segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Enchente de 2009 no Capão do Leão: maior tragédia da história recente do município!

A madrugada do dia 29 de Janeiro de 2009 já é a data mais marcante da história recente do município de Capão do Leão. Talvez nenhum outro fato político ou social desde a emancipação sobrepuje aquilo que aconteceu naquele momento. A cidade mergulhara no caos completo.
Num verão não muito quente, mas que, até então, tinha se mostrado extremamente seco (não havia chuvas intensas desde novembro), o dilúvio que ocorreu entre aproximadamente o meio-dia de 28 de Janeiro até às 3 horas da manhã do dia 29 surpreendeu a todos. Não, surpresa não é a palavra. Choque – esta é a palavra! Chocou a todos!
A água invadiu áreas do município que, seguramente, nos últimos 50 anos jamais tinham registrado alagamentos. Lugares ditos seguros contra o problema dos alagamentos foram tomados pelas águas. A enchente não poupou nada... casas, animais, plantações, gente!
Vamos recapitular, porém.
Quando a chuva iniciou ao meio-dia, as pessoas deram graças aos céus pela água que chegava para molhar a terra seca, castigada pelas últimas semanas de estiagem. Passou-se a tarde e a chuva prosseguiu firme e constante. Veio a noite, e já se notava que havia chovido o suficiente, pois em alguns locais verificava-se grandes poças d’água e rios de lama descendo rumo aos arroios. Como desde a tarde, o fornecimento de energia elétrica estava interrompido, a maioria das pessoas dormiu cedo, despreocupada que aquela chuva pudesse causar algum dano (afinal, estávamos em plena seca!). Pois bem, aí começa a escalada do desespero. O último ônibus da linha Pelotas-Capão do Leão (meia-noite) não chegou ao município. Pessoas que estavam naquela cidade, mesmo sem depender de ônibus, não retornaram aos seus lares. O que estava acontecendo? A ininterrupção da chuva anunciava o pior: enchente.
Entretanto, é bom que se recorde da Enchente de 2004 em Capão do Leão. Ela teve certos limites e uma determinada velocidade. Isto é, atingiu certas áreas do município e as águas subiram não lentamente, todavia de forma que as pessoas puderam sair de suas casas. Só que agora era diferente. A água subiu muito rápido. Como os mais atingidos relatam: em questão de quinze minutos, quase um metro. Era desespero puro! Pessoas saindo de suas casas correndo, levando somente a roupa do corpo. Quem saía em direção à parte alta da cidade, pelo caminho gritava a quem quer que fosse que abandonasse sua casa, pois as águas vinham de modo impetuoso. Nos campos, cobras, gambás, preás e outros animais fugiam em disparada aos lugares secos, infestando a casa daqueles que ficaram a salvo da enchente. Ouvia-se choro e gritos. Motocicletas, carros, veículos públicos, bicicletas transformaram naquela madrugada medonha o trânsito leonense assemelhado ao volume dos grandes centros do País. Era gente fugindo, mas também muita gente socorrendo. Isso não se pode negar, a solidariedade em meio ao nefasto breu daquela noite dantesca! Vi carros em valões e botijões de gás boiando sobre aquelas águas furiosas.
Ninguém dormiu, não havia motivo para dormir. Quem fugiu da enchente e pode se refugiar estava em pânico. Quem socorreu e podia agradecer por ter uma casa a salvo, não conseguia entender o que era aquilo.
Cinco e quarenta e cinco da manhã... surgem os primeiros clarões de um dia nublado e cinzento. Seis e vinte da manhã, a claridade já permite vislumbrar o que aconteceu. A Avenida Narciso Silva estava invadida por grandes porções de areia, que se espalharam, levadas pela enxurrada. A água tinha vindo até as proximidades do Pronto-Socorro Municipal. Nas vicinais da Rua Edmundo Peres, a aglomeração de gente era impressionante e o estrago também. Impressionante mesmo foi o que aconteceu na Rua Alexandre Gastaud e nas cercanias do Arroio Teodósio. Casas tapadas d’água, pessoas empoleiradas nos telhados. Até mesmo a parte baixa do Cerro do Estado (próximo à Via-Férrea) estava inundada. Além da Ponte do Teodósio, o que se poderia saber: estávamos ilhados!
Seis e meia da manhã: as pessoas começam a saber da morte da criança de colo no Teodósio. Opa, algo estava fora dos eixos: enchente e morte... como? Em 2004, não tivemos isso. Bem como nas secas de 1985, 1989 e 2005, não tivemos isso. Nos vendavais de 1986, 1995 e 1998 (quando ficamos seis dias sem luz), não tivemos isso. Mesmo com o granizo de 2004, não tivemos isso. Nenhuma tragédia natural até então tinha trazido a idéia da morte aos leonenses. Perdia-se tudo o que fosse, até mesmo em incêndios involuntários, mas nenhum conterrâneo havia perdido a vida num acontecimento meteorológico na área do município. A situação era diferente! O dia revelou o “circo de horrores” da madrugada.
De cada lado do município vinham notícias de mais óbitos. Alheios à dor das pessoas que perderam muito ou tudo com a enchente, “f.d.p. ordinários” aproveitavam a situação para o saque e o roubo. Pessoas que precisavam de tratamento médico estavam “presas” sem poder ir aos hospitais em Pelotas. Logo, faltou água nas torneiras. À noitinha, era a busca por água potável e velas transformando-se em real aventura. No Departamento de Assistência Social, a fila era grande em busca de alimentos e material de limpeza.
Nestas horas, a gente vê também, infelizmente, a estupidez humana.
Provavelmente, oriundo de um outro planeta, sem saber o que se passava (é a única explicação plausível), um senhor reclamava em alto e bom tom o fato dos serviços da prefeitura não estarem funcionando. O dito senhor queria pagar o IPTU e, ao chegar à Secretaria de Finanças, encontrou o setor fechado. Diga-se de passagem, que, o Centro Administrativo Municipal também sofreu com a inundação, havendo grande perda de computadores e papéis. Por outro lado, vários funcionários se uniram a torrente de mobilização em prol das vítimas da enchente. Não havia como haver expediente normal, é óbvio. Só que o infeliz não entendia e, retornando à sua morada inexpugnável à chuva, resmungava contra o próprio município, declarando ser este um “buraco”.
Outro senhor, não muito bem afortunado em suas observações, atentava que as próprias pessoas que sofreram com a enchente sabiam dos que estava lhes reservado, pois viviam em área de risco. Área de risco? Ora, pois. As ruas Catão César Madruga e Teófilo Torres são mais do que cinqüentenárias. Acaso, famílias inteiras vivem ali há décadas por puro sadomasoquismo? Não, definitivamente não. O que aconteceu foi fora do normal. Já vi alagamentos nestas zonas de molhar o tornozelo ou as canelas, mas nada igual a isto. Outra coisa: por volta das três e meia da manhã daquele 29 de Janeiro, as águas formavam verdadeiras cachoeiras na esquina da Avenida Narciso Silva e Rua Rouget Peres. Pois é, amigo leonense, indago-lhe: já vistes aquela área alagar? Não me lembro sequer de ter havido alguma vez poções de água naquela região. A sucessão de insensibilidades e declarações mal-feitas se seguiu por parte de alguns. Sem saber o que estava realmente acontecendo, incautos elegiam inúmeros culpados pela enchente, mas não se dispunham a estender o braço e ajudar os desabrigados. Sem contar aqueles que praguejaram o cancelamento do Carnaval e da Festa da Melancia.
A noite do dia 29 para o dia 30 de Janeiro ainda foi de muita apreensão. Por volta das vinte horas, iniciou-se novo temporal. Ao menos, até a meia-noite, onde os tocos de vela espantavam a escuridão fantasmagórica, muitas pessoas ainda não dormiam.
Começamos a ter contato com o mundo exterior a partir do dia 30 de Janeiro. Pululavam radinhos à pilha, desentocados de velhas estantes, sintonizados à faixas AM, procurando notícias sobre a enchente. Alguns lugares voltavam a ter pulso telefônico normal, dado que celulares e alguns números fixos estiveram completamente mudos durante o dia anterior.
Às dezessete horas, houve a religação da energia elétrica. As coisas estavam voltando ao normal, após o caos. Vimos estupefatos o primeiro telejornal regional às dezenove horas. No noticiário nacional, em vários canais de grandes redes de televisão, assistimos, sem muito a ter o que se orgulhar, o nome do Capão do Leão citado para todo o Brasil.
A noite do dia 30 para o dia 31 de Janeiro foi aquela em que podemos descansar embora ainda totalmente zonzos com o acontecido. Embora, digo: não estamos ainda totalmente restabelecidos.
A semana inicia-se como um grande recomeço para todos. Não vai ser fácil.
Nossa memória às vítimas da enchente.
Joaquim Dias

