domingo, 12 de maio de 2019

Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - 1885


"Carnaval

Amanhan começam os folguedos carnavalescos.

As sociedades Esmeralda e Germania estão preparadas para bonitos passeios burlescos e de gala.

Não conhecemos os programmas."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 14 de Fevereiro de 1885, pág. 02, col. 04

"AS FESTAS DO CARNAVAL

Ante-hontem, os folguedos carnavalescos não despertaram grande enthusiasmo.

A sociedade Germania, que em outros annos tem apresentado prestitos esplendidos e luxuosos, nada fez este anno que provocasse admiração.

Em união com as demais sociedades allemãs, realisou seu passeio conforme constava do programma distribuido.

O prestito era numeroso, sobresahindo os tres carros triumphantes: o da Germania, representado por uma formosa joven, que ostentava as suas graças naturaes; o do Brazil, representado por um grupo de bugres; e o do principe e da princeza do carnaval.

Entre as criticas, destacavam-se: o seculo XVIII, a diligencia; o seculo XIX, a locomotiva; o seculo XX, o balão.

O deus Baccho e as vivandeiras já foram apresentados pelo club Germania, ha quatro annos, de um modo mais completo.

As criticas sobre a Hydraulica, imprensa, transporte de immigrantes, reporters e curandeiros peccavam pela falta de espírito.

A ultima, principalmente, foi apresentada de maneira a provocar censuras.

O grupo de gaúchos... um perfeito desastre!

Aquelles cavallarianos não nos pertencem...

O poço d. Isabel foi bem representado, e alguns cavalleiros destacavam-se pelos bonitos uniformes.

✤✤✤✤✤

Hontem, a chuva privou a população de apreciar o bello passeio preparado pela sociedade Esmeralda.

Todos os socios já estavam phantasiados e os carros de triumpho em ordem de seguir, quando uma chuva torrencial pôz tudo em debandada, causando grandes estragos em trajes, pintura, etc.

Foi geral o pezar, porque os Esmeraldinos promettiam esplendida festa.

O publico, porém, teve occasião de vêr os magnificos carros triumphantes, que teriam no prestito a seguinte ordem:

1o. - Carro da Rainha. Uma grande rosa, boiando á tôna do mar, entre flocos de espuma, e tirada por quatro cysnes, guiados por cupidos. Do centro da flôr se ergueria a bella rainha, rodeada de numerosa côrte.

Este carro estava a cargo do sr. Alfredo Chaves.

2o. - Tenda de bohemias, ricamente adornada e tendo á frente dois enormes dragões, guardando a figura de Minerva.

A bohemia seria representada por uma interessante menina, acompanhada por varios grupos, dispostos com muito gosto.

A execução foi do sr. Leopoldo Masson.

3o. - Carro da America. Ao centro, em throno de ouro, uma galante joven representaria a America, tendo ao lado os bustos de Colombo e Americo Vespucio.

Outras jovens representariam o Brazil e a Industria.

Dois bugres, em guarda á cruz de Malta, completariam a allegoria, que, como se vê, despertaria o maior enthusiasmo.

Todo o trabalho do carro da America esteve confiado ao sr. Araujo Guerra.

✤✤✤✤✤

Nos carros de critica figurariam a Kermesse e a Hydraulica.

A questão dos hydrometros e do pinga-pinga seria tratada com espirito: o hydrometro, que é caro, dá um peixe grande; o pinga-pinga mais barato, fornece apenas peixes pequenos.

Em carros de gala apresentar-se-hiam phantasiadas trinta e quatro pessoas entre senhoras e homens.

Um luzido esquadrão de 48 lanceiros tomaria parte no prestito, dando grande brilhantismo á festa.

Por esta ligeira descripção reconhecerá o público que a Esmeralda realizaria um passeio deslumbrante em a tarde de hontem.

✤✤✤✤✤

Á noite a sociedade levou a effeito o baile com que encerrou os folguedos ao deus Momo.

