Mostrando postagens com marcador Vacaria. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vacaria. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de março de 2022

Indígenas no caminho entre o Rio Grande do Sul e São Paulo em 1841

 



ABORIGINES

Fragmento de viagem

Quem vem das campinas do Rio Grande do Sul, para a província de S.Paulo, tem de atravessar largos sertões, caudalosos rios, e magnificos campos. Fizemos esta viagem em 1841, e desse tempo são estaas notas, que agora sugeitamos ao prélo, e offerecemos ao publico.

Partindo da Cruz Alta, passámos no Passo-Fundo, Matto Castelhano, Campo do Meio, Vaccaria, e chegámos ao Rio Pelotas, que serve de divisa entre o Rio-Grande e Santa Catharina; atravessando o rio chegámos aos Campos Novos, de onde fizemos uma pequena digressão aos Campos de Palmas, e voltando de lá retomamos nosso caminho passando pela então pequena povoação de Curitibanos, tomamos a direcção do Sertão chamado de S. Paulo, onde se acha o pequeno rio Canôas, que é a divisa de Santa Catharina, e S. Paulo, entrando no territorio desta ultima provincia, chegámos ao importante registro, e pequena povoação do Rio-Negro, e depois nos internâmos pela provincia, fazendo ainda diversas digresões pelas mattas e rios da comarca de Coritiba, hoje provincia do Paraná.

Em todo este trajecto encontrámos sempre noticias aterradoras da proximidade, e invasão dos bugres bravios, restos dessas antigas tribus de aborigenes, e que habitão as mattas e sertões desses lugares. E com effeito, aqui encontra-se os restos de uma habitação que os bugres incendiarão, depois de saquearem, e darem a morte a todos os moradores; ali encontrão-se os vestigios de alguns assassinatos, feitos nos viajante que incautos pernoitavão nos lugares de correrias dos bugres; acolá encontravão-se innumeras cruzes, que provavão que n'aquelle logar tinah havido uma matança de passageiros; mais além, ainda se achavão ossadas humanas, e ossadas de cavallos, resultado de um assalto de bugres que não tinhão poupado uns e outros: enfim, por toda a parte os signaes de devastação, marcavão o aparecimento das hordas selvagens. Desejosos de saber qual a tribu a que pertencião estas hordas, e porque motivo levados só pelo espirito do saque, e do roubo, comettião tantas atrocidades, tratámos de estudar o caracter de alguns bugres semi-domesticos, que apparecião em differentes pontos, e com quem tivemos occasião de praticar; indagámos suas nações, usos, e costumes, e o mesmo fizemos com alguns que cahião prisioneiros, quando os habitantes davão algum ataque aos seus alojamentos; e aventurando-nos a visitar os alojamentos de algumas tribus ou hordas já entradas na domesticidade, ahi os acabámos de estudar, tanto quanto nos permittia o tempo de nossa demora, e as relações que podiamos entabolar com esses homens da natureza. Do resultado destas nossas indagações, vamos dar aos nossos leitores uma breve noticia.

As hordas que infestão esses lugares, não são todas originarias de uma só tribu, ou nação; e ainda que seus dialectos se assemelhão, ha comtudo bastante differença entre elles.

Alguns destes aborigenes, restos de uma ou outra tribu, constituem um povo separado, conservado em sua pureza o idioma, usos e costumes de seus antepassados, e vivendo ainda em guerra com outras tribus suas inimigas; porém outros teem-se misturado, e em um só alojamento se encontrão as reliquias de differentes tribus, cujos usos, costumes, linguagem, hoje amalgamados e confundidos, tem tomado um caracter novo e especial, onde em balde se procuraria a primitiva origem.

Algumas horas sómente se compoem de selvagens no estado primitivo; mas outras teem de envolta alguns inidios que já forão domesticados, e viverão com gente civilisada, e que voltárão para as mattas, e estes bandos que possuem esses refractarios da civilisação, são justamente os que mais se empregão no salteamento das estradas, e habitações.

