sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Joaquim Francisco de Assis Brasil


"Nasceu em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, no dia 29 de julho de 1857 e faleceu aos 81 anos, a 25 de dezembro de 1938. Diplomou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1882. Ainda estudante, influenciado pelo ambiente positivista, passa a atuar no movimento republicano sendo redator de A República e A Evolução. Em 1881, publicou o seu primeiro livro, A República Federal. Deputado provincial no Rio Grande do Sul, nas eleições de 1887, em 1891 elegeu-se deputado à primeira Constituinte republicana. Foi presidente do Rio Grande do Sul, de 12 a 19 de novembro de 1891. Sua carreira parlamentar seria interrompida em virtude da ascensão e sedimentação do castilhismo no Rio Grande do Sul, que constituiu tema permanente de sua obra política e cuja oposição passou a liderar. Intermitentemente com sua vida política, na liderança da oposição ao castilhismo no Rio Grande, Assis Brasil exerceu diversas funções na diplomacia; embaixador do Brasil na Argentina (1890-92); enviado especial à China (1893); embaixador do Brasil em Portugal (1895); embaixador nos Estados Unidos (1898); embaixador no México (1902); ministro plenipotenciário do Brasil para o Tratado de Limites com a Bolívia (1903); embaixador na Argentina (1905); delegado do Brasil ao 3o. Congresso Internacional Americano (1907). Depois de haver conseguido o fim das reeleições de Borges de Medeiros, em 1926, viria a ser deputado federal pelo Rio Grande do Sul (1927-29); Ministro da Agricultura no Governo Getúlio Vargas (1930-31); embaixador extraordinário na Argentina (1931) e chefe da delegação brasileira na Conferência Econômica de Washington (1931). Integrou a famosa Comissão do Itamarati, assim denominada por reunir-se no Palácio que leva esse nome, no Rio de Janeiro, incumbida de elaborar o Ante-Projeto da Constituição que seria votada em 1934. Participou também do grupo que formulou a Lei Eleitoral de 1932, quando se criou a Justiça Eleitoral. Elegeu-se em 1933 para a Assembléia Constituinte."

Fonte: CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DO PENSAMENTO BRASILEIRO (org.). Dicionário biobibliográfico de autores brasileiros: filosofia, pensamento político, sociologia, antropologia. Salvador: CDPB; Brasília: Senado Federal, 1999, p. 51-52

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Descrição das Pedreiras da Companhia Francesa no Capão do Leão em 1915

“(...)

Ao Capão do Leão, a comitiva chegou cerca de dez horas da manhã, galgando o comboio o cerro de pedra onde, aqui e ali, se vêm casas, constituindo verdadeiras aldeas, grandes edifícios provisórios, de madeira, chaminés e torres, e um movimento enorme de operários, trabalhando sob o ensurdecedor ruído de poderosas machinas.

O morro é contornado por varias linhas da estrada de ferro e está dividido em duas faces de ataque mais ou menos em ângulo recto, cada uma com dois planos, por meio de um degráo, onde se procede a desagregação da rocha empregando-se como agentes poderosos o ar comprimido, a electricidade e a dynamite.

A certa distancia das pedreiras fica a Usina composta de 2 grupos electrogenos de 125 c.v. cada um, sendo um destinado a acionar o compressor de ar. Estes compressores actuam sobre o ar em duas phases – na primeira comprime-o o qual por este motivo eleva a temperatura e para que possa chegar ao limite da compressão desejada o compressor deixa-o resfriar-se distendendo-se e depois novamente actua sobre ele fazendo-o adquirir a pressão de 7 athus. O outro compressor é acionado por um motor Wolf directamente.

O segundo grupo electrogeno é o que fornece a corrente necessária ao movimento do grande numero de guindastes electricos existentes em cada degráo da pedreira. Ao lado desta Usina existe uma outra destinada ao reparo de ferramentas.

