sexta-feira, 26 de março de 2021

Gemma Luziani



"Victima da epidemia reinante falleceu no Rio a exímia pianista Gemma Luziani, professora de piano do Instituto Nacional de Musica.

Filha da Italia, Gemma Luziani foi completar os seus estudos musicaes em Paris, e teve a ventura de vêr o seu talento e applicação consagrados por um primeiro premio do Conservatorio da grande capital.

Na capital federal os seus raros dotes artísticos conquistaram desde logo os applausos e admiração do selecto auditorio que o seu nome attraía aos concertos em que tomou parte.

Poucos artistas têm conseguido tanto e tão rapidamente entre nós, pondera um diario fluminense. É que o seu grande talento patenteou-se ás primeiras peças que executou, revelando admiravel nitidez e segurança no teclado.

A joven artista contava apenas 25 annos de idade."

Fonte: A FEDERAÇÃO (Porto Alegre/RS), 26 de Maio de 1894, pág. 02, col. 03

quinta-feira, 25 de março de 2021

Versos sobre Pelotas em 1857



Obs.: Não há indicação da autoria.

"Um amigo recem-chegado de Pelotas me deu os seguintes versos para que eu os publicasse.

Pelotas é boa terra
Tem muita moça bonita
Quem não gosta de Pelotas
Não póde ser boa chita.

Pelotas tem um mercado
Que de grande causa espanto,
E que tudo o que recebe
Acommoda só num canto.

Pelotas teve uma ponte
Que ao nascer logo gorou,
Como a outra lá do Coito
Que o aterro acachapou.

Pelotas tem muita velha
Resingueira, rabujenta,
Que a boa rapaziada
Encommoda e afugenta.

Pelotas hat ein Kaiser
Que assusta a população,
Afogando essa doente
Chamada - Constituição.

Pelotas se está trancando
Vai mudar-se n'um deserto;
Quero cantal-a de longe
Mas não quero estar lá perto."

Fonte: O GUAYBA: PERIODICO SEMANAL, LITTERARIO E RECREATIVO (Porto Alegre/RS), 15 de Fevereiro de 1857, pág. 53.

quarta-feira, 24 de março de 2021

A Fonte de Nossa Senhora de Caçapava do Sul



"Célebre Fonte de Nossa Senhora

Padre PEDRO LUÍS

CAÇAPAVA DO SUL - Naquele dia de mornidão, entrei no rancho de tábuas da morane Maria Angélica Jardim, 75 anos. Ia eu acompanhado da capelinha nova, miudinha, atualizada, côr de verniz brilhoso de sabugueiro. A imagem nela anichada é desbastada, enxuta de carnes e vestes, cintura de vespa, graciosa e esbelta, tôda em estilo grego antigo. É escultural e aprumada. Dá ares do talhe de Juno, que vi no Museu de Louvre.

O caçapavano Aldo Valli Garcia informara-me que, perto do Forte de Dom Pedro Segundo, existe a famosa Fonte de Nossa Senhora. De chegada, perguntei a Maria Angélica, moradora das proximidades da fortaleza, se conhecia a histórica fonte. Respondeu que sim. Cravejei-a, então, de perguntas. E ela tudo foi debulhando com simplicidade. Trata-se de história ou até de lenda que poderá servir de enfeite tradicionalista a Nossa Senhora Conquistadora.

Maria Angélica contou assim o maravilhoso fato: diziam os antigos que em Caçapava houve ano de sêca braba. Êsses antigos são seus avós e seus bisavós. Não é o pai, que êsse o perdeu ela ainda criança. Vai, um dia, durante a estiagem furiosa aquela, e surgiu a Fonte Milagrosa. Linda a maneira de seu aparecimento. Um par de crianças andava cuidando de uma ponta de ovelhas, que pastavam a pequena distância do hoje Forte Dom Pedro Segundo, local entrecortado e manchas de chirca, embira, espinho-de-são-joão, sucará, mamica-de-cadela, espinilho, xale-xale, molho e unha-de-gato, entre moitas de arbustos embaraçantes. Era dia metálico, de queimor e torração. O casal de crianças procurava, igualmente, água. De repente, apareceu-lhes, à flor da copa esmirrada de uma capororoca ou jutaipeba, linda senhora. Até parecia a Virgem Maria. O branco do vestido dela recortava-se no azul celestial do céu distante. Nada disse e nada acenou. Era, no dizer do poeta Elias Regules, nosso velho amigo do Uruguai, 'como una prenda perdida, como carícia robada... cosas chicas para el mundo, pero grandes para mí'. As crianças dispararam logo para casa. Contaram o sucedido aos pais. Ao regressarem êstes com seus filhos, nada encontraram. Só notaram umidade no local. Cavaram com enxadas e pás. Apareceu água, pouca no início. Cavando mais, aumentou. Calçaram-na. Borbulhou a brotação natural do líquido, que cinturaram de tijolos, e estenderam em sua frente pinguelas de pedra. Destarte, desde então, vai ela servindo às necessidades das gerações ribeirinhas. É sangria milagrosa na terra.