Quando os carros, em grande numero, desfilaram pela rua dos Andradas, em direcção á Soirée Porto Alegrense, de todas as janellas choveram flores e estalos fulminantes sobre os Esmeraldinos.

O baile esteve esplendido, dançando extraordinario numero de pares phantasiados.

✤✤✤✤✤

Durante as noites de festa, quasi todas as casas da rua dos Andradas tinham as fachadas illuminadas a gaz carbonico.

A bisnaga e o estalo tiveram, como sempre, o seu reinado nos tres dias do carnaval.

As festas terminaram sem incidentes desagradaveis."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 18 de Fevereiro de 1885, pág. 02, col. 02-03

Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - 1884


"O carnaval de 1884

Em o ultimo dia, como tem sido costume entre nós e em outros muitos centros populosos onde o carnaval é animadamente festejado, foram levados a effeito os passeios de gala.

Á vida de interesse, a população aguardava que as sociedades apparecessem, quando a Esmeralda surgio dos lados do arsenal de guerra, ao mesmo tempo que os Venezianos encetavam o passeio do extremo opposto.

Rompia o prestito esmeraldino, depois da banda de musica, um esquadrão de lanceiros, entrajando a blusa dos revolucionarios rio-grandenses de 1835 e trazendo nas lanças o signal farropilha.

Era a guarda de honra de dois personagens, que montavam soberbos cavallos e que desde logo prenderam todas as attenções - Bento Gonçalves, o heroico chefe do glorioso decennio da revolução, e seu audaz companheiro, o legendario Giuseppe Garibaldi.

Causou o maior enthusiasmo a apparição dos dois grandiosos vultos.

Seguio-se depois o carro triumphal da rainha da Esmeralda - trabalho bellamente executado.

No cimo, em grande altura, via-se a gentil rainha em rico carro de azul e ouro, tirado por dois enormes leões em meio da espuma das ondas.

Representava um quadro mythologico - Cybele puxada pelas suas féras predilectas.

Este carro foi geralmente admirado.

Outros carros de phantasia destacaram-se no numeroso prestito:

Os das jardineiras e jardineiros, replectos de galantes creanças caprichosamente vestidas; o da Agricultura,  no qual elevava-se a graciosa figura de elegante joven; vendo-se sobre o solo, agarrado á rabiça do arado, o typo de animado agricultor; e finalmente o do maestro allemão em suas variações de contra-baixo sobre a marcha A sogra (musica de Wagner) e a cavatina (de Verdi) O sogro.

De um a outro carro triumphal seguiam innumeros carros com personagens vestidos variadamente - moças e moços, todos preparados com elegancia e disputando entre si a attenção do publico.

Bandas de musica, cavalleiros, pagens, etc., completavam o pensamento que presidio á realisação da passeiata dos Esmeraldinos.

✤✤✤✤✤

Nos Venezianos rompia a marcha o esquadrão de cavalleiros do bando carnavalesco, luzidamente vestidos a caracter.

Logo após, cavalgando um pequirra levado á reiata, via-se uma creança em trajes de fidalgo de antigas éras - abrindo caminho ao carro triumphal da esbelta rainha dos Venezianos, primorosamente vestida e adornada.

Este carro, formado de grandes palmas verdes e douradas, accusando o mais caprichoso gosto na execução, era guiado por um mimoso e pequenino pagem, que também cuidava das interessantes damas de honor da sua soberana.

Outro carro de luxo era o das serpentes, cujas cabeças fechavam-se em cupula como para resguardar a esplendida indiana que ostenta tão peregrina formosura.

Em baixo, o arrogante mouro tinha um olhar de desdem para a multidão.

Tambem conquistou apreço o lindo carro em que movia-se, deslumbrante de luz, a estrella que illuminava o prestito; porem mais admiravel era o carro dos cavallos marinhos, conduzindo o sympathico personagem que os guiava soberanamente.

Nenhum o excedeu em gosto e riqueza.