Na pedreira trabalham 2 guindastes a vapor de 54 toneladas além de inúmeros guindastes electricos todos destinados ao serviço de carregar as caixas com grandes blocos de pedra.
As perfuradoras á ar comprimido em número de 10 fazem furos de 15 a 20 metros de profundidade com a maior rapidez. Além das perfuradoras há também para mais de 20 rewolveres que ainda pelo ar comprimido fazem furos nos blocos já despegados da rocha para tornal-os transportáveis. Este serviço é admirável.

As perfuradoras tanto trabalham na posição vertical como na horizontal e estando, como estavam, todas trabalhando no dia da visita, impressionam agradavelmente ao observador que ali contempla o modo inteligente da substituição do trabalho manual pelo mecânico. Não há tempo perdido – o bloco grande é atacado em seguida pelos rewolvers que em menos de 10 minutos fazem-lhe um furo no qual a pólvora ou a dynamite atua rebentando-o.

Por occasião da explosão uma corneta alarma ao pessoal operário o qual retira-se correndo; os guindastes todos abrigam-se em pontos determinados. Terminada a explosão volta todo o pessoal afim de carregar os carros.

Trabalham nesta pedreira 700 homens actualmente.


Das pedreiras saiu toda a pedra necessária aos molhes, ao calçamento e ao cais do novo porto.”

Fonte:  A FEDERAÇÃO,  19 de maio de 1915, p.1, c. 1

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Imigração Francesa no Rio Grande do Sul


"Sabe-se que muitos franceses vieram ao Rio Grande do Sul de forma espontânea, muitos antes de 1870, sem auxílio estatal ou de empresas privadas, como é o caso do casal Jacques Blum e Amélie Moise Blum, que partiram da França por conta própria, Jacques era joalheiro natural da Alsácia e D. Amélie de Lorena, consta que chegaram à Bagé após ter nascido seu filho Emílio em 1861. Há casos de franceses em Pelotas também, que sua vinda provocou um avanço no comércio e na indústria, tais como Edmundo Berchon Desessard, um francês de origem de Gédeon, que possuía um latifúndio na região, outra família que se instalou no local foi a Gastal, que possuía uma tradição artística e odontológica.

(...)

Nos relatórios de João Pedro Carvalho de Moraes, em 1873 se vê que a população de Conde D'Eu e D. Izabel, atual Bento Gonçalves, inicialmente foram povoadas por franceses, pois havia um projeto do Império para que aquela área se tornasse tipicamente 'francesa'. Sendo que em 1873, o governo provincial obriga os colonos a colonizar suas terras, com o intuito de ligar Conde d'Eu ao Maratá, uma colônia povoada por alemães, para criar meio de viação animal para facilitar a comunicação com São João de Montenegro e os campos de Vacaria, pois nas palavras do responsável pelas colônias: 'realizada essa ideia, mesmo em parte, posso garantir à V. Ex. um brilhante futuro para a colônia de Conde d'Eu e sua salvação do marasmo à que parece condemnada.' Logo, a colônia de Conde d'Eu fica aos encargos de José Antonio Rodrigues Rasteiro, sendo contratada a empresa Caetano Pinto e Irmãos Holtzweissig & C., para trazer e estabelecer esses futuros colonos, em suas devidas terras. O transporte desses colonos para Conde d'Eu, D. Izabel e Alfredo Chaves sempre se fez por São João de Montenegro e São Sebastião, no Cahy:

Chegado que seja esse inmigrante a esta capital, é logo transportado em vapor até Estrella, onde ficarão os que destinarem á colonia Conde d'Eu, cuja sede dista apenas sete léguas dessa villa; os que procuram D. izabel, seguirão em lanchas até a povoação Thereza, que também se acha a sete leguas da séde D. Izabel; e, finalmente os que forem para Alfredo Chaves continuarão nas mesmas lanchas até Santa Bárbara, no Carreiro em cuja margem esquerda demora essa colonia, sendo de seis horas a média da viagem aos pontos mais remotos de sua parte ocidental.