Logo surgiram os zombadores e graciosos, explica-nos a nonagenária Maria Alzira Lima, cujo pai estêve na Guerra do Paraguai e cujo avô entronca em 1780. 'Os troçadores botavam a lata na fonte, e a água sumia, mas os bons tiraram a quantia que queriam. Os maus deviam pedir licença. Alguns até diziam: Quero ver se não tiro... Tiravam o quê! Botavam o balde e nada vinha. Eram castigados, e só tiravam quando Ela queria'.

Mais abaixo da fonte existe sempre a enxameada das lavadeiras. O dia da mornidão era 8 de outubro de 1971, e lá cheguei também por acaso com a Virgem Conquistadora, que tomou posse de sua velha fonte. A vegetação do manancial límpido fechou-nos a todos naquela hora num leque verde. As comadres chilreavam festivas. Foi hora de espiritualidade e recuerdos. Repetimos que a Antiguidade é a aristocracia da História. Ao pé da fonte, e vizinhando com a capororoca corajosa, existe uma erva-de-passarinho muito grande, que matou a árvore em que se aninhara, e se adonou do chão, talvez contemporânea das crianças. Representa o inimigo da Graça e da Vida.

Agora, escutem um ângulo de relêvo na história: Zeca Jardim era o avô,e  Emiliano da Rosa Jardim era o bisavô de Maria Angélica, recuando até 1780. Reforça a história que narramos o sr. Rodolino da Rosa Garcia, estudioso das cousas de Caçapava. Quando foi construído o Forte de Dom Pedro, os engenheiros se serviram da água da célebre fonte, e providenciaram na escavação de outras fontes, por exemplo, a de Santo Antônio e a de Conselheiro d'Andrea, esta aformoseada."

Fonte: O PIONEIRO (Caxias do Sul/RS), 23 de Outubro de 1971, pág. 12

terça-feira, 23 de março de 2021

Moradores de Pelotas em 1897



 Distante de ser um recenseamento completo dos moradores de Pelotas no período, nosso esforço foi o de, através de consulta aos jornais da época disponíveis na web, listar o quanto fosse possível de nomes relacionados à cidade, bem como inserindo as informações adjuntas que encontramos. Todavia, na maior parte dos casos, encontramos somente os nomes. De forma geral, quando usamos a denominação "morador" queremos dizer literalmente isso: apenas constatamos que o indivíduo citado viveu em Pelotas, mas não encontramos mais dados sobre sua ocupação, nacionalidade ou outros. A propósito, quando listamos "Fulano de Tal & Fulana de Tal", justamente com o uso do "&" queremos dizer que os indivíduos são casados. Esperamos contribuir de alguma forma para pesquisas genealógicas e historiográficas, mesmo que de modo muito modesto. Obs.: respeitamos a grafia encontrada na época.

 

Periódicos consultados para este período: Almanach Popular Brazileiro (Pelotas; Porto Alegre/RS); Almanak Enciclopedico Sul-Rio-Grandense (Porto Alegre/RS); Gazetinha (Porto Alegre/RS); O Paiz (Rio de Janeiro/RJ); Gazeta da Tarde (Rio de Janeiro/RJ); Relatorios do Ministério de Relações Exteriores (Rio de Janeiro/RJ); Correio Paulistano (São Paulo/SP);

 

1897

 

Antonio Maia, charqueador à margem do São Gonçalo.

 

Augusto Cassiano do Nascimento, deputado; genro de Francisco Numa de Souza, major.

 

Barão de Correntes, proprietário.