Nos carros particulares, em grande numero, faziam-se admirar em bellissimos trajes - fadas e feiticeiras, pierrots e cavaleiros da idade média, venezianas e pastoras, astronomos e dominós, etc., etc. - as mais gentis jovens e os socios enthusiastas do club.

Personagens a cavallo, pagens, bugres e vários outros typos tornavam completo o passeio de gala dos Venezianos.

✤✤✤✤✤

Por toda a parte os clubs receberam applausos, e a rua dos Andradas, nos repetidos trajectos, todos os moradores, notadamente as faminas, os recebiam por entre flores e ao estrugir de milhares de estalos fulminantes.

Á noite, o passeio de Venezianos e Esmeraldinos esteve imponente, provocando continuas saudações do povo que por toda a parte se apinhava.

Todas essas demonstrações de sympathia, tão ruidosas quão espontaneas, foram os triumphos colhidos pelos distinctos e esforçados membros de ambas as associações carnavalescas.

Eis como nos foi dado descrever o carnaval de 1884 em Porto Alegre."

Fonte:  A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 28 de Fevereiro de 1884, pág. 01, col. 02-03

"Uruguayana

(...)

- A camara municipal creou um imposto inteiramente original - o imposto carnavalesco!

Cada pessoa que quizesse sahir á rua, em trajes proprios das folias de carnaval, teria de pagar 7$500.

Se a moda pegasse, extinguir-se-hiam de certo os clubs carnavalescos.

E lá se ia a tradição..."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 20 de Março de 1884, pág. 02, col. 02-03





sábado, 11 de maio de 2019

Maratona Fotográfica de Pelotas - Inventários do olhar


Está acontecendo na Sala de Exposições Frederico Trebbi (hall da Prefeitura Municipal de Pelotas), a mostra "Maratona Fotográfica de Pelotas - Inventários do olhar". A entrada é franca.

O projeto foi proposto e executado por Daniele Borges e Darlan Marchi. O júri técnico foi composto por Cláudia Turra Magni, Juliana Angeli e Paula Garcia Lima. Foram participantes premiados: Alice Fernandes Gerbaudo, Gabriel Hackbart Nunes, Gabriela Callo, Juliano Luz de Lima, Luciano Silva Ferreira, Mateus Saraiva, Matheus Andrade, Neco Tavares, Rafael de Lima, Roberta da Silva Freitas e Roger Endrigo Carvalho Porto.

Foram produzidas 42 imagens por fotógrafos e fotógrafas que residem na cidade de Pelotas e se propuseram a registrar diferentes momentos do cotidiano da urbe num dia chuvoso - característica climática que é uma das identidades da cidade.















Epidemia misteriosa em Rio Grande em 1900


"A PESTE NA CIDADE DO RIO GRANDE

Sempre que venho á imprensa, tenho como movel o utilitario e não diversões que expressem o verba et voces proetereque nihil.

E assim é que hoje tenho por assumpto o apparecimento, na cidade do Rio Grande, de uma epidemia que a todos prende n'um circulo de affligentes apprehensões.

Que moléstia é a que tem estado a dizimar a população dessa cidade?

Affirma o Sr. Dr. Phelippe Caldas que é ella a febre amarella; ora, o Sr. Dr. Caldas é uma intelligencia lucida, e, demais, amestrada pelo estudo e pela pratica; não se aventuraria, portanto, S.S. a uma affirmação que sirva de alavanca para afluir-lhe a reputação de que goza. Accresce que S.S. é acompanhado, no seu diagnóstico, por collegas que tambem se acham no lugubre theatro da epidemia.