Os indios que apparecem desde a Cruz Alta, até á Vaccaria, são pela maior parte Carijós, ou Guaranys, ainda que juntos com elles existão alguns Tupinaes [sic], e Tupinambás, restos dessas tribus que habitarão a provincia de S. Paulo, e o Sul do Rio de Janeiro. Estes restos hoje estão tão misturados, que é difficil obter um ou outro indicio, pelo qual se julgue destas origens; comtudo com bons interpretes, que são sempre indios já civilisados, ou para melhor dizer domesticados, consegue-se alguma cousa, acompanhando as maravilhosas tradicções dos aborigenes anciãos, das quaes é preciso separara o verdadeiro do falso. Esta horda tem alguns alojamentos insignificantes na serra de Itapeva, na que desce para Santo Antonio da Patrulha, e outros pontos das mattas; mas o seu principal aldeamento, é no interior do Matto-Castelhano, para a banda do Rio Pelotas, e talvez não mui longe dos confins dos Campos de Palmas. Este aldeamento é vasto, tem muitas cabanas, algumas de uma só familias, e outras maiores que servem de habitação a umas poucas de familias: é todo cercado de uma dupla palissada, que ainda é defendida por largos ainda que imperfeitos fossos, que tambem são guardados por muitos fojos em todas as direcções, os quaes deixão apenas livre para a entrada um estreito e sinuoso caminho, só conhecido dos bugres.

Nesta horda existem alguns bugres domesticos, que dirigem os ataques das casas e caravanas; e suppomos que a escolha, e formação do aldeamento neste lugar, é devido a alguns Guaranys já domesticados pelos Jesuitas das Missões, os quaes pela expulsão d'aquelles Padres, se juntárão aos restos da sua tribu ainda selvagem, e tratárão de organisar-se em tribu, de novamente. Temos esta supposição, em razão de que o alojamento é quadrado, e de uma organisação interna semilhante á que os Jesuitas derão aos differentes povos das Missões, havendo mesmo entre os indios, algumas tradições dos Jesuitas. As armas destes bugres, são a fléxa, e a maça de páo; comtudo, os indios domesticados que andavão com elles, algumas vezes tem usado de armas de fogo; a maior parte das pontas das fléxas desta horda, são feitas de ferro, para o que se servem de pontas de faccas, ou de qualquer ferro que apanhão; as faccas tambem lhe servem para varios usos. Quando atacão é sempre de surpreza, e fazendo grande alarido durante o combate, se este tem lugar; matão todas as pessoas e animaes que encontrão, e saqueão o que lhe convém, não deixando o dinheiro em ouro se o encontrão. No geral andão nús, e alguns trazem tangas de pennas, ou de panno. O aldeamento é ali permanente, mas os indios destacão partidos que dirigem suas correrias para differentes pontos. Esta horda causou immenso estragos, e tem-se portado com tal ousadia, que em 1840, quando o General Labatut, fez a sua retirada de cima da serra, na passagem do Matto-Castelhano, forão por elles atacada algumas bagagens e pessoas que ficarão a retaguarda do exercito.

Diz-se que neste aldeamento, ha tambem, organisadas pelos Guaranys que pertencerão aos Jesuitas, algumas toscas officinas de carpinteiro, e ferreiro, e uma forja; o que não asseveramos que seja exacto, mas que comtudo é acreditavel, visto o seu trabalho das fléxas, e alguns machados de ferro, que se lhe tem encontrado, quando no geral os indios usão deste instrumento feito de pedra.

Segundo alguns bugres prisioneiros, estes selvagens tem prisioneiras no seu alojamento, algumas mulheres tomadas ás caravanas que tem roubado e destruido.

Fonte: O COSMOPOLITA: JORNAL LITTERARIO, INSTRUCTIVO E NOTICIOSO (Rio de Janeiro/RJ), 25 de Novembro de 1854, pág. 03, col. 03, pág. 04, col. 01


sábado, 3 de outubro de 2020

Antonio Luiz Antunes


"Falecimento

Faleceu, repentinamente, vitima de um ataque cardiaco, no dia 29 ultimo, na cidade de Vacaria, o 2o. Sargento-Motorista Antonio Luiz Antunes, da 2a. Cia. do 5o. B.C. da Brigada Militar, que ali se encontrava em serviço.

O seu falecimento, causou profundo pesar entre seus colegas e camaradas de Cia."

Fonte: A E'POCA (Caxias do Sul/RS), 01 de Janeiro de 1940, pág. 04

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Histórico do Município de Vacaria/RS


"No parecer do curador da Fazenda das Índias, a história do município de Vacaria começa no momento em que os portugueses e paulistas se deram conta de que a Capitania Del Rey não era um vasto deserto utópico e aterrador que poderia ser doado a quem pretendesse.

