Velharias
No anno de 1848, quando commandava a fronteira de Jaguarão o brigadeiro Francisco Pedro de Abreu, Barão de Jacuhy (por autonomasia Moringue) commandava um destacamento na mesma fronteira, no logar denominado S. Diogo, o major João Machado da Cunha, mais tarde tenente-coronel commandante do corpo de Cangussú.
Entre seus commandados achava-se o cabo de esquadra João Pereira de Barros, conhecido vulgarmente por João Pintado ou Cabo Pintado. Este, aborrecendo-se da vida militar, ou por qualquer outro motivo, evadiu-se das fileiras, commettendo portanto o crime de deserção. Depois juntou-se a um grupo de bandoleiros que vagavam pela fronteira, fazendo algumas depredações, o que veio aggravar mais o seu crime.
Como é natural, foi perseguido e afinal capturado, e, a bem da disciplina militar, rebaixado do posto de cabo de esquadra, e em conselho de guerra foi sentenciado a soffrer castigo corporal, que naquelle tempo era muito usado.
Na sexta-feira da Paixão, foi lida, na frente da força, a ordem do dia, assim como a sentença que condemnava o Cabo Pintado á penna citada, para manhã de sabbado da Alleluia ser dada execução.
Mas o réo, temendo tão barbaro castigo, reincidiu no crime, evadindo-se da prisão. Deixou escriptas umas decimas, na barraca do major João Machado da Cunha, que confirmara a sentença do conselho militar e a quem elle Pintado tratava de Poncio Pilatos.
Conservou-se fugitivo o Pintado, até que foi indultado.
Casou-se no Cerrito de Cangussú, com uma filha do capitão Henrique José dos Santos e falleceu a uns vinte annos, deixando numerosa prole.
Eis as decimas referidas:
Sexta-feira da Paixão,
um dia tão respeitado,
foi lida minha sentença,
com Christo fui comparado.
A vinte e nove de Março,
um dia tão distinguido,
vi meu agudo sentido
perder de todo o compasso.
Como Pilatos foi falso,
lavando a tremenda mão,
seu infernal coração
que a Christo ordena o castigo,
assim fizeram commigo,
sexta-feira da Paixão.
O monstro sanguinolento,
Pilatos sentenciador,
contra mim com tal furor
quiz saciar seu intento;
mas eu no meu pensamento
tinha ao céo me encommendado
e já no Templo Sagrado
o Senhor me defendia;
minha sentença se lia
num dia tão respeitado.
Em tudo me compararam
com o grande Redemptor;
por vingarem seu furor
seu peccado eternisaram.
Taes falsos me levantaram,
sendo eu justo por essencia;
a sagrada Providencia
era quem me defendia;
na frente da companhia
foi lida a minha sentença.
Creio ser meu sempre o céo
e de Pilatos o inferno;
com mais alguns subalternos
que me tratarm de réo.
Cobriu-se o sol com um véo,
de roxa cor adornado, e de nuvens circulado
cobrindo-lhe o resplendor,
e pelo meu agressor
com Christo fui comparado.
Geraldo Ferreira Porto (Cerrito de Cangussú - R.G. Sul)
Fonte: ALMANAK LITTERARIO E ESTATISTICO DO RIO GRANDE DO SUL, edição de 1910, pág. 67-68