Historiemos, porém, um pouco:

Até antes de 1859 (?), dizia-se que a febre amarella tinha o seu limite de propagação na linha equatorial, visto não ter havido, até então, exemplos do seu desenvolvimento no hemisphério austral (o nosso). Verdade é que, até antes dessa epocha, difficil não era notarem-se casos esporadicos d'essa molestia pelo littoral do Brazil, molestia a que Andouard assignalava, como causas productoras, - o calôr tropical e a introducção dos negros (!). Mais ainda: a moléstia que surgiu em Pernambuco, pelo anno de 1694, e qualificada, por Ferreira Rosa, de - febre pestilencial - exhibiu alguns doentes da febre amarella no meio de outras febres. O que ahi fica escripto pertence á historia médica do Brazil, onde, até 1830, a febre amarella não havia rebentado epidemicamente.

Pois bem, si essa peste venceu a barreira que a detinha por outras paragens, e se, de 1830 para cá, veiu a encravar-se no Brazil, sem, porém, localisar-se em ponto algum de terras rio-grandenses, de admirar não é que depois d'esse decurso de decennios viessem ellas a ter dias de lucto, por causa dessa mesma peste. Assim fallo, considerando a febre amarella como peste viajante, e, portanto, fallo em conformidade de estylos recebidos.

Transgredindo, porém, esses estylos, não será permittido que eu investigue as cousas por modo differente, dizendo que, febre amarella ou não febre amarella, a causa da peste ora reinante na cidade do Rio Grande, deve ser toda local e não exotica ou de importação!

E, realmente, não se diz que essa peste, logo ao accusar-se, irrompeu em uma parte pantanosa da cidade, parte que fôra aterrada com cisco? Demais, não é natural que matérias organicas (o cisco as encerra), accumuladas em camadas espessas, originem, por sua decomposição, emanações pestíferas, que, aliáz, prolongam os males que espalham, por isto que essa decomposição não é instantanea e sim demorada?

Para representar bem ao vivo qual a nocividade das matérias que, decompondo-se, dão effluvios ou emanações de causarem a morte, basta que eu reproduza as seguintes linhas, que tracei (em 1871), na minha Gazeta Rio-Grandense (pag. 122):

<<O lago Carnarina, na Sicilia, de tal sôrte incommodava os habitantes ribeirinhos, que uma consulta foi feita a Apollo. A resposta dada pelo oraculo foi: - não se bula nas aguas do lago (ne moveas Camarinam). Entretanto, não se importando com o conselho do oraculo, puzéram-se os habitantes a seccar o lago, resultando dahi uma epidemia, que dizimou o paiz. - Ora, claro está que a peste proveio das matérias que estavam no fundo do lago, porque, postas em immediato contacto com o ar e recebendo o calor do sol, - prompta foi a decomposição dessas matérias, que, assim, originaram a morte de tanta gente.>>

Porque, pois, não se tem concentrado a attenção acêrca das emanações da localidade que foi aterrada com cisco?... Ahi e não no micróscopio do bactereologista estava, e ainda está, ao que entendo, o campo das investigações a fazerem-se.

Mas, em these geral, por se acharem microbios em organismos morbidos, são elles as causas de todas as molestias em que elles se mostram? ou sao elles seres que proliferam em consequencia de encontrarem casuaes adaptações em organismos mórbidos, alterados e apropriados, portanto, á sua vitalidade?

A adaptação é muito significativa para não se dizer - Amen - ao exclusivismo em que o bacterologista fundamenta a etiologia de um numero já assaz avultado de molestias.

Acêrca da adaptação, enumerei casos de toda a naturalidade, em artigos que, sobre o trigo, foram publicados (ao começar do anno de 1899), no Correio Mercantil, desta cidade, e tanto me exima de procurar justificar a grande funcção que a adaptação desempenha no orbe biologico.

Portanto, embóra comprehenda que microbios (ditos pathogenicos), por proliferarem no organismo e á causa deste, neste funccionarem como causa concorrente ou secundaria á causa primeira de um estado e mesmo fazendo-o ultimar pela morte, - longe estou de attribuir a microbios a origem da pesta que anda pela cidade do Rio Grande; e concentro, pois, o meu pensamento em suppôr que ás emanações dos referidos aterros é devida a epidemia que tem estado a desolar essa cidade.

(...)

Castro Ramalho."