Em 1672, nos portões de Vacaria, os jesuítas implantaram marcos com a legenda 'S.J. 1672'

Em 1680, expandiu-se o domínio português até o Rio da Prata através da fundação da Colônia do Sacramento. Aconteceram guerras envolvendo aventureiros e os empreendimentos jesuíticos das Missões, resultando no aprisionamento de índios para serem comercializados no mercado de escravos, posses de imensos rebanhos de gado que as 'baquerias' jesuíticas possuem e os campos de Vacaria passaram a ser objeto de inúmeras incursões por parte dos portugueses e paulistas.

De Laguna, o ponto mais meridional do povoado português, partiram duas expedições oficiais para determinar um caminho, por terra, para Sacramento. Uma escapou do cativeiro que sofreu na guerra contra os índios, a outra logrou êxito em seu objetivo. Porém, no caminho de volta, encontrou-se espanhóis que, com os índios civilizados e dependentes das Missões, vinham escolhendo outras localidades para se estabelecerem. Estes índios foram capturados e levados a Laguna e trouxeram de lá dos seus missionários a proibição de fundarem povoações na Capitania, agora totalmente de domínio português.

Os jesuítas das Missões espanholas fundaram oito baquerias para a criação de gado bovino. Estimava-se um total de 200 mil cabeças de gado, que foram sendo constantemente saqueadas por paulistas. Em 1712, abriram penosa picada em Mato Castelhano e Português por cuja clareira fizeram passar 120 mil cabeças para soltarem no recente pasto 'Baqueria de Los Piñales', sendo esta a última baqueria organizada no avanço jesuítico da margem esquerda do Uruguai, devido ao seu território ser delimitado pelos rios Pelotas e das Antas, evitando assim que o gado se perdesse.

Em 1735, Manuel Dias da Silva, comandando um magote de paulistanos, substitui os marcos espanhóis por títulos portugueses nos campos de Vacaria a porta oriental da conquista do Rio Grande do Sul.

Em 1752 e 1754, foram concedidas as quatro mais antigas sesmarias desta região, dando início ao povoamento.

Este município originalmente pertenceu a Santo Antônio da Patrulha. Em 22/10/1850, a Lei no. 185 criou o município de Vacaria, vinculando-o a São Borja, transferindo-o após para Lagoa Vermelha.

Em 16/02/1875, passou para Porto Alegre e a Lei no. 139, de 06/11/1857 extinguiu o município anexando-o novamente a Santo Antônio da Patrulha.

Pela Lei no. 12/04/1876, foi restaurada a condição de município, cuja sede era em Vermelha."

Fonte: ATLÂNTICO (RS), 25 de Janeiro de 1999, pág. 04

domingo, 28 de julho de 2019

O caso do Padre Bernabé


"De Ayuruoca volvo os olhos para a Vaccaria, provincia do Rio Grande do Sul.

Até aqui era completamente incognito o padre Bernabé. Quem conhecia o padre Bernabé antes das ultimas noticias? Eu só conhecia um Bernabé Chibata, que, além de não ser padre, era personagem de comedia, ao passo que o Bernabé da Vaccaria é padre, padre tragico.

✥✥✥✥✥

Convidado para levar o viatico a um moribundo, o padre Bernabé exigio delle que se confessasse. Recusou, ou não poude confessar-se o doente? As folhas de Pelotas não esclarecem este ponto. O certo é que o padre Bernabé não hesitou um minuto; excommungou o moribundo.

O moribundo expirou; mas estando excommungado não podia ser enterrado em sagrado e só havia o recurso de o enterrar na rua.

O caso era delicado. Instado para levantar a excomunhão, o padre Bernabé cedeo generosamente, mas... Aqui entra uma scena digna de penna de Anna Radclif.

O padre lançou mão de um canivete, e, para destruir os effeitos da excommunhão, cortou varios pedaços do corpo do defunto, e açoutou-o depois com varas - de marmelo."

Fonte: SEMANA ILUSTRADA (Rio de Janeiro/RJ), edição 516, ano 1870, pág. 4122, col. 02, pág. 4123, col. 01

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Salteadores & Bandoleiros no Rio Grande do Sul em 1871


"Ladrões.