 

Barão de São Luiz, proprietário.

 

Baronesa da Conceição, proprietária.

 

Bernardo Taveira Junior, poeta e escritor.

 

Boaventura S. Barcellos, corretor de vendas de tropas na Tablada, estabelecido à Rua XV de Novembro número 318.

 

Domingos da Silva Pinto, farmacêutico.

 

Domingos Fernandes da Rocha, comerciante, proprietário.

 

Epaminondas Piratinino de Almeida, proprietário; líder político do Partido Republicano.

 

Eugenio Ayrard, 31 anos, natural do Rio de Janeiro, morador.

 

Francisca Caneda Castilhos, moradora.

 

Francisco Araujo, médico; professor de Botânica do Lyceo de Agronomia.

 

Felisberto Ignacio da Cunha, capitalista.

 

Frederico Alberto Trebbi, italiano, agente consular da Itália desde 30 de Maio de 1894.

 

Guido Petrelli, italiano, operário da construção civil, morador num cortiço à Rua Paysandú.

 

Honorio de Lima, 46 anos, negociante.

 

Honorio Eston, negociante.

 

Ildefonso Corrêa, despachante de importação e exportação, em sociedade com João Simões; estabelecidos à Rua Gonçalves Chaves número 254.

 

Izabelino Fernandez, uruguaio, dono de uma empresa de diligências Pelotas-Melo e Pelotas-Montevidéu.

 

João Baptista Casa Nova, proprietário da loja João Baptista Casa Nova & Cia.; estabelecida à Rua General Osório números 176 e 178 (sobrado) – couros, tecidos, metais, ferragem, tintas, correaria, artigos para sapataria e seges.

 

João Christovão de Leão, proprietário.

 

João Las Casas, morador.

 

João Pedro Caminha, coronel.

 

João Pinto Bandeira, morador.

 

João Reis, capitalista.

 

João Simões Lopes Netto, liderança do Partido Republicano.

 

Joaquim Teixeira da Costa Leite, vice-cônsul de Portugal, desde 18 de Julho de 1887.

 

Joaquina Ignacia Pereira, moradora.

 

José Alvares de Souza Soares, farmacêutico, homeopata, fabricante do Peitoral de Cambará.

 

José Alves de Carvalho, português, sócio da firma Ramos & Carvalho.

 

José Pedro Rodrigues Candiota, major, fazendeiro.

 

José Pinto Madureira, agente de navegação de transporte de passageiros até Porto Alegre e Rio Grande.

 

José Verdade, proprietário da Alfaiateria Verdade, estabelecida à Rua General Osório número 230.

 

José Vieira da Cunha, advogado estabelecido à Rua Miguel Barcellos número 05.

 

Julia Cavalcanti, poetisa.

 

Leopoldina Maciel, moradora.

 

Leopoldo Joucla, francês, agente consular da França, desde 17 de Novembro de 1884; representante do conhaque P. Frapin & Cie.

 

Manoel José Alves Correia, morador.

 

Rafael Bassols, espanhol, proprietário da Sastreria La Joven España (comércio de roupas masculinas), fundada em 06 de Outubro de 1883, estabelecida à Rua XV de Novembro número 186.

 

Ricardo Tavares de Mello, morador.

 

Salustiano Reis, coronel, comandante do 13º. Batalhão de Infantaria.

 

Servando Gomez Silva, uruguaio, cônsul do Uruguay, desde 11 de Outubro de 1887.

 

Venancio Silva, 25 anos, negro, empregado na charqueada de Antonio Maia.

 

Virginio Mattos e Moreira, corretor de comissões nacionais e estrangeiras.

 

 

 

domingo, 21 de março de 2021

O escorbuto e um precursor da caipirinha?

 



Gengivas inchadas, esponjosas, arroxeadas, sangrando, hálito fétido, dentes amolecidos e cuspidos, sangramento em volta dos pelos do corpo, logo grandes equimoses, juntas inchadas, hemorragia nasal, olhos injetados, vômito sangrento, ferimentos não-cicatrizados, lassidão, fraqueza, insuficiência cardíaca e morte súbita. Quando os valentes marinheiros saíam de Bristol, no século XVIII, deixando o Dr. Jenner entre as ordenhadoras, tudo isso era tão comum a bordo quanto o enjoo de mar.