Fonte: A OPINIÃO PÚBLICA (RS), 04 de Junho de 1900, pág. 01, col. 01-02

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Histórico do Município de Portão/RS


"Portão, teve origem europeia. Imigrantes que começaram a se fixar nas terras em meados do século XVIII, a fim de torná-las produtivas, através da criação de gado, cultivo de árvores frutíferas e outros produtos. Nesta época foram dados nomes aos locais, sendo que Portão, originou-se devido a um portão que dividia as terras e servia de passagem para o gado e para as pessoas que desejavam ir de São Leopoldo a São Sebastião do Caí.

Atualmente Portão possui em torno de 25.000 habitantes e o número de eleitores é de 14.397 votantes.

O município comemorou sua emancipação na data de 9 de outubro de 1963. O atual prefeito chama-se Carlos Roberto Ruthner e exerce a 8a. legislatura, que compreende de 01 de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2000.

A distância do município até a capital do Estado é de 43 km. Portão integra a região metropolitana do Vale dos Sinos e Grande Porto Alegre. O município é cortado pela rodovia RS 240. Possui linhas intermunicipais regulares e urbanas.

(...)

Os três maiores setores produtivos de Portão são: Calçados, Couro, Química, sendo que também se destacam as floriculturas, artesanato em cerâmica, madeireiras, borracharias e mecânicas.

Na pecuária predomina a criação de bovinos, suínos, ovinos e aves. Na produção agrícola destaca-se a cultura de acácia negra. Na citricultura engloba a produção de laranjas, bergamotas e limões. Na olericultura engloba diversas culturas como: melancia, melão, pepino, feijão, hortifrutigranjeiros em geral."

Fonte: ATLÂNTICO (RS), 07 de Dezembro de 1998, pág. 03

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - 1881


"Aproximam-se os trez dias mais foliões dos nossos 365 annuaes, pondo de parte o bissexto, que não passa de <<um boi corneta>> na familia. Dizem que o Carnaval é o tempo da loucura; seja. Eu por mim quero ser louco, ao menos uma vez por anno, principalmente tendo um diabinho que me tente, uma nympha, uma nayade, uma ondina que mergulhe commigo no mar delicioso dos prazeres de Mômo.

Enquanto espera-se pela festinha predilecta, joga-se entrudo, bisnaga-se as moças. Aqui é que está o melhor.

Segue-se ao esguicho uns gritosinhos, uns risinhos, umas corridinhas, uns apertinhos e até, devo dizel-o? uns beijinhos furtivos, rapidos, que abrigam a gente a deixar-se molhar deliciosamente. Ó bisnaga divina, ego te baptiso com os nomes mais doces que possas encontrar no diccionario de Cupido."

Fonte: O LÁBARO (Porto Alegre/RS), 20 de Fevereiro de 1881, pág. 04, col. 02

"NOTAS CARNAVALESCAS

Mortus est! - O promettido é... - Confronto - É o que pensamos - Passeio de gala - A Cesar o que é de Cesar - Baile da Esmeralda - Saudações.

Foi-se o carnaval! A cidade voltou novamente á sua habitual indolencia, como a cocotte preguiçosa e descuidada, que folheia as paginas de um livro de poesias lyricas, adubadas com phrases picantes.

Não mais se ouve os rufos infernaes do Zé Pereira, os guizos tradiccionaes dos arlequins e tudo o mais que constitue a orchestra galhofeira do deus Mômo.

As bisnagas recolheram-se aos bastidores, como uma artista que acaba de ser pateada. Esconderam-se as mascaras de papelão; fecharam-se os boudoirs carnavalescos e o Petit Louvre e La confiance suspenderam os annuncios de <<objectos proprios para o carnaval...>>

As ruas já não se alagam com o perfumoso liquido que escorre das fontes aquaticas, na phrase do nosso digno Paciencia, que sabe vibrar terrivel e sarcasticamente o bisturi da satyra!