A produção alimentícia das colônias onde se estabeleceram franceses é massiva na questão dos grãos, principalmente o trigo, produto muito cultivado na França inclusive. As produções de grãos em 1885 chegam até mesmo a superar a de Caxias, portanto como no Relatório de Joaquim Jacintho de Mendonça, o governo deveria construir moinhos nessas cidades em vista da produção local.

(...)

Em 1873 dos 1.866 imigrantes, 174 eram franceses, e desde 1866, 1.607 imigrantes vieram por conta do contrato celebrado com Caetano Pinto e Irmão Holtzweissig & Cia., já por conta do governo imperial 259. Sendo que no total, 134 colonos franceses em 1873 entraram na província. Consta na repartição de terras públicas, entre os anos de 1859 a 1875 entraram na província 12.563 colonos, sendo 648 franceses. Em 1887 estabeleceram-se em Porto Alegre 5 franceses, 21 em Rio Grande, 3 em Pelotas, 4 em Silveira Martins, 1 m Caxias e 1 em Santo Ângelo.

Com a insatisfação dos colonos com a política migratória imperial, que não fornecia as promessas feitas aos mesmos, alguns países, em especial a França em 1876, passou a proibir a imigração ao Brasil, por isso o império decide deixar o caso confiado às empresas de imigração.

(...)

O governo imperial deliberou em 1871 a abertura das zonas de Conde d'Eu e D. Isabel para início do povoamento, sendo que no ano de 1874 que pode levar a cabo empresa tão corajosa e por conta do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio a D. Isabel, 'vieram 48 franceses assistidos por todos os auxílios. Mas também se retiraram, logo que acabaram as antecipações, e sem que houvessem abatido uma árvore sequer'. Esse trecho relata a vinda dos primeiros imigrantes a essas terras, sabe-se que esses seriam responsáveis por 'limpar o local' para estabelecer as famílias, porém assim que chegam logo se vão sem deixar pistas para onde foram. Somente sabe-se que em 1875 houve uma seca na região que fez com que os colonos perdessem a maioria de seu plantio, isso fez com que muitos fossem embora, principalmente os franceses.

Então com a saída dos franceses da região, em 1876 o governo imperial toma posse do território e aloca 200 italianos no local, onde somente 3 eram franceses. Onde no ano subsequente em 1877 já havia no local 1.929, dos quais - 1.302 eram italianos, 505 tiroleses, 12 franceses e 10 brasileiros. E dentro do tempo de 5 anos, a população que era de 1.929 em 1877, vai para 4 mil habitantes em 1882. Sendo dividida em 15 linhas, onde foram gastos em torno de 3.600 contos de réis na formação da colônia.

A colônia de Conde d'Eu, atual Garibaldi, situa-se a norte e oeste pela colônia de D. Isabel, e ao sul pela colônia particular de Teutônia, com uma área calculada em 1877 de  46.754,40 hectares, dos quais 5.352 são por colonizar. A colônia era dividida em 13 distritos, onde havia 5 mil italianos, 100 franceses e 400 tiroleses espalhados entre elas. O principal produto cultivado, devido às altas altitudes era o milho e a uva. 

(...)

A cidade de Brouchier juntamente de Maratá fora emancipada em 1989 do município de Montenegro e Maratá em 1987. Em relação à Brochier, o núcleo de povoamento colonial vem a surgir devido após o ano de 1832, quando chegavam da Europa os irmãos João Honório e August Brochier, sendo um deles mecânico e o outro ourives, que no inicio pretendiam se estabelecer em Montenegro, mas as terras haviam sido vendidas, então adentraram 25 km adentro da mata. 'Logo em 1857, seguiu-lhe a fundação do núcleo Brochier pelos irmãos desse nome oriundos de Marselha, núcleo hoje conhecido por linha dos francezes ou França'.

Antônio Eduardo Brochier era filho legítimo de Paul Brouchier e D. Maria Brouchier, ambos falecidos. 46 anos de idade. Casado com D. Virgília Boudidon - Natural de laval de Waroca (?). Departamento de Retz, França - Veio para o Brasil em 1853, e como colono foi estabelecer-se no Maratá. Onde tem vivido de agricultura, sendo hoje proprietários de uma colônia e estabelecimento de agricultura. Declaração de 20 de abril de 186'1 (pág. 68) - Na página 68 e 68v registrou sua carta de naturalização assinada pelo Presidente da Província de São Pedro do RS, Conselheiro Jerônimo Antão Fernandes Leão, em 19 de julho de 1861.