 

Vasco da Gama, em 1497, o primeiro a dar a volta ao Cabo da Boa Esperança, perdeu desse modo 160 homens de sua tripulação. A doença intrigou Fernão de Magalhães, o primeiro a dar a volta ao Cabo Horn, em 1520. Um ano e três meses depois de sair de Sevilha, após passar três meses de inverno em São Juliano, na Patagônia, as gengivas dos seus homens “cresceram, cobrindo os dentes, impedindo-os de se alimentar, e eles morreram de fome”. Jacques Cartier, de St. Malo, descobridor do São Lourenço, passou o inverno de 1535 ancorado no rio Charles, que divide Quebec, e perdeu 50 homens em dezembro, quando essa “doença desconhecida começou a se espalhar entre nós do modo mais estranho jamais visto ou ouvido”. Em fevereiro, dos 110 tripulantes apenas 10 tinham condições de trabalhar, outros 25 morreram em terra, em março, a despeito das orações contínuas.

 

O veterano da Armada, Sir Richard Hawkins, autor de Voyage into the South Sea, seguiu a esteira de Drake, para circunavegar o globo no Repentance (rebatizado, por ordem da rainha Elizabeth I, com o nome de Daintie), liberalmente aprovisionado em 1593, em Plymouth, com carne de boi, de porco, biscoitos e cidra, e foi atacado pela doença no Equador. Nos seus 20 anos no mar, Sir Richard admitiu ter visto 10.000 casos.

 

O escorbuto era uma doença identificada pelo número de mortos. Os comandantes se perguntavam se seria uma infecção dos misteriosos fomites ou provocada pela preguiça evidente de suas vítimas, por miasmas demoníacos, entre um convés e outro, o sal do ar, o trabalho duro, beijar mulheres em terra, a comida. A ração diária na marinha, em 1615, era de 236 gramas de queijo, 118 gramas de bacon e 118 de manteiga, meio quilo de biscoitos, geralmente bichados e “fedidos como mijo”, mas toleráveis com o meio litro de cerveja.

 

O escorbuto no mar era grave e rápido, raro entre os oficiais, até mesmo entre os oficiais subalternos, atacando mais rapidamente nas viagens que começavam na primavera. Nos porões-prisões ancorados ao largo de Woolwich, no Tâmisa, o escorbuto era um carrasco muito ocupado. Os traficantes de escravos queixavam-se que o número de vítimas da doença, nos seus navios superlotados, custava a eles a perda de vidas valiosas. O escorbuto em terra era mais insidioso no seu ataque às guarnições, às cidades cercadas, aos Países Baixos, ao norte da Rússia e Escandinávia e às legiões romanas, quando elas atravessavam o Reno.

 

Felizmente para os romanos, os holandeses tinham uma erva curativa, bem como os índios das margens do São Lourenço. Atônito com os casos dos índios que se recuperavam numa semana, tomando chá de agulhas verdes de pinheiro, Jacques Cartier mandou fazer o chá para sua tripulação e, satisfeito, viu todos curados, sendo sua alegria maior pelo fato de não precisar repetir a desagradável tarefa de abrir o corpo de um amigo morto na neve, sem descobrir a causa da terrível doença.

 

(...)

 

Naquela época, acreditava-se que, para cada doença enviada por sua ira, Deus, misericordiosamente, plantava uma erva para curá-la. A medicina herbal ecoa por toda a Bíblia.

 

O herbalista e barbeiro-cirurgião de James I, John Gerarde (1545-1612), em 1597 proclamou divinamente a descoberta da erva do escorbuto. Essa cochlearia officialis, com 30 centímetros de altura e flores brancas, que crescia perto do mar, é uma das quadripétalas da família das crucíferas, parente dos nabos, rabanetes, agrião, mostarda e goivo amarelo. O brado das ruas “compre a erva do escorbuto!” era bastante comum em Middleton e no livro de Decker, The Roaring Girl, de 1611. Em 1661 era possível comprar cerveja de erva do escorbuto. Em 1764, o avô de Byron, Almirante “mau tempo Jack”, prudentemente incluiu entre as provisões do Dolphin, para a viagem ao redor do mundo, a erva do escorbuto e cocos.