Felizmente tudo acabou. Bemdicta seja a santa paz que vamos gosar.

✤✤✤✤✤

Estamos empenhados n'uma descripção por demais fastidiosa, por já ter sido offerecida ao publico pelos jornaes diarios. Entretanto, para cumprir a nossa promessa, descreveremos ligeiramente as festas do ultimo carnaval, que em nada desmereceram das anteriores.

No primeiro dia appareceram as duas sociedades Esmeralda e Venezianos representando diversas criticas, entre as quaes sobresahiam a do Leiloeiro, Primor da arte, Questões phylosophicas, Artigo oitavo e Os tres engeitados. Sem fazermos côro com a Imprensa, que censura energicamente o alarde que fizeram da critica á pressão do ar, deffendendo o laborioso artista e os incautos accionistas, concordamos, entretanto em estigmatisar a parcialidade com que as duas sociedades deixaram de fazer allusão á escandalosa proposta dos esgotos.

O Zé Pereira não é candidato á Assembléa nem pretende cadeira alguma no senado. É simplesmente um typo folião e galhofeiro, que sabe rufar estrepitosamente. Portanto, fóra a politica e viva o carnaval.

✤✤✤✤✤

N'este dia, coube aos Esmeraldinos a victoria, não só pelo brilhante prestito que apresentaram, como tambem porque as suas criticas eram finas e jocosas. Não podemos dizer o mesmo dos Venezianos, que apresentaram criticas atrevidas e offensivas á moral publica, levando a audacia ao ponto de destribuirem avulsos manuscriptos, naturalmente porque as typographias negaram-se a imprimil-os.

No prestito da Esmeralda notavam-se diversos carros preparados com gosto e elegancia, dos quaes especialisaremos a soberba aguia em cujo dorso, sentava-se garbosamente a gentil rainha, o carro das flores, o elephante, o carangueijo, a rosa, o lyrio e o cavallo, que ia montado por um elegante cavalleiro da idade média, e o castello.

N'essa mesma noite, além de outras diversões, houve baile á phantasia no Theatro de Variedades, continuando nas duas noites seguintes.

✤✤✤✤✤

Na segunda-feira, o que houve de mais notavel, foram os ridiculos esguichos da indecorosa bisnaga, que em nossa opinião, devia ser prohibida pelas posturas da Camara Municipal, que não previo esta terrivel invasão. Cumpram o seu dever, senhores vereadores e não consintam, para o anno, que os nossos collarinhos sejam attacados por esse terrivel inimigo dos nossos quarenta réis.

Perdõem-nos as mocinhas nervosas e provocadoras, se tentamos tornar vulneravel o seu Achylles de chumbo!

✤✤✤✤✤

Chegamos ao bom, ao magnifico, ao surprehendente. Façamos isto no estyllo das phantasias choramigas dos bardos sentimentaes. Attenção, sóbe o panno.

Eram quatro horas da tarde de 1o. de Março do corrente anno de Christo. Um sol abrasador cahia perpendicularmente sobre a cabeça da immensa multidão que se aglomerava nas ruas e nas praças, ornadas magestosamente, como para receber o nosso perpetuo e real deffensor.

Os phantaziados das duas sociedades crusavam as ruas em direcção aos respectivos pontos de reunião. O primeiro prestito que vimos foi o da Esmeralda, em que figuravam, além dos carros em que já fallamos, mais dois dignos de menção, o throno em que sentavam-se uma linda jovem e tres elegantes moços, vestidos com muito gosto e o chalet, que conduzia tres fidalgos do reinado dos Luizes em França.

Seguia-se uma fila de mais de vinte carros, ornados com gosto, conduzindo gentis donzellas e elegantes mancebos, em trajes de phantasia, que disputavam-se a primasia dos lindos costumes de epochas remotas.

✤✤✤✤✤

Entre os Venezianos notavam-se igualmente bellos phantasiados e um numero maior de carros, devido ao concurso da sociedade Ensaios de Dansa e um esquadrão, que na maior totalidade, compunha-se de phosporos.