A localidade hoje conhecida como Pinheiro Machado que liga Brochier a cidade de Poço das Antas - emancipada em 1888 de Montenegro era conhecida como linha dos franceses, ou como era dito pelos alemães da região frechreich ou terra francesa. E é justamente nessa linha onde se localiza os distritos de Paris Alto e Paris Baixo. Nessa localidade teve-se o convívio de vários povos de oriundos de locais diferentes.

Durante 20 anos viveram em harmonia com os bugres da região, passando a vender suas terras aos colonos alemães em 1856, sendo que a maioria era proveniente de colonias antigas aos arredores. Os irmãos foram responsáveis pela derrubada da mata virgem e a transformação da mesma em produtivas plantações."

Fonte: KLEIN, Caroline Rippe de Mello. A imigração francesa no Rio Grande do Sul (século XIX). In: Revista Historiador, v.7, n.7, jan. 2015, p. 22-28.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A origem social dos imigrantes alemães no Brasil


"Há uma polêmica em torno da origem social dos imigrantes. Teriam eles, em sua maioria, vindo das cidades alemãs, teriam eles, em sua maioria, uma origem camponesa, seriam eles, em sua maioria, colonos pobres e sem recursos?

Alguns autores afirmam que a maior parte dos emigrantes alemães que vieram para o Brasil eram habitantes das cidades (WILLENS, 1980, BREPHOL DE MAGALHÃES, 1993). No entanto, uma pesquisa feita em Santa Catarina (SEYFERTH, 1974) mostra que a maioria desses imigrantes eram camponeses que, tendo deixado o campo, se dirigiram para as cidades, onde foram engrossar o proletariado que a fome, o fracasso das revoluções e as guerras sucessivas acabaram forçando à emigração. Confirmando a tese de SEYFERTH, tem-se a pesquisa realizada para Curitiba que aponta pelo menos até a década de 1890, a origem camponesa de grande parte dos imigrantes alemães. (NADALIN, 1988). Isso significaria que grande parte dos alemães era de origem rural, com uma passagem pelas cidades alemãs. Penso que essa polêmica ainda não está resolvida.

Sabe-se que houve, oficialmente, um incentivo, principalmente para os trabalhadores agrícolas, mas, na realidade, a emigração para o Brasil contou com muitos artesãos dos mais diversos ofícios, técnicos industriais e comerciante com iniciativa própria, assim como com alguns profissionais liberais, como farmacêuticos, médicos, professores e pastores.

A colonização baseada no regime da pequena propriedade agrícola não teve somente alcance demográfico, mas, principalmente, econômico, cultural, social e, em certo grau, político. Não teve objetivos meramente agrícolas, acompanhando a fundação de vilas e cidades em suas manifestações mais expressivas, principalmente nas três províncias sulinas e no Espírito Santo."

Fonte: RANZI, Serlei Maria Fischer. Alemães católicos: um estudo comparativo de famílias em Curitiba (1850-1919). Tese de Doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1996, p. 55-56.


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A Lebre Branca e o Galo Preto

"Havia um homem muito selvagem que tinha uma devoção de rezar todos os dias um Pai Nosso a S. Francisco. Quando esse homem estava para morrer apareceu-lhe um anjo e disse-lhe: 'Se deres três esmolas avultadas, ainda te salvarás'. Passado algum tempo entrou um velhinho na quinta e os cães não lhe fizeram mal. O guarda quando viu o velhinho dirigiu-se até ele e disse-lhe:

- Como é que entrou aqui sem os cães lhe fazerem nada?

O velho respondeu:

- Eles são mansinhos, fiz-lhe umas festas e eles não me fizeram mal.

