LENDA DO IPU
A serpente que guardava um tesouro
Uma nuvem escura envolvia o sol ocaso. As serranias distantes perdiam-se na imensidão. Da mata saía um arrulho monótono de um pássaro ao se despedir do dia. Das palhas da carnaúba o xexéu soltava seu canto mavioso. Era uma orquestração impressionante naquêle recanto isolado do resto do mundo. Da ponta da mata se avistava um páteo enorme e mais distante um casarão alpendrado. Ali naquela mansão residia um velho monge solitário: Frei José de São Lourenço, na hora do crepúsculo costumava debulhar lentamente preces fervorosas à Virgem mãe de Deus.
A escuridão começava a tomar conta dos campos e das matas. As primeiras estrêlas começavam a cintilar no firmamento. Ao longe ouvia-se um abôio saudoso de um caboclo queimado pelo calôr abrazador dos sertões nordestinos. Chico Pires, moço de confiança e companheiro do velho frade, que àquelas horas retornava à casa para descansar o labôr do dia.
Duas almas residiam naquele casarão da fazenda Lagôa do mato. Dois espíritos adversos se empenhavam numa luta pela vida.
O monge secular com suas vestes castigadas pelos anos aguardava com serenidade a chegada de seu companheiro de casa.
Frei José, com uma simplicidade de santo, gostava às vezes de contar histórias e lendas para melhor passar tempo. Chico Pires gostava de ouví-las. Uma pausa foi feita. Um silêncio profundo envolvia o casarão. Um vento frio soprava do lado da baixa-frêsca, sacudindo a folhagem. Frei José com sua fala bastante arrastada pelo pêso dos anos, assim se expressou: - Chico, para melhor matar o tempo, vou lhe contar uma das lendas: A serpente que guardava um tesouro no município de Ipu Grande. E prosseguiu: "Na construção das primeiras parêdes da capelinha de São Sebastião de Ipu Grande, um aventureiro holandês enterrára, em frente à capela um tesouro imenso, colocando-o sob a guarda do Santo Padroeiro. Êste tesouro fôra trazido de uma grande gente, distante dôze quilômetros da séde da vila, situado no lugar denominado Donato. Afirma a tradição que as riquezas guardadas nessa gruta eram incalculáveis, mas que sempre estavam debaixo da guarda de uma enorme serpente de olhos de fogo. O holandês havia descoberto o segrêdo que fazia o feróz animal a fechar os olhos. Feito, retirou, então, grande quantidade de preciosidade, indo depositá-las, em frente à capelinha. Voltando, para conseguir novo cabedal, foi devorado pela serpente. Contam que, anos mais tarde, o tesouro enterrado no Ipu fôra retirado por um João da Costa que ficara rico, mas profundamente odiado pelo povo que lhe dava as costas ao vê-lo passar... É que o tesouro, por tradição e legítima herança, pertencia a São Sebastião, pois o havia guardado por muitos anos". Terminado o velho frade arrematou: - o "tesouro foi arrancado, mas deixo enterrado nas parêdes da mesma capelinha um cálix de outo, gravado de pedras preciosas, objeto de minha estimação, que servirá para conservar a tradição". A riqueza não faz felicidade ao homem sem a benção de Deus.
Alberto Aragão Soares
Fonte: IPU EM JORNAL (Ipu/CE), ano IV, número 41, out./nov. 1961, pág. 04