D'este modo não admira não admira o triumpho. Entretanto, merecem especial menção a linda gondola, o carro da gentil rainha, o camello e o vulcão, que produziam um bonito effeito, principalmente os dois primeiros, que foram classificados os melhores do passado carnaval.

✤✤✤✤✤

Na noite dessa dia, a Esmeralda effectuou o seu baile de gala, com a pompa e brilhantismo dos annos anteriores.

A decoração do salão, se não rivalisava em riqueza com a dos Venezianos era ao menos digna de ser vista, pelo bom gosto e elegancia com que foi feita, no curto espaço de dois dias.

Não cabe aqui uma descripção minuciosa desta festa, onde reinou sempre o maior enthusiasmo e animação; apenas diremos que o numero de phantasiados subiu a duzentos.

No sabbado seguinte, realisou-se o baile que a mesma sociedade costume offerecer á rainha, procedendo-se antes á eleição da directoria que tem de servir no anno de 1882.

Pedem-nos para felicitar a linda jovem de cabellos louros, clara, olhos azues, que vestia de côr de havana, pelo brilhante sequito de abelhas que zumbiam aos seus ouvidos palavrinhas de mel. V. Exa. é esmeraldina enthusiasta e é por isso que o propheta Daniel entrou na furna dos leões, para dar-lhe uma prova da sua coragem.

✤✤✤✤✤

Aguardando o ultimo baile dos Venezianos, do qual em tempo nos occuparemos, finalisamos esta resenha, saudando as duas sociedades carnavalescas, pelas festas brilhantes que offereceram ao povo, sempre apreciador das coisinhas bôas e deleitosas e fazemos votos pela extinção das bisnagas, com licença das leitotas que gostam daquelle terrivel esguicho.

Mephistopheles."

Fonte: O LÁBARO (Porto Alegre/RS), 13 de Março de 1881, pág. 04, col. 01-03


Comemorações de Carnaval no Rio Grande do Sul - década de 1870


"SEMANA

CARISSIMAS LEITORAS

Trá... lá... lá... lá... lá... ló... tri... li... li..., etc.

Perdão, minhas benevolas leitoras, se não vos saudei com o devido respeito: sim: quero dizer, isto é, com consideração: porque ainda parece-me que viajo pelo espaço, dentro do meu incomparavel balão, apreciando lá de cima as grandes folias carnavalescas: trago a cabeça em enthusiastica dança, e só estou a ouvir a musica do Zé Pereira.

Abençoado fandango!!!...

Vamos passar um rapido golpe de vista pela resenha dos festejos carnavalescos, que tenho na minha carteira, e mencionarei o que houver de melhor cá para mim.

As taludas gazetas da terra, já declararam alto e bom som urbe et orbi, que o carnaval este anno esteve excellente; por isso é tedioso repetir a mesma cousa; porém como só fallaram n'aquillo que mais encheu o olho, isto é, que todos viram pelas esquinas, beccos, ruas e praças, eu agora vou contar, como tinha promettido as couzinhas boas, que occorreram n'esta santa cidade, durante os tres dias de folia.

Mascates, gaúchos, mulheres, zuavos, etc., já é mais que sabido que houverão; mas, vamos ao theatro, onde teve lugar um explendido masqué; ao qual assistiu uma immensa concorrencia.

Todos os amantes da pandega lá se acharam mascarados com mais ou menos gosto e luxo. Cleopatras e Cupidos não faltaram com seus respectivos Adonis. Emfim o pagode esteve completamente mascarado.

Varios mascaras agradaram pelo espirito de suas continuas graças: emquanto outros limitavam-se ao: - não me conhece?

Distinguir mascarados, quando actualmente a sociedade é em sua maior parte composta d'elles, é tarefa bastante difficil, por isso não massarei a paciencia de minhas leitoras, com uma longa descripção que lhes seria bastante enfadonha e sem interesse.