O velhinho foi visitar o homem que estava para morrer e pediu-lhe uma esmola, o homem vira-se para o criado e diz-lhe:

- Dá-lhe cinquenta alqueires de milho.

- Mas ele não trás saco - diz o criado para o patrão.

- Dá-lhe um saco dos melhores para levar o milho.

- Também não te como transportá-lo - diz o criado.

- Então põe o milho na carroça e vai levá-lo a casa.

O criado assim fez tudo e lá mais o velhinho. Quando já iam a caminho ouviram o sino da igreja tocar. O homem que tinha dado as esmolas ao velhinho já tinha falecido. Nisto passou-lhes por perto uma lebre branca a fugir de um galo preto. O velhinho vira-se para o criado e diz-lhe:

'O teu patrão já morreu, e a lebre branca, que passou, significa que ele se salvou, o galo preto era o inimigo que vinha a correr atrás dele, mas não o apanhou. Aquele que fizer o bem já neste mundo se salvará e tu meu amigo podes levar o milho que eu não preciso' - e dito isto desaparece.

O velhinho, a quem o homem deu a esmola e com quem o criado falou era o Santo a quem o homem rezava todos os dias um Pai Nosso.

Recolha efectuada em Caféde - Concelho de Castelo Branco."

Fonte: MOURA, José Carlos Duarte. Contos, mitos e lendas da Beira. Coimbra/Portugal: A Ar Arte/Associação Cultural Outrem, 1996, p. 10.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Imigração no Oeste Paulista


"A designação de Oeste, quando se trata dessa etapa histórica da cafeicultura, tem como referência notória o Vale do Paraíba. Observando o mapa da Província (depois Estado) verificamos que a lavoura que se expande a partir de Campinas se localiza na verdade na região Leste, orientando-se a seguir no sentido Norte. Ou seja, o Oeste histórico corresponde, grosso modo, ao Leste e Nordeste geográfico. Da mesma forma, o Vale do Paraíba, localizado no Sudeste, era chamado de Norte, também em função do direcionamento do café, em marcha progressiva no sentido Sul, a partir da Província do Rio de Janeiro, para depois contornar para o Oeste.

São extremamente abundantes as evidências de uma discrepância do Oeste com respeito a um modelo rigorosamente escravista, decorrente de fatores diversos que, inclusive, aliaram os fazendeiros dessa área a um incipiente processo de urbanização nas fímbrias da lavoura.

Isso, é claro, não interferia no processo de estruturação do quadro de trabalho da própria lavoura, essencialmente escravista. Sem dúvida, tendo iniciado sua expansão depois da extinção do tráfico - portanto numa etapa já adversa à especulação em escravos - a lavoura do Oeste passa a desenvolver uma tendência a reservar o braço escravo para as funções essenciais, empregando o trabalho nacional livre nas tarefas supletivas ou perigosas. Igualmente, multiplicam-se as tentativas para introduzir colonos europeus, o pagamento de cujas passagens era adiantado pelos fazendeiros. Colocados, porém, em fazendas já organizadas em base escravista, onde recebiam uma remuneração pautada pela rentabilidade do trabalho escravo, originavam-se freqüentes conflitos entre proprietários e colonos, que tornavam desvantajoso o sistema.

Em vista disso, a nova lavoura passa a insistir numa solução que lhe permitisse ao mesmo tempo poupar o investimento em escravos e garantir-se um braço barato: a entrada do trabalho semi-servil de cules (coolies, trabalhadores indianos e chineses) à custa dos cofres públicos.

Mas, enquanto fracassam essas tentativas, prossegue no Oeste, o sistemático suprimento de braço escravo, vindo de outras províncias. Por isso, durante a passagem da lei emancipadora de 1871, que encontra a oposição generalizada da lavoura de todo o país, é exponencial a resistência do Centro-Sul, em geral e especialmente do Oeste paulista.

Uma vez promulgada a Lei do Ventre Livre, porém, tendo sido o próprio investimento servil ferido pela depreciação, começam a se esboçar tentativas para dificultar a corrente de tráfico interprovincial, ao mesmo tempo que a administração passa a promover um programa de auxílio à introdução de imigrantes.