As quadrilhas de ladrões que ha mais de dous mezes infestão o districto de Capivary, roubando o gado, assaltando as casas e tentando contra a vida do cidadão e animadas pela impunidade de todos os seus crimes, redobrão de ousadia, e engrossão todos os dias o grupo com novos sequases.

Ao principio composta esta malóca de 12 salteadores, já se acha, hoje elevada ao numero de 22, os quaes depois de terem andado a roubar e estragar tudo o que encontravão nas immediações da estancia do Curral-Alto, consta-nos que ha 4 dias investirão contra esta mesma estancia, não só roubando gado e o mais que encontrarão á mão, como levando o arrojo á assaltarem mesmo a casa, onde morava o respeitavel cidadão o Sr. João Ferreira Pinto, um dos seus proprietarios e irmão do nosso distincto amigo o Exm. Sr. Barão do Cahy. As autoridades fazem por cumprir o seu dever, não lhes falta vontade de punir tão atrevidos ladrões, não têm porém força policial á sua disposição, nem se tem curado de fornecel-a, e assim ficão á mercê, os cidadãos, de seus proprios recursos.

------

Mais ladrões.

A serie de attentados contra a vida e a propriedade do cidadão ainda não está esgotada. Elles multiplicão-se e reproduzem-se por toda a parte. Já não é só no Cerrito do Ouro, ou no Capivary, ou no Curral Alto que elles apparecem fazendo as suas correrias. Na Vaccaria, theatro antigo de suas façanhas, estão hoje como nunca estiverão. Achão-se organisados, com uma força regular, prompta a bater-se com quem se lembre de os perseguir. Não contão com a perseguição da autoridade local que vive desajudada pela que aqui na capital lhe podia obter força, e eil-os zombando da ordam e tranquilidade publica.

Esta provincia precisa de um chefe de policia que tenha acção e energia para prover a segurança da vida e propriedade á que tem direito o cidadão, e não de chefes que vivão de expedientes da secretaria. Eis o que vimos referido em uma carta dirigida á um amigo nosso:

<<... como sei que tem intimas relações de amisade com o Dr. Brusque, chefe de policia, me parece que lhe transmittindo as noticias que lhe vou dar, elle de certo acreditará e alguma cousa providenciará em favor d'este infeliz lugar, onde presentemente me acho exposto á soffrer algum desacato, e talvez a perder a vida, porque já se não escolhem as victimas. No dia 3 de Março proximo passado, quando eu atravessava o lugar denominado S. Joaquim, recolhendo-me á casa, cahião em uma coxilha, longe de minha estrada legoa e meia, em occasião de umas carreiras, dous moços filhos de um homem de nome Theodoro de tal Chaves, feridos pelo tenente Luiz Telesphoro Teixeira, que por seu turno cahiu morto pelo dito velho Theodoro, em desagravo de seus filhos.>>

<<De proposito passarei por alto factos subsequentes que se derão por occasião de instaurar-se o processo ao velho Theodoro. Dias depois nas visinhanças de um lugar chamado - Taimbezinho - na Vaccaria, em uma casa de negocio de um moço allemão, genro de outro allemão de nome Christianno Hoffman, entrou um réo de policia, natural e morador em Cima da Serra, no lugar denominado - Cédro - conhecido pelo nome de Anginho, e ali, depois de beber, attacou o dono da casa á espada, cutilando-o impunentemente, e depois sahio. Este negociante recorreo á autoridade da Vaccaria, fez auto de corpo de delicto, deu sua queixa, gastou noventa e tanto mil réis, e depois teve de desistir de fazer parte, porque o réo não foi pegado, e elle queixoso bem sabe qual a sorte que o espera. Dias depois um fazendeiro de idade avançada de nome Estanisláo Rodrigues de Campos, morador no Capão-Grande, longe da freguezia da Vaccaria 3 1/2 legoas, tendo vencido uma demanda sobre campos de sua propriedade com uns poucos de irmãos de nome Lisbôa, aos quaes fôra intimado o despejo dos lugares que individamente tinhão invadido, foi acordado alta noite ao clarão do incendio de sua casa, e no acto de sahir, como era natural, para livrar-se e salvar o que ainda pudesse, soffreo uma descarga de que cahio morto.

<<Á mesma hora era incendiada a casa em que residia, pouco distante, mas no mesmo campo, um filho do dito Estanisláo, de nome Marcolino, que não morreu por não estar em casa.

