras, o irmão puxou pela espada e atirou um golpe ao irmão, julgando-o traidor de sua honra. Mas os dois cães e os dois cavalos se puseram entre êles, separando-os. O mais moço contou como passara a noite. O outro, arrependido, pediu perdão e voltaram para a cidade onde viveram juntos, mandando buscar os velhos pais, na mais completa ventura."

Fonte: CASCUDO, Luís da Câmara. Os melhores contos populares de Portugal. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1979, p. 89-93.

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