A abertura de uma terceira frente cafeeira provoca uma substancial mudança qualitativa na situação, conduzindo ao rompimento dos quadros restritos dessa política imigrantista. Com efeito, a lavoura mais nova do Oeste da Província de São Paulo, desenvolvida depois da lei de 1871 (quando decresce o interesse pelo investimento em escravos), tendia a se organizar na base do trabalho imigrante, e se voltava para as possibilidade propiciadas pelo surto imigratório italiano.

O colono, até então localizado supletivamente em lavouras já constituídas, passaria a ser empregado no cafezal em formação, vendo o seu salário acrescido com o usufruto das terras intercafeeiras. A introdução de imigrantes em famílias permitiria ao fazendeiro obter um suprimento de trabalho suplementar barato, fornecido pelos membros femininos e infantis, enquanto ao colono se tornava possível, através da cooperação da unidade familiar, um melhor aproveitamento das oportunidades de ganho.

Para o sistema funcionar a contento era, entretanto, necessário respeitar a mobilidade do colono, seja entre as fazendas, seja na direção dos núcleos urbanos. Esse fator, obrigando a uma contínua introdução de novos imigrantes, tornaria impraticável o esquema no caso do financiamento das passagens continuar cabendo aos fazendeiros. Além disso, a transferência dessa despesa para os cofres públicos devia influir favoravelmente sobre a oferta de braços, uma vez que o imigrante estaria liberto da necessidade de reembolsar o preço da passagem, vendo acrescida, portanto, a sua remuneração.

Com o sistema do imigrantismo em grande escala, subvencionado pelos cofres públicos, alterava-se radicalmente o enfoque corrente da matéria. Enquanto as administrações provincial e nacional encaravam o problema em termos de uma concessão de auxílios pecuniários aos fazendeiros para a introdução de colonos, a nova lavoura, ao invés, passava a interpretar a imigração subvencionada como alicerce de um abundante mercado de trabalho estrangeiro, que caberia aos poderes públicos proporcionar.

É à área responsável por essa proposta (área essa correspondente à Alta Mogiana), e cujo porta-voz era o líder imigrantista Martinho Prado Júnior, que chamamos de Oeste novo.

Em carta de outubro de 1877, registra Martinho Prado Júnior seu entusiasmo por São Simão e Ribeirão Preto. À vista da terra roxa, exclama: 'Campinas, Limeira, Rio Claro, Araras, Descalvado, Casa Branca, tudo é pequeno, raquítico, insignificante, diante desse incomparável colosso'.

E, de fato, a região constitui-se em novo centro de atração, a ela afluindo, além de fazendeiros de outros pontos da Província, grande número de proprietários provenientes de Minas Gerais. O distrito que Martinho Prado Júnior representa na Assembléia Legislativa Provincial, em 1882, inclui Pinhal, São João da Boa Vista, Casa Branca, Ribeirão Preto, São Simão, Cajuru, Batatais, Franca. Casa Branca seria uma espécie de limite entre o Oeste antigo (Campinas, Limeira, Rio Claro, etc.) e o Oeste mais novo, o primeiro centrado em Campinas e o segundo em Ribeirão Preto.

Com os dois Oestes e mais o Vales, configura-se perfeitamente na Província uma constelação constituída de três áreas sócio-econômicas nitidamente distintas."

Fonte: BEIGUELMANN, Paula. A crise do escravismo e a grande imigração. São Paulo: Brasiliense, 3a.ed., 1982, p. 07-11. (Coleção Tudo é História)


sábado, 27 de janeiro de 2018

General José Antônio Mattos Netto - Zeca Netto


"Nasceu por volta de 1854, no atual 5o. subdistrito de Canguçu, no seio da família Mattos, a qual pertencia sua mãe Rafaela Mattos, mulher afeita às lides guerreiras, viúva de dois militares e no terceiro casamento com Florisbelo Neto, veterano farroupilha, irmão do general Antônio Neto. Era sobrinho do Ten. Cel. GN Theófilo de Souza Mattos que comandaria os canguçuenses na Guerra do Paraguai. Nasceu após a guerra contra Oribe e Rosas. Viveu em Canguçu até cinco ano de seu vilamento.