Pelo mesmo tempo era attacado á noute em sua casa, um casal de velhos, moradores nas pontas do arroyo Santa Rita, districto da Lagôa Vermelha, cujos nomes ignora, pedindo-se-lhes o dinheiro que havia; e como só apparecesse uns 40 ou 50 bolivianos, foi o velho cruelmente ferido, e consta-me que ainda existe: Estes quatro factos são acontecidos todos no mez de Março.

<<Além d'estes factos que mencionei e que provão de mais a nenhuma segurança que aqui ha pelo desrespeito á autoridade, que além de ignorar os seus deveres, nenhuma força tem em que se apoie, sendo ella mesma a que mais receio tem de intervir nas occasiões, accresse a existencia de uma espantosa reunião de malvados, ladrões e assassinos conhecidos que se achão agrupados á 6, 8 e 10 conforme a occasião nas immediações do lugar denominado - Costa - entre a serra das Antas e a de Pelotas, e ao alcance das estancias Carauno e Ausentes, onde fazem suas correrias á luz do dia e de onde se supprem de gado e de cavalhada, sem que seus proprietarios possão oppor-se. Esta reunião de malvados que actualmente infesta este lugar é composta de homens conhecidos no atroz assassinato de João Ramos e sua familia; alguns que ainda não forão presos e outros que farão inocentados no jury de Santo Antonio, e de outros que escaparão á ultima perseguição que lhes fez aqui um alferes de policia, genro do Dr. Moraes por occasião do incendio da casa de Ignacio Velho e tambem de alguns fugados d'essa cidade depois de serem presos pelo tenente-coronel Moraes em Novembro do anno proximo passado quando aqui esteve.

Um soldado de policia da collectoria que atravessou em serviço para a Agencia dos Auzentes e Santa Victoria no dia 10 ou 11 de Março foi rodeado por essa quadrilha, e depois de bem perguntado, deixarão-n'o seguir. No dia 18 ou 20 do mesmo mez, outro moço com um companheiro ao atravessar da estancia de Athanagildo Telles para os Auzentes os encontrou em numero de 8 ou 10 apeados em uma taberna isolada que ha no - Capão Bonito - ponto escolhido para a sua reunião por ser indispensavel passar-se ali tendo de ir de Santa Victoria para os Auzentes e vice-versa. Esta taberna do Capão Bonito só é frequentada por essa quadrilha. Nenhum viandante, por mais corajoso que seja, terá a lembrança de tocar n'aquella casa. Quando aqui andou o alferes de que acima fallei, tinha-se ha pouco queimado aquella taberna, mas como o ponto é necessario foi de novo edificada e está habitada por gente da quadrilha...>>

Veja o Sr. conselheiro presidente que se tem tanto empenhado em moralizar a administração publica que tão desmantelada encontrou a sua chegada, se attende para estes factos faz com que a autoridade competente desperte do lethargo em que jaz, e faz com que as garantias de vida e propriedade que dá a lei aos cidadãos, deixa de ser uma ficção."

Fonte: O CONSTITUCIONAL (RS), 20 de Abril de 1871, pág. 03, col. 01-02

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A caçada a Berto Cuxarra e Paulo Burro


"Captura de criminoso e morte

O delegado de policia da Taquara do Mundo Novo expediu diversas escoltas em perseguição dos criminosos Felisberto Leite Ribeiro, vulgo Berto Cuxarra, e Paulo Burro, pai d'aquelle, para a captura dos quaes havia recebido requisição, por terem, com outros na linha Palmyra, municipio de São Sebastião do Cahy, assassinado o negociante italiano Deboni e sua familia e saqueado a casa, a que em seguida deitaram fogo.

Uma das escoltas conseguiu alcançal-os, ás 3 horas da tarde de 8 d'este mez, em casa de um individuo conhecido pela alcunha de Roça Velha, no termo de Vaccaria.

Intimada a prisão aos criminosos, recusaram obedecer, travando-se então renhida lucta, da qual saíu morto Cuxarra e feridos gravemente Paulo Burro e Manoel de Oliveira Pinto, que fazia parte da escolta.

O subdelegado do districto em que se deu a resistencia tomou conhecimento do facto.

Foi aprehendida n'essa ocasião grande quantidade de artigos roubados da casa de Deboni, encontrados em dous saccos de couro, que em um cargueiro conduziam os criminosos."