8 comentários:

Arthur Victoria Silva disse...

Joaquim, Assustador!

Maria Elisabeth disse...

Pois é, Joaquim...nada nem ninguém está imune a estas calamidades "naturais" ou talvez seja melhor dizer "naturalmente provocadas" pela insensibilidade do ser humano para com o planeta onde vive.
O Loteamento Zona Sul foi fortemente atingido e o rastro de destruição foi largo. A Comunidade Católica Santa Cecília ficou mais uma vez inundada até a altura das janelas da capela...residências foram invadidas...móveis e pertences, destruídos...
Só mesmo a solidariedade, que graças a Deus não falta, pode trazer de volta a esperança!

André Peres disse...

Impressionante! Depois dizem que não existe o aquecimento global e suas consequencias.

nao disse...

marcia?!
o que vivemos nestes ultimos dias não vai ser facil esquecer,perdemos cidadãos leonenses.,passamos por uma grande batalha, mas tenho certeza que a solidariedade do povo leonense não deixara ninguem sem apoio,pois somos todos solidarios....força,e q deus nos abençoe.....!!!

Lean disse...

O plano urbano do Capão do Leão vai ter que ser revisto. não tem como mais as pessoas morarem no fundão do Teodósio.
Que coisa esta enchente.

Gregory Lewis (from New Hampshire, Usa) disse...

That is insane. Your people is not criminous and the flooding is several punishment.

Alf disse...

Impressionante e muito bem colocado este teu relato, embora seja filho desta terra (e me orgulho muito disso), não moro mais aí , pois, já a alguns anos tive que abandonar a querencia por motivos profissionais; porém ao ler teu relato pude vivenciar e ao mesmo tempo me emocionar com as horas de desespero que todos vcs enfrentaram, me senti como se estivesse fazendo parte de todo esse horror realmente, foi como se eu estivesse ainda morando no Capão e encarando tudo o que foi relatado. Parabéns pela forma que expuseste a situação e força a todos. Um abraço.

Anônimo disse...

pois é eu moro ai

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