 

Os marinheiros estavam descobrindo que frutos tropicais comidos em terra curavam o escorbuto a bordo. Laranjas azedas e limão eram a ração favorita de Sir Richard Hawkins, e o cirurgião da Companhia das Índias Orientais, John Woodall (1569-1643), no The Surgeon Mate, em 1612, recomendava o armazenamento de suco de limão a bordo de todos os navios da companhia. Os holandeses preferiam Sauerkraut, e o Capitão Cook recomendava geleia de cenoura e mosto de cerveja. Vinagra, para tomar ou lavar o convés, óledo de vitríolo e enterrar o paciente até o pescoço, na terra fria, todos esses métodos tinham seus defensores, embora mal orientados.

 

James Lind (1716-94), de Edimburgo, nove anos no mar, com a marinha, bravamente denunciou as acomodações para os doentes, a comida rançosa, a água imunda e deixou o mar para ser médico do Hospital Naval Haslar, em Portsmouth, que em 1790 tinha ainda 1.754 casos de escorbuto. Lord Anson perdeu três quartos da sua tripulação na viagem ao redor do mundo, em 1740-44. Em 1778, a Frota do Canal, depois de 10 semanas no mar, tinha 2.400 casos de escorbuto. Porém, em 1753, o Tratado sobre escorbuto, de Lind, determinou um curso entre as supostas causas e supostas curas que flutuavam ainda no mar da ignorância.

 

Em 20 de Março de 1747, a bordo do Salisbury, voltando para casa, tendo saído há um mês de Plymouth, Lind realizou uma experiência clínica. Doze doentes de escorbuto, na enfermaria de bordo, na proa, alimentavam-se com mingau no desjejum, caldo de carne de carneiro e pudim no almoço e sagu, passas de Corinto e passas de uvas no jantar. Lind dava a cada um meio litro de cidra por dia. Dois tomaram óleo de vitríolo. Dois, vinagre. Dois, água do mar. Dois chuparam laranjas e limão, e dois um preparado de pó de alho, rabanete, bálsamo-do-peru e mirra. Os dois que receberam laranjas e limão estavam aptos para o trabalho dentro de seis dias, e passaram a tratar dos que continuavam doentes.

 

Johannes Bachstrim (1686-1742), de Leyden, 13 anos antes havia declarado que o escorbuto do mar e o de terra eram uma única doença que só tinha uma cura: comer verduras. Lind afirmou a mesma coisa:

 

O marinheiro ignorante e o médico culto sentem necessidade, igualmente, e com a mesma intensidade, de vegetais verdes e das frutas frescas da terra.

 

Lind receitou suco de limão ou de lima.

 

Ele havia encontrado o remédio específico, sem ideia de como funcionava, para uma doença cuja causa ninguém conhecia.

 

Um ano depois da sua morte, o almirantado concordou com ele. Duzentos gramas de suco de limão, com 100 gramas e meio de açúcar, eram distribuídos para toda a tripulação depois de seis semanas no mar [grifo nosso]. O escorbuto desapareceu como o Holandês Voador.

 

Mais tarde, o suco de limão passou a ser preservado com a adição de um quarto de seu volume de rum [grifo nosso]. Os donos de navios mercantes, a partir de 1854, foram obrigados a “servir suco de limão ou de lima à tripulação, sempre que os homens haviam consumido alimentos salgados durante 10 dias”. As limas das Índias Orientais eram preferidas aos limões do Mediterrâneo e, por muito tempo, a palavra passou a designar os ingleses nos portos da América (embora durante um tempo os limeys fossem também os “novos amigos” que desembarcavam na Austrália). As limas, estranhamente, não eram tão eficazes contra o escorbuto quanto o limão. A viagem em busca do Pólo Norte, comandada por Sir George Nares em 1875, quando só foi usado o suco de lima, teve casos de escorbuto, e a de Sir Alexander Armstrong, em 1850, com suco de limão, não teve nenhum. Às vezes, 85% dos pacientes de Florence Nightingale, em Scutari, tinham escorbuto, apesar das rações de suco de lima, mas isso logo foi explicado pelo fato de as limas terem ficado todas esquecidas em Balaclava. A humanidade teria de esperar 50 anos pela resposta certa.

 

Fonte: GORDON, Richard. A assustadora história da medicina. (trad. Aulyde Soares Rodrigues). Rio de Janeiro: Ediouro, 7ª. Ed., 1996, pág. 52-55.

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