Fonte: A FEDERAÇÃO (RS), 27 de Janeiro de 1890, pág. 02, col. 02

domingo, 5 de agosto de 2018

A prisão do salteador Campara


"Acha-se preso e recolhido a cadêa de Porto-Alegre o famoso salteador Campara, sobre o qual dá o Mercantil daquella cidade os seguintes pormenores:

<<O celebre salteador, o pesadêlo de muito somno, o heróe de sombrias façanhas coloridas pelas imaginações espavoridas está recolhido á cadêa civil desta cidade!>>

<<Domingos ou Antonio Campara, conduzido desta capital para a villa de Santa Maria, onde devia ser processado e julgado pelo roubo que fizéra ao sr. Appel de avultada somma e de valiosos objectos de prata, evadira-se da cadêa em dezembro do anno passado.

<<Desde então seu nome e suas proezas tem-se tornado verdadeiramente populares. De todos os lados vinham notícias, mas ninguém lhe descobria o rasto. Parecia trazer comsigo a cornucopia das aguas, com que apagava as suas pegadas do sólo. Só uma vez foi batido e dessa vez deixou moribundo a seus pés um denodado mancebo, unico de tantos companheiros que ousára affrontal-o e que felizmente está restabelecido de seus graves ferimentos.

<<E' impossivel acompanhar o famigerado Campara em sua vida forasteira e assoladora.

<<Surgio na Vaccaria ultimamente dando-se por tropeiro e comprador de hervas, e acredita-se que ia á pista do sr. Tristão José Monteiro, que andava a cobranças e por quem perguntava com certo interesse. A sua presença provocou suspeitas.

<<O sr. chefe de polícia interino, tomando conta da sua repartição em fins de setembro teve a feliz e previdente idéa de fazer uma circular a todos os delegados, remettendo-lhes já impressa a descripção dos signaes de Campara e de seus dous companheiros para ser destribuida por todos os subdelegados; e inspectores de quarteirão. Assim em cada canto acharia o Campara o seu retrato.

<<O subdelegado da Vaccaria o sr. Innocencio José de Souza possuia alguns desses daguerreotypos em letra redonda. As suas suspeitas crescêram pela confrontação.

<<Havia porém proximo á freguezia o sr. Ismael Antonio da Paixão, alferes da guarda nacional, que conduzira Campara, quando contava apenas 12 annos, de Santa Catharina para a Vaccaria, onde viveu 4 annos em seu poder.

<<O sr. Hypolito Faustino de Oliveira e o alferes José Fernandes da Cunha foram buscal-o á sua residencia d'ahi a 2 leguas, e á noite achavam-se na freguezia.

<<Addiaram o ataque para a madrugada. Entretanto Campara não ficára sem as honras de uma ordenança. Acostumado talvez a esse serviço, o ex-soldado Pedro Bahiano, insinuára-se em seu agrado, e apresentára-o na casa equivoca, aonde pernoitou.

<<Ao amanhecer, aberta a porta o ex-soldado entrára com a familiaridade já estabelecida, e como não era de ceremonias, nem a casa, nem a dona, entraram uns após outros o sr. alferes Paixão, o sr. Hypolito Faustino e um outro Pedro, levando apenas comsigo as suas facas, armas insuspeitas na campanha.

<<Campara esperava pelo café, sentado na cama, de viola em punho. Pedro Bahiano, começando o plano combinado, junto a elle, picava fumo para um cigarro. De repente precipita-se sobre o criminoso dando-lhe a voz de preso, e apontando-lhe a faca aos peitos; acodem os tres companheiros e atam sem resistencia o descuidoso trovista!

<<Nem teve ao menos uma palavra heroica para esse transe. <<Alferes não me deixa matar>> foi esta a phrase que inspirou-lhe o medo em falta da apregoada coragem.

<<No cinto acharam-lhe duas pistolas, não de cem tiros, de uma bala apenas. O pistolão, que era uma de suas companhias, estava ausente concertando-se.

<<No dia 28 do passado foi effectuada a prisão, e hontem chegou elle a tarde no vapor de S. Leopoldo, vindo na escolta os alferes Paixão e José Fernandes, que tiveram de viajar noite e dia, por desvio e asperos caminhos afim de evitar que os companheiros de Campara, que não appareceram com elle na freguezia, quizessem resgatal-o da justiça.

