quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Cabo Pintado



Velharias

No anno de 1848, quando commandava a fronteira de Jaguarão o brigadeiro Francisco Pedro de Abreu, Barão de Jacuhy (por autonomasia Moringue) commandava um destacamento na mesma fronteira, no logar denominado S. Diogo, o major João Machado da Cunha, mais tarde tenente-coronel commandante do corpo de Cangussú.

Entre seus commandados achava-se o cabo de esquadra João Pereira de Barros, conhecido vulgarmente por João Pintado ou Cabo Pintado. Este, aborrecendo-se da vida militar, ou por qualquer outro motivo, evadiu-se das fileiras, commettendo portanto o crime de deserção. Depois juntou-se a um grupo de bandoleiros que vagavam pela fronteira, fazendo algumas depredações, o que veio aggravar mais o seu crime.

Como é natural, foi perseguido e afinal capturado, e, a bem da disciplina militar, rebaixado do posto de cabo de esquadra, e em conselho de guerra foi sentenciado a soffrer castigo corporal, que naquelle tempo era muito usado.

Na sexta-feira da Paixão, foi lida, na frente da força, a ordem do dia, assim como a sentença que condemnava o Cabo Pintado á penna citada, para manhã de sabbado da Alleluia ser dada execução.

Mas o réo, temendo tão barbaro castigo, reincidiu no crime, evadindo-se da prisão. Deixou escriptas umas decimas, na barraca do major João Machado da Cunha, que confirmara a sentença do conselho militar e a quem elle Pintado tratava de Poncio Pilatos.

Conservou-se fugitivo o Pintado, até que foi indultado.

Casou-se no Cerrito de Cangussú, com uma filha do capitão Henrique José dos Santos e falleceu a uns vinte annos, deixando numerosa prole.

Eis as decimas referidas:

Sexta-feira da Paixão, 

um dia tão respeitado, 

foi lida minha sentença, 

com Christo fui comparado.


A vinte e nove de Março,

um dia tão distinguido,

vi meu agudo sentido

perder de todo o compasso.

Como Pilatos foi falso,

lavando a tremenda mão,

seu infernal coração

que a Christo ordena o castigo,

assim fizeram commigo,

sexta-feira da Paixão.


O monstro sanguinolento,

Pilatos sentenciador,

contra mim com tal furor

quiz saciar seu intento;

mas eu no meu pensamento

tinha ao céo me encommendado

e já no Templo Sagrado

o Senhor me defendia;

minha sentença se lia

num dia tão respeitado.


Em tudo me compararam

com o grande Redemptor;

por vingarem seu furor

seu peccado eternisaram.

Taes falsos me levantaram,

sendo eu justo por essencia;

a sagrada Providencia

era quem me defendia;

na frente da companhia

foi lida a minha sentença.


Creio ser meu sempre o céo

e de Pilatos o inferno;

com mais alguns subalternos

que me tratarm de réo.

Cobriu-se o sol com um véo, 

de roxa cor adornado, e de nuvens circulado

cobrindo-lhe o resplendor, 

e pelo meu agressor

com Christo fui comparado.


Geraldo Ferreira Porto (Cerrito de Cangussú - R.G. Sul)


Fonte: ALMANAK LITTERARIO E ESTATISTICO DO RIO GRANDE DO SUL, edição de 1910, pág. 67-68

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