O Rio Grande já vivia o clima de guerra próxima que ocorreria em 1864-70, quando viveu a parte de sua juventude, dos 14 aos 20 anos.

Foi um autêntico campeiro e tapejara (conhecedor dos caminhos) do Rio Grande. 'Gabava-se de ser capaz de ir a cavalo de Camaquã até Montevidéu sem molhar as patas do seu cavalo'. Criou-se entre os Mattos e os Netos, destacados e tradicionais revolucionários do Decênio Heróico.

Sobre sua vida e obra, além do que já abordamos ao tratarmos da Revolução de 23, em Canguçu, dele escreveu nosso ilustre confrade Arthur Ferreira Filho e veterano dessa revolução do lado governista:

'José Antônio Neto, sobrinho do farroupilha general Antônio de Souza Neto, era abastado fazendeiro no município de Camaquã.'

Na Revolução de 93 comandou um corpo de patriotas castilhistas no posto de tenente coronel. Mais tarde rompeu com o chefe de seu Partido, sendo em 1923 dos primeiros a sair a campo contra o Governo de Borges de Medeiros. Sua coluna que se chamou '4a. Divisão do Exército Libertador', ficou famosa pela rapidez de movimentos com que, em parte, supria a deficiência de material bélico. E graças à grande mobilidade que imprimiu à sua tropa, logrou furtar-se a encontros decisivos com os coronéis Hipólito Ribeiro (filho) e Francelino Meireles que tenazmente o perseguiam.

Bateu-se vantajosamente no Passo do Mendonça, contra o coronel José Lucas Martins, conseguindo livrar-se do cerco que lhe preparava a Brigada Juvêncio de Lemos. Sempre perseguido de perto, o caudilho cruzou durante meses a região de suas proezas, Camaquã, S. Jerônimo, Canguçu, Encruzilhada, Pinheiro Machado, Pelotas, sem nunca de deixar surpreender.

Apenas uma vez, reprimido por Hipólito Ribeiro, viu-se obrigado a lutar em condições desfavoráveis, em Canguçu Velho, sujeitando-se a séria derrota.

Ali perdeu muitas praças e vários oficiais, escapando-se ele próprio a duras penas. Foi quase ao findar da Revolução que Zeca Neto realizou sua maior façanha. Surpreendeu e tomou a cidade de Pelotas, ocupando-a quase totalmente, por algumas horas, não obstante a valorosa resistência oposta pela pequena guarnição republicana. A ocupação de Pelotas não foi propriamente uma vitória militar, não apenas pela desproporção numérica, entre as forças atacadas, como porque fora incompleta e efêmera. A ocupação não alcançou toda a área da cidade, não conseguiu silenciar a totalidade dos pontos de resistência, e durou umas poucas horas, somente.

Mas fora, inegavelmente, um feito útil à Revolução, tanto pela repercussão política favorável, como porque, na rica cidade sulina, onde o caudilho contava com inúmeros simpatizantes, fácil lhe fora se abastecer dos víveres e munições de que carecia com premência.

Ademais, o fato de conseguir atacar a segunda cidade do Estado, sem que a Brigada Juvêncio de Lemos, o impedisse, deve ser levado a crédito de Zeca Neto, velho caudilho de setenta e dois anos, que assim dava provas de uma capacidade de agir e movimentar tropas que só deveria esperar de um fogoso guerreiro de trinta anos. Houve um momento, na Revolução de 1923, em que Zeca Neto, numa de suas meteóricas incursões, chegou a estar à vista da Capital do Estado, na atual cidade de Guaíba, naquele tempo chamada Pedras Brancas.

Registrou-se, então, considerável susto popular em Porto Alegre. As famílias recolheram-se ante a expectativa de um combate. Os estrategistas de cafés revisavam seus cálculos, enquanto os boatos de todas as cores fervilhavam nas ruas.