O ultimo baile foi o mais cheio de enthusiasmo e de numerosa concorrencia; e n'elle deram-se varios episodios, enevitaveis em certas occasiões."

Fonte: GRINALDA: PERIODICO LITTERARIO, CRITICO E RECREATICO (Porto Alegre/RS), 26 de Fevereiro de 1871, pág. 10, col. 01-02


"- O carnaval fôra esplendido, e immensamente conccorido."

Fonte: O CONSTITUCIONAL (Porto Alegre/RS), 11 de Março de 1873, pág. 02, col. 05

"As sociedades carnavalescas preparão-se para a grande batalha de Fevereiro!...

Começarão os preparativos da luta, e, segundo nos informão, o combate será renhido este anno.

Os Venezianos dizem que desejão sustentar os honrosos creditos que têm adquirido em tantos annos de labor, e a Esmeralda exclama que não póde deixar cahir por terra as sympathias com que se tem firmado na opinião publica.

E o caso é que ambas têm razão.

Ambas têm feito tudo quanto é humanamente possivel para agradar, e o esplendor e bom gosto de suas festas anteriores está a prometter-nos brilhante carnaval neste anno.

E assim seja. Eu cá já me ven de antemão preparando para o apanhamento dos importantissimos successos de então e tenho certeza de encher uma carteira de notas preciosas (notas escriptas)."

Fonte: ALBUM DE DOMINGO (Porto Alegre/RS), 12 de Janeiro de 1879, pág. 327, col. 02

"O movimento é geral...

Dir-se-ha que se trata de uma revolução. O peior, porém, é que os signaes da approximação da época carnavalesca se manifestão de modo a fazer reapparecer velhos usos e costumes, que pódem vir prejudicar o modérno systema de festejar o folieiro Momo.

O entrudo!... O entrudo é o peior inimigo das sociedades carnavalescas, que decididamente hão de vir a morrer um dia debaixo de uma alluvião de bisnagas e affogadas n'um verdadeiro mar de agua perfumosa.

Pois se atá já ha bisnagas que equivalem a um barril d'água!

É sempre assim:

No primeiro anno de Carnaval o querido Zé-Povinho, mais pela curiosidade do que por attenção ás prohibições e ordens da policia, que é velha, cansada e rheumatica matrona, com quem elle nunca se importou, despejou todas as vasilhas d'agua, deixou a cera de limões apodrecer nos armazens e tavernas, banio das casas as enormes seringas de folha, que erão um flagello, e mandou comprar flores para atirar nos bandos carnavalescos, sahindo em pessoa para ir vêr das esquinas desfilarem os prestitos.

E era bonito de vêr-se como elle, de bocca aberta e olhos arregalados, acompanhava aquelles carros e ria-se das pilherias do Doux, que fazia de Dulcamara, e atropellava-se e pisava-se para disputar a outrem um impresso que, embollado, sahia de um carro em direcção a uma janella, cahindo sem força na calçada.

Foi um carnaval cheio esse."

Fonte: ALBUM DE DOMINGO (Porto Alegre/RS), 09 de Fevereiro de 1879, pág. 358, col. 02, pág. 359, col. 01

"Todos rião... e com razão.

É justo que as decepções e tristuras da vida tenhão uma tregoa, no esquecimento, durante esses tres dias descuidosos, em que os apolvilhados chicards, os pretenciosos dominós, os desenxabidos prinsêses, os dengues pierrots, os detestaveis diabinhos e o detestabilissimo Zé-Pereira, que pelo nome não perca, todos cheios de frivoleiras e semsaborias, exceptuando alguma allusão feliz, que é um optimo emprego do proficuissimo - ridendo castigo mores - desempenhão importante papel nesta festa do Carnaval, que, a ser originado, como suppõem, das Saturnaes romanas, não é das heranças que mais se nos recommendão."

Fonte: ALBUM DE DOMINGO (Porto Alegre/RS), 09 de Março de 1879, pág. 385, col. 01




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