<<O subdelegado Souza precedera o preso nesta cidade, e á chegada do vapor achava-se o cáes apinhado de povo, curioso de conhecer essa celebridade das estradas.

<<Ao ver a multidão que o esperava e fez-lhes as honras do acompanhamento até a cadêa, Campara ergueu-se na tolda, com o sangue frio que parecia haver recuperado, encarou o povo sorrindo ironicamente e disse: <<Mutio bem! Sou recebido com as honras de um presidente.>>

<<Durante a viagem esteve abatido e algumas vezes chorou! Aquelle coração não está de todo gangrenado. A parte donde correu aquella lagrima ainda está pura e sã. A lagrima é santa; é o primeiro orvalho que abre a consciencia á luz do arrependimento. Permitta Deus que não seja esse o ultimo raio de regeneração, que lampeje nas sombras de seu carcere.>>

O celebre faccinora já tinha respondido a dous interrogatorios perante o chefe de policia interino."

Fonte: A PATRIA (RJ), 25 de Dezembro de 1862, pág. 01, col.01-03

terça-feira, 1 de maio de 2018

Dia do Trabalho em Vacaria em 1934


"VACARIA

Uma bela festa operaria que a 1o. de maio empolga a séde de Vacaria

VACARIA, 1 - Hoje, commemorando o dia do trabalho, nesta vila, foram organizadas pela Sociedada União Operária de Mútuo Socorro as festividades de 1o. de maio com o seguinte:

Programa

PRIMEIRA PARTE

A's 5 horas da manhã será tocada a alvorada pela banda local, excelente conjunto que obedece, a direção de competente maestro sr. Ferdinando Rozina. Em seguida serão dados 5 tiros, tipo canhão, e uma girandola de 21 tiros, sendo executado nessa ocasião, pela banda o 'Hino Operario'.

SEGUNDA PARTE

A's 9 horas, uma sessão cívica no salão do teatro Guarani, gentilmente cedido pela empresa, devendo falar os senhores: João Cunha Lima, orador oficial e o sr. Antenor Pereira. A's 10 horas, Missa solene na igreja matris, resada pelo rev.: Padre Pacífico de Belevaux, acolitado pelos revds. Daniel e Melchior. A's 11 horas, Benção do Estândarte, que está sendo confeccionado pela senhorita Ligia Azambuja, com a presença da madrinha senhorita Ione Santos, lançamento da pedra fundamental do edifício onde funcionará a séde da Sociedade, devendo falar diversos oradores. A's 12 horas, gordo churrasco regado á vinho, no local da séde. Para tal serão carneadas duas vacas gordas.

TERCEIRA PARTE

A's 19 1/2 horas. Grande marcha ''a flambeaux' devendo os associados e respeitavel povo reunirem-se na praça Matris, donde sairão formados pelas ruas centrais da vila.

A primeira parte foi realizada integralmente.

Na segunda parte, após a sessão cívica em que falaram os oradores constantes do programa, a multidão demandou á rua Julio de Castilhos, ao som de musica e entusiasticos vivas. Passando pela residencia da senhorita Ione Santos, o prestito parou afim de que esta, escolhida madrinha do estandarte se incorporasse ao cortejo, em seguida demandou a matris onde se realizaram os oficios religiosos, tendo o padre Pacífico pregado formoso sermão alusivo ao ato.

Finda a missa procedeu-se ao lançamento da pedra fundamental, falando o orador oficial advogado Cunha Lima.

Em seguida, passaram ao churrasco, falando ainda Eudoxio Santos, que em seu nome e da madrinha Antenor Pereira, operario, saudando em belo improviso, o cel. Avelino Paim Filho, prefeito municipal e, finalmente, o dr. Avelino Paim Terra, juiz distrital.

Todos os oradores foram muito aplaudidos.

A' noite, realizou-se a terceira parte do programa, falando o sr. João Cunha Lima, saudando a srta. Ione Santos e Eudoxio Santos, agradecendo. O padre Pacífico, saudando o prefeito e acadêmico Nelson Terra, agradecendo, por esse; João Cunha Lima saudando o municipio e o dr. Avelino Terra, agradecendo.

A União Operaria conta no 1o. distrito com numero superior a 400 socios."

Fonte: A FEDERAÇÃO, 04 de maio de 1934, pág. 02, col. 03-04
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...