O velho Largo dos Medeiros manteve seu prestígio, fazendo-se o centro das informações alarmantes.

Já alguns governistas cumprimentavam com mal disfarçada subserviência, certos figurões da oposição, como quem aplaina o terreno para o futuro incerto.

Aníbal estava às portas de Roma.

Entretanto, a aproximação de Zeca Neto era de todo inofensivo, pois, mesmo que não houvesse o rio Guaíba pelo meio, restaria ainda a circunstância decisiva de não possuir o caudilho a menor condição material para atacar uma cidade bem guarnecida, como se achava Porto Alegre naquela ocasião.

Nem Zeca Neto pretenderia mais do que se mostrar à sede do Governo para efeito de prestígio e propaganda. Feita a paz de Pedras Altas, (14-12-1923), Neto voltou às atividades de fazendeiro, dedicando-se também ao aliciamento eleitoral para as fileiras da oposição. Mas, em face de novo surto de rebeldia no Estado, em 1926, não se conteve. Emigrou para o território uruguaio e lá reuniu apreciável grupo de companheiros à frente dos quais cruzou, de regresso, a fronteira rio-grandense, invadindo o Estado em tropel de guerra. Estava, então, com setenta e cinco anos de idade. Seu vigor físico era ainda perfeito, podendo, como demonstrou, montar a cavalo sem se utilizar dos estribos, mas já não encontrou ambiente para repetir as façanhas anteriores. Companheiros de valor, como Dario Crespo e outros da passada campanha, desta vez, não o quiseram acompanhar, e o caudilho se deixou cercar por indivíduos tais como João Castelhano, de tenebrosa memória. À sombra do nome caudilho foram praticados crimes repulsivos, como o degolamento do delegado de polícia de S. Sepé, Capitão da Brigada Militar, homem benquisto por gregos e troianos naquela cidade.

Zeca Neto já não podia conter os impulsos inferiores de seus comandados.

Essa campanha felizmente durou pouco. Depois de algumas escaramuças, o caudilho foi derrotado pelo coronel Hipólito Ribeiro e perseguido, sem quartel, pelo comandante de vanguarda do 'Destacamento Hipólito', tenente coronel Delfino Silveira, sendo obrigado a regressar à República vizinha, desanimado e sem condições para tentar novas aventuras.

Zeca Neto que era homem educado, de feitio aristocrático, gostando de trajar com elegância, deixara crescer a barba, prometendo não a raspar enquanto Borges de Medeiros estivesse no Governo.

Cumpriu a curiosa promessa, mas, para isso, teve que esperar até 1928, quando o estadista republicano venceu o último qüinqüênio.

Com a barba longa e grisalha, um tanto hirsuta, o caudilho apresentava não o aspecto de um bondoso avô, ou de um velho homem da ciência, mas o de um sanhudo veterano da Guerra do Paraguai.

Após a Revolução Constitucionalista, emergência em que o caudilho libertador ficou solidário com a ditadura de Getúlio Vargas, veio a exercer um lugar de direção no partido fundado e chefiado por Flôres da Cunha.

Como o golpe de 1937, que implantou o Estado Novo, extinguindo os partidos políticos e proibindo qualquer atividade partidária, afastou-se para sempre da vida pública.

Viveu muito ainda. Conservou até o fim uma rara fortaleza de ânimo e acentuado espírito de luta.

Com mais de noventa anos, ainda exercitava, diariamente, no tiro ao alvo.

Aos que manifestavam estranheza, ante o treinamento bélico do general nonagenário, ele respondia com visível convicção:

'Ninguém sabe o que nos reserva o dia de amanhã."

Nota: Zeca Netto faleceu em 1947.

Fonte: BENTO, Cláudio Moreira. Canguçu reencontro com a História: um exemplo de reconstituição de memória comunitária. Barra Mansa/RJ: ACANDHIS/Gráfica e Editora Irmãos Drummond Ltda., 2007, 2a. ed., p. 267-271


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